terça-feira, 17 de julho de 2007

O sem sentido da vida de Bóris


Marcelo Spalding

Pode um dia na vida de um casal qualquer virar literatura? Pode um diálogo num café da manhã na vida de um casal qualquer virar literatura? Nas mãos de Luiz Vilela, sim. No finalista do Jabuti Bóris e Dóris (Record, 2006, 96 págs.) não temos propriamente uma narrativa, mas um longo diálogo entre Bóris, executivo de relativo sucesso que sonha ser nomeado naquele dia diretor de um conglomerado de empresas, e Dóris, sua esposa triste e solitária, questionadora dos valores do marido empreendedor e angustiada com o sem sentido da vida.

Evidentemente não se trata de um casal qualquer e nem de um dia qualquer, há entre Bóris e Dóris um conflito latente e que perdura por anos. Já no começo da conversa – e do livro –, depois de percebermos que estão num café da manhã de um hotel, ele lembra à esposa que ela não tem mais aqueles peitos empinados e aquela bunda arrebitada. Ao invés de chatear-se com a constatação (diga-se já que ele tem 60 e ela, 37), começam a filosofar sobre a vida e ele diz que “a vida é uma estrada esburacada, que começa no nada e termina no nada”.

Não espere o leitor frases muito mais profundas do que essa, a intenção da narrativa parece ser exatamente contrapor a gravidade do conflito com a superficialidade do casal, espécie de sátira do pensamento médio da população. Bóris lembra muito o pai da menina de Miss Sunshine, aplicando as filosofias de manuais de empreendedorismo nas relações pessoais e sentimentais, enquanto Dóris é a caricatura da Bovary contemporânea, oscilando entre a ânsia de viver, o desejo de trair, o medo da velhice e o fascínio pelo suicídio. Em um dos trechos mais belos ela conta ao marido o que fez na tarde anterior, enquanto ele estava na convenção e ela andava solitária pelo hotel:

“– Então eu voltei para o saguão.
– Sei.
– A mulher, a mulher velha, ainda estava lá, no canto, na poltrona; a cabeça tombada, os olhos fechados, o terço...
– E aí?
– Aí? Aí eu me aproximei devagar, e então a mulher, essa hora, levantou a cabeça, olhou para mim e sorriu, o sorriso mais triste do mundo; e aí eu vi, apavorada, que aquela mulher...
– O quê?
– Aquela mulher era eu!
– Você?...
– Eu! Aquela mulher era eu! Eu daqui a vinte anos!
– Hum...
– Aí eu subi depressa para o quarto, tranquei a porta e fiquei lá, impressionadíssima. Aí eu...
– Dóris: briefing.”

Assim como no momento em que ela contará ter pensado em suicídio, o marido não leva a esposa a sério, não consegue ver naquelas palavras algo além de queixas infundadas, talvez uma perturbação psíquica. Pede que a esposa seja breve utilizando-se do mais manjado dos termos, briefing, e ela respeitosamente apressa a narrativa tirando todo seu drama e ficando apenas com o inusitado, reforçando para ele sua insanidade.

Um leitor atento possivelmente conseguirá ver em Bóris e Dóris a vida de quase todos os casais de meia idade, casais que alcançaram certa estabilidade financeira e agora buscam um sentido para a vida, sentido que precisa urgentemente ser encontrado antes que a vida lhes escape. Ele é a mimese do homem contemporâneo e ela da esposa desse homem contemporâneo, ambos são também nós, aparando os exageros de qualquer caricatura.

É interessante sublinhar, nesse ponto, a opção estética de Vilela. Ao narrar apenas com diálogos, limitando-se a situar as personagens, o autor rejeita os conselhos de qualquer poética para narrativas e reproduz na forma a simplicidade da trama, uma simplicidade que pode parecer fácil e superficial mas aos poucos vai se mostrando bastante reveladora. Se fosse de outra forma, a fraqueza do discurso do casal seria vista como fraqueza do próprio novelista, ou ainda como coloquialidade exagerada, mas ao ser explicitado um diálogo, diálogo com travessão e tudo, ocorre essa simbiose entre forma e conteúdo. Deixe-me ilustrar isso com um trecho em que o casal discute sobre problemas ambientais na Alemanha:

“– Encurtando caminho: a única solução que eles encontraram para acabar com a mortandade dos sapos foi desviar a estrada; só que, para fazer isso, eles teriam de abrir um túnel numa montanha, uma obra que ficaria caríssima.
– E eles abriram.
– Abriram.
– Eu sabia... Esses gringos... Eles são assim: eles matam milhões de judeus; depois abrem um túnel na montanha para não matar sapos...
– O que tem uma coisa a ver com a outra, Bóris?
– O que tem? Tem muito a ver.
– Eu não vejo relação nenhuma.
– Tudo tem a ver com tudo. Uma coisa aqui e agora tem a ver com outra lá não sei onde e quando. Tudo tem a ver.
– A Alemanha é um país civilizado. Lá eles sabem da importância dos animais. Lá eles preservam a fauna; a fauna e a flora. Não é como aqui, no Brasil, onde as pessoas destroem tudo.
– Quem manda na natureza? O homem ou o bicho?
– Ninguém manda na natureza. A natureza é de todos e para todos.
– Quem manda na natureza é o homem. O bicho não manda nada.
– Não é assim.
– Quem manda no mundo é o homem.
– Por isso é que o mundo está do jeito que está.
– Quem você queria que mandasse? Um tamanduá?”

Para Bóris, os problemas do mundo merecem a mesma retórica e a mesma preocupação que os problemas do sentido da vida ou do seu relacionamento, qual sejam poucos minutos, os minutos que antecedem sua partida para a convenção da empresa, convenção que pode transformá-lo em diretor de um conglomerado, cargo importante o bastante para que relegue os problemas da esposa, da vida e do mundo a segundo plano.

E é assim que Vilela consegue transformar um diálogo num café da manhã na vida de um casal qualquer em literatura, e mais do que isso, figurar entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti na categoria romance. Leitores apressados ficarão com a história aparente, acompanharão a DR do casal como acompanham a novela das oito, mas o proveito será melhor para aqueles que procurarem nas entrelinhas do texto, e nas entrelinhas das suas próprias vidas, uma explicação para o sem sentido da vida.

Para ir além

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 17/7/2007.

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