terça-feira, 24 de abril de 2007

Trevisan além da humanidade pervertida e violenta


Marcelo Spalding

Cenas de uma humanidade perversa e pervertida, violenta e tarada. Assim resumi, certa vez, a obra Ah, é?, de Dalton Trevisan, e assim poderia se resumir, grosso modo, toda a contística trevisânica, cuja literatura já foi apontada como paradigma de “literatura marginal”. Mas não se faz literatura só de temática, e o que encanta e sempre encantou em Trevisan foi a forma de narrar essa humanidade abominável, estes monstros morais, forma enxuta, concisa, límpida, direta. Precisa.

Em Macho Não Ganha Flor (Record, 2006, 128 págs.) voltam os acertos e exageros do já tido como mestre Trevisan, que aos 81 esforça-se (esforça-se?) para não se repetir e acrescentar novos contos a uma futura compilação de seus melhores. Talvez não precisasse – o autor de “Uma vela para Dario” e “A sopa” já consta nos livros de História da Literatura Brasileira, nas prateleiras de todas as livrarias e nas leituras de todo contista contemporâneo que ainda acha importante ler (e não só escrever) –, mas o fato é que segue adiante, e no mais recente livro acrescenta aos 22 contos uma orelha escrita sobre si mesmo, mas em terceira pessoa.

Tido como o texto mais interessante e original do livro, a orelha assusta o leitor desavisado por desmerecer o próprio autor, e evidentemente não diz em lugar nenhum que foi o próprio Trevisan quem a escreveu. Assim, nos surpreendemos com frases como “Perdido entre a tautologia e a platitude, se pendura sobre o oco do próprio coração” e “Não nos convence. Ao contrário, o autor perdeu a batalha, nem sequer travada. Acabou a carreira”.

Nos contos desfilam o que a orelha chama de “uma nova galeria de monstros morais: fornicários, sodomitas, pedófilos, sadistas, maníacos”. Narrativas curtas e precisas, mas pesadas como chumbo, um chumbo que se amarra nas pernas do leitor e o leva água abaixo, não o permitindo ver saída num mundo de perversão onde a tônica é a violência e o gozo, um mundo marcadamente masculino de prazer e sadismo, de pontas de facas obrigando virgens a transar com velhos imundos.

Muito já se acusou Trevisan, em resenhas e comentários menos pretensiosos, de estar simplesmente se repetindo, exagerando, expondo de forma tão crua as perversões sexuais que já não causam qualquer efeito senão repulsa e afastamento da narrativa. Verdade que há muitos traços de seu primeiro Novelas nada exemplares neste Macho Não Ganha Flor, a repressão da mulher, a violência do homem, a desestrutura das famílias, mas aqui parece que os acertos e os erros se acentuam e o que temos é uma mistura de três livros diferentes, três propostas diferentes que assim jogadas na mesma obra criam um simples borrão do que é a sociedade representada por Trevisan.

A primeira face social que se apresenta é a da tal humanidade perversa e pervertida, violenta e tarada onde os estupradores são os protagonistas e as belas e jovens meninas, as vítimas. Exatamente por ser o mais hediondo dos crimes e o que mais apavora o imaginário social contemporâneo, o autor o trata com proposital e apavorante crueza, nauseando o leitor, assustando a leitora, tirando do mundo qualquer possibilidade de sentido. É deste rol o conto que dá título e abre o volume, “Macho Não Ganha Flor”. E também o conto que o fecha, “Você é Virgem?”, em que uma menina de 15 anos fica sozinha em uma loja e atende homem que a estupra, mesmo sendo virgem. Este, aliás, é um dos raros contos em terceira pessoa (forma narrativa preferida de Trevisan nos primeiros livros).

Uma segunda face social e mesmo estética é a da humanidade erótica, não necessariamente perversa, talvez apenas tarada, mas fundamentalmente excitada, desesperada pelo gozo carnal e subversivo. Desta linha são os belos (e excitantes) contos “O Vestido Vermelho” e “Prova de Redação”. Aqui a violência sexual do estupro dá lugar ao sadismo e masoquismo das relações selvagens, a fêmea clama por prazer, incita o parceiro a comê-la de todas as formas, a devolver o gozo perdido:

“Nunca mais, seu puto, me fará gozar? Ordene, que eu obedeço. Ficar de pé no armário, portas e pernas abertas? Ou rendida me ajeitar de quatro? Me ofereço sem reserva às tuas massagens erógenas do eunuco na odalisca preferida do Sultão – e você, indiferente, nem pisca? Quero sentir os teus beijos pelo corpo me ungindo com o mais afrodisíaco dos óleos. Quero mordida doída na bundinha em flor. Do macho a gente espera fatal! o beijinho molhado e o tabefe ardido de mão aberta.”

Se lidos no contexto do volume, estes contos menos excitam do que assustam, pois somam-se aos contos de estupro e violência extremas, mas quando um dia se coletarem apenas os contos eróticos de Trevisan, contos de um erotismo sem culpa, de certo estes de Macho Não Ganha Flor figurarão nas primeiras páginas e serão dos mais apreciados.

Um terceiro viés, digamos assim, é o da representação de uma humanidade marginalizada. São pobres coitados, assassinos por ocasião de uma briga na favela, prostitutas exploradas, mães humilhadas por roubar ovo de Páscoa para os filhos. Contos que mais parecem depoimentos, todos em primeira pessoa, e que lembram muito o premiado volume Contos Negreiros, de Marcelino Freire. Expostos assim, em meio aos contos de violência física e sexual, parecem justificar aquela selvageria do mundo, parecem mesmo julgar e condenar a marginalidade por todos os crimes, mas se pinçarmos estes contos um a um veremos uma face de Trevisan que não é das mais exploradas, a de um crítico social disposto a denunciar desigualdades, injustiças, desmandos.

Em “Três Ovos de Páscoa” uma mulher explica para algum “doutor” que roubou três ovinhos de Páscoa porque os filhos pequenos pediram, e conta como foi presa e humilhada pelos guardas, que a levaram para a delegacia e ainda disseram: “Ah, sua cadela, cê vai chegá lá. E vai ficá pelada pra apanhar. Cê vai vê o delega que tá lá hoje!”. Na hora temos a impressão que o conto virará o fio e narrará os abusos do delegado com a mulher. Mas não, aqui o efeito pretendido é outro, não o do pavor, mas o da revolta, não o do fracasso da humanidade, mas o do fracasso das relações sociais.

O saldo, enfim, parece positivo. Sabidamente um grande contista não se faz de grandes obras, e sim de grandes contos. Desta forma, foi ótimo que Trevisan não tenha parado e nos brinde neste Macho Não Ganha Flor com pelo menos uma dúzia de belas histórias. Histórias sobretudo humanas que já vão além da perversão, além da violência física, começam a ver além dos monstros, aquém dos mestres.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 24/4/2007.

terça-feira, 10 de abril de 2007

O dinossauro de Augusto Monterroso


Marcelo Spalding

Menos de cinqüenta letras: esse é o tamanho do texto mais famoso de Augusto Monterroso, “O dinossauro”, que é também considerado o microconto mais famoso do mundo:

”Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”

O texto tornou-se célebre porque foi a partir dele que se criou a onda dos microcontos, ou microrelatos, que temos vistos nos últimos anos, inclusive na literatura brasileira. Foi no texto de Monterroso, por exemplo, que Marcelino Freire se inspirou para organizar a antologia Os cem menores contos brasileiros do século. E neste último que Laís Chaffe e a Casa Verde se basearam para os Contos de bolso e Contos de bolsa.

Mas se o nome de Monterroso já tornou-se famoso, sua obra, sua biografia e sua história são absolutamente desconhecidas no Brasil, o que prejudica inclusive a interpretação desta pérola que é “O dinossauro”.

Augusto Monterroso, hondurenho que foi ainda jovem para a Guatemala, fez carreira literária no México, para onde mudou-se em 1944, aos 23 anos, por motivos políticos. Seu primeiro livro foi publicado em 1959 com o curioso e irônico título Obras completas (y otros cuentos), o que já aponta para o estilo caricatural e satírico de sua obra. O conjunto de narrativas do livro de estréia é muito influenciado pela trajetória política do escritor, que utiliza o humor de maneira crítica para ressaltar situações de injustiça social e discriminação. Talvez por opção estética, talvez por estratégia literária diante de um período tão conturbado politicamente, já são marcas de suas narrativas a concisão, a brevidade, a caricatura e as referências cultas que o leitor não percebe numa primeira leitura. É nesta obra da metade do século que está publicado “O dinossauro”.

Dez anos mais tarde, Monterroso publica outro livro com pequenas narrativas, mas desta vez as chama de fábulas: La oveja negra y demás fábulas. A obra, que ganhou edição brasileira pela Record, traduzida por Millôr Fernandes e ilustrada por Jaguar, em 1983, traz quarenta pequenas narrativas com feitio fabular que voltam a utilizar a paródia e o humor para fazer denúncias sociais, como em “O raio que caiu duas vezes no mesmo lugar” e no texto que dá título ao livro.

“O raio que caiu duas vezes no mesmo lugar” é o menor texto da edição, com 28 palavras – bem maior que “O dinossauro” – e conta de um raio que caiu duas vezes no mesmo lugar, mas ficou muito deprimido porque achou que, na primeira vez, já tinha feito estrago suficiente. “A ovelha negra”, de 59 palavras, conta a história de uma ovelha negra fuzilada pelo rebanho em um país distante, rebanho este que, arrependido, lhe levantou uma estátua; a partir de então, sucessivamente, “cada vez que apareciam ovelhas negras eram rapidamente passadas pelas armas para que as futuras gerações de ovelhas comuns e vulgares pudessem se exercitar também na escultura”.

Na orelha da edição da Record, nomes como Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Isaac Asimov louvam o livro. O russo criado nos Estados Unidos, por exemplo, afirma que “os pequenos textos de Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem os que deles se aproximam sem a devida cautela e deixam cicatrizes. (...) Depois de ler ‘O macaco que quis ser escritor satírico’ jamais voltarei a ser o mesmo”.

O terceiro livro de Monterroso sai em 1972, Movimiento perpetuo, e se inicia com uma citação de Lope de Vega: “Quiero mudar de estilo y de razones”. Depois de um livro de “contos” e outro de “fábulas”, neste o que predomina são os ensaios ou reflexões literárias, ainda que a obra seja, como indica o título, um oscilar perpétuo entre distintos gêneros, pois como assegura o autor no prefácio o ensaio é um conto que pode inclusive se tornar um poema.

Nesta obra encontramos um texto particularmente interessante, com menos de uma página, chamado “La brevedad”. No texto, Monterroso toca no ponto central de sua obra, a brevidade, surpreendendo, entretanto, quem dele esperava um manifesto contundente em defesa deste valor. Vejamos um bom trecho em tradução livre deste resenhista:

“Com freqüência escuto elogiar a brevidade e eu mesmo fico feliz quando ouço repetir que o bom, se breve, é duas vezes bom. Contudo (...) o escritor de brevidades nada anseia mais no mundo do que escrever interminavelmente grandes textos, grandes textos em que a imaginação não tenha que trabalhar, em que depois de feito, coisas, animais e homens se cruzem, se busquem ou fujam, vivam, convivam, se amem ou derramem livremente seu sangue sem se sujeitar ao ponto e vírgula, ao ponto. A este ponto que neste instante me é imposto por algo mais forte que eu, algo que respeito e que odeio.”

Seis anos depois, Monterroso publica a novela Lo demás es silencio, única narrativa longa de sua vida, em que narra a vida de um escritor, Eduardo Torres, tido por alguns como alter-ego do próprio autor. Talvez seja a vitória do autor sobre o ponto e a vírgula ou a libertação política que o tenha permitido estender-se.

Claro que daqui do Brasil, onde não se tem acesso a obra de Monterroso, é difícil falar que a escrita elíptica e repleta de silêncios é uma forma de lidar com o conturbado período latino-americano, os anos sessenta de muita violência e repressão. Sabe-se, porém, que sua obra esconde numa aparente simplicidade e ingenuidade diversas referências cultas e provoca profundas reflexões no leitor, como já dissera Asimov. Ler “O dinossauro” como um reles jogo de linguagem, portanto, pode ser apenas metade da verdade do texto, que talvez esconda, a partir do substantivo dinossauro, o adjetivo jurássico que bem caberia a tantos governantes de então, jurássicos porque carnívoros, selvagens, violentos e antiquados, ainda que fortes e poderosos.

Não por acaso, antes de morrer em 7 de fevereiro de 2003, Monterroso foi condecorado com a Águila Azteca por seu aporte à cultura do México e viu sua obra fazer parte de coletâneas com os melhores livros do século XX em língua espanhola. Notícias, aliás, que me deixaram muito feliz, pois fica evidente que um bom texto, seja grande ou micro, só nasce de um grande autor.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 10/4/2007.