terça-feira, 26 de junho de 2007

Oficina intensiva em 10 contos


Marcelo Spalding

Se tem discutido muito por estes pagos o que é preciso para ser um bom escritor, e talvez o único consenso seja o requisito mais óbvio: é preciso ler. Mas não simplesmente ler, é preciso saber o que ler, ter boas chaves de leitura, se possível discutir o que se lê. Assim são nas oficinas de criação literária, que proliferam assustadoramente aqui em Porto Alegre.

Pois este artigo é ao mesmo tempo um serviço a estes candidatos a contistas e uma ironia: obviamente não se vira um escritor depois de se ler 10 contos. Mas também é um ótimo começo para quem quer ser escritor conhecer um pouco sobre o que é o conto e nada melhor do que 10 contos geniais para se entender o que é este gênero cheio de nuances e ambigüidades.

Quem estuda o conto costuma apontar suas origens às histórias bíblicas, às mil e uma noites de Sherezade, às histórias orais, mas a maioria desses estudiosos concordam que o que hoje entendemos por conto moderno se delineia no século XIX com o trabalho dos Irmãos Grimm e as formulações poéticas de Edgar Allan Poe. Poe, autor do célebre poema “O Corvo” e criador da literatura policial, foi dos primeiros a defender a short story num contexto (e numa língua) em que o romance era a forma literária por natureza. Para o poeta e constista, um texto precisa suscitar efeito no leitor, e para tanto ele precisa ser lido de uma só assentada, sem interrupções, daí a necessidade de ser curto: “se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão”. Destacamos entre os tantos contos da obra de Poe um bastante curto e presente em muitas antologias contemporâneas, “O gato preto”, publicado em 1845. O enredo é relativamente simples: o narrador mata sua mulher por causa do seu gato, a empareda para esconder o corpo e quando a polícia vai até sua casa um miado de dentro da parede o denuncia: é o gato preto que emparedou-se com a morta e agora o acusa. A construção deste enredo é o que o torna singular e suscita no leitor o efeito pretendido pelo escritor, de pavor, de tensão: Poe não se apressa a chegar ao fim mas mantém no texto apenas o que é necessário, suas descrições das personagens culminarão nos assassinatos, os devaneios do narrador justificarão seus atos e o encadeamento dos fatos, de uma sucessão surpreendente mas incrivelmente lógica, denunciarão o narrador dando o fecho inesperado à história. É o que alguns chamam hoje de “conto de acontecimento”, em que o final é fundamental para a compreensão da história e a criação do efeito no leitor.

Tradutor de Poe e um dos grandes responsáveis pela sua popularização e canonização, o francês Charles Baudelaire não costuma ser chamado de contista, e nem poderia mesmo sê-lo, mas sua obra Spleen de Paris, que infelizmente foi titulada pelos editores de Pequenos poemas em prosa, esconde pelo menos uma dezena de histórias muito interessantes e que bem poderiam hoje ser vistas como conto, ou como miniconto. “Os olhos dos pobres”, publicado em 1869, é um bom exemplo: um narrador (ou sujeito poético) conta para a mulher porque a odeia e lembra do dia em que saem para um rico café e lá vêem um pai com dois filhos maltrapilhos, fascinados com o café; o narrador sente pena mas a mulher se diz enojada e pede que ele mande o maître afastá-los. De uma atualidade impressionante, a pequena narrativa de duas ou três páginas é a síntese da teoria do iceberg, metáfora com que Hemingway mais tarde definirá o conto como aquele um oitavo que está acima do nível da água, sendo a história oculta, o subtexto, a maior parte, submersa. Baudelaire conta a história de um casal que vai a um café, mas sob esta mísera e corriqueira história está toda a desigualdade social que já assola a França, e mais que a desigualdade, o conflito social que gerara tantas revoluções e mortes naquele país.

Diferente do estilo de conto de Poe é o conto do russo Anton Tchekhov, também considerado um mestre: ao invés do final surpreendente, é o desenvolvimento, o jogo entre o dito e o não-dito, o que é oculto e o que é revelado que aprisiona o leitor e produz o tal efeito. Chamado de “conto de atmosfera”, influenciou muito os escritores americanos de Joyce a Clarice Lispector, passando por Machado, Borges e Guimarães Rosa. “Angústia”, de 1886, é um contundente exemplo deste tipo de texto: o cocheiro Iona Potápov tenta contar que perdeu o filho para os passageiros de seu coche, mas não é ouvido por eles nem por ninguém e acaba por falar com seu cavalo sobre a perda. Resumido assim, em duas linhas, o conto perde a força e o sentido exatamente porque é a atmosfera criada por ele ao longo das páginas que tira o leitor do seu lugar confortável e o faz sentir compaixão por aquele protagonista solitário. O narrador em terceira pessoa conduz os sentimentos do leitor como um cocheiro o faz com seu cavalo, para ao fim abandoná-lo à própria solidão de um final que antes de uma solução é um potencializador do conflito.

No Brasil temos alguns contistas antes de Machado de Assis, mas é mais ou menos consensual que Machado é o grande nome do conto brasileiro. Leitor de Poe e cronista de jornal, usou e abusou do estilo produzindo uma infinidade de prosas curtas, algumas com feitio de crônica, muitas hoje presença obrigatória no vestibular. Destas a mais famosa e forte talvez seja “Pai contra Mãe”, de 1906, conto em que um homem pobre, Cândido Neves, é pressionado a deixar seu filho na roda dos enjeitados, quando vê na busca de uma escrava a possibilidade de se reerguer e não dar seu primogênito, mas quando pega a mulher, ela está grávida, e ao ser entregue ela acaba abortando por causa da luta. Numa mescla de conto de atmosfera com conto de acontecimento, Machado se utiliza da forma do conto moderno proposta por Poe e a atualiza com um conflito próprio do Brasil imperial e escravista, potencializando este conflito com os valores universais da maternidade, do amor filial, do desejo pela liberdade.

O gaúcho Simões Lopes Neto também usará a fórmula canônica do conto moderno para tratar de temas locais inovando ainda em outro sentido: usará linguagem local. Em Contos Gauchescos, de 1912, Simões (que estudara no centro do país e mesmo na Europa) recria o jeito de falar do gaúcho na figura de Blau Nunes, um legítimo contador de histórias que lança mão de termos como “taba” e “manantial” para reforçar o ambiente espacial. “No manantial” é um destes contos gauchescos em que o espaço, a linguagem e as personagens são gauchescas, mas o conflito é universal: a bela Maria Altina conhece André e marcam casamento; Chicão, que sempre fora apaixonado e rejeitado pela menina, na véspera do casamento invade a tapera, mata a avó com uma machadada e tenta violentar Maria Altina; ela foge a cavalo mas afunda no manantial; André, que seguia os dois, vê o assassino tentando se livrar do manantial, se atira nele, luta com o outro e caem ambos: “três defuntos de razão de morrer tão diferente e de morte tão a mesma”.

Um leitor atento já terá reconhecido o gênio Guimarães Rosa nesta breve explanação sobre Simões Lopes Neto. De fato Rosa, assumido leitor de Simões, se apropria desse narrador em primeira pessoa que faz uso da linguagem como recriação do espaço, levando tal técnica à mestria em Grande Sertão: Veredas. Já nos primeiros contos, porém, se percebe essa recriação lingüística e temática dentro das técnicas do conto formuladas no século XIX, e para tanto basta lermos Primeiras Estórias, boa porta de entrada nas veredas de Guimarães. Entre os tantos belos contos deste livro destacamos “Sorôco, sua mãe, sua filha”, que pode levar o leitor às lágrimas narrando a singela história de um homem que leva sua única filha e sua esposa para um carro que as levará ao hospício. É a criação da atmosfera, do não dito, da angústia de Sorôco por ter de internar uma filha que não entende, a opressão do espaço na vida daquelas pessoas, o que encanta e emociona o leitor. Mas nada disso está dito, é tudo a história oculta, cifrada, a parte submersa do iceberg.

Poderíamos agora citar Clarice ou Borges, ambos gênios que a partir da estrutura do conto moderno recriaram e reinventaram técnicas. Mas permita-nos falar de Luandino Vieira e o premiado, polêmico e fenomenal “A estória do ovo e da galinha”, publicado em Angola em 1965. Primeiro é interessante notar como a estrutura do conto moderno chega ao novíssimo mundo e nele encontra eco, ainda que novamente tenha sua temática e sua linguagem modificadas. Leitor de Rosa, Luandino mescla o português com termos africanos em sua narrativa e compõe uma história muito singular, conseguindo lidar com um tema seríissimo naquele momento histórico, o direito à posse (lembre-se que Angola era colônia de Portugal), sem abrir mão do humor e, digamos, da ginga africana: a história aparente é a briga de duas vizinhas por um ovo posto no quintal de uma pela galinha da outra; a história oculta é a luta sangrenta entre portugueses e africanos sobre quem tem o direito de explorar o solo – e a gente – angolana. E se têm tal direito. Contemporaneamente se verá ecos desse estilo na obra do moçambicano Mia Couto ou no cabo-verdiano Germano de Almeida, por exemplo.

Já vimos em nossa “breve oficina discursiva” que o conto, antes de um gênero, é um termo que designa um tipo de construção narrativa, termo este consolidado pela freqüência do seu uso mas muito pouco sólido para fazermos afirmações estanques. Se por um lado podemos afirmar que a narrativa deve ser breve, contar uma história aparente que esconda uma história oculta e provocar determinado efeito no leitor, as formas de se fazer isso são variadas, infinitas. E se olharmos historicamente para os grandes contos veremos um fio condutor que vai tecendo essa história. Compare-se, por exemplo, “A estória do ovo e da galinha” com o conto do carioca Roberto Drummond “Rosa, rosa, rosae”. Publicado no auge da ditadura, narra a história de um rigoroso professor de latim que observa sua turma em momento de prova, professor este que permite que Rosa, bela morena, cole em suas pernas, para alegria da turma, que liberta-se. Não seria tal narrativa uma alegoria em tempos de ditadura tal qual a disputa pelo ovo em Luandino?

Vale dizer, aliás, que o conto se tornou o tipo de literatura preponderante no Brasil nos anos sessenta, setenta, e alguns estudiosos dizem que exatamente por causa da ditadura: na época era muito comum, por exemplo, jornalistas aproveitarem-se da ambigüidade do conto para fazer críticas contundentes ao regime, aumentando e consolidando uma produção importante deste tipo de ficção no país. Desta época é o hoje canônico “Feliz Ano Novo”, em que Rubem Fonseca narra do ponto de vista de um bandido um ataque violento à uma casa de família rica, com roubo, assassinato e estupro. O conto chocou os leitores e a ditadura da época, sendo censurado reiteradas vezes. De violência aparentemente gratuita, está nas entrelinhas, no subtexto a crítica social que o texto suscita, apagando a possibilidade de entendimento entre as classes para provocar o questionamento naquele leitor que não se identifica nem com o narrador-bandido nem com as ricas e histéricas vítimas.

E para terminar esta quase breve e prepotente oficina chamo a atenção de um outro fenômeno que vem ocorrendo com o conto em tempos muito velozes, tempos de internet: sua miniaturização. Obra exemplar neste aspecto é o livro Ah, é?, de Dalton Trevisan (1994), em que o autor publica cento e poucas histórias minúsculas, algumas com uma ou duas linhas. Este tipo de texto, uma espécie de reinvenção ou aprofundamento do miniconto, tem sido muito explorado por alguns escritores contemporâneos e reflete esta miniaturização do conto, que se antes poderia ter várias páginas agora dificilmente ultrapassa o espaço de duas ou três páginas. Verdade que muitos já clamam por novas terminologias e teses para o conto, considerando ultrapassadas as formulações de intensidade, tensão e efeito, a teoria do iceberg, enfim, as tentativas de se encontrar uma constante neste gênero tão fugidio. Mas para o escritor iniciante é um ótimo começo conhecer um pouco desta história tão bonita e destas teorias tão interessantes, ler mais e mais contos e escolher seus dez, reler estes dez e encontrar semelhanças. Assim se faz, se não um bom escritor, um bom leitor. E de cada dez bons leitores se fará um bom escritor, quem sabe pode ser você, quem sabe posso ser eu...

Os dez contos:

1 “O gato preto”, Edgar Allan Poe [1845]
2 “Os olhos dos pobres”, Charles Baudelaire [1869]
3 “Angústia”, Anton Tchekhov [1886]
4 “Pai contra mãe”, Machado de Assis [1906]
5 “No Manantial”, Simões Lopes Neto [1912]
6 “Sorôco, sua mãe, sua filha”, Guimarães Rosa [1962]
7 “A estória do ovo e da galinha”, Luandino Vieira [1965]
8 “Rosa, rosa, rosae”, Roberto Drummond [1975]
9 “Feliz ano novo”, Rubem Fonseca [1975]
10 Ah, é? , Dalton Trevisan [1994]

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 26/6/2007.

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