terça-feira, 22 de maio de 2007

As religiões do Rio e do Brasil



Marcelo Spalding

Escrevo no domingo das mães, domingo em que o Papa Bento XVI celebrou missa em Aparecida (SP) e nos jornais, nas rádios e nas televisões só se fala disso. Curioso como a mídia brasileira encara a religião, é como se ela fizesse questão de manter-se laica, cobrir acima de tudo política, futebol e bolsa de valores, mas ao mesmo tempo preserva um enorme respeito à Igreja Católica Apostólica Romana, cedendo-lhe espaços continuamente em pronunciamentos papais, feriados religiosos, procissões e morte de bispos. Uma cobertura respeitosa, sim, mas não espiritual, jamais se entra no mérito dos dogmas católicos, jamais se debate os valores cristãos, muitos já esquecidos e amassados pelo mundo contemporâneo materialista. E mesmo sendo assim, já é muito, pois as demais religiões nunca merecem manchete nos jornais. Quando o islamismo aparece na televisão em nosso país dissociado dos ataques terroristas? Quando o espiritismo ou as religiões afro merecem destaque em nossas rádios dissociadas de curandeiros ou adivinhos suspeitos?

Isso me faz lembrar o já centenário e clássico As religiões do Rio (José Olympio, 2006, 308 págs.), conjunto de reportagens de João do Rio publicadas em 1904 que ganhou recente edição da José Olympio. À época, o então jovem jornalista andou pelas entranhas da capital para levar ao público aspectos curiosos e históricos das diversas religiões que permeavam a cidade, publicando as reportagens na Gazeta de Notícias entre janeiro e março daquele ano. O sucesso foi tamanho que antes mesmo do final do ano elas foram publicadas em livro pela Garnier e alcançaram nos anos seguintes a surpreendente edição de dez mil exemplares.

Mas lembrei-me do livro por causa da (insistente) cobertura da visita papal, e permitam-me reproduzir um trechinho da apresentação de João do Rio para mostrar como as coisas parecem ter mudado pouco nestes mais de cem anos: “ao ler os grandes diários, imagina a gente que está num país essencialmente católico, onde alguns matemáticos são positivistas. Entretanto, a cidade pulula de religiões. Basta parar em qualquer esquina, interrogar. A diversidade dos cultos espantar-vos-á. São swedenborgianos, pagãos literários, fisiólatras, defensores de dogmas exóticos, autores de reformas da vida, reveladores do futuro, amantes do Diabo, bebedores de sangue, descendentes da rainha de Sabá, judeus, cismáticos, espíritas, babalaôs de Lagos, mulheres que respeitam o oceano, todos os cultos, todas as crenças, todas as forças do susto.”

A partir desta provocação inicial, João do Rio percorrerá espaços judaicos, maronistas, espíritas, satânicos e tantos outros, com especial atenção ao “mundo dos feitiços”, capítulo que abre o livro e tem a maior extensão. Neste, o autor deixa evidente algo que já fascinava (e espantava) os brasileiros do começo do século passado, os pedidos a deuses pagãos, especialmente entidades negras de origem africanas.

“Nós dependemos do feitiço. Não é um paradoxo, é a verdade de uma observação longa e dolorosa. Há no Rio magos estranhos que conhecem a alquimia e os filtros encantados, como nas mágicas de teatro, há espíritos que incomodam as almas para fazer os maridos incorrigíveis voltarem ao tálamo conjugal, há bruxas que abalam o invisível só pelo prazer de ligar dois corpos apaixonados, mas nenhum desses homens, nenhuma dessas horrendas mulheres tem para este povo o indiscutível valor do feitiço, do misterioso preparado dos negros.”

Entre a descrição de trabalhos e de mandingas indicadas pelos feiticeiros, o jornalista não deixa de chamar a atenção para a ambição destes, que exigem dinheiro a todo momento, afirmando que nem os espíritos fazem qualquer coisa sem dinheiro e sem sacrifício. Também critica veementemente a conivência da polícia, que visita essas casas como consultante. E arremata o capítulo definindo as bases “desse templo formidável do feitiço como sendo dinheiro, mortes e infâmia.”

José Carlos Rodrigues, na apresentação da edição da José Olympio, chama a atenção para o fato de João do Rio ter formação positivista e ser um “mulato claro pertencente à alta cultura”, o que justificaria seu olhar distante dos cultos afros e a falta de vínculo com os negros e mulatos da classe baixa, sempre tratados em terceira pessoa. Isso não seria um preconceito, segundo Rodrigues, pois deve-se levar em conta que a escravidão recém terminara no país e a cisão cultural era enorme.

Prova de que a postura crítica de João do Rio frente à feitiçaria é mais fruto da educação e dos valores positivistas do jornalista do que preconceito de cor é o capítulo em que ele fala da Associação Cristã de Moços, a ACM, ainda tão presente em nossos dias. Depois de contar com algum detalhe a história de George Williams e Christopher Smith, não se furtando de expor números impressionantes sobre o crescimento da Associação, o autor terminará o texto dizendo-se aflito: “Saí meio aflito. É possível que ainda se encontre um cristão de conto católico em plena cidade do vício, é possível essa candura?.”

Célebre também é sua descrição da Missa Negra, no capítulo sobre os satanistas, descritos como cristãos ao contrário. Aqui os bebedores de sangue ganham a cena, impressionando e enojando o cronista e o leitor, mas é o Diabo, o velho e bíblico Diabo quem conquista o protagonismo: “nunca este espírito interessante deixou de ser adorado. No início dos séculos, na Idade Média, nos tempos modernos contemporaneamente, os cultos e os incultos veneram-no como a encarnação dos deuses pagãos, como o poder contrário à cata das almas, como o Renegado. As almas das mulheres tremem ao ouvir-lhe o nome, as criações literárias fazem-no de idéias frias e brilhantes como floretes de aço.”

Verdade que se algumas das religiões descritas por João do Rio seguem influenciando nossa cultura no século XXI, como o espiritismo, o judaísmo, a feitiçaria e a própria ACM, outras perderam-se no tempo, como os swedenborgianos, espécie de catolicismo primitivo iniciado pelo inglês Emanuel Swedenborg, o que apenas comprova a vitalidade das religiões numa cidade como o Rio de Janeiro, num país como o Brasil. E apesar dessa vitalidade, de lá para cá que estudos sistemáticos se tem feito sobre as religiões? Como os jornais têm coberto os cultos evangélicos que se multiplicam nos pontos mais frágeis de nossa população, nas vilas, nos presídios? De que forma convivem na mesma cidade, na mesma família um físico ateu, uma senhora católica que freqüenta centros espíritas, um filho budista e outro convertido em evangélico pela última esposa? Que impacto esse sincretismo, que por vezes não é tão sincrético, e sim conflituoso, tem em nossa formação identitária? Será mesmo que o rótulo de “maior país católico do mundo” é suficiente para descrever as religiões brasileiras? E as velas acessas nas esquinas de nossas metrópoles? E os templos budistas espalhados pelas colinas do país? E os médicos e psicólogos que fazem regressão em seus consultórios?

Questões que talvez não possam ser respondidas, como de resto as grandes questões sobre a vida também não o são sem a ajuda de alguma religião, mas que deveriam pelo menos ser formuladas pela nossa mídia uníssona sob pena de ficarmos mais cem anos reproduzindo um discurso católico-apóstólico-romano sem olhar para os lados, para trás, para frente, para nossas contradições internas, para nossa formação.

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 22/5/2007.

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