terça-feira, 27 de março de 2007

Sexo, drogas e rock’n’roll



Marcelo Spalding

Você certamente já ouviu essa expressão, e se viveu a juventude pelos anos sessenta, setenta, com despreendimento o bastante e dinheiro o suficiente, é bem capaz de ter vivido na pele a fase do sexo, drogas e rock’n’roll. Confesso que passei ao largo dessa geração e nunca achei que essa filosofia de vida tivesse sido seguida à risca por muita gente, atribuindo o rótulo a mais uma simplificação midiática ou hollywoodiana. Isso até ler Tempos heróicos (Letras Brasileiras, 2006, 168 págs.)

Jakzam Kaiser narra em primeira pessoa a história de Beto, um adolescente que aos onze anos vê sua família ruir – com o pai saindo de casa para morar com outra –, cedo conhece o álcool, as drogas, o prazer do sexo livre e um pouco mais tarde a política num tempo de ditadura militar e reconstrução da UNE, a União Nacional dos Estudantes. Num momento histórico conturbado e perigoso, de muita repressão e maior ainda ânsia por liberdade, uma parcela da juventude forja sua identidade partindo para a luta, a luta física contra os grupos de bairros – e depois contra a polícia opressora – e a luta contra os costumes, jogando-se de alma nas drogas e de corpo no sexo.

O narrador baseia sua história numa espécie de inventário de suas transas, com as mais belas e variadas garotas, todas sempre disponíveis, ninfomaníacas e gostosas, além de quase todas chapadas, o que permite ao leitor mergulhar de cabeça na velha e boa expressão sexo, drogas e rock’n’roll em uma leitura leve e alucinante. No terceiro capítulo, onde a personalidade do protagonista está formada e a vida mais estabilizada, a narrativa se transforma numa sucessão de cenas tal qual videoclipe da MTV, representando talvez o ritmo de vida do protagonista ou a repetição cansativa dos fatos cotidianos.

“Domingo, sete e meia da manhã, convenção do PT na Assembléia Legislativa. Ao lado de casa. Saio com Luana, sem dormir. Olheiras fundas. Assino a lista, vejo que a manhã será chata, o pau vai comer de tarde. Volto em casa para um cochilo. Os pensamentos erram pelos escaninhos cerebrais. Penso na militância, nos nossos dogmas, em como não sabemos nada, não somos donos de porra de verdade nenhuma. Temos que buscá-la dentro de nós. Não há consciência sem convicção, e não sinto mais a mesma intensidade em relação ao PT, à militância. Acordo assustado. Luana é grupo de risco, tenho merda na cabeça, devia ter usado camisinha, mas nem tenho em casa. Almoço na mãe, a preocupação não sai da cabeça. Encontro Úrsula na convenção, só cumprimento, ela vem falar comigo, vamos para a Duque, fumamos um, transamos e paz e amor de novo. O domingão acaba em sua casa, jantando uma massa deliciosa e vendo Disque M para Matar, Hitchcock sempre bom. Mas o grilo não sai da minha cabeça.”

Alguns poderão ver a obra como uma reconstrução corajosa de uma época e geração, e aí a colocariam ao lado de outras como A idade da paixão, Caminhando na chuva, Ana Sem Terra ou É tarde para saber, obras que aos poucos vão compondo de forma muito rica a história recente do Rio Grande do Sul. Mas basta terminarmos a leitura e conhecermos um pouquinho da história de Jakzam para descobrir que há muito de memórias naquelas páginas, muito mais do que de invenção.

Não que isso seja um defeito, ao contrário. Da forma como os episódios se desencadeiam, com o protagonista cada vez mais viciado em drogas e sexo e sempre se safando praticamente intacto, além de prosperar profissionalmente de forma invejável, a obra, enquanto ficção pura, soaria inverossímil. Não estamos dizendo irresponsável tampouco politicamente incorreta, os livros não estão aí para ensinar ninguém a usar camisinha ou ficar longe das drogas, mas ao leitor desavisado parece impossível que depois de tanta curtição e subversão o protagonista não fosse preso, não ficasse doente, dependente, louco, desempregado, enfim, que sobre ele não caísse nenhuma daquelas maldições que os pais e a mídia sempre reforçam.

Como não caiu, a impressão que fica para o leitor é de um saldo extremamente positivo: esquecemos que Beto é um sobrevivente que teve a sorte que faltou para um Cazuza e um Renato Russo, por exemplo. E se Beto é mesmo Jakzam, talvez um livro de memórias atraísse mais leitores e aproximasse mais o leitor, ainda que nesse caso o autor pudesse ser acusado daquelas balelas de irresponsabilidade por incentivar isso ou aquilo.

* * *

Hoje Jakzam Kaiser é editor de uma das promessas no mercado editorial brasileiro, a Letras Brasileiras, com edições cada vez mais belas, coloridas e bem acabadas (como o próprio Tempos heróicos). E do alto de seus quarenta e poucos anos, vinte de casado, conversou conosco sobre a obra e os temas que ela suscita num rápido pingue-pongue que merece ser reproduzido:

Apesar de ser sua primeira obra de ficção, há muito de sua autobiografia na história. Por que contar sua história?

Não há uma explicação, aconteceu meio por acaso. A idéia do livro era recuperar a atmosfera da época, registrar o modo de vida daquela geração. Na hora de escrever, acabei inspirado pelos autores que me fizeram a cabeça na época, Kerouac, Bukowsky, Henry Miller, Alexis Evremides (que, aliás, a Editora vai publicar)... Gente que escrevia na primeira pessoa, um jeito de escrever que sempre me pareceu mais eficiente para atingir a emoção e o ritmo que eu desejava dar ao texto. A escolha por episódios vividos ou experimentados pessoalmente, ou por amigos próximos, ou nem tão amigos assim, mas presenciados, deu-se porque o material era suficientemente rico para sustentar o projeto de criar a atmosfera da época. Também tinha o viés de mostrar o ingresso do adolescente da época no mundo adulto, como era a formação/construção das personalidades, e a opção pelo texto em primeira pessoa facilitava a tarefa.

Você acha que a história do Beto é a síntese dessa geração que cresceu na ditadura militar ou é apenas uma parte dessa geração?

Acho que é significativo da geração, sim, mas apenas parte dela teve protagonismo, quero dizer, se arriscava a realmente experimentar. Acho que a maior parte tinha vontade, mas por motivos diversos era mais espectadora.

Você acha que a juventude de hoje está muito diferente da sua, mais careta? Por quê?

Diferente, sim. Mais careta, não sei... Naquela época não tinha internet, nosso universo era a rua, o mundo real, com cheiro, toque, gosto. Tinha sangue, dor, suor e cansaço físico. Me parece que a diferença maior entre a geração atual e a minha é que a atual vive mais o mundo virtual que o real. Havia, também, uma maior consciência (ou interesse por) política, movimento estudantil... Isso perdeu-se no tempo.

Você não teme que uma história como a sua incentive os jovens a buscar nas drogas ou no sexo o sentido para uma vida sem sentido em tempos de enorme violência urbana e AIDS?

Ah... não mesmo! Tenho dois filhos, um de doze e um de oito, que irão ler o livro um dia. Pensei nisso, que eles podiam usar o livro como pretexto pra “liberar” geral, entender que estavam sendo incentivados... Mas eu acredito, sinceramente, no exercício do livre arbítrio baseado na liberdade individual. Se o cara quiser usar drogas ou ter sexo promíscuo, não tenho nada a ver como isso. Vou rezar para meus filhos sobreviverem à curiosidade natural da adolescência/juventude e à explosão dos seus hormônios. E confiar que os eduquei e preparei bem para enfrentarem o mundo lá fora. É só o que um pai pode fazer. Ademais, um cara que tem acesso ao livro tem recursos e informações pra usar camisinha – se trepar sem plastificar o pau porque acha que tem o corpo fechado é problema dele. E quanto aos tempos de enorme violência urbana... tudo que acontece hoje já acontecia naquela época. Pode estar mais generalizado, pode ter maior cobertura na mídia. Mas seqüestro, crime organizado, traficante, turma barra pesada, a não-confiança na polícia, tudo isso já existia. A diferença é que a omissão do Estado aumentou.

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 27/3/2007.

terça-feira, 6 de março de 2007

Nem capitalismo, nem socialismo, nem morte


Marcelo Spalding

Quando Hugo Chávez jurou, em alto e bom som, no dia 10 de janeiro de 2007, “Pátria, socialismo ou morte”, o mercado tremeu. Alguns governos riram. O mundo refletiu.

Chávez é hoje o genuíno representante da corrente de pensamento que mais abalou o capitalismo moderno, herdeiro próximo de Fidel Castro, seguidor de Marx e dos russos da Revolução de Outubro. Isolado num pequeno país, respaldado pelas urnas e financiado pelo petróleo que jorra das terras venezuelanas, já anunciou para esse terceiro mandato a nacionalização de empresas como a CANTV – maior telefônica do país –, sua filial de telefonia celular e a Companhia Elétrica de Caracas, todas controladas por empresas estrangeiras, além de ameaçar a maior cadeia de televisão do país, a RCTV, de não renovar sua concessão. Contrárias às leis e convenções de mercado em voga há mais de século, as medidas de Chávez não são inéditas mas parecem anacrônicas depois da queda do Muro de Berlim e do chamado “fim do socialismo”.

Ocorre que Hugo Chávez é propositivo. Como comandante de um Estado, ele não apenas critica nos discursos e tenta amenizar nas políticas o efeito do capitalismo dominante – como fazem muitos sociais democratas latino-americanos –, Chavéz parece realmente acreditar na receita marxista e leninista para seu país, e por isso soa tão anacrônico. Com mandato até 2013, é possível que consiga aplicar muito dessa receita e é com atenção que acompanharemos suas tentativas. Mas não se pode ver a experiência da Venezuela como uma atitude isolada, e sim como sinal da permanência do pensamento marxista, que não sucumbiu sob os escombros do Muro de Berlim e ecoa hoje nas academias, nos parlamentos e na cultura.

É no âmbito cultural, aliás, mais do que no político, que a resistência de aderir completamente ao capitalismo financeiro contemporâneo é maior, e vozes destoantes do pensamento único seguem fazendo música, literatura, artes, intervenções e mesmo cinema, sem a fúria, o medo e a paixão dos tempos negros da Guerra Fria, mas com as mesmas inquietações. No lirismo de um Hatoum em Cinzas do Norte ou na denúncia social de um Freire em Contos Negreiros, na contundência de um Pepetela ou nas alegorias de um Saramago perpassa a preocupação social e a denúncia das desigualdades abissais que nosso sistema não apenas permite como promove há anos e anos. Mas mesmo as obras literárias de hoje são mais reflexivas do que propositivas – não há hoje espaço para um Jorge Amado pregando a revolução socialista, por exemplo –, primeiro porque as decepções são muitas e as verdades, raras, depois porque a cultura está submetida a um mercado e ele tem, sim, sua lógica e suas regras.

Uma das exceções no mercado cultural é a Editora Expressão Popular. Voz destoante em meio a grandes editoras comerciais, desde 1999 publica o que eles chamam de “livros bons, de boa qualidade e a preços acessíveis, com o compromisso de construir um novo mundo e a certeza de que essa possibilidade será tanto maior quanto maior for o acesso dos homens e mulheres, sujeitos e protagonistas dessa construção, aos saberes desenvolvidos nesse rumo”.

Demonstrando vitalidade, a editora já tem mais de 100 títulos que vão de literatura a ensaios biográficos divididos em coleções chamadas de “Imperialismo”, “Assim lutam os povos”, “Trabalho e Emancipação” e “Revoltas Militares”, por exemplo. No começo de 2007, lançou diversas obras, como Da guerrilha ao socialismo – a Revolução Cubana, de Florestan Fernandes, O Estado e a revolução, de Vladmir Lenin, O trabalho no espaço da fábrica – um estudo da General Motors em São José dos Campos (SP) , de Gilberto Cunha Franca, e Privatização da CSN – da luta de classes à parceria, de Edílson Graciolli.

Em Da guerrilha ao socialismo, obra do final dos anos 70, Florestan Fernandes elabora um minucioso – e entusiasmado – quadro teórico da experiência cubana, desde suas origens históricas até as experiências de implantação do poder popular. No prefácio, Antônio Cândido afirma que a leitura é tensa mas compensadora, pois o leitor sai dela com um conhecimento privilegiado da Revolução Cubana. Agora imagine o quanto seria enriquecedor para nós, leitores pós-89 que estamos assistindo aos últimos anos de Fidel Castro e à transformação da China comunista em potência capitalista.

É também de Florestan Fernandes a apresentação de O Estado e a revolução, de Lenin, obra publicada em agosto de 1917, pouco antes da Revolução de Outubro que marcaria a história mundial no século XX. O livro procura demonstrar, a partir de denso estudo das obras de Marx e Engels, como o Estado é um instrumento de exploração da classe oprimida, incitando os trabalhadores a tomar o poder do Estado para, numa fase posterior, destruí-lo, ainda que para tanto seja necessária repressão: “a substituição do Estado burguês pelo Estado proletário não é possível sem uma revolução violenta”, escreve Lenin.

Lenin, mais do que um documento de inestimável valor histórico pela proximidade da revolução que lideraria, faz uma interpretação valiosa da obra de Marx, uma interpretação mais belicosa do que os marxistas europeus do século XX costumavam fazer que em certos trechos chega a assustar um leitor do século XXI, leitor que mesmo consciente da desigualdade social do mundo contemporâneo já cansou de guerras, revoluções e mortes.

“Quem só reconhece a luta de classes não é ainda marxista e pode muito bem não sair dos quadros do pensamento burguês e da política burguesa. Limitar o marxismo à luta de classes é truncá-lo, reduzi-lo ao que é aceitável para a burguesia. Só é marxista aquele que estende o reconhecimento da luta de classes ao reconhecimento da ditadura do proletariado. A diferença mais profunda entre o marxista e o pequeno (ou grande) burguês ordinário está aí.”

Adiante, vai além ao justificar a necessidade da revolução:

“Uma revolução é, certamente, a coisa mais autoritária que há, um ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra, com auxílio dos fuzis, das baionetas e dos canhões, meios por excelência autoritários; e o partido que triunfou tem de manter a sua autoridade pelo temor que as suas armas inspiram aos reacionários. Se a Comuna de Paris não se tivesse utilizado, contra a burguesia, da autoridade do povo em armas, teria ela podido viver mais de um dia?”

À época a Rússia estava arrasada pelos efeitos não apenas da economia como da Primeira Grande Guerra e as promessas do comunismo eram uma saída, talvez a única, talvez a última. De fato, para aquela geração, parecia ser socialismo ou morte. Mas hoje, quase cem anos depois das palavras contundentes e emocionadas de Lenin, depois de assistirmos aos abusos ditatoriais do governo bolchevique e da impossibilidade de atingir o passo supremo do socialismo – o comunismo – é no mínimo perigoso não dar outra alternativa a uma pátria se não “socialismo ou morte”, como fez Hugo Chávez. Mas tão perigoso quanto é renegar as mazelas que a sociedade capitalista aprofunda e produz sob pena de sucumbirmos diante da criminalidade, da crise ambiental, da falta de expectativas. Ao invés de pegarmos em armas ou participarmos de forma hedonista do oba-oba capitalista, parece que chegou a hora de procurarmos alternativas, palavras que produzam melhor frase do que a pronunciada por Chávez. Nem capitalismo, nem socialismo, nem morte.

Para ir além
Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 6/3/2007.