terça-feira, 31 de julho de 2007

Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum


Marcelo Spalding

Confesso que este título é uma isca para vestibulandos, mas é também uma lista dos assuntos que pretendo abordar a seguir, em ordem inversa. Isso porque a UFRGS, maior universidade pública do meu Estado, pela primeira vez colocou em seu concorrido vestibular obras de autores ainda vivos como leituras obrigatórias; no caso, o já esperado gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil e aquele que tem se consolidado como grande nome da literatura contemporânea brasileira, Milton Hatoum.

Leitura obrigatória de vários vestibulares importantes, como os da UFSC, UFMS e UFAM, o manauara Hatoum conseguiu um feito incrível ao ganhar três prêmios Jabutis (o mais importante da literatura nacional) com os três romances que publicou, Relato de um certo Oriente, sua estréia, em 1989; Dois Irmãos, em 2000, e Cinzas do Norte, em 2005. É como um ator estrear ganhando o Oscar e nas suas duas atuações seguintes vencer o prêmio novamente. Tal reconhecimento, aliado a uma postura acadêmica ativa e produtiva, com diversas palestras proferidas e artigos publicados no Brasil e no exterior, abriu caminho para o reconhecimento canônico de um contemporâneo e levou-o ao seleto panteão de autores obrigatórios nos vestibulares.

Dos seus romances, Dois Irmãos é o mais estudado e citado, pois aqui o autor aprofunda a temática e a forma de sua estréia, mas não deixa a história tão fragmentada e elíptica como em Relato de um certo Oriente, facilitando assim sua assimilação pelo leitor médio. Nael, filho da empregada de uma família importante, conta a história de dois irmãos de personalidades opostas e ódio inevitável, Yaqub e Omar (tema, aliás, já explorado por Machado de Assis em Esaú e Jacó). Mas a narrativa, que aparentemente se centra na rivalidade entre os irmãos, mostra-se aos poucos uma história complexa, uma última tentativa de Nael descobrir a identidade de seu pai, pois, como o leitor vai descobrindo ao longo da história, a mãe de Nael, Domingas, era apaixonada por Yaqub, mas fora abusada pelo inconseqüente Omar, privando o filho, o narrador, da certeza sobre suas origens, se fora o amor ou o abuso, o irmão ambicioso e trabalhador ou o rebelde e violento.

A questão da busca pela identidade, aliás, é tema central em Dois Irmãos, em toda a obra de Hatoum e em boa parte da literatura brasileira contemporânea, tornando-se uma questão potencial nestes vestibulares de "xizinhos". Mais do que tentar descobrir quem é seu pai, Nael busca descobrir-se, encontrar seu lugar no mundo assim como seus patrões imigrantes tiveram de se adaptar numa nação distante e desconhecida, deixando atrás desse esforço um rastro de incompreensão, mágoas e saudades. A estratégia para reconstruir essa identidade é a memória; já no primeiro capítulo do primeiro livro de Hatoum lê-se a frase “a vida começa verdadeiramente com a memória” e, de fato, é a memória que inaugura e guia a narrativa. A memória e seus desencontros, suas lacunas, sua atemporalidade.

Se em Dois Irmãos o narrador é sempre Nael, em Relato de um certo Oriente e em Cinzas do Norte temos diversos narradores além do principal, narradores que se alternam nos capítulos, tornando os livros mosaicos de vozes que ajudam o leitor a compor as histórias e os narradores a reconstruirem suas memórias e suas identidades. Nestes dois livros, como em Dois Irmãos, o espaço é a Manaus da metade do século XX e o cenário dos acontecimentos é o seio de uma família importante, em geral endinheirada, mas decadente, onde há presença do casal e dos filhos numa relação sempre conflituosa: ou irmãos se odeiam, como em Relato... e Dois Irmãos, ou pai e filho não se suportam, como em Cinzas do Norte.

É interessante notar ainda que no final de Dois Irmãos há uma cena em que tanques do exército tomam a praça central de Manaus, numa clara alusão ao Golpe Militar que inaugurava ali um novo tempo, mas a questão política passa ao largo deste romance para surgir com força em Cinzas do Norte, onde o protagonista, Mundo, é um jovem rico e subversivo, apaixonado por arte e sufocado numa família e num espaço opressores (não apenas a Manaus decadente da segunda metade do século como também o Brasil ditatorial, com seus patriarcas e majores com poder absoluto).

Trazendo a questão política para dentro do romance, em Cinzas do Norte o romancista também deixa mais evidente a questão social, a desigualdade e a problemática sociais, já presentes em seus primeiros livros. Ainda que em Dois Irmãos não haja ímpetos revolucionários, Nael diz que Domingas, sua mãe, “trabalha como uma escrava” e chega a expressar a angústia de não poder nem tirá-la daquele ambiente nem mudar sua vida, preso àquelas amarras sociais em que o capricho dos patrões dita os rumos da vida dos empregados:

“[Quando eu pensava em fugir] a imagem da minha mãe crescia na minha cabeça, eu não queria deixá-la sozinha nos fundos do quintal, não ia conseguir... Ela nunca quis se aventurar. 'Estás louco? Só de pensar me dá uma tremedeira, tens que ter paciência com a Zana, com o Omar, o Halim gosta de ti.' Domingas caiu no conto da paciência, ela que chorava quando me via correndo e bufando, faltando aula, engolindo desaforos.”

Por fim, aos vestibulandos que agora lêem resumos ou o romance de Hatoum em si, posso apenas lembrar que o romancista, em linha com os escritores contemporâneos, explora bastante o não dito, a indeterminação e as múltiplas interpretações que a arte permite, não sendo tão fácil fazer afirmações sobre a obra literária como o é para fórmulas matemáticas. Ainda assim, como diria Umberto Eco, é possível inferir nos textos coisas que eles não dizem explicitamente, mas não se pode fazê-los dizer o contrário do que disseram, como, por exemplo, negar que Romeu se matou porque pensou que Julieta estava morta, e vice-versa. Ou seja, deixe-se levar pela história de Hatoum, converse com colegas e professores sobre os acontecimentos e, mesmo dando margem para várias possibilidades, descarte o quanto antes hipóteses que lhe parecerem absurdas e prefira sempre o que está dito do que a suposição. No caso de Dois Irmãos, por exemplo, e aqui conto o final do livro, não está dito que o pai de Nael é Omar. Talvez esteja sugerido, mas não está dito. E se nem o narrador tem a certeza, como poderíamos tê-la nós, os leitores?

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 31/7/2007.

terça-feira, 17 de julho de 2007

O sem sentido da vida de Bóris


Marcelo Spalding

Pode um dia na vida de um casal qualquer virar literatura? Pode um diálogo num café da manhã na vida de um casal qualquer virar literatura? Nas mãos de Luiz Vilela, sim. No finalista do Jabuti Bóris e Dóris (Record, 2006, 96 págs.) não temos propriamente uma narrativa, mas um longo diálogo entre Bóris, executivo de relativo sucesso que sonha ser nomeado naquele dia diretor de um conglomerado de empresas, e Dóris, sua esposa triste e solitária, questionadora dos valores do marido empreendedor e angustiada com o sem sentido da vida.

Evidentemente não se trata de um casal qualquer e nem de um dia qualquer, há entre Bóris e Dóris um conflito latente e que perdura por anos. Já no começo da conversa – e do livro –, depois de percebermos que estão num café da manhã de um hotel, ele lembra à esposa que ela não tem mais aqueles peitos empinados e aquela bunda arrebitada. Ao invés de chatear-se com a constatação (diga-se já que ele tem 60 e ela, 37), começam a filosofar sobre a vida e ele diz que “a vida é uma estrada esburacada, que começa no nada e termina no nada”.

Não espere o leitor frases muito mais profundas do que essa, a intenção da narrativa parece ser exatamente contrapor a gravidade do conflito com a superficialidade do casal, espécie de sátira do pensamento médio da população. Bóris lembra muito o pai da menina de Miss Sunshine, aplicando as filosofias de manuais de empreendedorismo nas relações pessoais e sentimentais, enquanto Dóris é a caricatura da Bovary contemporânea, oscilando entre a ânsia de viver, o desejo de trair, o medo da velhice e o fascínio pelo suicídio. Em um dos trechos mais belos ela conta ao marido o que fez na tarde anterior, enquanto ele estava na convenção e ela andava solitária pelo hotel:

“– Então eu voltei para o saguão.
– Sei.
– A mulher, a mulher velha, ainda estava lá, no canto, na poltrona; a cabeça tombada, os olhos fechados, o terço...
– E aí?
– Aí? Aí eu me aproximei devagar, e então a mulher, essa hora, levantou a cabeça, olhou para mim e sorriu, o sorriso mais triste do mundo; e aí eu vi, apavorada, que aquela mulher...
– O quê?
– Aquela mulher era eu!
– Você?...
– Eu! Aquela mulher era eu! Eu daqui a vinte anos!
– Hum...
– Aí eu subi depressa para o quarto, tranquei a porta e fiquei lá, impressionadíssima. Aí eu...
– Dóris: briefing.”

Assim como no momento em que ela contará ter pensado em suicídio, o marido não leva a esposa a sério, não consegue ver naquelas palavras algo além de queixas infundadas, talvez uma perturbação psíquica. Pede que a esposa seja breve utilizando-se do mais manjado dos termos, briefing, e ela respeitosamente apressa a narrativa tirando todo seu drama e ficando apenas com o inusitado, reforçando para ele sua insanidade.

Um leitor atento possivelmente conseguirá ver em Bóris e Dóris a vida de quase todos os casais de meia idade, casais que alcançaram certa estabilidade financeira e agora buscam um sentido para a vida, sentido que precisa urgentemente ser encontrado antes que a vida lhes escape. Ele é a mimese do homem contemporâneo e ela da esposa desse homem contemporâneo, ambos são também nós, aparando os exageros de qualquer caricatura.

É interessante sublinhar, nesse ponto, a opção estética de Vilela. Ao narrar apenas com diálogos, limitando-se a situar as personagens, o autor rejeita os conselhos de qualquer poética para narrativas e reproduz na forma a simplicidade da trama, uma simplicidade que pode parecer fácil e superficial mas aos poucos vai se mostrando bastante reveladora. Se fosse de outra forma, a fraqueza do discurso do casal seria vista como fraqueza do próprio novelista, ou ainda como coloquialidade exagerada, mas ao ser explicitado um diálogo, diálogo com travessão e tudo, ocorre essa simbiose entre forma e conteúdo. Deixe-me ilustrar isso com um trecho em que o casal discute sobre problemas ambientais na Alemanha:

“– Encurtando caminho: a única solução que eles encontraram para acabar com a mortandade dos sapos foi desviar a estrada; só que, para fazer isso, eles teriam de abrir um túnel numa montanha, uma obra que ficaria caríssima.
– E eles abriram.
– Abriram.
– Eu sabia... Esses gringos... Eles são assim: eles matam milhões de judeus; depois abrem um túnel na montanha para não matar sapos...
– O que tem uma coisa a ver com a outra, Bóris?
– O que tem? Tem muito a ver.
– Eu não vejo relação nenhuma.
– Tudo tem a ver com tudo. Uma coisa aqui e agora tem a ver com outra lá não sei onde e quando. Tudo tem a ver.
– A Alemanha é um país civilizado. Lá eles sabem da importância dos animais. Lá eles preservam a fauna; a fauna e a flora. Não é como aqui, no Brasil, onde as pessoas destroem tudo.
– Quem manda na natureza? O homem ou o bicho?
– Ninguém manda na natureza. A natureza é de todos e para todos.
– Quem manda na natureza é o homem. O bicho não manda nada.
– Não é assim.
– Quem manda no mundo é o homem.
– Por isso é que o mundo está do jeito que está.
– Quem você queria que mandasse? Um tamanduá?”

Para Bóris, os problemas do mundo merecem a mesma retórica e a mesma preocupação que os problemas do sentido da vida ou do seu relacionamento, qual sejam poucos minutos, os minutos que antecedem sua partida para a convenção da empresa, convenção que pode transformá-lo em diretor de um conglomerado, cargo importante o bastante para que relegue os problemas da esposa, da vida e do mundo a segundo plano.

E é assim que Vilela consegue transformar um diálogo num café da manhã na vida de um casal qualquer em literatura, e mais do que isso, figurar entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti na categoria romance. Leitores apressados ficarão com a história aparente, acompanharão a DR do casal como acompanham a novela das oito, mas o proveito será melhor para aqueles que procurarem nas entrelinhas do texto, e nas entrelinhas das suas próprias vidas, uma explicação para o sem sentido da vida.

Para ir além

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 17/7/2007.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Qual é, afinal, a melhor idade?


Marcelo Spalding

Faz algum tempo que os politicamente corretos não falam mais em terceira idade, e sim em melhor idade. Eufemismo para uns, delicadeza para outros, designa a idade em que as pessoas já não precisam mais ocupar-se com trabalho e têm tempo para gozar a vida (supondo, é claro, que tenham também dinheiro e saúde). Como convivo com uma boa dezena de pessoas na faixa da melhor idade, sei que mesmo entre elas a designação é discutível: minha avó, por exemplo, morre de saudades do tempo em que era casada (enviuvou cedo, aos vinte e seis). As idades mais votadas como melhor idade por essas pessoas são a infância e a adolescência, a infância para umas, a adolescência para outras.

Mas Rubem Mauro Machado traz um termo que considero preciso para designar essa fase juvenil e intensa que elas chamam de melhor idade: a Idade da Paixão. Em seu romance, A Idade da Paixão (Bertrand Brasil, 2006, 288 págs.), o narrador e protagonista é um jovem de dezoito anos que mora sozinho na capital do Rio Grande do Sul (os pais são de Santa Maria) e está no último ano do Clássico, às portas do vestibular. Idealista e socialista (o romance é de 1986 mas a história se passa em 1961, um tempo em que alguns jovens ainda eram de esquerda), gostaria de ser escritor e viver de seus contos, romances e panfletos políticos, mas o pai gostaria de vê-lo advogado e encaminha-se para estudar as leis, prometendo, entretanto, que será ético, justo e fará sua parte para mudar o mundo.

Não demorará para o jovem idealista perceber os paradoxos de sua escolha. Um dia, quando vai pela primeira vez à casa de sua namorada, conhece o pai da moça, homem sério, udenista, advogado e conselheiro do Internacional. À mesa, o homem descobre que o jovem quer estudar Direito e, depois de saudar a profissão, o alerta: só que você precisa aprender a separar Direito de Justiça. E dá um exemplo: um homem pobre fez um seguro de vida. Aprovado no exame de saúde, pagava todo mês pontualmente os prêmios. Uma semana antes de terminar o período de carência, morre inesperadamente, de um derrame cerebral. A viúva entra na justiça, pleiteando o pagamento do seguro. A seguradora nega-se a pagar, alegando o não-vencimento, ainda que por seis dias, do período de carência. O sogro deu ganho de causa à companhia de seguros.

Na hora o jovem se cala, não ficaria bem discutir com o talvez futuro sogro, com o pai da menina que quer impressionar. Mas na narrativa ele se debate contra a verdade pronunciada pelo sogro e arremata com um ingênuo e belo desabafo:

“Talvez caiba a Pomar alguma razão nessa sua visão tão pragmática de seu ofício. Eu simplesmente não a aceito. E não posso aceitá-la porque tenho 18 anos e nessa idade se há coisa que nos pertence é um limpo sentimento de justiça. Se o Direito não se confunde – o mais possível, claro, dentro da falibilidade humana – com a Justiça; se a Lei não é a fabricação abstrata que procura ao máximo ser a concretização, no plano das relações humanas, do ideal abstrato da Justiça, então todo esse aparelho do Judiciário, com seus ritos e sua linguagem, que me lembram os da Igreja, não passa de encenação grotesca de uma impostura. (...) Se assim é, afirmo a mim mesmo, não quero ser um homem do Direito. Não ambiciono na vida riqueza, poder, ser um vencedor no sentido burguês. Quero apenas – e não é fácil – tornar-me um ser ético. Alguém que não se corrompa, que mantenha intacta a capacidade de indignação, que conscientemente não prejudique seu semelhante. Se essa profissão não preenche meus anseios, eu a desprezo. Trabalharei em outra coisa que, sem me deixar morrer de fome, possibilite ao menos me exprimir.”

Não é o corpo atlético, a efervescência do sexo, a mobilidade dos músculos que faz da juventude a Idade da Paixão, é essa esperança, essa fé na vida, na justiça, de fazer diferente, ser diferente; é quando somos num dia bailarina, no outro jogador de futebol, bombeiros, professores, médicos, jornalistas, idade em que ainda achamos que podemos mudar o mundo e, mais incrível ainda, que o mundo quer ser mudado.

Adiante o narrador sintetiza isso em uma frase: “os soldados são sempre adolescentes, embora o mundo finja desconhecer esse fato”. E é isso! O soldado é – regra geral – aquele que acredita em algo, numa nação, numa idéia, num mundo melhor, é aquele que morre por uma causa. E de fato, muitas vezes, morrem (quantos jovens morreram em 64? Será que o protagonista dessa história não morreria em 64, se a história continuasse a ser contada?).

Voltando ao intenso e cativante romance de Rubem Mauro Machado, três fatos marcarão nosso jovem que luta para sair do Clássico e entrar no Vestibular. Primeiro, conhece uma menina, uma bela e melancólica menina por quem se apaixona. Depois, estoura a Legalidade, reação liderada pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, contra o Golpe Militar que se arquitetava em 1961, por ocasião da renúncia de Jânio Quadros. Com a paixão que a idade permite – e que o escritor aumenta e alimenta – ele cerra fileiras ao lado do povo armado, vibra com a posse de Jango e tem encontros quentíssimos com a bela e melancólica Sílvia, para depois ser jogado em profunda tristeza com o fim do namoro.

Não é comum romances serem protagonizados e/ou narrados por adolescentes, eles ficam numa linha tênue do que se chama literatura infanto-juvenil (veja-se o caso de É tarde para saber, de Josué Guimarães, tido como literatura juvenil mas de grande qualidade estética e enorme efeito). Mas Rubem Mauro Machado consegue, com domínio absurdo da linguagem e com o deslocamento histórico dos fatos, fazer de A Idade da Paixão um romance para jovens, adultos ou pessoas da melhor idade. Um romance, aliás, premiado com o Jabuti em 1986. Isso mesmo, há vinte anos atrás, e nunca havia sido reeditado, ainda que a edição da José Olympio tenha se encerrado em poucos meses.

Por quê? Difícil saber, o autor não deixa claro e não nos cabe conjecturar. Sorte a nossa que volta nesse 2007 tão sedento de paixão, de idéias e bandeiras a se defender, nesses tempos tão voltados para a história sem saber o que fazer com a história que se tem. Sorte a nossa que volta para ajudar-nos a entender qual a grande vantagem da juventude em relação às outras idades, e reafirmar que se não é esta é a melhor idade, é, pelo menos, a autêntica Idade da Paixão.

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 13/3/2007.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Se a literatura subisse o morro...


Marcelo Spalding

O povo não lê. O povo não gosta de ler. O povo só lê porcaria. Revistinhas pornográficas, Paulo Coelho, gibis. O povo não tem jeito. Se a literatura subisse o morro, chegasse à parcela mais pobre da população, seríamos outro país. Mais culto. Mais educado. Olha a França, que exemplo! Até os marginalizados têm consciência social, fazem protestos. Mas não adianta, o Brasil não tem jeito mesmo.

Estereótipos, preconceitos, clichês tantas e tantas vezes repetidos que cristalizam-se como verdade. Ainda bem que vez ou outra surgem, pelas brechas do mercado, manifestações autênticas e sérias vindas do que se convencionou chamar de povo, dessa gente que engorda as estatísticas de natalidade e criminalidade, essa gente que constrói os prédios de luxo e mora nas favelas de seus morros, essa gente que sustenta igrejas e mídia, essa gente que limpa nossa casa, varre nossa rua e pega ônibus cheio, manifestações estas que nos põem a refletir e a se perguntar: o que aconteceria, de fato, se a literatura subisse o morro? E se não sobe, será culpa do morro ou da literatura, que não tem força para tanto, não quer se cansar, se sujar?

Cenas da favela (Geração Editorial/Ediouro, 2007, 228 págs.) é um exemplar raro dessa tentativa da literatura se aproximar da parcela marginalizada da população, do povo, e curiosamente surge como primeiro lançamento da associação entre a Geração Editorial e a Ediouro, provavelmente fruto dos lucros que elas tiveram com a venda de Mulheres de Cabul (é curioso porque o best-seller patrocina uma obra de provável êxito acadêmico e fracasso comercial).

Roberto Schwarz, há 25 anos atrás, organizara um livro de crítica literária chamado Os pobres na literatura brasileira e escrevera na apresentação que “basta não confundir poesia e obra de ciência, e não ser pedante, para dar-se conta do óbvio: que poetas sabem muito sobre muita coisa, inclusive, por exemplo, sobre a pobreza”. Esse também é o mote de Nelson de Oliveira, organizador de Cenas da favela, que alia a diversos textos de autores contemporâneos sobre as favelas e neofavelas clássicos da literatura brasileira como “Favelário Nacional”, de Drummond, “O xis da questão”, de Lygia Fagundes Telles, e “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca, talvez exatamente para garantir uma espécie de selo de garantia literária para sua antologia (livrando-se ou tentando livrar-se, assim, do preconceito de público e crítica, que acha lindo o pobre se expressar mas torce o nariz para suas formas de expressão). Mas vai além.

Já na apresentação o organizador deixa claro que sua intenção não é reproduzir a visão de favela “na maior parte do tempo falsa e distorcida dos cidadãos de classe média letrados e bem nutridos”. Para Nelson de Oliveira, “a imagem de indigência e violência que guardamos da favela é outro estereótipo, outra construção ideológica veiculada pela televisão e pelos jornais: nós raramente subimos o morro para conhecer as reentrâncias culturais dessas comunidades, da mesma maneira que raramente chega até nós a favela dos favelados, dos seus verdadeiros habitantes”. E ainda que mais tarde pondere que “seria bastante ingênuo da nossa parte afirmar que a realidade da favela só poderia ser representada literariamente por alguém da própria favela, pois na arte e na literatura as coisas não funcionam de maneira tão mecânica”, faz questão de dar certo destaque na antologia a autores identificados com a periferia, como Carolina Maria de Jesus e Reginaldo Ferreira da Silva, o Ferréz. Aliás, pontos altos do livro.

Carolina Maria de Jesus, negra, neta de escravas e moradora de uma favela na capital paulista, é quase um ícone para quem estuda literatura feminina no Brasil e seu livro Quarto de despejo, de 1960, já foi traduzido para 13 idiomas nos últimos 35 anos. É um excerto dessa obra, um diário sobre a difícil rotina da mulher em busca de dinheiro para a comida dos filhos, que Nelson reproduz na antologia, preservando os “erros gramaticais” da primeira edição, erros que hoje são tão importantes como os acertos, dirá o organizador.

“Os meninos come muito pão. Eles gostam de pão mole. Mas quando não tem eles comem pão duro. Duro é o pão que nós comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do favelado.”, escreve Carolina no dia 22 de maio de 1958.

“Amanheceu fazendo frio. Acendi o fogo e mandei o João ir comprar pão e café. O pão, o Chico do Mercadinho cortou um pedaço. Eu chinguei o Chico de ordinario, cachorro, eu queria ser um raio para cortar-lhe em mil pedaços. O pão não deu e os meninos não levaram lanche. De manhã eu estou sempre nervosa. Com medo de não arranjar dinheiro para comprar o que comer. Mas hoje é segunda-feira e tem muito papel na rua.”, escreve no dia 2 de junho.

Ferréz é autor contemporâneo e publica em revista, é colunista da Caros Amigos. Depois da fama de Capão Pecado, romance lançado em 2000, vive de literatura, mas segue ligado ao movimento hip hop e promove eventos culturais em bairros de periferia, o que lhe dá, se não autoridade, autenticidade para ser uma voz de dentro da favela. Não por acaso há seis histórias de Ferréz na antologia, disparado o autor com mais textos, que vão de um poema perturbador chamado “Eu sou o...” até um interessantíssimo conto-crônica de protesto e tristeza chamado “Terra da maldade”, em que lê-se reflexões (ou seriam denúncias, ou desabafos?), como estas:

“Pode crê! Amanhã muita gente vai sair logo cedo, pra se humilhar por um emprego, se liga no que me ligou o parceiro: 'Tava no trânsito bem a pampa, passa um rapaz dando uns papel de carro em carro, ele começa a ler esperando os pedidos de dinheiro como sempre, aí ele se comove, no papel tava um pedido de emprego, tava escrito que podia ser qualquer um, o rapaz fazia qualquer coisa.' A lágrima corre, parceiro, o mano que recebeu o bilhete é professor de química do núcleo negro da USP e chegou a chorar no carro, já era 11 horas da noite, e ele tinha acabado de dar aula, pra uma sala de mais de trinta alunos, com mais ou menos oitenta cadeiras vagas, com metade das lâmpadas queimadas, em um barracão com um aspecto estranho, sabe? Um clima amarelo, mas se existe mesmo revolução ela ta ali, e só quem é sabe disso, que num palco as coisas deixam de ser cultura, mano, e começam a ser entretenimento, moro?”

Na grande maioria das vezes Ferréz não é apenas narrador, é personagem, participa das ações como aquele que intermedia a vida e a linguagem da favela e a vida e a linguagem do leitor, sabidamente muito diferentes. Esse papel de intermediário não impede que ele fale em revolução, louve Zumbi, denuncie abusos da polícia, Ferréz não tem medo algum de parecer panfletário e não está nem aí para o tal subtexto necessário ao conto. Para ele não interessa se está fazendo ficção ou não-ficção, conto ou crônica, literatura ou não, há questões muito mais graves com que se preocupar, há senhoras morrendo nos leitos das UTIs, nas filas dos hospitais, há jovens inocentes sendo baleados pela ROTA, amigos sendo presos e mortos por trocados: que vá ao diabo a teoria do iceberg, a noção de que o conto deve sugerir mais do que mostrar, que vá ao diabo essa poética literária que jamais subiu no morro para não se sujar e agora o obriga a descer do morro para se mostrar.

Bem diferente é o tipo de texto de autores como Marcelino Freire e Fernando Bonassi, escritores reconhecidos e que debruçam-se sobre a realidade das favelas para produzir belos contos, e aí sim contos na acepção clássico do que seria o conto. De Freire temos o que na minha opinião é o melhor texto de Contos Negreiros, “Solar dos Príncipes”, em que um grupo de negros quer entrar num prédio de classe média para gravar documentário e é barrado pelo porteiro, ironizando a facilidade com que nós, da classe média, entramos nas favelas para gravar, filmar, expor suas vidas. De Bonassi, autor do belo romance Subúrbio, que se espaço houvesse deveria estar inteiro na antologia, temos um conto chamado “Trabalhadores do Brasil”, que narra na história aparente o reconhecimento do corpo de um filho pelo pai, mas na história oculta problematiza e questiona a desvalorização da vida em realidades cruas, vidas já perdidas há muito, vidas oprimidas pela violência dos bandidos e também da polícia.

Já Luiz Marra é para mim grata surpresa: médico sanitarista e clínico geral, tem publicado um único livro de contos, O coletivo aleatório, de onde o organizador pinçou o belo “Pipas”, conto em que Marra cria uma metáfora definitiva para relacionar a favela e a cidade, metáfora que, aliás, foi parar na capa do livro: “Cruzaram olhares pela primeira vez quando as pipas enroscaram uma na outra e um longo atalho separava dois corpos miúdos acenando no meio do vento”.

Provavelmente são estes textos de Marcelino, de Bonassi e de Marra que permanecerão daqui a 20 ou 30 anos para a literatura brasileira, e não os textos-testemunho de Ferréz, que ficarão relegados a públicos específicos e combativos como estão hoje os de Carolina. Mas a simples inclusão dessa voz destoante, com linguagem e poética próprias (não erradas, não melhores, mas próprias) nos mostra que é tal qual pipas enroscadas que convivem hoje a cidade e a favela, a cidade querendo esquecer a favela, mas já não sendo mais possível porque os fios estão unidos, as pipas enroscadas, ambos querem no fim a mesma coisa, uma pipa bonita, faceira, e o céu é o mesmo, não há como escapar do outro.

Esta lição singela do conto de Marra, do livro organizado por Nelson de Oliveira é que deveria repercutir para toda a literatura. Se a literatura subisse o morro conheceria um universo riquíssimo e talvez lá se redescobrisse como real manifestação popular, arte capaz de expressar as angústias e os sonhos de toda uma geração, de toda uma sociedade. Ao invés de se sujar, iria se renovar.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 3/7/2007.