terça-feira, 3 de julho de 2007

Se a literatura subisse o morro...


Marcelo Spalding

O povo não lê. O povo não gosta de ler. O povo só lê porcaria. Revistinhas pornográficas, Paulo Coelho, gibis. O povo não tem jeito. Se a literatura subisse o morro, chegasse à parcela mais pobre da população, seríamos outro país. Mais culto. Mais educado. Olha a França, que exemplo! Até os marginalizados têm consciência social, fazem protestos. Mas não adianta, o Brasil não tem jeito mesmo.

Estereótipos, preconceitos, clichês tantas e tantas vezes repetidos que cristalizam-se como verdade. Ainda bem que vez ou outra surgem, pelas brechas do mercado, manifestações autênticas e sérias vindas do que se convencionou chamar de povo, dessa gente que engorda as estatísticas de natalidade e criminalidade, essa gente que constrói os prédios de luxo e mora nas favelas de seus morros, essa gente que sustenta igrejas e mídia, essa gente que limpa nossa casa, varre nossa rua e pega ônibus cheio, manifestações estas que nos põem a refletir e a se perguntar: o que aconteceria, de fato, se a literatura subisse o morro? E se não sobe, será culpa do morro ou da literatura, que não tem força para tanto, não quer se cansar, se sujar?

Cenas da favela (Geração Editorial/Ediouro, 2007, 228 págs.) é um exemplar raro dessa tentativa da literatura se aproximar da parcela marginalizada da população, do povo, e curiosamente surge como primeiro lançamento da associação entre a Geração Editorial e a Ediouro, provavelmente fruto dos lucros que elas tiveram com a venda de Mulheres de Cabul (é curioso porque o best-seller patrocina uma obra de provável êxito acadêmico e fracasso comercial).

Roberto Schwarz, há 25 anos atrás, organizara um livro de crítica literária chamado Os pobres na literatura brasileira e escrevera na apresentação que “basta não confundir poesia e obra de ciência, e não ser pedante, para dar-se conta do óbvio: que poetas sabem muito sobre muita coisa, inclusive, por exemplo, sobre a pobreza”. Esse também é o mote de Nelson de Oliveira, organizador de Cenas da favela, que alia a diversos textos de autores contemporâneos sobre as favelas e neofavelas clássicos da literatura brasileira como “Favelário Nacional”, de Drummond, “O xis da questão”, de Lygia Fagundes Telles, e “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca, talvez exatamente para garantir uma espécie de selo de garantia literária para sua antologia (livrando-se ou tentando livrar-se, assim, do preconceito de público e crítica, que acha lindo o pobre se expressar mas torce o nariz para suas formas de expressão). Mas vai além.

Já na apresentação o organizador deixa claro que sua intenção não é reproduzir a visão de favela “na maior parte do tempo falsa e distorcida dos cidadãos de classe média letrados e bem nutridos”. Para Nelson de Oliveira, “a imagem de indigência e violência que guardamos da favela é outro estereótipo, outra construção ideológica veiculada pela televisão e pelos jornais: nós raramente subimos o morro para conhecer as reentrâncias culturais dessas comunidades, da mesma maneira que raramente chega até nós a favela dos favelados, dos seus verdadeiros habitantes”. E ainda que mais tarde pondere que “seria bastante ingênuo da nossa parte afirmar que a realidade da favela só poderia ser representada literariamente por alguém da própria favela, pois na arte e na literatura as coisas não funcionam de maneira tão mecânica”, faz questão de dar certo destaque na antologia a autores identificados com a periferia, como Carolina Maria de Jesus e Reginaldo Ferreira da Silva, o Ferréz. Aliás, pontos altos do livro.

Carolina Maria de Jesus, negra, neta de escravas e moradora de uma favela na capital paulista, é quase um ícone para quem estuda literatura feminina no Brasil e seu livro Quarto de despejo, de 1960, já foi traduzido para 13 idiomas nos últimos 35 anos. É um excerto dessa obra, um diário sobre a difícil rotina da mulher em busca de dinheiro para a comida dos filhos, que Nelson reproduz na antologia, preservando os “erros gramaticais” da primeira edição, erros que hoje são tão importantes como os acertos, dirá o organizador.

“Os meninos come muito pão. Eles gostam de pão mole. Mas quando não tem eles comem pão duro. Duro é o pão que nós comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do favelado.”, escreve Carolina no dia 22 de maio de 1958.

“Amanheceu fazendo frio. Acendi o fogo e mandei o João ir comprar pão e café. O pão, o Chico do Mercadinho cortou um pedaço. Eu chinguei o Chico de ordinario, cachorro, eu queria ser um raio para cortar-lhe em mil pedaços. O pão não deu e os meninos não levaram lanche. De manhã eu estou sempre nervosa. Com medo de não arranjar dinheiro para comprar o que comer. Mas hoje é segunda-feira e tem muito papel na rua.”, escreve no dia 2 de junho.

Ferréz é autor contemporâneo e publica em revista, é colunista da Caros Amigos. Depois da fama de Capão Pecado, romance lançado em 2000, vive de literatura, mas segue ligado ao movimento hip hop e promove eventos culturais em bairros de periferia, o que lhe dá, se não autoridade, autenticidade para ser uma voz de dentro da favela. Não por acaso há seis histórias de Ferréz na antologia, disparado o autor com mais textos, que vão de um poema perturbador chamado “Eu sou o...” até um interessantíssimo conto-crônica de protesto e tristeza chamado “Terra da maldade”, em que lê-se reflexões (ou seriam denúncias, ou desabafos?), como estas:

“Pode crê! Amanhã muita gente vai sair logo cedo, pra se humilhar por um emprego, se liga no que me ligou o parceiro: 'Tava no trânsito bem a pampa, passa um rapaz dando uns papel de carro em carro, ele começa a ler esperando os pedidos de dinheiro como sempre, aí ele se comove, no papel tava um pedido de emprego, tava escrito que podia ser qualquer um, o rapaz fazia qualquer coisa.' A lágrima corre, parceiro, o mano que recebeu o bilhete é professor de química do núcleo negro da USP e chegou a chorar no carro, já era 11 horas da noite, e ele tinha acabado de dar aula, pra uma sala de mais de trinta alunos, com mais ou menos oitenta cadeiras vagas, com metade das lâmpadas queimadas, em um barracão com um aspecto estranho, sabe? Um clima amarelo, mas se existe mesmo revolução ela ta ali, e só quem é sabe disso, que num palco as coisas deixam de ser cultura, mano, e começam a ser entretenimento, moro?”

Na grande maioria das vezes Ferréz não é apenas narrador, é personagem, participa das ações como aquele que intermedia a vida e a linguagem da favela e a vida e a linguagem do leitor, sabidamente muito diferentes. Esse papel de intermediário não impede que ele fale em revolução, louve Zumbi, denuncie abusos da polícia, Ferréz não tem medo algum de parecer panfletário e não está nem aí para o tal subtexto necessário ao conto. Para ele não interessa se está fazendo ficção ou não-ficção, conto ou crônica, literatura ou não, há questões muito mais graves com que se preocupar, há senhoras morrendo nos leitos das UTIs, nas filas dos hospitais, há jovens inocentes sendo baleados pela ROTA, amigos sendo presos e mortos por trocados: que vá ao diabo a teoria do iceberg, a noção de que o conto deve sugerir mais do que mostrar, que vá ao diabo essa poética literária que jamais subiu no morro para não se sujar e agora o obriga a descer do morro para se mostrar.

Bem diferente é o tipo de texto de autores como Marcelino Freire e Fernando Bonassi, escritores reconhecidos e que debruçam-se sobre a realidade das favelas para produzir belos contos, e aí sim contos na acepção clássico do que seria o conto. De Freire temos o que na minha opinião é o melhor texto de Contos Negreiros, “Solar dos Príncipes”, em que um grupo de negros quer entrar num prédio de classe média para gravar documentário e é barrado pelo porteiro, ironizando a facilidade com que nós, da classe média, entramos nas favelas para gravar, filmar, expor suas vidas. De Bonassi, autor do belo romance Subúrbio, que se espaço houvesse deveria estar inteiro na antologia, temos um conto chamado “Trabalhadores do Brasil”, que narra na história aparente o reconhecimento do corpo de um filho pelo pai, mas na história oculta problematiza e questiona a desvalorização da vida em realidades cruas, vidas já perdidas há muito, vidas oprimidas pela violência dos bandidos e também da polícia.

Já Luiz Marra é para mim grata surpresa: médico sanitarista e clínico geral, tem publicado um único livro de contos, O coletivo aleatório, de onde o organizador pinçou o belo “Pipas”, conto em que Marra cria uma metáfora definitiva para relacionar a favela e a cidade, metáfora que, aliás, foi parar na capa do livro: “Cruzaram olhares pela primeira vez quando as pipas enroscaram uma na outra e um longo atalho separava dois corpos miúdos acenando no meio do vento”.

Provavelmente são estes textos de Marcelino, de Bonassi e de Marra que permanecerão daqui a 20 ou 30 anos para a literatura brasileira, e não os textos-testemunho de Ferréz, que ficarão relegados a públicos específicos e combativos como estão hoje os de Carolina. Mas a simples inclusão dessa voz destoante, com linguagem e poética próprias (não erradas, não melhores, mas próprias) nos mostra que é tal qual pipas enroscadas que convivem hoje a cidade e a favela, a cidade querendo esquecer a favela, mas já não sendo mais possível porque os fios estão unidos, as pipas enroscadas, ambos querem no fim a mesma coisa, uma pipa bonita, faceira, e o céu é o mesmo, não há como escapar do outro.

Esta lição singela do conto de Marra, do livro organizado por Nelson de Oliveira é que deveria repercutir para toda a literatura. Se a literatura subisse o morro conheceria um universo riquíssimo e talvez lá se redescobrisse como real manifestação popular, arte capaz de expressar as angústias e os sonhos de toda uma geração, de toda uma sociedade. Ao invés de se sujar, iria se renovar.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 3/7/2007.

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