terça-feira, 1 de maio de 2007

Estrangeirismos, empréstimos ou neocolonialismo?


Marcelo Spalding

De uns tempos para cá as lojas ditas chiques, quando em liquidação, resolveram dizer que os preços estão "50% off" e estampar a estranha palavra "sale" nas vitrines. Não chega a ser novidade num país em que as pizzarias têm serviço de "delivery", e não de "telentrega", e as pessoas no intervalo dos congressos fazem um "coffee-break", e não uma "pausa para o café", mas o assunto voltou ao debate com a decisão do juiz federal substituto da 1ª Vara de Guarulhos, Antônio André Muniz Mascarenhas de Souza, de determinar que o governo federal fiscalizasse o uso de estrangeirismos em anúncios publicitários sob pena de multa. Se posta em prática, expressões como "sale" ou "off" deveriam aparecer acompanhadas de tradução no mesmo destaque em peças publicitárias em qualquer tipo de anúncios, vitrines, prateleiras ou balcões, pois para o juiz a decisão segue determinação do Código de Defesa do Consumidor e apenas a publicidade que não contenha algum tipo de oferta terá liberdade para o uso indiscriminado de qualquer símbolo, palavra ou gesto.

Em 1999, o deputado Aldo Rabelo (PC do B) já havia apresentado um projeto de lei que causou enorme polêmica proibindo o uso de “termos estrangeiros” em documentos oficiais (só para constar, na França desde 1994 é obrigado o uso do francês em publicações oficiais do governo, na educação e em contratos legais, motivo pelo qual a Academia Francesa de Letras cria equivalentes nacionais para os termos da ciência e tecnologia). Mas será essa submissão lingüística do português brasileiro uma questão de política pública? Será que um juiz ou um deputado, ou melhor, será que todos os juízes e deputados juntos conseguiriam mudar essa cultura dos neologismos?

Primeiro, é preciso pensar por que uma palavra como “gol” ou “sutiã” não é considerada estrangeirismo e outra como "shopping", é. Tanto “gol” não é uma palavra do nosso idioma que o plural dela é “gols”, um caso único de plural com “s” depois do “l” (em espanhol, por exemplo, é "goles", e em Portugal, "golos"). Mas com o passar do tempo, depois de uma ou duas gerações, a palavra perdeu o “a” original, tornando-se “gol” e não "goal", bem como "penalty" virou “pênalti” e "back" virou “beque”. Mas são todas estrangeiras, ou melhor, de origem estrangeira (como, aliás, nosso idioma não é propriamente brasileiro, mas herança do colonizador português).

Segundo, não podemos ficar dando voltas ao redor da história. Já no começo do século XX alguns intelectuais reclamavam da invasão de termos franceses, muitos dos quais ainda permanecem, como "démodé" e "menu", enquanto outros intelectuais retomavam termos do latim para demonstrar erudição, trazendo de volta palavras como "status". Sem contar, é claro, o fato do português falado no Brasil ser uma grande mistura, com termos árabes, vide “alface”, e africanos, vide “bunda” (como de resto nosso povo é uma mistura de raças).

Dessa forma, não precisa de mais do que dez minutos de leitura de um jornal para identificarmos uma grande quantidade de empréstimos lingüísticos, muitos antigos e já incorporados ao nosso idioma, termos que não assustam nem motivam projetos de lei ou liminares judiciais (caso emblemático é o da palavra “performance”, transformada em única proparoxítona sem acento do português).

Mas o que chama a atenção são os novos termos, a maioria provindos da informática, termos que lutam por reconhecimento e espaço como "scanner", "delete" e "plug", que já têm variações aportuguesadas como "escanear/escaneado", "deletar/deletado" ou "plugar/plugado", ao lado de termos já reconhecidos e pronunciados por qualquer criança brasileira como "mouse", "light" e "sexy" (bem, talvez nem toda criança pronuncie "sexy"...). Sem contar as siglas, como "VIP" e "AIDS", esta última inclusive já transformada em radical em “aidético”.

Particularmente não acho que seja positiva essa adesão incondicional ao que vem do inglês, mas também não parece uma solução inteligente a repressão pura e simples da língua porque essa adesão é cultural, não apenas lingüística. A incorporação de tantos termos de língua inglesa hoje é apenas um sintoma de que o “american way of life” é o grande modelo do viver brasileiro e quiçá ocidental: mais do que incorporar termos, incorporamos hábitos, como ir ao shopping, usar equipamentos high-tech, estudar marketing, consumir o show business, comer fast-food e tomar refrigerantes lights.

Não seremos um país melhor ou pior por causa disso. É possível que daqui a cem anos se fale algo mais próximo do inglês, mais distante do (conservador) português de Portugal, e quem sabe não se possa falar em uma língua brasileira, com gramática e dicionário próprios. Difícil saber. Ruim mesmo é dentro do próprio país termos de viver com grupos sociais que insistem em diferenciar a língua portuguesa daquela falada por outros grupos, e para tanto são facilmente seduzidas por qualquer termo em inglês disponível, caso do "off", do "coffee-break" e do para mim estranhíssimo "it". Mas aí a questão já é outra, de neocolonialismo, e de novo passa mais pela cultura do que pela língua.

Dados curiosos
Resolvi escrever sobre este tema por causa de um trabalho que fizemos para a faculdade sobre empréstimos lingüísticos, trabalho no qual chegamos a alguns padrões interessantes sobre os empréstimos contemporâneos. A partir de um conjunto amostral de 50 palavras, identificamos que 90% delas são substantivos, como as palavras "jeans" e "pager", e 10% são adjetivos, como "sexy" e "expert". A predominância da língua inglesa, evidente no dia-a-dia dos falantes de português, também está refletida em nossa pesquisa, onde 88% das palavras são provenientes da língua de Shakespeare. A tecnologia é a área que mais incorporou termos estrangeiros modernos ao nosso léxico, sendo 42% da amostra composta por palavras que estão associadas à tecnologia.

Outro fato que chama a atenção nestas palavras incorporadas ao português é a grafia. Mais de 70% delas são escritas apenas com as 23 letras convencionais do alfabeto português, enquanto 16% das palavras são grafadas com “Y”, 10% são grafadas com “K” e 6% são grafadas com “W”, letras já incorporadas ao dia-a-dia do brasileiro. Por curiosidade, notamos ainda que o corretor ortográfico automático do Word em Português (Brasil) reconhece 50% dos termos, enquanto na versão Português (Portugal) apenas 8% dos termos são reconhecidos como do léxico, o que é apenas mais um sinal de como nossa cultura é mais aberta aos empréstimos lingüísticos do que a cultura portuguesa.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 1/5/2007.

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