terça-feira, 6 de março de 2007

Nem capitalismo, nem socialismo, nem morte


Marcelo Spalding

Quando Hugo Chávez jurou, em alto e bom som, no dia 10 de janeiro de 2007, “Pátria, socialismo ou morte”, o mercado tremeu. Alguns governos riram. O mundo refletiu.

Chávez é hoje o genuíno representante da corrente de pensamento que mais abalou o capitalismo moderno, herdeiro próximo de Fidel Castro, seguidor de Marx e dos russos da Revolução de Outubro. Isolado num pequeno país, respaldado pelas urnas e financiado pelo petróleo que jorra das terras venezuelanas, já anunciou para esse terceiro mandato a nacionalização de empresas como a CANTV – maior telefônica do país –, sua filial de telefonia celular e a Companhia Elétrica de Caracas, todas controladas por empresas estrangeiras, além de ameaçar a maior cadeia de televisão do país, a RCTV, de não renovar sua concessão. Contrárias às leis e convenções de mercado em voga há mais de século, as medidas de Chávez não são inéditas mas parecem anacrônicas depois da queda do Muro de Berlim e do chamado “fim do socialismo”.

Ocorre que Hugo Chávez é propositivo. Como comandante de um Estado, ele não apenas critica nos discursos e tenta amenizar nas políticas o efeito do capitalismo dominante – como fazem muitos sociais democratas latino-americanos –, Chavéz parece realmente acreditar na receita marxista e leninista para seu país, e por isso soa tão anacrônico. Com mandato até 2013, é possível que consiga aplicar muito dessa receita e é com atenção que acompanharemos suas tentativas. Mas não se pode ver a experiência da Venezuela como uma atitude isolada, e sim como sinal da permanência do pensamento marxista, que não sucumbiu sob os escombros do Muro de Berlim e ecoa hoje nas academias, nos parlamentos e na cultura.

É no âmbito cultural, aliás, mais do que no político, que a resistência de aderir completamente ao capitalismo financeiro contemporâneo é maior, e vozes destoantes do pensamento único seguem fazendo música, literatura, artes, intervenções e mesmo cinema, sem a fúria, o medo e a paixão dos tempos negros da Guerra Fria, mas com as mesmas inquietações. No lirismo de um Hatoum em Cinzas do Norte ou na denúncia social de um Freire em Contos Negreiros, na contundência de um Pepetela ou nas alegorias de um Saramago perpassa a preocupação social e a denúncia das desigualdades abissais que nosso sistema não apenas permite como promove há anos e anos. Mas mesmo as obras literárias de hoje são mais reflexivas do que propositivas – não há hoje espaço para um Jorge Amado pregando a revolução socialista, por exemplo –, primeiro porque as decepções são muitas e as verdades, raras, depois porque a cultura está submetida a um mercado e ele tem, sim, sua lógica e suas regras.

Uma das exceções no mercado cultural é a Editora Expressão Popular. Voz destoante em meio a grandes editoras comerciais, desde 1999 publica o que eles chamam de “livros bons, de boa qualidade e a preços acessíveis, com o compromisso de construir um novo mundo e a certeza de que essa possibilidade será tanto maior quanto maior for o acesso dos homens e mulheres, sujeitos e protagonistas dessa construção, aos saberes desenvolvidos nesse rumo”.

Demonstrando vitalidade, a editora já tem mais de 100 títulos que vão de literatura a ensaios biográficos divididos em coleções chamadas de “Imperialismo”, “Assim lutam os povos”, “Trabalho e Emancipação” e “Revoltas Militares”, por exemplo. No começo de 2007, lançou diversas obras, como Da guerrilha ao socialismo – a Revolução Cubana, de Florestan Fernandes, O Estado e a revolução, de Vladmir Lenin, O trabalho no espaço da fábrica – um estudo da General Motors em São José dos Campos (SP) , de Gilberto Cunha Franca, e Privatização da CSN – da luta de classes à parceria, de Edílson Graciolli.

Em Da guerrilha ao socialismo, obra do final dos anos 70, Florestan Fernandes elabora um minucioso – e entusiasmado – quadro teórico da experiência cubana, desde suas origens históricas até as experiências de implantação do poder popular. No prefácio, Antônio Cândido afirma que a leitura é tensa mas compensadora, pois o leitor sai dela com um conhecimento privilegiado da Revolução Cubana. Agora imagine o quanto seria enriquecedor para nós, leitores pós-89 que estamos assistindo aos últimos anos de Fidel Castro e à transformação da China comunista em potência capitalista.

É também de Florestan Fernandes a apresentação de O Estado e a revolução, de Lenin, obra publicada em agosto de 1917, pouco antes da Revolução de Outubro que marcaria a história mundial no século XX. O livro procura demonstrar, a partir de denso estudo das obras de Marx e Engels, como o Estado é um instrumento de exploração da classe oprimida, incitando os trabalhadores a tomar o poder do Estado para, numa fase posterior, destruí-lo, ainda que para tanto seja necessária repressão: “a substituição do Estado burguês pelo Estado proletário não é possível sem uma revolução violenta”, escreve Lenin.

Lenin, mais do que um documento de inestimável valor histórico pela proximidade da revolução que lideraria, faz uma interpretação valiosa da obra de Marx, uma interpretação mais belicosa do que os marxistas europeus do século XX costumavam fazer que em certos trechos chega a assustar um leitor do século XXI, leitor que mesmo consciente da desigualdade social do mundo contemporâneo já cansou de guerras, revoluções e mortes.

“Quem só reconhece a luta de classes não é ainda marxista e pode muito bem não sair dos quadros do pensamento burguês e da política burguesa. Limitar o marxismo à luta de classes é truncá-lo, reduzi-lo ao que é aceitável para a burguesia. Só é marxista aquele que estende o reconhecimento da luta de classes ao reconhecimento da ditadura do proletariado. A diferença mais profunda entre o marxista e o pequeno (ou grande) burguês ordinário está aí.”

Adiante, vai além ao justificar a necessidade da revolução:

“Uma revolução é, certamente, a coisa mais autoritária que há, um ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra, com auxílio dos fuzis, das baionetas e dos canhões, meios por excelência autoritários; e o partido que triunfou tem de manter a sua autoridade pelo temor que as suas armas inspiram aos reacionários. Se a Comuna de Paris não se tivesse utilizado, contra a burguesia, da autoridade do povo em armas, teria ela podido viver mais de um dia?”

À época a Rússia estava arrasada pelos efeitos não apenas da economia como da Primeira Grande Guerra e as promessas do comunismo eram uma saída, talvez a única, talvez a última. De fato, para aquela geração, parecia ser socialismo ou morte. Mas hoje, quase cem anos depois das palavras contundentes e emocionadas de Lenin, depois de assistirmos aos abusos ditatoriais do governo bolchevique e da impossibilidade de atingir o passo supremo do socialismo – o comunismo – é no mínimo perigoso não dar outra alternativa a uma pátria se não “socialismo ou morte”, como fez Hugo Chávez. Mas tão perigoso quanto é renegar as mazelas que a sociedade capitalista aprofunda e produz sob pena de sucumbirmos diante da criminalidade, da crise ambiental, da falta de expectativas. Ao invés de pegarmos em armas ou participarmos de forma hedonista do oba-oba capitalista, parece que chegou a hora de procurarmos alternativas, palavras que produzam melhor frase do que a pronunciada por Chávez. Nem capitalismo, nem socialismo, nem morte.

Para ir além
Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 6/3/2007.

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