terça-feira, 5 de junho de 2007

Erotismo, sensualidade e literatura

Minha vó é uma grande figura: entre outras de suas tiradas, diz que se soubesse que ficaria viúva tão cedo (em torno dos 25) não teria casado virgem e teria aproveitado bem mais. Isso ela diz hoje, num tempo em que falar de sexo é não apenas comum como aconselhável, num tempo em que seus netos – e netas – dormem com os namorados em casa, na mesma cama. Naturalmente nem sempre foi assim, muito pelo contrário, ainda em meados do século XX temas como masturbação e bissexualismo eram considerados tabus, enquanto outros como pedofilia permaneciam ocultos sob um pacto de silêncio.

Hoje, e cada vez mais, sexo é um tema tão em voga (ainda que tão mal tratado) que eu penso que logo abrirá uma faculdade de sexologia: sim, se há faculdade para se estudar a literatura, a música, há faculdade para se estudar a estatística, a publicidade, por que não para estudar o sexo? Não falo em psicanálise nem em pedagogia sexual, falo em uma abordagem multidisciplinar que aborde o sexo de forma séria, investigando-o, levantando véus e mesmo alertando para os perigos de um hedonismo sem limites.

Mas estou abusando das preliminares, não quero broxar meu leitor: o assunto aqui é sexo e literatura. Muito antes do cinema, a literatura já rompeu diversas vezes com o status quo e recheou suas páginas de sensualidade, erotismo, pornografia. De Sade a Flaubert – sim, Flaubert, quem mais excitante que a Madame Bovary? –, de Bocage a José de Alencar – quem mais excitante que Iracema? –, a sexualidade tem sido tema constante seja como protagonista seja como condutora silenciosa da história. Presença que não poderia deixar de se acentuar na contemporaneidade, quando os clipes musicais, a publicidade e a novela das oito exploram o tema quase ao limite da banalidade, desafiando a quem queira manter o erotismo sem desbancar para a vulgaridade.

A este desafio se propôs o gaúcho Elizário Goulart Rocha em seu romance de estréia, Silêncio no Bordel de Tia Chininha (Letras Brasileiras, 2006, 120 p.). Publicado em 2001, ganha agora uma belíssima segunda edição da Letras Brasileiras, que, aliás, vem chamando a atenção do mercado editorial do sul deste Brasil.

O bordel, sem dúvidas, está no imaginário de nove entre dez homens, tenha ele freqüentado ou não algo parecido com um bordel literário: é que o bordel literário é recheado de mulheres lindas, disponíveis, alegres; fica num lugar distante, exótico, até, e não tem a exploração absurda das sofisticadas casas noturnas das capitais modernas: tanto as meninas quanto os clientes são tratados com respeito. Eis o cenário.

Mas não espere de Elizário um romance pornográfico, de uma pornografia barata, aqui estamos falando primeiro em literatura, depois em sensualidade. O conflito que movimenta a história é o eterno dilema dos retirantes: Ataliba, casado e pai de cinco filhos, diz que vai tentar a vida no Rio de Janeiro e abandona sua família à própria sorte. Jovita, bela mulher de 24 anos, carola o suficiente para achar que sexo é pecado, que desejo é pecado, vê-se obrigada a abandonar a casa onde mora antes que seja despejada e procura a sogra, Tia Chininha, dona do bordel mais respeitado da cidade. A sogra acolhe a mulher e os “ranhentinhos”, como os chama o narrador, mas a eles reserva o quarto dos fundos onde devem permanecer durante toda a noite em completo silêncio, sem sair dali por nenhum motivo, nem para fazer xixi ou cocô.

É desse encontro entre a velha dona de bordel e a jovem menina reprimida que nasce a história, daí que emergem os conflitos, os desejos. Jovita tem “os peitos arrepiados” e sente “o roçar do lençol”. Não é indiferente aos gemidos do salão principal, aos corpos esculturais das meninas preferidas e nem ao corpo em formação da filha, Camila Luciane.

“Jovita andava sentindo uma coisa estranha. Devia sentir saudade, muita saudade, mas não sentia. Devia achar insuportável a falta do marido, mas não achava. Devia ficar constrangida por andar tão à vontade num lugar daqueles, e às vezes à vontade mesmo, de mini-blusa que ficava suspensa abaixo dos seios, que marcava os mamilos e os excitava ainda mais, não à noite que a coragem não era tanta, mas de dia, mesmo assim, as calças justas, às vezes sem calcinhas, porque tinha poucas, e quando chovia não secavam, e o roçar do jeans, quem diria, agora até de jeans andava, dê-lhe a excitá-la, mas não ficava constrangida. Os elogios de Laura Melina, agora simplesmente Mel, e Isabel, agora simplesmente Bel, eram capazes de satisfazê-la tanto quanto os melhores galanteios masculinos que já ouvira. Não tinha qualquer intenção de gostar de mulher, o que é que é isso, pelamordedeus, homem é coisa muito boa, mas elogio é ainda melhor.”

Eis um trecho de singular sensualidade de uma história de singular sensualidade em que a todo instante o leitor vê-se excitado, de fato e com o desenrolar dos acontecimentos, excitação essa que nunca chegará ao êxtase, pois o narrador mantém com rédeas firmes o rumo de sua história e interrompe algumas cenas potencialmente eróticas antes que elas se consumam, cabendo ao leitor imaginá-las e inventá-las a partir de seus fetiches.

Jovita, aliás, é filha do fetiche. Sempre desconfio quando homens escrevem sobre a sexualidade de mulheres, há sempre ali muito mais um desejo masculino do que uma verdade feminina, e Jovita é uma jovem de peitos duros louca para saciar desejos profundos, que anda com poucas roupas e repara nas outras meninas, ou seja, um desejo masculino. Aliás, há outra personagem que cresce com o passar das páginas, ou melhor, com o passar dos dias, que seria uma espécie de neta do fetiche, posto que é a filha “de coxas grossas e pelinhos loiros” de Jovita.

Um leitor que tenha se baseado simplesmente na capa, em que vemos uma bela e jovem mulher deitada, nua e possivelmente se masturbando, com a palavra Bordel em destaque, talvez não chegue ao final do livro. Este leitor espera pornografia, e o que temos, já foi dito, é erotismo, é o jogo da sensualidade. Como diz Barthes em O Prazer do Texto, o que seduz é a encenação do aparecimento e desaparecimento, não a total nudez.

Portanto é para um leitor experimentado, iniciado e apreciador não apenas das generosas formas do corpo humano mas também da beleza estética da literatura que Silêncio no Bordel de Tia Chininha foi escrito. Leitores como Eduardo Bueno e Deonísio da Silva, o primeiro que saúda o romance na orelha e o segundo que tem nessa segunda edição publicada como prefácio uma crítica que escreveu a época do lançamento, crítica em que qualifica a obra como “forte candidato a um dos melhores romances deste alvorecer de século”. Se é para tanto ou não, depende de cada leitor. No final das contas julgar um livro é como julgar uma mulher: desde que não sejam notoriamente mal feitos, a beleza e a qualidade estão muito mais nos olhos de quem vê.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 5/6/2007.

Nenhum comentário:

Postar um comentário