terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Com a palavra, as gordas, feias e mal amadas


Marcelo Spalding

Quando Cláudia Tajes publicou A vida sexual da mulher feia, no finzinho de 2005, ninguém poderia prever o sucesso do livro – pelo menos naquele verão – chegando a figurar entre os mais vendidos na categoria de não-ficção (sic). Narrado em primeira pessoa, o romance mais parece um diário ou um livro de memórias em que a feiosa Jucianara relembra de seus casos mal fadados e de sua dificuldade com os homens, tudo contado numa linguagem simples, com um bom humor constante mas pontadas certeiras de melancolia. Enfim, fórmula infalível para o sucesso de verão: boa escritora, bom tema, tratamento adequado (leia-se "leve").

Agora Cíntia Moscovich, também mulher, também gaúcha, também ótima escritora, publica Por que sou gorda, mamãe? (Record, 2006, 252 págs.), um livro também narrado em primeira pessoa em que ficção e realidade se confundem, um livro em que a protagonista também luta contra a estética e também deixa perpassar um fino ressentimento de mulher mal amada (será apenas pela mãe ou também pelo marido?). Semelhanças que talvez não sejam mera coincidência: Cláudia e Cíntia são amigas, a segunda de certo leu o livro da primeira e inclusive a convidou para escrever na orelha do seu romance.

Por que sou gorda, mamãe? é uma carta à mãe, onde a narradora – que jamais menciona seu nome – anuncia o início de um severo regime e o começo da escritura de suas memórias como forma de investigar as causas dessa obesidade. Menina judia de classe média, não deixa de mencionar a difícil chegada de seus antepassados ao país, as histórias das avós – a Gorda e a Magra – e o carinho que guardava por elas, a saudade do pai, já morto, a adolescência tresloucada mas sobretudo, sempre, em cada página, em cada linha, o que relembra é a dificuldade de relacionamento com a mãe.

“Entenda, a senhora: não tenho jeito ou paciência de fazer de meu amor substância, exceto por algo de meu tempo ao telefone. Fora isso, mamãe, fora do contato por um fio, a porta da rua vira mais do que serventia da sua casa, e o amor de uma filha por sua mãe é só pretexto para a ficção. Por isso, acho, virei escritora. Talvez por isso eu tenha virado uma escritora com corpo de prima-dona: a boca preenchida tem contato direto com o coração.”

Diga-se desde já que a mãe era magra e esbelta, não precisava passar pelas humilhações dos regimes nem pelo sacrifício dos exercícios físicos, o que força a narradora a ingratas comparações – “eu sabia que não era bonita nem atraente. Era só nos comparar, as duas. Eu era criança, mas não era burra” –, comparações que expõem toda a fragilidade de ambas e faz com que a filha sinta a necessidade de escrever esta carta melancólica porém sincera, em que relembra cada momento da sua vida em que a mãe esteve ausente, doente ou neurótica.

“Vovó fora acusada de desamor anos a fio, eu já havia escutado aquela história antes. Mas parecia naquele momento algo mais severo e grave. A vó continuou com o rosto escorado pela mão olhando os bicos dos sapatos, como se tudo dependesse dos bicos dos sapatos – e eu me meti numa conversa de adultos, numa conversa que não era minha, me interpus entre vocês duas, e pedi que a senhora, mamãe, parasse com aquilo, a senhora estava maltratando a avó. (...) E foi só então que a senhora viu que eu estava na sala, e levantou a mão para mim, como quem vai desferir um tapa, e eu cobri o rosto com o braço, e o tapa não veio, felizmente não veio, e a senhora levantou o queixo, orgulhosa como quem diz a verdade de uma vida, e passou os dedos entre os cabelos, ajeitando o penteado desfeito à altura da nuca, e saiu dali com passos pesados de neurose, rejeição e trauma.”

A temática do relacionamento afetivo já estava presente na primeira narrativa longa de Cíntia, Duas Iguais, lançada em 1998, onde duas meninas lutam por um amor impossível. Mas ao mudar o motivo da narração para algo tão jocoso como o excesso de peso de quem escreve, uma pessoa bem resolvida profissionalmente – a narradora tornou-se jornalista e escritora ainda que o pai e a mãe a desejassem médica ou advogada –, equilibrada financeiramente – a ponto de pagar um médico endocrinologista – e casada, Cíntia aproxima-se mais do leitor médio e, como Cláudia, evidencia como a preocupação com o corpo no mundo de hoje ganha importância.

Muito mais do que lamentar o excesso de peso, a filha-narradora deixa transparecer um profundo questionamento sobre os valores sociais em que sequer a relação entre a família está preservada, relação esta fundamental para que seus antepassados prosperassem em terra estrangeira. Olhar-se no espelho e ver-se gorda é deixar de ver-se triste, melancólica, solitária, talvez sem um sentido evidente para a vida. É deixar de procurar uma bandeira mais importante a erguer do que a perda de peso.

Verdade que a própria narrativa toca nos dois extremos desta aparentemente banal guerra com a balança. A narradora confessa, quase no fim do livro, que na adolescência chegou a sofrer tonturas e desmaios, tornando-se quase bulímica, “em tempos que bulimia e anorexia eram neologismos de uso alheio”. Por outro lado, lembra de um episódio em que o pai deu carona para suas três tias paternas, todas extremamente gordas, e tanto que não conseguiam sequer entrar no carro sem a ajuda do irmão, e tanto que, quando finalmente as três entraram, quebrou-se o carro (aliás este capítulo, com feitio de conto, é um dos pontos altos do livro, o que não poderia ser diferente se tratando Cíntia de uma exímia contista).

Não espere a leitora, talvez gorda, talvez triste, de certo filha e talvez também mãe, não espere a leitora um livro de auto-ajuda e não coloquem as revistas o livro nas listas dos mais vendidos de não-ficção. Cíntia faz ficção, romance na mais clássica definição lukacsiana em que encontrar o equilíbrio físico é mais do que deixar de comer frituras ou correr trinta minutos por dia, é descobrir-se, investigar-se, vasculhar a própria identidade em busca de valores ainda sólidos que justifiquem o esforço diário de viver e devolvam o prazer diário de viver. Viver num mundo de beldades siliconadas mesmo sendo gorda e feia, desde que nunca mal amada.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 30/1/2007.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Machado de Assis dos folhetins ao Orkut


Marcelo Spalding

Acertem os ponteiros do relógio, mudem as folhinhas do calendário, prestem atenção na configuração do computador: estamos em 2007. E, para aqueles que por um motivo ou outro adoram Machado de Assis (sim, leitores desavisados, existem pessoas que adoram Machado de Assis, e a prova é que uma das comunidades dele no Orkut tem mais de 60 mil membros!), estamos às vésperas do centenário de morte deste gênio.

E um centenário de nascimento ou morte não é pouca coisa. Até 1939, por exemplo, quando Machado completaria cem anos de nascimento, sua obra não tinha nem metade da importância que tem hoje para as letras brasileiras, tanto que escritores como Mário de Andrade e Monteiro Lobato desdenhavam sua produção, um chamando-o de “colonizado”, o outro de “alguém com as costas voltadas para o Brasil”. Afora esta importância atingida com o passar dos anos, já faz quase setenta anos deste primeiro centenário, o que indica que em 2008, ou até lá, teremos uma profusão de congressos, reportagens e livros sobre Machado de Assis.

Um gênio brasileiro (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, 416 págs.), do jornalista Daniel Piza, parece ser um dos primeiros a atentar para a próxima onda do centenário. A biografia foi notícia nos melhores suplementos culturais da mídia, figurou em algumas vitrines de boas livrarias e ficou entre as três melhores biografias do ano no Prêmio Jabuti. Mais do que isso, já em junho de 2006 ganharia uma segunda edição belíssima, ilustrada, colorida e, acima de tudo, corrigida – é que a obra foi duramente criticada por gente como Luís Augusto Fischer, no Zero Hora, e Wilson Martins, primeiro no Jornal do Brasil depois na Veja, ambos apontando alguns erros de informação como a troca do nome de José Dias (o agregado de Capitu) por João Dias (erro, ou engano, já corrigido nesta segunda edição). Críticas que geraram alguma polêmica com as respostas de Piza, que no Jornal do Brasil chama Wilson Martins de “cansado” e no jornal Rascunho vê “pedantismo” nas críticas de Fischer e Martins.

Mas passemos ao largo destas briguinhas de jornal – próprias, aliás, dos tempos folhetinescos do Segundo Reinado – e vamos nos deter na obra que Piza entrega a uma geração de novos leitores de Machado, esses sessenta e tantos mil do Orkut, um público de estudantes de letras e literatura ou de jovens leitores que chegaram a Machado por causa do vestibular. Uma geração já muito distante das primeiras críticas de José Veríssimo ou Sílvio Romero, das interpretações de Helen Caldwell ou John Gledson e da última biografia até então lançada sobre o autor, de Raimundo Magalhães Júnior, cuja última versão é de 1981.

Sim, embora os críticos não pareçam ter levado em conta, parece claro que a obra de Piza não se dedica aos doutos em Machado, àqueles que como Fischer ou Martins leram todos os seus romances e conhecem profundamente tanto a biografia de Magalhães como as abordagens críticas do século XX; a obra se dedica a nós, os iniciantes, tanto que em dado momento o livro acha necessário explicar o que é a Guerra do Paraguai.

Já na apresentação o autor faz uma bela visada geral sobre a importância de Machado, toca nos chavões do estudo machadiano – como a cor mulata, a divisão da obra em fases e a pouca compreensão dos seus contemporâneos, apesar da grande fama e estima – e preocupa-se em pintar o contexto social de então com referências aos jornais que vêm e vão, quedas de gabinetes, revoltas regionais e um desfile delicioso mas quase confuso de nomes de personalidades brasileiras, de José do Patrocínio a Conde d’Eu.

Os capítulos a seguir são cronologicamente divididos e em cada um o panorama nacional é retomado, com dados históricos e reprodução de crônicas da época – muitas do próprio Machado –, assim como todos os seus livros comentados. Biograficamente descobre-se, por exemplo, que Machado não era apenas “mulato”, mas neto de escravo, ainda que escravo forro, e filho de um casal que vivia de agregado numa grande propriedade. E que é a partir da morte da mãe que o adolescente Machado, sem se entender com o pai e a madrasta, vai tentar a sorte no centro da cidade e cai no meio do furacão que era a formação da imprensa carioca. Detalhes que de certo estão em biografias anteriores, e talvez em alguns livros didáticos, mas que na linguagem clara e contemporânea de Piza e postas dentro do contexto criado por Piza ajudam a pensar na formação de um escritor que adiante deixará todas as ilusões e ingenuidades românticas de lado para representar a ambigüidade da vida e a desilusão com os homens. Uma virada que marca não só sua literatura, mas também a história da literatura brasileira.

Sobre isso, escreve Piza: “essa variedade de temas, de quadros que capta da cidade em acelerada metamorfose, rindo tanto do atraso como do falso progresso, certamente vai contribuindo para as mudanças de seu estilo, agora mais ágil, mais engraçado, mais gráfico – e ao mesmo tempo mais tolerante e mais cético. Pouco a pouco o idealista, o jovem que acreditava nas forças civilizadoras do teatro e do jornal, assim como no monarca esclarecido, vai desaparecendo. ‘O mundo está virado’, termina ele uma crônica em que comenta a chegada dos bondes a Santa Teresa.”

A biografia, por óbvio, não tenta esgotar a obra machadiana – nem sua função primeira é renovar seu estudo –, mas ela não se furta em apontar que um dos sucessos de Machado está em revelar a partir de sua obra as sutilezas da natureza humana pelos exemplos encontrados em seu tempo e lugar, transcendidos pela arte de sua imaginação e estilo. A questão de fundo é que, segundo Piza, “não se pode entender muitas coisas da obra de Machado se não se tiver em mente a riqueza de sua vida”. E a riqueza da sua vida está na riqueza do seu tempo, um tempo em ebulição com as discussões entre romantismo contra realismo, abolicionismo contra escravismo, nacionalismo contra internacionalismo, monarquia contra república, um tempo em que “o país começava a se tornar nação”.

Outro ponto importante da biografia – e fundamental para nós, leitores da nova geração – são os resumos das obras, resumos críticos, é verdade, mas que têm mais o objetivo de apresentar os textos principais para o não-leitor do que lançar novas luzes sobre eles. E quando se fala em textos fala-se dos romances, obviamente, mas também de diversos contos, alguns poemas, crônicas e um ou outro ensaio crítico famoso, como o “Instinto de Nacionalidade” e a crítica a Eça de Queirós. Para cada um destes textos é feita uma sinopse e normalmente mencionada a recepção da obra à época, o que nos mostra que Machado foi, sim, lido e saudado por seus contemporâneos mesmo na “fase romântica”.

Desta forma, resgatando os textos, os fatos mais importantes da vida e da época em que Machado viveu, a biografia cria um mosaico importantíssimo para estes leitores muito distantes da realidade machadiana, leitores tão próximos do folhetim do Segundo Reinado quanto Machado estava do Orkut destes tempos digitais. Por isso, ao invés de soar repetitiva – como acusa Martins – ou superficial – como acusariam outros – a biografia Um gênio brasileiro consegue ser clara e bastante útil para os sessenta mil fãs de Machado no Orkut e os outros tantos leitores dessa magnífica obra. É possível que a partir de Piza tais leitores procurem Caldwell, Schwarz ou o último livro de Alfredo Bosi que trata de Brás Cubas, mas em nenhum destes encontrarão um sumário tão completo e lúcido como o desta biografia – ainda que jamais entenderão profundamente o gênio se não forem além desta biografia.

Do mais, é torcer que as bibliotecas públicas de nossas universidades modestas possam adquirir pelo menos um exemplar da obra, e que novas edições sigam sendo produzidas para reparar um ou outro erro inerente a um trabalho desse porte, mas imperdoável a uma obra desta importância.

Para ir além

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 16/1/2007.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Escrever não é trabalho, é ofício


Marcelo Spalding

Poucos são os escritores consagrados em seu tempo, premiados pela crítica e queridos pelos leitores, e raros os que, depois de obter tal reconhecimento, ainda dispõem-se a compartilhar sua arte e ensinar jovens escritores sobre os ofícios e os mistérios da produção literária. Para sorte dos que moram em Porto Alegre, há nestes pagos uma destas raridades, e se trata nada mais, nada menos do que o maior romancista do Estado, Luiz Antonio de Assis Brasil.

Assis Brasil há mais de vinte anos ministra uma oficina de criação literária concorridíssima – oficina que lançou para a literatura nomes como Cíntia Moscovich, Amílcar Bettega, Michel Laub, Letícia Wierzchowski e Daniel Galera – em que ensina técnicas e discute possibilidades da criação em prosa nos moldes dos cursos de creative writting norte-americanos, de onde Assis não nega vir a inspiração. O aprendiz ouve dicas como “evite uma grande quantidade do pronome que”, “leia seu texto em voz alta”, “deixe seu texto dormir antes de reler”, “evite levar a personagem para a janela, os escritores quando não sabem o que fazer sempre colocam a personagem na janela”, e assim por diante. Mas há uma grande lição que fica de toda a oficina, de todo o pensamento do mestre: literatura é trabalho. Ou melhor, ofício.

Pois em Música perdida (L&PM, 2006, 220 págs.), mais recente romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, o protagonista é um músico com a mesma angústia de todo escritor, de todo artista, qual seja produzir uma grande obra de arte, o que permite ao narrador travestir-se daquele mestre das oficinas e dar-nos pequenas lições:

“O compositor musical convive com a natureza e os homens. Num determinado momento, sempre novo e inexplicável, uma pequena e desconhecida melodia aflora a seus lábios, e logo ele a está cantarolando. A isso pode se chamar de inspiração. O resto é trabalho de pendurar as notas no pentagrama, escolher a tonalidade, estudar os acordes, obedecer – ou não – às regras da harmonia e do contraponto. Isso, aliás, não é trabalho: é ofício, como o exercido por qualquer escritor”.

O protagonista da obra é Joaquim José de Mendanha, conhecido no Rio Grande do Sul por compor nosso hino, mas representado na obra desde a infância. Filho de maestro da pequena cidade de Itabira, Mendanha é abençoado com um ouvido absoluto (reconhece as notas musicais em cada som do cotidiano), o que motiva o pai a mandá-lo para Vila Rica a fim de estudar música. Na cidade, conhece um rico minerador, o ambíguo Bento Arruda Bulcão, que ajuda o jovem a prosseguir seus estudos no Rio de Janeiro com o célebre compositor Padre-Mestre José Maurício Nunes Garcia. E é a partir do contato com o mestre que Mendanha resolve compor, e de fato compõe uma belíssima cantata que o Padre-Mestre de pronto rejeita, mas a verdade é que ela o perturba por estar muito acima da capacidade dos ouvidos brasileiros. Por isso Mendanha, quando tiver oportunidade, deixará sua partitura com um francês que promete entregá-la a Rossini, ato este que marca sua existência, pois sua música acaba perdida. Por mais que se esforce, o músico não sabe repetir a composição que ele julga perfeita, e angustiado pela perda da música e dos entes queridos, alista-se no Exército, atravessa o Brasil e desafia a guerra de 1835 no Sul.

Como maestro do Exército, Mendanha é preso pelos rebeldes (leia-se Farroupilhas) e obrigado a compor o hino da República Rio-Grandense (melodia que se mantém no hino atual do Estado). Mas depois é recapturado pelos imperiais, pede baixa do exército e vai viver com sua esposa na longe e fria Porto Alegre do século XIX, onde trabalha como maestro, compõe diversos hinos mas convive com uma angústia que é o cerne da narrativa: não considera-se um artista. Não considera ter feito sua obra-prima. Ou melhor, acredita ter perdido para sempre a obra que lhe abriria as portas do céu devido a sua excelência.

Não é preciso forçar muito para vermos na ambição, na angústia e na meticulosidade do músico um pouco do mestre das oficinas. Logo num primeiro olhar se percebe que Música perdida é por si só fruto de muito trabalho, não este trabalho do mercado que nos exige tantas horas de produção em massa, mas um trabalho artesanal que mescla disciplina e rigor com inspiração e talento. As frases e os capítulos são curtos e densos, cada palavra foi pensada, medida, e o texto vai se desenhando como uma partitura musical repleta de ritmos e significados.

“O tio ensinou-lhe como as notas deveriam ser desenhadas, porque de desenhos se tratavam. Começou pela semibreve, um círculo branco, achatado. A semibreve soava por mais tempo. Durava quatro batidas do dedo sobre a mesa: 1, 2, 3, 4. Em seguida, a mínima, que era a semibreve com uma haste que subia, duas batidas: 1, 2. A semínima era uma notinha negra, com uma haste para cima. As colcheias eram como semínimas, mas a haste para cima. As colcheias eram como semínimas, mas a haste possuía uma bandeirola. As hastes poderiam ser para cima ou para baixo. E assim por diante. Pilar perguntou como os músicos, só olhando aquelas notas, sabiam o que tocar. 'Deus' – o tio respondeu – 'lhes dá esse dom'”.

Quem não acompanha a carreira de Assis Brasil com cuidado e leu um ou outro dos seus romances iniciais (A paixão de Jacobina, Bacia das almas, Cães da província), de certo ficará surpreso com a concisão e o minimalismo da linguagem de Música perdida. Mas há uma explicação, e esta é uma história interessante: na viragem do milênio, o autor escrevia seu décimo quinto romance quando, a certa altura, achou que estava se repetindo e apagou tudo o que tinha escrito. Conta o mestre que então abriu em sua biblioteca um livro de El Cid e deu-se conta de que dizer mais em menos espaço era a solução técnica que procurava. “Na Idade Média se fazia assim, a Bíblia é escrita assim”, ele diz. E desta forma escreveu Pintor de Retratos, lançado em 2001 e A margem imóvel do rio, de 2003, este premiado com o Jabuti e o Portugal Telecom.

Música perdida, neste contexto, é o terceiro livro depois da mudança estética, o fecho de uma trilogia que o autor chama de “Visitantes ao Sul”, e também um marco do trigésimo ano de sua estréia com Um quarto de légua em quadro, em 1976. De lá para cá, de obra em obra, sempre enraizado no Sul e com os olhos voltados para o passado de formação da nossa identidade, Assis Brasil tem se revelado um mestre em seu ofício, um mestre que não se contentaria em armar e medir com engenho palavras, frases e capítulos, mas também compor as obras e publicá-las cada uma a seu tempo, construindo assim uma sólida carreira e um conjunto ficcional perene e respeitável.

Para ir além

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 9/1/2007.