terça-feira, 29 de maio de 2007

Abuso sexual de crianças: do silêncio para a tela



Marcelo Spalding

Menina do outro lado do teclado, jovem, adolescente, filha, moça que já pode ser mãe, mãe, tia, avó, mulher que lê estas linhas enfraquecidas diante de um tema tão penoso, mulher que evita certos assuntos para não perturbar os sonhos, mulher que soma a todos os desafios comuns de nosso mundo o desafio de ser mulher, é chegada a hora de romper o silêncio. É chegada a hora de falar abertamente sobre o abuso sexual de crianças e adolescentes sob pena de a sociedade inverter a lógica e começar a acusar as vítimas, repetindo preconceitos e escondendo uma chaga social de todos os tempos, de todos os lugares, de todas as classes.

Eu poderia usar como gancho para escrever sobre este delicado tema o maravilhoso filme de Almodóvar, Volver, um conto belíssimo do último livro de Dalton Trevisan, “Tio Beto”, ou ainda lembrar do romance recém relançado de Fernando Bonasi, Subúrbio. Mas muito já se tem escrito sobre o papel da arte na abordagem de temas como este e parece que finalmente a sociedade brasileira está madura o suficiente para lidar com tais temas de frente, em pesquisas acadêmicas, entrevistas publicadas na mídia, documentários para a televisão. Por isso falarei de Canto de cicatriz, documentário da gaúcha Laís Chaffe que tem feito bonito papel em festivais e chegou ao Canal Brasil neste mês de maio.

Com 37 minutos de duração na versão que foi ao ar pelo Canal Brasil, o documentário se concentra nas duas principais formas de violência sexual que atingem as meninas, o abuso e a exploração sexual comercial (na versão em 18 minutos, também disponível no DVD, o foco se concentra mais no abuso intrafamiliar). O tema é abordado a partir de uma perspectiva de gênero, contando inclusive com a parceria (leia-se captação de recursos) do coletivo Feminino Plural, pois, embora meninos também sejam abusados, as principais vítimas são crianças do sexo feminino.

Diante de tema tão delicado, Chaffe optou por compor o documentário com um mosaico de recursos, partindo do poema “Canção para a menina maltratada”, feito especialmente para o documentário pelo escritor e psiquiatra infantil Celso Gutfreind e interpretado por Ingra Liberato. O poema, ao lado da música instrumental e de alguns takes de parques de diversões dão um tom lírico ao documentário (Laís também é escritora e grande leitora, especialmente de contos e poesias), embora os recursos jornalísticos também se façam presente: há inevitáveis e riquíssimos depoimentos de vítimas que relatam detalhes dos abusos sofridos, comentários de especialistas, filmes de ficção e enquetes nas quais ficam evidentes os mitos e preconceitos envolvendo o assunto.

Os depoimentos das meninas e mulheres, algumas dessas mulheres identificadas sem efeito especial ou contraluz, são evidentemente o ponto central do documentário, especialmente por evitar o sensacionalismo e priorizar a história: em apenas um momento a depoente chora, e ainda que a câmara não tenha cedido à tentação de fazer um close do rosto e das lágrimas, isso está longe de comprometer a sensibilidade e seriedade com que o tema é tratado. A depoente em questão é Iva, uma artesã adulta, muito bem articulada que conta não apenas do abuso como também deixa transparecer os efeitos na vida da mulher que deu lugar àquela criança: ela fala indignada dos covardes que fazem isso, pede que se denuncie, que não se cale, chora. Casada pela segunda vez há sete anos, diz que começou a se libertar do acontecido quando falou com seu marido sobre o caso, contando com todo seu apoio. Mais importante que suas palavras, porém, é o fato de não se esconder das câmeras e expôr não apenas sua história, mas seu belo rosto e seu doce olhar: é assim que Iva mostra ao telespectador que essas histórias são muito mais reais do que se pensa e estão muito mais próximas do que se pode imaginar.

Entre as histórias, a mais horrível é narrada por uma menina não identificada, já com seus vinte e poucos anos, que conta que era abusada pelo padrasto até o dia em que ele mesmo contou para a mãe da menina. Esta, indignada por achar que ambos a haviam enganado, começou a obrigar a menina a transar diariamente com o padrasto e seu filho, até o dia em que resolve que a menina deve transar com ela também. “Eu penso assim, não vai apagar, vão ficar marcas pro resto da vida, com certeza, se ver um filme vai sentir, se ficar sabendo de alguma história vai mexer um pouco, mas tem pessoas que vão acreditar, tem como ter uma vida normal depois disso, tem uma luz no fim do túnel, é preciso que se não confiar em alguém da família procure um amigo, uma professora, um vizinho, alguém vai acreditar e aí a pessoa vai conseguir terminar com aquele ciclo”, diz a menina, que ainda admite ter muita dificuldade de confiar em qualquer pessoa, independente do sexo, embora esteja melhorando depois dos dois anos de terapia.

Outro ponto alto do documentário são as enquetes com populares, de grande destaque na versão em 37 minutos. Na verdade, Laís demonstra grande coragem ao incluir trechos destas entrevistas, pois são declarações surpreendentes que desnudam a hipocrisia do silêncio social: revela-se o imaginário de que o abuso sexual só acontece em famílias pobres, em vilas, e de que a culpa muitas vezes é da própria criança ou adolescente que teria seduzido o adulto. Opiniões correntes, mas extremamente cruéis com aquelas que aos quatro anos de idade foram submetidas a toques e carícias involuntárias, a constrangimentos que a acompanharam por toda a vida, marcando para sempre suas identidades tal qual cicatriz encravada na mais sensível das partes humanas: a honra.

Alternadas a estas opiniões, especialistas dão sua visão dos fatos, explicando, por exemplo, que o abuso sexual não ocorre apenas em classes humildes, o que existe é um abafamento, um silêncio tácito quando estes casos se dão em famílias de classes média e alta. Exatamente por isso o documentário, os especialistas e as entrevistadas a todo momento exortam as mulheres a romper este silêncio e denunciar o abusador por mais difícil que seja essa situação: por vezes ele está dentro de casa, convive no seio da família, é tio, pai, avô.

Longe de esgotar o assunto ou propor uma solução para esta chaga social tão cruel com as mulheres, Canto de cicatriz tem o enorme mérito de romper o silêncio e levar o assunto para a televisão, ainda que um canal obscuro da tevê paga. Quem sabe o próximo passo seja a publicação no YouTube, quem sabe mesmo a veiculação nos cinemas na abertura de um filme de ficção, um dia quiçá uma televisão aberta se interesse pelo documentário, ou pelo menos pelo tema, e assim você, menina do outro lado do teclado, jovem, adolescente, filha, moça que já pode ser mãe, mãe, tia, avó, mulher, enfim, pode não apenas orientar outras mulheres ao seu redor como denunciar sem constrangimento o seu caso, pois infelizmente, segundo estatísticas, mais de 10% das mulheres foram vítimas de algum tipo de abuso sexual na infância.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 29/5/2007.

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