terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Nem memórias nem autobiografia, mas Saramago


Marcelo Spalding

As memórias de As pequenas memórias (Companhia das Letras, 2006, 144 págs.) são realmente pequenas, efêmeras, fragmentadas. E tanto que o leitor não conseguirá penetrar nas memórias, preocupações, medos e concepções ideológicas do jovem Zezinho. Também não se pode falar de autobiografia: Saramago não vai além dos quinze anos e mesmo assim pouco se sabe a não ser indícios sobre a conturbada relação dele com o pai ou a saída do Liceu Gil Vicente. Ainda assim, vale a pena: é Saramago.

Único prêmio Nobel de Literatura em língua portuguesa, José Saramago é um dos mais festejados escritores vivos, com traduções em diversas línguas e elogios até do exigente e liberal Harold Bloom. No Brasil, cada palestra sua transforma-se em evento extremamente concorrido – também pelas suas posturas esquerdistas – e multiplicam-se estudos acadêmicos sobre ele: na plataforma Lattes, por exemplo, retornam 464 currículos de pesquisadores com a palavra Saramago e, só para comparar, 157 para Eça de Queirós e 210 para Jorge Amado.

É natural, portanto, que um livro de memórias de Saramago fosse aguardado com grande expectativa, e não se poderia esperar nada menor do que um As palavras, de Sartre – o francês também se voltara para a infância mais remota em sua autobiografia publicada em 1964, mesmo ano, aliás, em que recusa o prêmio Nobel. Mas já nas primeiras páginas o leitor de Saramago percebe que a intenção é outra, e ao longo das páginas fica ainda mais evidente que a infância de Saramago é muito diversa da de Sartre para esperar-se dele um livro como o do francês.

Através de pequenas narrativas de em média uma ou duas páginas, Saramago – que em Manual de Pintura e Caligrafia, de 1977, já havia feito uma “espécie de autobiografia oblíqua” mas precoce, levando em conta que seus romances de grande sucesso surgem a partir dos anos 80 – vai enumerando episódios e apresentando personagens fundamentais para sua infância e começo de adolescência, como os avós maternos, a mãe, a tia Maria Natália e os vizinhos Baratas. Narrando quase que em terceira pessoa, refere-se ao menino com o distanciamento crítico dos setenta anos de diferença e dessa forma consegue transformar alguns episódios em verdadeiros contos, tamanha a força que tira daquele cotidiano longínquo.

São em alguns destes momentos que as profundas mágoas do homem – talvez as mágoas que o tenham transformado em escritor –, se revelam por trás do narrador irônico e melancólico hoje mundialmente famoso, como fica claro neste trecho em que refere-se ao pai.

“Meu pai não era pessoa de deixar que o filho lhe ganhasse, e, por isso, implacável, aproveitando-se da minha pouca habilidade, ia marcando golos uns atrás dos outros. O tal Barata, como agente da Polícia de Investigação Criminal que era, deveria ter recebido treino mais que suficiente quanto aos diferentes modos de exercer uma eficaz pressão psicológica sobre os detidos ao seu cuidado, mas terá pensado naquela altura que podia aproveitar a ocasião para se exercitar um pouco mais. Com um pé tocava-me repetidamente por trás, enquanto ia dizendo: 'Estás a perder, estás a perder.' O garoto agüentou enquanto pôde o pai que o derrotava e o vizinho que o humilhava, mas, às tantas, desesperado, deu um soco (um soco, coitado dele, uma sacudidela de cachorrito) no pé do Barata, ao mesmo tempo que desabafava com as poucas palavras que em tais circunstâncias poderiam ser ditas sem ofender ninguém: 'Esteja quieto!' Ainda a frase mal tinha terminado e já o pai vencedor lhe assentava duas bofetadas na cara que o atiraram de roldão no cimento da varanda. Por ter faltado ao respeito a uma pessoa crescida, claro está. Um e outro, o pai e o vizinho, ambos agentes da polícia e honestos zeladores da ordem pública, não perceberam nunca que haviam, eles, faltado ao respeito a uma pessoa que ainda teria de crescer muito para poder, finalmente, contar a triste história. A sua e a deles.”

Em outra passagem, Saramago lembra do dia em que foi pego por alguns meninos da rua, ele ainda com dois aninhos, levado para uma construção abandonada, amarrado e despido. Conta como os meninos pegaram um arame do chão e enfiaram na sua uretra até sangrar, e quando sangrou saíram correndo. “Sarei das feridas internas com muita sorte porque um arame apanhado do chão tinha tudo para ser, em princípio, o melhor caminho para um tétano”, conta.

Ainda que predomine o tom melancólico, em que a criança é sempre derrotada, ludibriada ou desiludida, como em qualquer viagem à infância são relembradas manhãs no quintal da avó, as primeiras conquistas escolares, os amores juvenis, intensos ou ingênuos, a primeira vez que lê um jornal diante dos adultos estupefatos e as felizes tardes de cinema – aliás, como Sartre deixa bastante evidente em As palavras, o cinema foi a melhor e mais freqüente diversão também do menino Saramago, apenas dezessete anos mais velho que o francês, confirmando a importância da sétima arte no século XX.

A publicação anterior daquela “autobiografia oblíqua” de certo foi fundamental na opção estética destas pequenas memórias, pois o autor chega a pedir desculpas por repetir uma história já contada no Manual de Pintura e Caligrafia ao explicar que Saramago, na verdade, era o apelido de sua família, e não seu sobrenome; não fosse o engano – ou a brincadeira – do escrivão, o nosso Nobel chamar-se-ia José de Sousa (ou teria arranjado um bom pseudônimo). Mas não foi esta precoce autobiografia o único motivo de as memórias de Saramago terem saído assim, fragmentadas, difusas, quase prosaicas.

Sartre desde as primeiras páginas conta como sua relação com os livros foi precoce, lembra do rico avô e sua vasta biblioteca, das leituras e releituras de Madame Bovary quando era criança até a descoberta dos romances de cavalaria, lidos sob censura do avô e incentivo da mãe. Sartre tem aulas com uma professora particular contratada pelo avô, que achava a escola fraca demais, participa de montagens teatrais, escreve histórias e poesias. Sartre, solitário, precoce e genial, declara ter nascido da escritura, “escrevendo eu existia, escapava aos adultos: mas eu só existia para escrever, e se dizia eu, isso significa: eu que escrevo”.

Saramago, não.

Filho de casal humilde, vai aos dois anos para Lisboa onde muda-se “dez vezes em dez anos”. Faz estudos secundários (liceal e técnico) mas não pode continuar por dificuldades econômicas, tornando-se serralheiro mecânico e só depois desenhador, funcionário da saúde e da previdência social para finalmente aproximar-se das letras como editor, tradutor e jornalista. Sua lembrança de leitura mais remota é o folhetim Maria, a Fada dos Bosques, lido para ele por uma vizinha (a mãe também era analfabeta). Mais tarde, quando finalmente aprende a ler, o único exemplar que os vizinhos têm em casa e podem lhe emprestar – na casa de Saramago não havia dinheiro para livros ou jornais – é A Toutinegra do Moinho, livro francês que ele lê e relê.

Para evitar um coitadismo que em nada combinaria com sua prosa e sua posição atual, Saramago evita encarar de frente a parca formação intelectual de um menino pobre, evita trazer à tona todo o contexto da época (em que a ditadura salazarista dava seus primeiros passos) e a ideologia que espalhou por seus romances. Prefere sugerir, contar episódios, deixando para o leitor a tarefa de imaginar a dificuldade de um menino destes tornar-se o único Nobel em literatura da terra de Camões e Pessoa, para citar os maiores.

Uma opção que pode ter frustrado os que esperavam um grande ensaio combativo, irônico, crítico de toda uma sociedade, uma geração, um regime. Ou uma gênese de alguns dos mais importantes romances do século XX. Mas são, como dirá o próprio autor, “as memórias pequenas de quando fui pequeno, simplesmente”. Pequeno de tamanho, mas também pequeno de importância. Livre do peso de ser Saramago.

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 6/2/2007.

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