terça-feira, 21 de agosto de 2007

Sim-me-drogo-sou-fútil-rica-e-escrevo-blogs


Marcelo Spalding

Quando cai na sua mão um romance de uma menina de 20 anos, lançado por uma das mais respeitadas editoras do país, logo surgem os velhos preconceitos: deve ser filha de alguém importante, a história deve ser puro sexo e drogas, tipo diário de adolescente. Fugalaça (Record, 2007, 288 págs.) é realmente tudo isso, mas surpreendentemente mais.

Mayra Dias Gomes nasceu em 1987 e é filha do grande dramaturgo e autor de telenovelas Dias Gomes, falecido em um acidente de carro em 1999 (quando Mayra tinha 11 anos). Por causa da perda do pai, a Mayra foi negada a transposição gradual da infância para a adolescência, tendo sido expulsa da vidinha de conto de fadas de menina rica e jogada numa vida de disputas, invejas, auto-afirmação, drogas, culminando nos undergrounds paulista e carioca. Fugalaça é, como diz a própria autora, uma espécie de “vômito literário”, vômito dessas experiências intensas e destrutivas, uma tentativa desesperada de compreender-se pelo resgate da memória, de ser aceita pela exposição, de reparar conflitos e dilemas insuperáveis pela aparente lógica proporcionada pelo papel.

“Escrever se tornou meu refúgio – minha mutilação saudável. Meu melhor amigo – o único capaz de entender meu sofrimento sem recriminação. O único capaz de silêncio absoluto aos meus desabafos febris – um tolerante ao meu narcisismo. O único capaz de passar adiante a dor para quem quisesse compreender, para quem estivesse disposto a conceber o fato de que tudo não passava de drama e que o drama em si estava dentro de mim – sim, como um câncer. Eu tentava achar na escrita a minha essência – sim, o meu reflexo.”

Não que a iniciativa de Mayra seja original: todo adolescente que gosta de escrever tenta gravar em palavras seus primeiros amores, suas primeiras decepções, seus medos inconfessáveis e desejos reprimidos (basta ver a quantidade de blogs de adolescentes para percebermos que se algo mudou de um tempo pra cá é que hoje essa exposição se dá em tempo real, e não mais no silêncio dos diários). Mas é preciso saudar em Mayra pelo menos duas coisas: primeiro, o bom texto, fluído, maduro sem perder a autenticidade, mesmo nas mesclas de português e inglês típicas da sua idade e classe social; segundo, e mais importante, a coragem, coragem de se expor dessa forma, expor desde a humilhante primeira transa até o desabafo da irmã menor dizendo que melhor seria se ela se matasse logo e não fizesse a mãe sofrer tanto.

Há poucos dias eu mesmo resenhei um livro também memorialista, Tempos heróicos, que conta também em primeira pessoa uma adolescência repleta de sexo, drogas e rock’n’roll, como Fugalaça. Mas o livro era escrito por um adulto casado e pai de dois filhos, um felizardo que soube aproveitar intensamente a juventude e ainda assim vencer na vida, superando conflitos, escapando de doenças, o que não acontece com Satine (a personagem, suposto alterego de Mayra), ainda uma menina, aparentemente ainda com as cicatrizes no corpo e na alma e incapaz, enquanto narradora, de terminar seu livro (na verdade interrompe-o, pois os conflitos, ao que tudo indica, irão permanecer).

Fernanda Young, na orelha do livro, diz que leu “um grande romance, diferente dos outros, escritos em semelhante tom confessional – todos um sim-me-drogo-sou-fútil-rica-e-escrevo-blogs, descrevendo as agruras da juventude desregrada. Fugalaça se destaca. Mayra, tenho certeza, terá mais coisas a contar do que a sua juventude acredita ser incrível. Há dor, há confronto, conflito, cinismo, humor e coragem neste livro. Há talento”.

Mas ainda que tenha sido precisa ao afirmar que há talento, Fernanda foi generosa – como todas as orelhas de livros o são – ao dizer que trata-se de um grande romance, pois Fugalaça é um rico testemunho de um tipo de adolescente de uma classe social específica, testemunho sincero e denso, mas a história por vezes parece como a história daquela nossa colega de colégio que encosta a classe do nosso lado e começa a contar sobre seu grande e mal sucedido amor, uma seqüência de lamúrias e indiferenças que se resolveriam com uma só palavra, palavra que você repete insistentemente, “esquece”, mas sua colega não consegue esquecer e continua a se humilhar, a se iludir e a contar tudo para você. Mescla de insegurança, mimo e egocentrismo. Nada indica que essa colega saberá narrar com tanta emoção e tanto estilo uma história em que não foi protagonista, uma história realmente incrível ou com um estilo incrível.

Mas voltemos ao que há de melhor no livro, a exposição de uma chaga social que todos fingem não perceber, que as novelas não mostram e os jornais evitam: a falta de sentido para a vida que assola os adolescentes, fazendo-os procurar nas sensações físicas – drogas, bebida, sexo – o vazio de respostas para seus mais singelos e angustiantes questionamentos. Não é só Satine quem sai de um apartamento de luxo toda vestida de preto e desfila suas roupas de marca pelas boates undergrounds, que compra drogas com a mesada da mamãe e quando ela vai viajar promove festinhas em sua casa e transa com o carinha da noite na cama de solteiro com lençol da Hello Kitty. Não é só a amiga de Satine que se suicida depois de descobrir-se soropositiva (suicida-se com o saco plástico que usava para cheirar desodorante). Essa realidade está aí sob os olhares despreparados dos adultos – que resumem tudo a “coisas da idade” – e leva, ano a ano, dia a dia, milhares de jovens em acidentes, overdoses, brigas. Revelar de dentro essa chaga explosiva é mérito de Mayra, ainda que ignore a parcialidade de seu lugar social.

Esta crítica, aliás, Mayra certamente sofrerá ou deve ter sofrido: a de ser rica. A própria autora chega, num certo momento do livro, a falar sobre isso, e de fato não há como fugir à constatação de que Mayra é, sim, produto de uma elite que depois de atingir todos os seus sonhos de modernidade e consumo não sabe mais o que fazer, o que almejar. Tal qual os jovens ricos da Paris de 68, os filhos de pais ricos de Woodstock, Mayra e muitas de suas amigas do underground paulista e carioca perdem-se no oceano da liberdade, afundam numa possibilidade infinita de gozos e ausência de responsabilidades. Não há fome, não há miséria, não há violência por causa do consumo de drogas, não há horizonte social nas palavras de Mayra, mas isso não é sua culpa: assim ela e sua geração foram criadas, protegidas por motoristas, vidros escuros, condomínios de luxo, televisões a cabo repletas de canais norte-americanos.

Curioso é todos nós acordarmos cedo, trabalharmos, estudarmos, passarmos as noites lendo um livro e um domingo escrevendo resenha, deixarmos os filhos em casa para terminar um Mestrado, todos nós batalharmos dia-a-dia para acumular certa riqueza, e quanto mais próximo da riqueza chegamos, mais percebermos sua insuficiência e mais temermos a tragédia que essa acumulação pode representar para nossos filhos. Porque Fugalaça pode não contar nada muito novo, mas confirma com gravidade muita coisa que desde os Livros do Mal aqui de Porto Alegre, desde Christiane F. tem-se revelado: a angústia e o vazio produzidos pela nossa sociedade materialista nas sedentas e despreparadas mentes juvenis. No fundo, no fundo, terminado o livro, a vontade que fica é pegar na mão de Mayra e dar-lhe um sincero e comovido abraço.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 21/8/2007.