quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Por que Faraco é a favor da mudança ortográfica


Marcelo Spalding

O assunto não é novo e nem sei se interessa, mas como parece à beira de cair no ridículo e virar mais um motivo de charge da impávida imprensa, volto a ele a partir de uma palestra do lingüista Carlos Alberto Faraco.

Antes das opiniões, os fatos. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é um tratado internacional de 1990, isso mesmo, 1990!, que tem como objetivo unificar a ortografia do português, que hoje conta com duas ortografias distintas, a do Brasil e a dos demais países, encabeçados por Portugal. À época o acordo foi assinado pelos representantes oficiais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe em Lisboa, mas manobras políticas têm adiado sua efetivação, marcada agora para 2009.

O tema voltou ao noticiário porque três países ratificaram o acordo, o que permitiria, legalmente, que ele fosse implantado já a partir de 2008, alterando regras de acentuação e hifenização, entre outros. O objetivo aparente é unificar as ortografias, já que o português é a terceira língua ocidental mais falada no mundo e a única das línguas faladas por mais de cinqüenta milhões de pessoas com mais de uma ortografia oficial, o que atrapalharia inclusive a redação de contratos em português por organismos internacionais. Mas por trás disso há profundos objetivos políticos, e é a partir deles que Faraco justifica a resistência dos portugueses em aceitar o acordo.

Em palestra proferida numa Universidade de Porto Alegre, Faraco afirma que Portugal estaria fazendo uso político da variação ortográfica oficial para dificultar, "embaraçar" a presença brasileira em países de língua portuguesa, trazendo claros prejuízos culturais, econômicos e políticos. Prova disso seria o fato de que diversos livros de autores portugueses e luso-africanos — ultimamente editados às pencas no Brasil — trazem a grafia original a pedido do autor, mas nenhum livro de autor brasileiro é editado com a grafia original em Portugal, pois os portugueses não aceitariam tal ousadia, tal ultraje. Os portugueses, segundo Faraco, se julgam os donos da língua, mas o futuro da língua está inegavelmente no Brasil e seus quase duzentos milhões de falantes, o que os preocupa sobremaneira.

Não se pode negar, entretanto, que a disputa entre adotar ou não o novo acordo deixou de ser apenas uma queda de braço entre Brasil e Portugal e passou a ser motivo de polêmica também dentro do país, onde a mídia em geral e alguns doutos em particular defendem com unhas e dentes a preservação da ortografia atual. Os argumentos são diversos e devem ser respeitados, mas Faraco faz questão de lembrá-los e rebatê-los um a um.

Primeiramente se diz que nenhum acordo, nenhum papel assinado será capaz de unificar a língua falada aqui e além-mar, afora o léxico bastante variado que existe no Brasil, em Portugal e em Moçambique, por exemplo, ou a pronúncia quase incompreensível dos portugueses (particularmente acho mais fácil compreender a narração de um jogo de futebol numa TV espanhola do que numa TV portuguesa). E Faraco não discorda de nada disso, acrescentando ainda que jamais se conseguirá diminuir as variações lingüísticas existentes dentro do próprio Brasil, inerentes e saudáveis a qualquer língua do mundo. Não seria este, entretanto, o objetivo do acordo, que visa unificar a ortografia, não a língua. E cita as línguas inglesa e espanhola como exemplo de línguas com usos variados de acordo com o país mas ortografia oficial única.

Outro argumento constante daqueles que são contra o acordo é o enorme custo que o governo terá para adquirir novos livros didáticos para seus milhões de alunos, reequipar as já agonizantes bibliotecas, reeducar os já despreparados professores. A este argumento, econômico, Faraco responde com o já citado argumento político e lembra que estrategicamente o Brasil perde e perderá muito mais dinheiro com a duplicidade de ortografia por causa das dificuldades por ela suscitadas no comércio internacional do que eventualmente dispenderá com a compra de novos materiais didáticos. Além do que, sublinha o gramático, não se quer a reimpressão de todas as bibliotecas e todos os livros escritos, outras mudanças ortográficas já foram feitas no país — 1943, 1971 — e elas sempre valem dali em diante.

Por fim, Faraco considera a rejeição à mudança ortográfica proposta apenas um sinal claro de que os falantes de uma língua rejeitam mudanças recentes em sua língua, especialmente se elas mexem na língua culta, onde há forte monitoramento social, mesmo quando elas já são usuárias da mudança. Por isso os mesmos que em casa falam "a cidade que nasci" ou "vamos se respeitar" na escola dirão, aos berros, que o correto é "a cidade em que nasci" ou "vamos nos respeitar" (isso quando não se hipercorrigirem e inventarem "vamos nos respeitarmos").

Na base de tudo isso, segundo o gramático, está a vergonha que o brasileiro tem da própria língua e o fato de que "nossa sociedade é intolerante e preconceituosa, não admite a diversidade". Mas aí seria tema pra outra coluna, outra palestra e outra polêmica. Por ora nos interessa apenas lembrar ainda que os países de língua portuguesa que motivam essa disputa "ortografopolítica", especialmente Angola e Moçambique, libertaram-se de Portugal apenas em 1975, depois de sangrentas guerras coloniais, e só no século XXI conseguiram erradicar as guerras civis patrocinadas em seus territórios por comunistas e liberais, emergindo agora de uma situação de profunda pobreza e despertando o interesse comercial das nações em desenvolvimento. Afinal, trata-se de uma população de 20 milhões de pessoas em Moçambique e 12 milhões em Angola, ambas mais populosas, apesar de tantas mortes e guerras, do que a população de Portugal.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 15/11/2007.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Pessach: entre o social e o existencial


Marcelo Spalding

A maioria de nossos romances de hoje poderia ter sido escrita na Suíça. Não que isso seja um defeito por si só, apenas sinal dos tempos, onde as criações artísticas não precisam, e nem querem, apoiar-se em temas pontuais, polêmicos, políticos. Há quarenta anos era bem diferente: vivíamos entre a ditadura envergonhada e a ditadura escancarada, anos de medo e esperança da contra-revolução, anos agitados e artisticamente bastante produtivos.

Pessach: A Travessia (Alfaguara, 2007, 336 págs.), de Carlos Heitor Cony, é dos melhores exemplares desse período, romance de qualidade que não ignora a grave cisão política do país, mas foge do panfletarismo opondo no próprio romance as questões sociais e existenciais. Publicado em 1967, registra um momento chave da contra-revolução, dos movimentos guerrilheiros de esquerda, representando-o de dentro a partir do olhar desconfiado de um narrador que vê-se primeiro prisioneiro, depois seduzido pela causa.

Paulo Simões inaugura a narrativa na manhã do dia 14 de março de 1966, data dos seus 40 anos, comemorando o fato de não ter amigos nem dívidas, “duas coisas que me incomodam”. Aos poucos descobre-se que Paulo é um escritor de relativo sucesso, separado e avesso a qualquer posicionamento político, mas que acabará sendo envolvido na guerrilha de esquerda.

Sem abrir mão de um enredo eletrizante, Cony costura um romance de múltiplas teses, valendo-se da polifonia para representar desde as postulações anarquistas e burguesas da acomodada classe média carioca até os ideários de esquerda e suas fatais contradições. Dessa forma há espaço no romance tanto para analogias entre a passagem de Paulo e a fuga do povo judeu do Antigo Egito (a Pessach) quanto para questões político-partidárias bastante reveladoras dos bastidores da resistência armada da época.

“O Partido já não é o mesmo, desde que a União Soviética abandonou a América Latina à própria sorte. Foi pouco depois do episódio de Cuba, quando Kennedy ia invadir a ilha. A União Soviética dividiu o mundo com os Estados Unidos, metade para cada um, o Tratado de Tordesilhas, de novo. O Brasil, como a América Latina toda, coube aos Estados Unidos. A União Soviética não quer mais nada com a gente. Até ajudar a esta ditadura já ajudou: outro dia, o embaixador soviético firmou acordo com os militares, cem milhões de dólares. Que que você acha? Nós aqui dando duro para varrer essa cambada do poder e os nossos amigos socialistas enterrando com dólares para que os militares nos torturem e matem.”

Mas a questão que parece-nos, neste momento, quarenta anos depois da publicação de Pessach e já superada, aparentemente, a dicotomia militares capitalistas versus revolucionários comunistas é o embate que se dá na arte entre as problemáticas sociais e existenciais. A literatura no Brasil deve manter-se preocupada estritamente com as questões estéticas ou é seu dever olhar também para as questões éticas? Haverá prejuízo literário em uma obra que ignore as questões sociais, desde que esteticamente bem realizada? Tal debate não deve se resumir a um riso sarcástico ou a um sacudir de ombros; de certa forma é o embate histórico da literatura brasileira desde romantismo versus realismo, modernismo versus romance de 30, debate este que volta com força nos anos sessenta e ganha os bancos acadêmicos (formalistas versus materialistas, por exemplo). Em Pessach há um diálogo entre Paulo e seu editor que resume bem essa dicotomia:

“– Você permanece fiel a essa problemática existencial, esquecido da problemática que realmente conta: a social. Em todo caso, o problema é seu. Eu apenas edito livros, e o faço com prazer, você sabe disso. Mas teria orgulho de você se...
– Mande o seu orgulho às favas. Eu não escrevo nem para o meu orgulho, quanto mais para o orgulho dos outros.
– Mesmo assim, eu teria muito orgulho em saber que você se rende à vida e aceita o homem. Negá-lo, como você vem fazendo até agora, pode ser cômodo, comercial, mas não ajuda a ninguém.
– Não escrevo para ajudar a ninguém.
– Então mande o bidê, tire o dinheiro na caixa, fornique bastante e me mande depois um bom romance. Seria um bom aliado na luta de nossa época. Mas essa luta não aceita mercenários. Tudo tem de ser na base do voluntariado.”

E se no romance, aos poucos, Paulo torna-se cada vez mais um ser social, a ponto de receber a notícia do duplo suicídio dos velhos pais quase com indiferença, as personagens que compõem a causa revolucionária evidenciam-se cada vez mais sujeitos complexos e com profundas crises existenciais, embaralhando as relações e motivações de cada um.

O que Pessach nos evidencia, de dentro, é a impossibilidade de separar-se as questões existenciais e sociais sem mutilarmos uma obra. Não seria este o grande romance de Cony e nem Cony um grande nome de sua geração não fosse a coragem de lidar com temas pontuais, polêmicos, políticos, mas também não estaria sendo Pessach editado quarenta anos depois – e lido com interesse por este jovem resenhista – não fosse a problematização das causas políticas, o mergulho psicológico que o romance faz nas personagens. Paulo não conseguirá salvar o Brasil das garras da ditadura, mas confessará, em dado momento, que seu olhar sobre o mundo foi definitivamente alterado, e isso basta para que se concretize a travessia:

“Ando pelas ruas e descubro que estou odiando aquela cidade, aquela gente comportada e vestida que vai para os escritórios, para as repartições, para os cinemas. Uma carneirada que nem sequer fedia. Homens de testículos inquietos – e passivos na rotina incolor, na cadeia imbecil de compromissos ridículos, mesquinhos. Aquela gente andando na cidade, parando nos cruzamentos, atravessando as ruas nas faixas de segurança – ah, a segurança! –, pedindo desculpas quando esbarra em outras pessoas. Aquela gente com idéias assentadas e tranqüilas nas cabeças penteadas e dignas é justamente a humanidade dos meus romances. Sou cúmplice daquela humanidade, cúmplice e escavo ao mesmo tempo: parava nos cruzamentos, ia sempre a algum lugar fazer alguma coisa que eu não queria nem precisava realmente fazer. A última vez que estive em São Paulo, há sete meses, compareci ao jantar em homenagem a um poeta que eu desprezava e todos desprezavam mas que era bom homem, pagava os impostos, penteava-se, escovava os dentes, enviava cartões de boas-festas pelo fim do ano – um homem digno, merecia ser jantado.”

Queiramos ou não, somos um ser social.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 1/11/2007.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O surpreendente Museu da Língua Portuguesa


Marcelo Spalding

Como não sou paulista nem moro na locomotiva do Estado, como estive na capital como turista daqueles que olha mapas e tira fotografias, acho que posso dar um depoimento bastante pessoal sobre uma recente conquista da cidade, o Museu da Língua Portuguesa.

Primeiro museu do gênero no Brasil e segundo no mundo – o primeiro fica na África do Sul –, o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado em 20 de Março de 2006 com mais de quatro mil m² distribuídos em três pisos. No primeiro piso temos uma exposição temporária (inaugurou com Guimarães Rosa, quando fui estava Clarice Lispector), no segundo piso há o acervo permanente e, no terceiro, um auditório para surpreendente espetáculo audiovisual.

Confesso que quase não fui ao Museu, pois da primeira vez que estive na Estação da Luz acabei indo na Pinacoteca e de lá não saí tão cedo, imerso nas centenas de quadros e esculturas. Mas quase por dever profissional enfrentei o trânsito paulistano e lá estava no dia seguinte para um admirável mergulho no universo da língua.

Chamar o Museu de museu é apenas uma convenção, uma tradição: trata-se de um espaço multimídia, interativo, com instalações surpreendentes mas de extremo bom gosto. A palavra é a protagonista, sempre, mas o tratamento é visual e os artistas plásticos dão vida nova à obra dos grandes autores da Língua Portuguesa. No caso da exposição de Clarice, havia imensos painéis com fotos e frases suas, um vídeo com sua derradeira entrevista e uma impressionante instalação onde milhares de gavetas escondiam originais, fotografias, romances, recortes de jornal ou revista, cartas: era como se entrássemos na intimidade de Clarice (foto abaixo, tirada às escondidas).

O acervo permanente é mais informativo e foi feliz ao escolher o léxico, a história da formação e a variação dos falares da língua como mote, mostrando ao grande público que a literatura é, sim, a arte da palavra, mas a língua é também estrutura, forma. Já na entrada o visitante se depara com um enorme painel de vídeo onde são projetadas imagens da cultura e artes visuais, como a imperdível passagem do metrô. No centro, temos oito totens multimídia interativos, cada um representando uma Língua que formou e/ou influenciou o português brasileiro. Pela quantidade de informações que cada totem carrega, poder-se-ia passar horas e horas apenas consultando nosso variado e rico léxico. Um painel na outra parede traz a linha do tempo da nossa língua, passando pelo latim, pelo latim vulgar, pelas conquistas portuguesas e chegando à influência da mídia e da televisão, com direito a um televisor transmitindo imagens de sua formação, nos anos 50. Por fim, há uma instalação que parece um joguinho de fliperama, onde o visitante clica em um estado do Brasil e ouve os diferentes falares daquela região, com os sotaques, gírias, expressões, tudo de forma natural e nada forçada. A gente realmente se reconhece naquelas falas, tchê.

E então chegamos ao terceiro andar. O mais emocionante. O que me fez escrever este artigo, na verdade uma intimação, para que você, morador ou visitante de São Paulo, desça na Estação da Luz e conheça o Museu. No terceiro andar temos um auditório para quase 200 pessoas onde é exibido um vídeo de 10 minutos sobre a língua, vídeo este que não vi porque cheguei atrasado à sessão (imerso nas gavetas de Clarice). Mas depois do vídeo, o telão se levanta e os espectadores entram no palco, sentando-se ao redor do mesmo, que volta a fechar e fica tudo escuro. Então num espetáculo lindo de som e luz são declamadas algumas das mais famosas e mais intrigantes poesias da Língua Portuguesa, com direito a Drummond, Pessoa, João Cabral, Guimarães Rosa, Oswald e Mário de Andrade, até uma intrigante versão em rap de poesia de Gregório de Matos. Particularmente o espetáculo foi me envolvendo aos poucos e me emocionou de fato quando ouvi “Amor é fogo que arde sem se ver”, o imortal soneto de Camões coroando nossa língua, nos dando uma inegável sensação de acolhida.

Nem preciso dizer que todo profissional da língua, jornalista, professor, escritor, deveria conhecer o Museu, e de certo se emocionarão com ele. Também os estudantes, todos, os pequenos e grandes, terão de passar pelos três andares do belo museu. Não vou aqui fazer demagogia sobre o acesso, pois o valor é de apenas R$ 4,00 para entrar com 50% de desconto para estudantes, mas fico com dó de pensar na quantidade de professores que não terão como ir a São Paulo, que jamais estarão em São Paulo, para conhecer o Museu. Tomara os organizadores tenham pensado em museus itinerantes, que levassem parte do acervo permanente e o espetacular vídeo de poemas. Afinal, a língua é viva e o Museu também não pode parar.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 4/10/2007.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Um Jabuti para o miniconto


Marcelo Spalding

Há cerca de um ano um amigo da lida literária, amigo e grande escritor, Leonardo Brasiliense, me convidou para escrever a orelha de seu novo livro, que seria publicado pela 7 Letras. Exultei, seria minha primeira orelha, e comentei isso com ele, que insistiu dizendo que não poderia ser outra pessoa, já que o livro tratava-se de minicontos juvenis e meu estudo acadêmico, sobre minicontos, fora fundamental para seu trabalho. Escrevi três orelhas, ele escolheu uma e o livro saiu ainda no final daquele ano, um livro delicado, sóbrio, inteligente, um livro juvenil que transita sem dificuldade por pais e professores.

Já à época fiquei com muita vontade de resenhá-lo aqui para o Digestivo, cheguei a mencioná-lo no artigo “Pequena poética do miniconto”, mas achei que não caberia falar de um livro que, afora ser de um amigo, tinha minha singela participação na orelha. Mas agora as coisas mudaram e me sinto à vontade: Adeus conto de fadas (7 Letras, 2006, 84 págs.) acaba de ser escolhido o Melhor Livro Infanto-Juvenil de 2006 pelo Prêmio Jabuti!

O livro é uma reunião de setenta e duas histórias com mais ou menos cem palavras (às vezes bem menos do que isso), forma ideal para uma geração que está sempre correndo, escreve blogs, assiste videoclipes e odeia coisas “enroladas”. Mas o que surpreende é a explosão possível a partir daquelas miniaturas, verdadeiras pérolas pequenas e valiosíssimas.

Dilemas muitas vezes vistos como banais pelos adultos são levados a sério – sem perder o humor – e as histórias deixam transparecer conflitos existenciais e sociais importantes e difíceis: a filha é proibida de ir à festa porque os pais já fizeram muita festa e sabem da bandalheira, a BV odeia o beijo mas adora ter se livrado do apelido, o menino cada vez mais quieto um dia descobriu que não sabia mais conversar, a menina entra na farmácia sob olhar malicioso do atendente.

Constrangida
“O atendente da farmácia viu que eu entrei meio sem graça. Sorriu, malicioso. Eram dez da noite, e eu não tinha cara de doente. Ele até olhou para a porta, como procurando mais alguém. Quando cheguei perto da gôndola das camisinhas, o bobalhão desviou o olhar de mim, disfarçando muito mal. Fingiu que arrumava uns
folders em cima do balcão, mas sempre com o sorrisinho idiota, que só parou, só se fechou quando pus na frente o pacote de fraldas.”

Como se percebe, Leonardo não subestima a inteligência do seu leitor, utilizando com maestria a forma clássica do conto (história aparente/história oculta), ainda que numa forma em miniatura e para um público jovem. Jovem porque os conflitos são preponderantemente juvenis, e diga-se que o autor, casado, funcionário público, meio careca, mergulhou fundo nas revistas e assemelhados para tentar captar esse mundo sempre novo – nenhuma juventude é igual a outra. Mas há algo ali que vai além da juventude e torna-se universal, o que inclusive me fez sugerir, na orelha, que os leitores emprestassem o livro para seus pais e pedissem para eles lerem algumas histórias, como “Casa limpa”, “Pesadelos”, “Fim de semana na praia”. Se inteligentes como o autor espera que o sejam, os pais também vão entender seus filhos um pouco melhor.

Fim de semana na praia
“O fim de semana estava ótimo. A turma foi pra casa do Luca, na praia. Só a galera, sem nenhum velho pra atrapalhar. A Vanessa ficou com o Daniel, com o Carlinhos e com o Luca, é claro. A Morgana, só com o Daniel. Rolou de tudo, principalmente cerveja, uma montanha de latinha amassada dentro da churrasqueira. A noite era dia e o dia era noite. E que praia que nada! Quem se interessava por sol e areia? Foi um fim de semana 'de arromba', como diriam os meus pais, porque na época deles já era assim... e acho que foi por isso que me fizeram ficar em casa.”


Leonardo Brasiliense, nas entrevistas para a mídia local, revelou-se evidentemente surpreso com o Prêmio. Primeiro por não ser um autor famoso nacionalmente, nem regionalmente (só para se ter uma idéia, o segundo lugar em sua categoria foi o também gaúcho e imortal Moacyr Scliar). Depois, e isso ele tem enfatizado, por ser o miniconto um gênero novo, pouco conhecido e pouco estudado.

Não é exagero, dessa forma, dizer que este Jabuti é, para o Leonardo, em primeiro lugar, a consagração merecida de alguém que quase anonimamente escreve, lê muito, discute com os amigos; é um prêmio para a juventude inteligente, que saberá apreciar as pequenas pérolas, mas é, também, um prêmio para o miniconto enquanto forma, mais do que enquanto gênero, pois não foi na categoria “Conto” que o premiaram, foi na categoria Infanto-Juvenil. Ser mini, desta forma, não é um fim em si mesmo, e sim uma estratégia estética do autor para fazer ficção, seja ela erótica, metalingüística ou infanto-juvenil.

Agora muitos correrão para o site do Leonardo a fim de conhecer seus outros minis, inéditos, quem sabe uma editora comercial finalmente procure o autor e trate-o como merece um escritor com sua qualidade, mas, acima de tudo, aquele apreciador da literatura que escreve suas historinhas, escreve timidamente seus minicontos, verá valorizada sua produção e assim, aos poucos, se criará uma verdadeira linhagem de minis em nosso país, como já há nos países de língua espanhola. Eis o peso de um Jabuti.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 18/9/2007.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Sim-me-drogo-sou-fútil-rica-e-escrevo-blogs


Marcelo Spalding

Quando cai na sua mão um romance de uma menina de 20 anos, lançado por uma das mais respeitadas editoras do país, logo surgem os velhos preconceitos: deve ser filha de alguém importante, a história deve ser puro sexo e drogas, tipo diário de adolescente. Fugalaça (Record, 2007, 288 págs.) é realmente tudo isso, mas surpreendentemente mais.

Mayra Dias Gomes nasceu em 1987 e é filha do grande dramaturgo e autor de telenovelas Dias Gomes, falecido em um acidente de carro em 1999 (quando Mayra tinha 11 anos). Por causa da perda do pai, a Mayra foi negada a transposição gradual da infância para a adolescência, tendo sido expulsa da vidinha de conto de fadas de menina rica e jogada numa vida de disputas, invejas, auto-afirmação, drogas, culminando nos undergrounds paulista e carioca. Fugalaça é, como diz a própria autora, uma espécie de “vômito literário”, vômito dessas experiências intensas e destrutivas, uma tentativa desesperada de compreender-se pelo resgate da memória, de ser aceita pela exposição, de reparar conflitos e dilemas insuperáveis pela aparente lógica proporcionada pelo papel.

“Escrever se tornou meu refúgio – minha mutilação saudável. Meu melhor amigo – o único capaz de entender meu sofrimento sem recriminação. O único capaz de silêncio absoluto aos meus desabafos febris – um tolerante ao meu narcisismo. O único capaz de passar adiante a dor para quem quisesse compreender, para quem estivesse disposto a conceber o fato de que tudo não passava de drama e que o drama em si estava dentro de mim – sim, como um câncer. Eu tentava achar na escrita a minha essência – sim, o meu reflexo.”

Não que a iniciativa de Mayra seja original: todo adolescente que gosta de escrever tenta gravar em palavras seus primeiros amores, suas primeiras decepções, seus medos inconfessáveis e desejos reprimidos (basta ver a quantidade de blogs de adolescentes para percebermos que se algo mudou de um tempo pra cá é que hoje essa exposição se dá em tempo real, e não mais no silêncio dos diários). Mas é preciso saudar em Mayra pelo menos duas coisas: primeiro, o bom texto, fluído, maduro sem perder a autenticidade, mesmo nas mesclas de português e inglês típicas da sua idade e classe social; segundo, e mais importante, a coragem, coragem de se expor dessa forma, expor desde a humilhante primeira transa até o desabafo da irmã menor dizendo que melhor seria se ela se matasse logo e não fizesse a mãe sofrer tanto.

Há poucos dias eu mesmo resenhei um livro também memorialista, Tempos heróicos, que conta também em primeira pessoa uma adolescência repleta de sexo, drogas e rock’n’roll, como Fugalaça. Mas o livro era escrito por um adulto casado e pai de dois filhos, um felizardo que soube aproveitar intensamente a juventude e ainda assim vencer na vida, superando conflitos, escapando de doenças, o que não acontece com Satine (a personagem, suposto alterego de Mayra), ainda uma menina, aparentemente ainda com as cicatrizes no corpo e na alma e incapaz, enquanto narradora, de terminar seu livro (na verdade interrompe-o, pois os conflitos, ao que tudo indica, irão permanecer).

Fernanda Young, na orelha do livro, diz que leu “um grande romance, diferente dos outros, escritos em semelhante tom confessional – todos um sim-me-drogo-sou-fútil-rica-e-escrevo-blogs, descrevendo as agruras da juventude desregrada. Fugalaça se destaca. Mayra, tenho certeza, terá mais coisas a contar do que a sua juventude acredita ser incrível. Há dor, há confronto, conflito, cinismo, humor e coragem neste livro. Há talento”.

Mas ainda que tenha sido precisa ao afirmar que há talento, Fernanda foi generosa – como todas as orelhas de livros o são – ao dizer que trata-se de um grande romance, pois Fugalaça é um rico testemunho de um tipo de adolescente de uma classe social específica, testemunho sincero e denso, mas a história por vezes parece como a história daquela nossa colega de colégio que encosta a classe do nosso lado e começa a contar sobre seu grande e mal sucedido amor, uma seqüência de lamúrias e indiferenças que se resolveriam com uma só palavra, palavra que você repete insistentemente, “esquece”, mas sua colega não consegue esquecer e continua a se humilhar, a se iludir e a contar tudo para você. Mescla de insegurança, mimo e egocentrismo. Nada indica que essa colega saberá narrar com tanta emoção e tanto estilo uma história em que não foi protagonista, uma história realmente incrível ou com um estilo incrível.

Mas voltemos ao que há de melhor no livro, a exposição de uma chaga social que todos fingem não perceber, que as novelas não mostram e os jornais evitam: a falta de sentido para a vida que assola os adolescentes, fazendo-os procurar nas sensações físicas – drogas, bebida, sexo – o vazio de respostas para seus mais singelos e angustiantes questionamentos. Não é só Satine quem sai de um apartamento de luxo toda vestida de preto e desfila suas roupas de marca pelas boates undergrounds, que compra drogas com a mesada da mamãe e quando ela vai viajar promove festinhas em sua casa e transa com o carinha da noite na cama de solteiro com lençol da Hello Kitty. Não é só a amiga de Satine que se suicida depois de descobrir-se soropositiva (suicida-se com o saco plástico que usava para cheirar desodorante). Essa realidade está aí sob os olhares despreparados dos adultos – que resumem tudo a “coisas da idade” – e leva, ano a ano, dia a dia, milhares de jovens em acidentes, overdoses, brigas. Revelar de dentro essa chaga explosiva é mérito de Mayra, ainda que ignore a parcialidade de seu lugar social.

Esta crítica, aliás, Mayra certamente sofrerá ou deve ter sofrido: a de ser rica. A própria autora chega, num certo momento do livro, a falar sobre isso, e de fato não há como fugir à constatação de que Mayra é, sim, produto de uma elite que depois de atingir todos os seus sonhos de modernidade e consumo não sabe mais o que fazer, o que almejar. Tal qual os jovens ricos da Paris de 68, os filhos de pais ricos de Woodstock, Mayra e muitas de suas amigas do underground paulista e carioca perdem-se no oceano da liberdade, afundam numa possibilidade infinita de gozos e ausência de responsabilidades. Não há fome, não há miséria, não há violência por causa do consumo de drogas, não há horizonte social nas palavras de Mayra, mas isso não é sua culpa: assim ela e sua geração foram criadas, protegidas por motoristas, vidros escuros, condomínios de luxo, televisões a cabo repletas de canais norte-americanos.

Curioso é todos nós acordarmos cedo, trabalharmos, estudarmos, passarmos as noites lendo um livro e um domingo escrevendo resenha, deixarmos os filhos em casa para terminar um Mestrado, todos nós batalharmos dia-a-dia para acumular certa riqueza, e quanto mais próximo da riqueza chegamos, mais percebermos sua insuficiência e mais temermos a tragédia que essa acumulação pode representar para nossos filhos. Porque Fugalaça pode não contar nada muito novo, mas confirma com gravidade muita coisa que desde os Livros do Mal aqui de Porto Alegre, desde Christiane F. tem-se revelado: a angústia e o vazio produzidos pela nossa sociedade materialista nas sedentas e despreparadas mentes juvenis. No fundo, no fundo, terminado o livro, a vontade que fica é pegar na mão de Mayra e dar-lhe um sincero e comovido abraço.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 21/8/2007.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum


Marcelo Spalding

Confesso que este título é uma isca para vestibulandos, mas é também uma lista dos assuntos que pretendo abordar a seguir, em ordem inversa. Isso porque a UFRGS, maior universidade pública do meu Estado, pela primeira vez colocou em seu concorrido vestibular obras de autores ainda vivos como leituras obrigatórias; no caso, o já esperado gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil e aquele que tem se consolidado como grande nome da literatura contemporânea brasileira, Milton Hatoum.

Leitura obrigatória de vários vestibulares importantes, como os da UFSC, UFMS e UFAM, o manauara Hatoum conseguiu um feito incrível ao ganhar três prêmios Jabutis (o mais importante da literatura nacional) com os três romances que publicou, Relato de um certo Oriente, sua estréia, em 1989; Dois Irmãos, em 2000, e Cinzas do Norte, em 2005. É como um ator estrear ganhando o Oscar e nas suas duas atuações seguintes vencer o prêmio novamente. Tal reconhecimento, aliado a uma postura acadêmica ativa e produtiva, com diversas palestras proferidas e artigos publicados no Brasil e no exterior, abriu caminho para o reconhecimento canônico de um contemporâneo e levou-o ao seleto panteão de autores obrigatórios nos vestibulares.

Dos seus romances, Dois Irmãos é o mais estudado e citado, pois aqui o autor aprofunda a temática e a forma de sua estréia, mas não deixa a história tão fragmentada e elíptica como em Relato de um certo Oriente, facilitando assim sua assimilação pelo leitor médio. Nael, filho da empregada de uma família importante, conta a história de dois irmãos de personalidades opostas e ódio inevitável, Yaqub e Omar (tema, aliás, já explorado por Machado de Assis em Esaú e Jacó). Mas a narrativa, que aparentemente se centra na rivalidade entre os irmãos, mostra-se aos poucos uma história complexa, uma última tentativa de Nael descobrir a identidade de seu pai, pois, como o leitor vai descobrindo ao longo da história, a mãe de Nael, Domingas, era apaixonada por Yaqub, mas fora abusada pelo inconseqüente Omar, privando o filho, o narrador, da certeza sobre suas origens, se fora o amor ou o abuso, o irmão ambicioso e trabalhador ou o rebelde e violento.

A questão da busca pela identidade, aliás, é tema central em Dois Irmãos, em toda a obra de Hatoum e em boa parte da literatura brasileira contemporânea, tornando-se uma questão potencial nestes vestibulares de "xizinhos". Mais do que tentar descobrir quem é seu pai, Nael busca descobrir-se, encontrar seu lugar no mundo assim como seus patrões imigrantes tiveram de se adaptar numa nação distante e desconhecida, deixando atrás desse esforço um rastro de incompreensão, mágoas e saudades. A estratégia para reconstruir essa identidade é a memória; já no primeiro capítulo do primeiro livro de Hatoum lê-se a frase “a vida começa verdadeiramente com a memória” e, de fato, é a memória que inaugura e guia a narrativa. A memória e seus desencontros, suas lacunas, sua atemporalidade.

Se em Dois Irmãos o narrador é sempre Nael, em Relato de um certo Oriente e em Cinzas do Norte temos diversos narradores além do principal, narradores que se alternam nos capítulos, tornando os livros mosaicos de vozes que ajudam o leitor a compor as histórias e os narradores a reconstruirem suas memórias e suas identidades. Nestes dois livros, como em Dois Irmãos, o espaço é a Manaus da metade do século XX e o cenário dos acontecimentos é o seio de uma família importante, em geral endinheirada, mas decadente, onde há presença do casal e dos filhos numa relação sempre conflituosa: ou irmãos se odeiam, como em Relato... e Dois Irmãos, ou pai e filho não se suportam, como em Cinzas do Norte.

É interessante notar ainda que no final de Dois Irmãos há uma cena em que tanques do exército tomam a praça central de Manaus, numa clara alusão ao Golpe Militar que inaugurava ali um novo tempo, mas a questão política passa ao largo deste romance para surgir com força em Cinzas do Norte, onde o protagonista, Mundo, é um jovem rico e subversivo, apaixonado por arte e sufocado numa família e num espaço opressores (não apenas a Manaus decadente da segunda metade do século como também o Brasil ditatorial, com seus patriarcas e majores com poder absoluto).

Trazendo a questão política para dentro do romance, em Cinzas do Norte o romancista também deixa mais evidente a questão social, a desigualdade e a problemática sociais, já presentes em seus primeiros livros. Ainda que em Dois Irmãos não haja ímpetos revolucionários, Nael diz que Domingas, sua mãe, “trabalha como uma escrava” e chega a expressar a angústia de não poder nem tirá-la daquele ambiente nem mudar sua vida, preso àquelas amarras sociais em que o capricho dos patrões dita os rumos da vida dos empregados:

“[Quando eu pensava em fugir] a imagem da minha mãe crescia na minha cabeça, eu não queria deixá-la sozinha nos fundos do quintal, não ia conseguir... Ela nunca quis se aventurar. 'Estás louco? Só de pensar me dá uma tremedeira, tens que ter paciência com a Zana, com o Omar, o Halim gosta de ti.' Domingas caiu no conto da paciência, ela que chorava quando me via correndo e bufando, faltando aula, engolindo desaforos.”

Por fim, aos vestibulandos que agora lêem resumos ou o romance de Hatoum em si, posso apenas lembrar que o romancista, em linha com os escritores contemporâneos, explora bastante o não dito, a indeterminação e as múltiplas interpretações que a arte permite, não sendo tão fácil fazer afirmações sobre a obra literária como o é para fórmulas matemáticas. Ainda assim, como diria Umberto Eco, é possível inferir nos textos coisas que eles não dizem explicitamente, mas não se pode fazê-los dizer o contrário do que disseram, como, por exemplo, negar que Romeu se matou porque pensou que Julieta estava morta, e vice-versa. Ou seja, deixe-se levar pela história de Hatoum, converse com colegas e professores sobre os acontecimentos e, mesmo dando margem para várias possibilidades, descarte o quanto antes hipóteses que lhe parecerem absurdas e prefira sempre o que está dito do que a suposição. No caso de Dois Irmãos, por exemplo, e aqui conto o final do livro, não está dito que o pai de Nael é Omar. Talvez esteja sugerido, mas não está dito. E se nem o narrador tem a certeza, como poderíamos tê-la nós, os leitores?

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 31/7/2007.

terça-feira, 17 de julho de 2007

O sem sentido da vida de Bóris


Marcelo Spalding

Pode um dia na vida de um casal qualquer virar literatura? Pode um diálogo num café da manhã na vida de um casal qualquer virar literatura? Nas mãos de Luiz Vilela, sim. No finalista do Jabuti Bóris e Dóris (Record, 2006, 96 págs.) não temos propriamente uma narrativa, mas um longo diálogo entre Bóris, executivo de relativo sucesso que sonha ser nomeado naquele dia diretor de um conglomerado de empresas, e Dóris, sua esposa triste e solitária, questionadora dos valores do marido empreendedor e angustiada com o sem sentido da vida.

Evidentemente não se trata de um casal qualquer e nem de um dia qualquer, há entre Bóris e Dóris um conflito latente e que perdura por anos. Já no começo da conversa – e do livro –, depois de percebermos que estão num café da manhã de um hotel, ele lembra à esposa que ela não tem mais aqueles peitos empinados e aquela bunda arrebitada. Ao invés de chatear-se com a constatação (diga-se já que ele tem 60 e ela, 37), começam a filosofar sobre a vida e ele diz que “a vida é uma estrada esburacada, que começa no nada e termina no nada”.

Não espere o leitor frases muito mais profundas do que essa, a intenção da narrativa parece ser exatamente contrapor a gravidade do conflito com a superficialidade do casal, espécie de sátira do pensamento médio da população. Bóris lembra muito o pai da menina de Miss Sunshine, aplicando as filosofias de manuais de empreendedorismo nas relações pessoais e sentimentais, enquanto Dóris é a caricatura da Bovary contemporânea, oscilando entre a ânsia de viver, o desejo de trair, o medo da velhice e o fascínio pelo suicídio. Em um dos trechos mais belos ela conta ao marido o que fez na tarde anterior, enquanto ele estava na convenção e ela andava solitária pelo hotel:

“– Então eu voltei para o saguão.
– Sei.
– A mulher, a mulher velha, ainda estava lá, no canto, na poltrona; a cabeça tombada, os olhos fechados, o terço...
– E aí?
– Aí? Aí eu me aproximei devagar, e então a mulher, essa hora, levantou a cabeça, olhou para mim e sorriu, o sorriso mais triste do mundo; e aí eu vi, apavorada, que aquela mulher...
– O quê?
– Aquela mulher era eu!
– Você?...
– Eu! Aquela mulher era eu! Eu daqui a vinte anos!
– Hum...
– Aí eu subi depressa para o quarto, tranquei a porta e fiquei lá, impressionadíssima. Aí eu...
– Dóris: briefing.”

Assim como no momento em que ela contará ter pensado em suicídio, o marido não leva a esposa a sério, não consegue ver naquelas palavras algo além de queixas infundadas, talvez uma perturbação psíquica. Pede que a esposa seja breve utilizando-se do mais manjado dos termos, briefing, e ela respeitosamente apressa a narrativa tirando todo seu drama e ficando apenas com o inusitado, reforçando para ele sua insanidade.

Um leitor atento possivelmente conseguirá ver em Bóris e Dóris a vida de quase todos os casais de meia idade, casais que alcançaram certa estabilidade financeira e agora buscam um sentido para a vida, sentido que precisa urgentemente ser encontrado antes que a vida lhes escape. Ele é a mimese do homem contemporâneo e ela da esposa desse homem contemporâneo, ambos são também nós, aparando os exageros de qualquer caricatura.

É interessante sublinhar, nesse ponto, a opção estética de Vilela. Ao narrar apenas com diálogos, limitando-se a situar as personagens, o autor rejeita os conselhos de qualquer poética para narrativas e reproduz na forma a simplicidade da trama, uma simplicidade que pode parecer fácil e superficial mas aos poucos vai se mostrando bastante reveladora. Se fosse de outra forma, a fraqueza do discurso do casal seria vista como fraqueza do próprio novelista, ou ainda como coloquialidade exagerada, mas ao ser explicitado um diálogo, diálogo com travessão e tudo, ocorre essa simbiose entre forma e conteúdo. Deixe-me ilustrar isso com um trecho em que o casal discute sobre problemas ambientais na Alemanha:

“– Encurtando caminho: a única solução que eles encontraram para acabar com a mortandade dos sapos foi desviar a estrada; só que, para fazer isso, eles teriam de abrir um túnel numa montanha, uma obra que ficaria caríssima.
– E eles abriram.
– Abriram.
– Eu sabia... Esses gringos... Eles são assim: eles matam milhões de judeus; depois abrem um túnel na montanha para não matar sapos...
– O que tem uma coisa a ver com a outra, Bóris?
– O que tem? Tem muito a ver.
– Eu não vejo relação nenhuma.
– Tudo tem a ver com tudo. Uma coisa aqui e agora tem a ver com outra lá não sei onde e quando. Tudo tem a ver.
– A Alemanha é um país civilizado. Lá eles sabem da importância dos animais. Lá eles preservam a fauna; a fauna e a flora. Não é como aqui, no Brasil, onde as pessoas destroem tudo.
– Quem manda na natureza? O homem ou o bicho?
– Ninguém manda na natureza. A natureza é de todos e para todos.
– Quem manda na natureza é o homem. O bicho não manda nada.
– Não é assim.
– Quem manda no mundo é o homem.
– Por isso é que o mundo está do jeito que está.
– Quem você queria que mandasse? Um tamanduá?”

Para Bóris, os problemas do mundo merecem a mesma retórica e a mesma preocupação que os problemas do sentido da vida ou do seu relacionamento, qual sejam poucos minutos, os minutos que antecedem sua partida para a convenção da empresa, convenção que pode transformá-lo em diretor de um conglomerado, cargo importante o bastante para que relegue os problemas da esposa, da vida e do mundo a segundo plano.

E é assim que Vilela consegue transformar um diálogo num café da manhã na vida de um casal qualquer em literatura, e mais do que isso, figurar entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti na categoria romance. Leitores apressados ficarão com a história aparente, acompanharão a DR do casal como acompanham a novela das oito, mas o proveito será melhor para aqueles que procurarem nas entrelinhas do texto, e nas entrelinhas das suas próprias vidas, uma explicação para o sem sentido da vida.

Para ir além

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 17/7/2007.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Qual é, afinal, a melhor idade?


Marcelo Spalding

Faz algum tempo que os politicamente corretos não falam mais em terceira idade, e sim em melhor idade. Eufemismo para uns, delicadeza para outros, designa a idade em que as pessoas já não precisam mais ocupar-se com trabalho e têm tempo para gozar a vida (supondo, é claro, que tenham também dinheiro e saúde). Como convivo com uma boa dezena de pessoas na faixa da melhor idade, sei que mesmo entre elas a designação é discutível: minha avó, por exemplo, morre de saudades do tempo em que era casada (enviuvou cedo, aos vinte e seis). As idades mais votadas como melhor idade por essas pessoas são a infância e a adolescência, a infância para umas, a adolescência para outras.

Mas Rubem Mauro Machado traz um termo que considero preciso para designar essa fase juvenil e intensa que elas chamam de melhor idade: a Idade da Paixão. Em seu romance, A Idade da Paixão (Bertrand Brasil, 2006, 288 págs.), o narrador e protagonista é um jovem de dezoito anos que mora sozinho na capital do Rio Grande do Sul (os pais são de Santa Maria) e está no último ano do Clássico, às portas do vestibular. Idealista e socialista (o romance é de 1986 mas a história se passa em 1961, um tempo em que alguns jovens ainda eram de esquerda), gostaria de ser escritor e viver de seus contos, romances e panfletos políticos, mas o pai gostaria de vê-lo advogado e encaminha-se para estudar as leis, prometendo, entretanto, que será ético, justo e fará sua parte para mudar o mundo.

Não demorará para o jovem idealista perceber os paradoxos de sua escolha. Um dia, quando vai pela primeira vez à casa de sua namorada, conhece o pai da moça, homem sério, udenista, advogado e conselheiro do Internacional. À mesa, o homem descobre que o jovem quer estudar Direito e, depois de saudar a profissão, o alerta: só que você precisa aprender a separar Direito de Justiça. E dá um exemplo: um homem pobre fez um seguro de vida. Aprovado no exame de saúde, pagava todo mês pontualmente os prêmios. Uma semana antes de terminar o período de carência, morre inesperadamente, de um derrame cerebral. A viúva entra na justiça, pleiteando o pagamento do seguro. A seguradora nega-se a pagar, alegando o não-vencimento, ainda que por seis dias, do período de carência. O sogro deu ganho de causa à companhia de seguros.

Na hora o jovem se cala, não ficaria bem discutir com o talvez futuro sogro, com o pai da menina que quer impressionar. Mas na narrativa ele se debate contra a verdade pronunciada pelo sogro e arremata com um ingênuo e belo desabafo:

“Talvez caiba a Pomar alguma razão nessa sua visão tão pragmática de seu ofício. Eu simplesmente não a aceito. E não posso aceitá-la porque tenho 18 anos e nessa idade se há coisa que nos pertence é um limpo sentimento de justiça. Se o Direito não se confunde – o mais possível, claro, dentro da falibilidade humana – com a Justiça; se a Lei não é a fabricação abstrata que procura ao máximo ser a concretização, no plano das relações humanas, do ideal abstrato da Justiça, então todo esse aparelho do Judiciário, com seus ritos e sua linguagem, que me lembram os da Igreja, não passa de encenação grotesca de uma impostura. (...) Se assim é, afirmo a mim mesmo, não quero ser um homem do Direito. Não ambiciono na vida riqueza, poder, ser um vencedor no sentido burguês. Quero apenas – e não é fácil – tornar-me um ser ético. Alguém que não se corrompa, que mantenha intacta a capacidade de indignação, que conscientemente não prejudique seu semelhante. Se essa profissão não preenche meus anseios, eu a desprezo. Trabalharei em outra coisa que, sem me deixar morrer de fome, possibilite ao menos me exprimir.”

Não é o corpo atlético, a efervescência do sexo, a mobilidade dos músculos que faz da juventude a Idade da Paixão, é essa esperança, essa fé na vida, na justiça, de fazer diferente, ser diferente; é quando somos num dia bailarina, no outro jogador de futebol, bombeiros, professores, médicos, jornalistas, idade em que ainda achamos que podemos mudar o mundo e, mais incrível ainda, que o mundo quer ser mudado.

Adiante o narrador sintetiza isso em uma frase: “os soldados são sempre adolescentes, embora o mundo finja desconhecer esse fato”. E é isso! O soldado é – regra geral – aquele que acredita em algo, numa nação, numa idéia, num mundo melhor, é aquele que morre por uma causa. E de fato, muitas vezes, morrem (quantos jovens morreram em 64? Será que o protagonista dessa história não morreria em 64, se a história continuasse a ser contada?).

Voltando ao intenso e cativante romance de Rubem Mauro Machado, três fatos marcarão nosso jovem que luta para sair do Clássico e entrar no Vestibular. Primeiro, conhece uma menina, uma bela e melancólica menina por quem se apaixona. Depois, estoura a Legalidade, reação liderada pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, contra o Golpe Militar que se arquitetava em 1961, por ocasião da renúncia de Jânio Quadros. Com a paixão que a idade permite – e que o escritor aumenta e alimenta – ele cerra fileiras ao lado do povo armado, vibra com a posse de Jango e tem encontros quentíssimos com a bela e melancólica Sílvia, para depois ser jogado em profunda tristeza com o fim do namoro.

Não é comum romances serem protagonizados e/ou narrados por adolescentes, eles ficam numa linha tênue do que se chama literatura infanto-juvenil (veja-se o caso de É tarde para saber, de Josué Guimarães, tido como literatura juvenil mas de grande qualidade estética e enorme efeito). Mas Rubem Mauro Machado consegue, com domínio absurdo da linguagem e com o deslocamento histórico dos fatos, fazer de A Idade da Paixão um romance para jovens, adultos ou pessoas da melhor idade. Um romance, aliás, premiado com o Jabuti em 1986. Isso mesmo, há vinte anos atrás, e nunca havia sido reeditado, ainda que a edição da José Olympio tenha se encerrado em poucos meses.

Por quê? Difícil saber, o autor não deixa claro e não nos cabe conjecturar. Sorte a nossa que volta nesse 2007 tão sedento de paixão, de idéias e bandeiras a se defender, nesses tempos tão voltados para a história sem saber o que fazer com a história que se tem. Sorte a nossa que volta para ajudar-nos a entender qual a grande vantagem da juventude em relação às outras idades, e reafirmar que se não é esta é a melhor idade, é, pelo menos, a autêntica Idade da Paixão.

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 13/3/2007.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Se a literatura subisse o morro...


Marcelo Spalding

O povo não lê. O povo não gosta de ler. O povo só lê porcaria. Revistinhas pornográficas, Paulo Coelho, gibis. O povo não tem jeito. Se a literatura subisse o morro, chegasse à parcela mais pobre da população, seríamos outro país. Mais culto. Mais educado. Olha a França, que exemplo! Até os marginalizados têm consciência social, fazem protestos. Mas não adianta, o Brasil não tem jeito mesmo.

Estereótipos, preconceitos, clichês tantas e tantas vezes repetidos que cristalizam-se como verdade. Ainda bem que vez ou outra surgem, pelas brechas do mercado, manifestações autênticas e sérias vindas do que se convencionou chamar de povo, dessa gente que engorda as estatísticas de natalidade e criminalidade, essa gente que constrói os prédios de luxo e mora nas favelas de seus morros, essa gente que sustenta igrejas e mídia, essa gente que limpa nossa casa, varre nossa rua e pega ônibus cheio, manifestações estas que nos põem a refletir e a se perguntar: o que aconteceria, de fato, se a literatura subisse o morro? E se não sobe, será culpa do morro ou da literatura, que não tem força para tanto, não quer se cansar, se sujar?

Cenas da favela (Geração Editorial/Ediouro, 2007, 228 págs.) é um exemplar raro dessa tentativa da literatura se aproximar da parcela marginalizada da população, do povo, e curiosamente surge como primeiro lançamento da associação entre a Geração Editorial e a Ediouro, provavelmente fruto dos lucros que elas tiveram com a venda de Mulheres de Cabul (é curioso porque o best-seller patrocina uma obra de provável êxito acadêmico e fracasso comercial).

Roberto Schwarz, há 25 anos atrás, organizara um livro de crítica literária chamado Os pobres na literatura brasileira e escrevera na apresentação que “basta não confundir poesia e obra de ciência, e não ser pedante, para dar-se conta do óbvio: que poetas sabem muito sobre muita coisa, inclusive, por exemplo, sobre a pobreza”. Esse também é o mote de Nelson de Oliveira, organizador de Cenas da favela, que alia a diversos textos de autores contemporâneos sobre as favelas e neofavelas clássicos da literatura brasileira como “Favelário Nacional”, de Drummond, “O xis da questão”, de Lygia Fagundes Telles, e “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca, talvez exatamente para garantir uma espécie de selo de garantia literária para sua antologia (livrando-se ou tentando livrar-se, assim, do preconceito de público e crítica, que acha lindo o pobre se expressar mas torce o nariz para suas formas de expressão). Mas vai além.

Já na apresentação o organizador deixa claro que sua intenção não é reproduzir a visão de favela “na maior parte do tempo falsa e distorcida dos cidadãos de classe média letrados e bem nutridos”. Para Nelson de Oliveira, “a imagem de indigência e violência que guardamos da favela é outro estereótipo, outra construção ideológica veiculada pela televisão e pelos jornais: nós raramente subimos o morro para conhecer as reentrâncias culturais dessas comunidades, da mesma maneira que raramente chega até nós a favela dos favelados, dos seus verdadeiros habitantes”. E ainda que mais tarde pondere que “seria bastante ingênuo da nossa parte afirmar que a realidade da favela só poderia ser representada literariamente por alguém da própria favela, pois na arte e na literatura as coisas não funcionam de maneira tão mecânica”, faz questão de dar certo destaque na antologia a autores identificados com a periferia, como Carolina Maria de Jesus e Reginaldo Ferreira da Silva, o Ferréz. Aliás, pontos altos do livro.

Carolina Maria de Jesus, negra, neta de escravas e moradora de uma favela na capital paulista, é quase um ícone para quem estuda literatura feminina no Brasil e seu livro Quarto de despejo, de 1960, já foi traduzido para 13 idiomas nos últimos 35 anos. É um excerto dessa obra, um diário sobre a difícil rotina da mulher em busca de dinheiro para a comida dos filhos, que Nelson reproduz na antologia, preservando os “erros gramaticais” da primeira edição, erros que hoje são tão importantes como os acertos, dirá o organizador.

“Os meninos come muito pão. Eles gostam de pão mole. Mas quando não tem eles comem pão duro. Duro é o pão que nós comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do favelado.”, escreve Carolina no dia 22 de maio de 1958.

“Amanheceu fazendo frio. Acendi o fogo e mandei o João ir comprar pão e café. O pão, o Chico do Mercadinho cortou um pedaço. Eu chinguei o Chico de ordinario, cachorro, eu queria ser um raio para cortar-lhe em mil pedaços. O pão não deu e os meninos não levaram lanche. De manhã eu estou sempre nervosa. Com medo de não arranjar dinheiro para comprar o que comer. Mas hoje é segunda-feira e tem muito papel na rua.”, escreve no dia 2 de junho.

Ferréz é autor contemporâneo e publica em revista, é colunista da Caros Amigos. Depois da fama de Capão Pecado, romance lançado em 2000, vive de literatura, mas segue ligado ao movimento hip hop e promove eventos culturais em bairros de periferia, o que lhe dá, se não autoridade, autenticidade para ser uma voz de dentro da favela. Não por acaso há seis histórias de Ferréz na antologia, disparado o autor com mais textos, que vão de um poema perturbador chamado “Eu sou o...” até um interessantíssimo conto-crônica de protesto e tristeza chamado “Terra da maldade”, em que lê-se reflexões (ou seriam denúncias, ou desabafos?), como estas:

“Pode crê! Amanhã muita gente vai sair logo cedo, pra se humilhar por um emprego, se liga no que me ligou o parceiro: 'Tava no trânsito bem a pampa, passa um rapaz dando uns papel de carro em carro, ele começa a ler esperando os pedidos de dinheiro como sempre, aí ele se comove, no papel tava um pedido de emprego, tava escrito que podia ser qualquer um, o rapaz fazia qualquer coisa.' A lágrima corre, parceiro, o mano que recebeu o bilhete é professor de química do núcleo negro da USP e chegou a chorar no carro, já era 11 horas da noite, e ele tinha acabado de dar aula, pra uma sala de mais de trinta alunos, com mais ou menos oitenta cadeiras vagas, com metade das lâmpadas queimadas, em um barracão com um aspecto estranho, sabe? Um clima amarelo, mas se existe mesmo revolução ela ta ali, e só quem é sabe disso, que num palco as coisas deixam de ser cultura, mano, e começam a ser entretenimento, moro?”

Na grande maioria das vezes Ferréz não é apenas narrador, é personagem, participa das ações como aquele que intermedia a vida e a linguagem da favela e a vida e a linguagem do leitor, sabidamente muito diferentes. Esse papel de intermediário não impede que ele fale em revolução, louve Zumbi, denuncie abusos da polícia, Ferréz não tem medo algum de parecer panfletário e não está nem aí para o tal subtexto necessário ao conto. Para ele não interessa se está fazendo ficção ou não-ficção, conto ou crônica, literatura ou não, há questões muito mais graves com que se preocupar, há senhoras morrendo nos leitos das UTIs, nas filas dos hospitais, há jovens inocentes sendo baleados pela ROTA, amigos sendo presos e mortos por trocados: que vá ao diabo a teoria do iceberg, a noção de que o conto deve sugerir mais do que mostrar, que vá ao diabo essa poética literária que jamais subiu no morro para não se sujar e agora o obriga a descer do morro para se mostrar.

Bem diferente é o tipo de texto de autores como Marcelino Freire e Fernando Bonassi, escritores reconhecidos e que debruçam-se sobre a realidade das favelas para produzir belos contos, e aí sim contos na acepção clássico do que seria o conto. De Freire temos o que na minha opinião é o melhor texto de Contos Negreiros, “Solar dos Príncipes”, em que um grupo de negros quer entrar num prédio de classe média para gravar documentário e é barrado pelo porteiro, ironizando a facilidade com que nós, da classe média, entramos nas favelas para gravar, filmar, expor suas vidas. De Bonassi, autor do belo romance Subúrbio, que se espaço houvesse deveria estar inteiro na antologia, temos um conto chamado “Trabalhadores do Brasil”, que narra na história aparente o reconhecimento do corpo de um filho pelo pai, mas na história oculta problematiza e questiona a desvalorização da vida em realidades cruas, vidas já perdidas há muito, vidas oprimidas pela violência dos bandidos e também da polícia.

Já Luiz Marra é para mim grata surpresa: médico sanitarista e clínico geral, tem publicado um único livro de contos, O coletivo aleatório, de onde o organizador pinçou o belo “Pipas”, conto em que Marra cria uma metáfora definitiva para relacionar a favela e a cidade, metáfora que, aliás, foi parar na capa do livro: “Cruzaram olhares pela primeira vez quando as pipas enroscaram uma na outra e um longo atalho separava dois corpos miúdos acenando no meio do vento”.

Provavelmente são estes textos de Marcelino, de Bonassi e de Marra que permanecerão daqui a 20 ou 30 anos para a literatura brasileira, e não os textos-testemunho de Ferréz, que ficarão relegados a públicos específicos e combativos como estão hoje os de Carolina. Mas a simples inclusão dessa voz destoante, com linguagem e poética próprias (não erradas, não melhores, mas próprias) nos mostra que é tal qual pipas enroscadas que convivem hoje a cidade e a favela, a cidade querendo esquecer a favela, mas já não sendo mais possível porque os fios estão unidos, as pipas enroscadas, ambos querem no fim a mesma coisa, uma pipa bonita, faceira, e o céu é o mesmo, não há como escapar do outro.

Esta lição singela do conto de Marra, do livro organizado por Nelson de Oliveira é que deveria repercutir para toda a literatura. Se a literatura subisse o morro conheceria um universo riquíssimo e talvez lá se redescobrisse como real manifestação popular, arte capaz de expressar as angústias e os sonhos de toda uma geração, de toda uma sociedade. Ao invés de se sujar, iria se renovar.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 3/7/2007.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Oficina intensiva em 10 contos


Marcelo Spalding

Se tem discutido muito por estes pagos o que é preciso para ser um bom escritor, e talvez o único consenso seja o requisito mais óbvio: é preciso ler. Mas não simplesmente ler, é preciso saber o que ler, ter boas chaves de leitura, se possível discutir o que se lê. Assim são nas oficinas de criação literária, que proliferam assustadoramente aqui em Porto Alegre.

Pois este artigo é ao mesmo tempo um serviço a estes candidatos a contistas e uma ironia: obviamente não se vira um escritor depois de se ler 10 contos. Mas também é um ótimo começo para quem quer ser escritor conhecer um pouco sobre o que é o conto e nada melhor do que 10 contos geniais para se entender o que é este gênero cheio de nuances e ambigüidades.

Quem estuda o conto costuma apontar suas origens às histórias bíblicas, às mil e uma noites de Sherezade, às histórias orais, mas a maioria desses estudiosos concordam que o que hoje entendemos por conto moderno se delineia no século XIX com o trabalho dos Irmãos Grimm e as formulações poéticas de Edgar Allan Poe. Poe, autor do célebre poema “O Corvo” e criador da literatura policial, foi dos primeiros a defender a short story num contexto (e numa língua) em que o romance era a forma literária por natureza. Para o poeta e constista, um texto precisa suscitar efeito no leitor, e para tanto ele precisa ser lido de uma só assentada, sem interrupções, daí a necessidade de ser curto: “se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão”. Destacamos entre os tantos contos da obra de Poe um bastante curto e presente em muitas antologias contemporâneas, “O gato preto”, publicado em 1845. O enredo é relativamente simples: o narrador mata sua mulher por causa do seu gato, a empareda para esconder o corpo e quando a polícia vai até sua casa um miado de dentro da parede o denuncia: é o gato preto que emparedou-se com a morta e agora o acusa. A construção deste enredo é o que o torna singular e suscita no leitor o efeito pretendido pelo escritor, de pavor, de tensão: Poe não se apressa a chegar ao fim mas mantém no texto apenas o que é necessário, suas descrições das personagens culminarão nos assassinatos, os devaneios do narrador justificarão seus atos e o encadeamento dos fatos, de uma sucessão surpreendente mas incrivelmente lógica, denunciarão o narrador dando o fecho inesperado à história. É o que alguns chamam hoje de “conto de acontecimento”, em que o final é fundamental para a compreensão da história e a criação do efeito no leitor.

Tradutor de Poe e um dos grandes responsáveis pela sua popularização e canonização, o francês Charles Baudelaire não costuma ser chamado de contista, e nem poderia mesmo sê-lo, mas sua obra Spleen de Paris, que infelizmente foi titulada pelos editores de Pequenos poemas em prosa, esconde pelo menos uma dezena de histórias muito interessantes e que bem poderiam hoje ser vistas como conto, ou como miniconto. “Os olhos dos pobres”, publicado em 1869, é um bom exemplo: um narrador (ou sujeito poético) conta para a mulher porque a odeia e lembra do dia em que saem para um rico café e lá vêem um pai com dois filhos maltrapilhos, fascinados com o café; o narrador sente pena mas a mulher se diz enojada e pede que ele mande o maître afastá-los. De uma atualidade impressionante, a pequena narrativa de duas ou três páginas é a síntese da teoria do iceberg, metáfora com que Hemingway mais tarde definirá o conto como aquele um oitavo que está acima do nível da água, sendo a história oculta, o subtexto, a maior parte, submersa. Baudelaire conta a história de um casal que vai a um café, mas sob esta mísera e corriqueira história está toda a desigualdade social que já assola a França, e mais que a desigualdade, o conflito social que gerara tantas revoluções e mortes naquele país.

Diferente do estilo de conto de Poe é o conto do russo Anton Tchekhov, também considerado um mestre: ao invés do final surpreendente, é o desenvolvimento, o jogo entre o dito e o não-dito, o que é oculto e o que é revelado que aprisiona o leitor e produz o tal efeito. Chamado de “conto de atmosfera”, influenciou muito os escritores americanos de Joyce a Clarice Lispector, passando por Machado, Borges e Guimarães Rosa. “Angústia”, de 1886, é um contundente exemplo deste tipo de texto: o cocheiro Iona Potápov tenta contar que perdeu o filho para os passageiros de seu coche, mas não é ouvido por eles nem por ninguém e acaba por falar com seu cavalo sobre a perda. Resumido assim, em duas linhas, o conto perde a força e o sentido exatamente porque é a atmosfera criada por ele ao longo das páginas que tira o leitor do seu lugar confortável e o faz sentir compaixão por aquele protagonista solitário. O narrador em terceira pessoa conduz os sentimentos do leitor como um cocheiro o faz com seu cavalo, para ao fim abandoná-lo à própria solidão de um final que antes de uma solução é um potencializador do conflito.

No Brasil temos alguns contistas antes de Machado de Assis, mas é mais ou menos consensual que Machado é o grande nome do conto brasileiro. Leitor de Poe e cronista de jornal, usou e abusou do estilo produzindo uma infinidade de prosas curtas, algumas com feitio de crônica, muitas hoje presença obrigatória no vestibular. Destas a mais famosa e forte talvez seja “Pai contra Mãe”, de 1906, conto em que um homem pobre, Cândido Neves, é pressionado a deixar seu filho na roda dos enjeitados, quando vê na busca de uma escrava a possibilidade de se reerguer e não dar seu primogênito, mas quando pega a mulher, ela está grávida, e ao ser entregue ela acaba abortando por causa da luta. Numa mescla de conto de atmosfera com conto de acontecimento, Machado se utiliza da forma do conto moderno proposta por Poe e a atualiza com um conflito próprio do Brasil imperial e escravista, potencializando este conflito com os valores universais da maternidade, do amor filial, do desejo pela liberdade.

O gaúcho Simões Lopes Neto também usará a fórmula canônica do conto moderno para tratar de temas locais inovando ainda em outro sentido: usará linguagem local. Em Contos Gauchescos, de 1912, Simões (que estudara no centro do país e mesmo na Europa) recria o jeito de falar do gaúcho na figura de Blau Nunes, um legítimo contador de histórias que lança mão de termos como “taba” e “manantial” para reforçar o ambiente espacial. “No manantial” é um destes contos gauchescos em que o espaço, a linguagem e as personagens são gauchescas, mas o conflito é universal: a bela Maria Altina conhece André e marcam casamento; Chicão, que sempre fora apaixonado e rejeitado pela menina, na véspera do casamento invade a tapera, mata a avó com uma machadada e tenta violentar Maria Altina; ela foge a cavalo mas afunda no manantial; André, que seguia os dois, vê o assassino tentando se livrar do manantial, se atira nele, luta com o outro e caem ambos: “três defuntos de razão de morrer tão diferente e de morte tão a mesma”.

Um leitor atento já terá reconhecido o gênio Guimarães Rosa nesta breve explanação sobre Simões Lopes Neto. De fato Rosa, assumido leitor de Simões, se apropria desse narrador em primeira pessoa que faz uso da linguagem como recriação do espaço, levando tal técnica à mestria em Grande Sertão: Veredas. Já nos primeiros contos, porém, se percebe essa recriação lingüística e temática dentro das técnicas do conto formuladas no século XIX, e para tanto basta lermos Primeiras Estórias, boa porta de entrada nas veredas de Guimarães. Entre os tantos belos contos deste livro destacamos “Sorôco, sua mãe, sua filha”, que pode levar o leitor às lágrimas narrando a singela história de um homem que leva sua única filha e sua esposa para um carro que as levará ao hospício. É a criação da atmosfera, do não dito, da angústia de Sorôco por ter de internar uma filha que não entende, a opressão do espaço na vida daquelas pessoas, o que encanta e emociona o leitor. Mas nada disso está dito, é tudo a história oculta, cifrada, a parte submersa do iceberg.

Poderíamos agora citar Clarice ou Borges, ambos gênios que a partir da estrutura do conto moderno recriaram e reinventaram técnicas. Mas permita-nos falar de Luandino Vieira e o premiado, polêmico e fenomenal “A estória do ovo e da galinha”, publicado em Angola em 1965. Primeiro é interessante notar como a estrutura do conto moderno chega ao novíssimo mundo e nele encontra eco, ainda que novamente tenha sua temática e sua linguagem modificadas. Leitor de Rosa, Luandino mescla o português com termos africanos em sua narrativa e compõe uma história muito singular, conseguindo lidar com um tema seríissimo naquele momento histórico, o direito à posse (lembre-se que Angola era colônia de Portugal), sem abrir mão do humor e, digamos, da ginga africana: a história aparente é a briga de duas vizinhas por um ovo posto no quintal de uma pela galinha da outra; a história oculta é a luta sangrenta entre portugueses e africanos sobre quem tem o direito de explorar o solo – e a gente – angolana. E se têm tal direito. Contemporaneamente se verá ecos desse estilo na obra do moçambicano Mia Couto ou no cabo-verdiano Germano de Almeida, por exemplo.

Já vimos em nossa “breve oficina discursiva” que o conto, antes de um gênero, é um termo que designa um tipo de construção narrativa, termo este consolidado pela freqüência do seu uso mas muito pouco sólido para fazermos afirmações estanques. Se por um lado podemos afirmar que a narrativa deve ser breve, contar uma história aparente que esconda uma história oculta e provocar determinado efeito no leitor, as formas de se fazer isso são variadas, infinitas. E se olharmos historicamente para os grandes contos veremos um fio condutor que vai tecendo essa história. Compare-se, por exemplo, “A estória do ovo e da galinha” com o conto do carioca Roberto Drummond “Rosa, rosa, rosae”. Publicado no auge da ditadura, narra a história de um rigoroso professor de latim que observa sua turma em momento de prova, professor este que permite que Rosa, bela morena, cole em suas pernas, para alegria da turma, que liberta-se. Não seria tal narrativa uma alegoria em tempos de ditadura tal qual a disputa pelo ovo em Luandino?

Vale dizer, aliás, que o conto se tornou o tipo de literatura preponderante no Brasil nos anos sessenta, setenta, e alguns estudiosos dizem que exatamente por causa da ditadura: na época era muito comum, por exemplo, jornalistas aproveitarem-se da ambigüidade do conto para fazer críticas contundentes ao regime, aumentando e consolidando uma produção importante deste tipo de ficção no país. Desta época é o hoje canônico “Feliz Ano Novo”, em que Rubem Fonseca narra do ponto de vista de um bandido um ataque violento à uma casa de família rica, com roubo, assassinato e estupro. O conto chocou os leitores e a ditadura da época, sendo censurado reiteradas vezes. De violência aparentemente gratuita, está nas entrelinhas, no subtexto a crítica social que o texto suscita, apagando a possibilidade de entendimento entre as classes para provocar o questionamento naquele leitor que não se identifica nem com o narrador-bandido nem com as ricas e histéricas vítimas.

E para terminar esta quase breve e prepotente oficina chamo a atenção de um outro fenômeno que vem ocorrendo com o conto em tempos muito velozes, tempos de internet: sua miniaturização. Obra exemplar neste aspecto é o livro Ah, é?, de Dalton Trevisan (1994), em que o autor publica cento e poucas histórias minúsculas, algumas com uma ou duas linhas. Este tipo de texto, uma espécie de reinvenção ou aprofundamento do miniconto, tem sido muito explorado por alguns escritores contemporâneos e reflete esta miniaturização do conto, que se antes poderia ter várias páginas agora dificilmente ultrapassa o espaço de duas ou três páginas. Verdade que muitos já clamam por novas terminologias e teses para o conto, considerando ultrapassadas as formulações de intensidade, tensão e efeito, a teoria do iceberg, enfim, as tentativas de se encontrar uma constante neste gênero tão fugidio. Mas para o escritor iniciante é um ótimo começo conhecer um pouco desta história tão bonita e destas teorias tão interessantes, ler mais e mais contos e escolher seus dez, reler estes dez e encontrar semelhanças. Assim se faz, se não um bom escritor, um bom leitor. E de cada dez bons leitores se fará um bom escritor, quem sabe pode ser você, quem sabe posso ser eu...

Os dez contos:

1 “O gato preto”, Edgar Allan Poe [1845]
2 “Os olhos dos pobres”, Charles Baudelaire [1869]
3 “Angústia”, Anton Tchekhov [1886]
4 “Pai contra mãe”, Machado de Assis [1906]
5 “No Manantial”, Simões Lopes Neto [1912]
6 “Sorôco, sua mãe, sua filha”, Guimarães Rosa [1962]
7 “A estória do ovo e da galinha”, Luandino Vieira [1965]
8 “Rosa, rosa, rosae”, Roberto Drummond [1975]
9 “Feliz ano novo”, Rubem Fonseca [1975]
10 Ah, é? , Dalton Trevisan [1994]

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 26/6/2007.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Erotismo, sensualidade e literatura

Minha vó é uma grande figura: entre outras de suas tiradas, diz que se soubesse que ficaria viúva tão cedo (em torno dos 25) não teria casado virgem e teria aproveitado bem mais. Isso ela diz hoje, num tempo em que falar de sexo é não apenas comum como aconselhável, num tempo em que seus netos – e netas – dormem com os namorados em casa, na mesma cama. Naturalmente nem sempre foi assim, muito pelo contrário, ainda em meados do século XX temas como masturbação e bissexualismo eram considerados tabus, enquanto outros como pedofilia permaneciam ocultos sob um pacto de silêncio.

Hoje, e cada vez mais, sexo é um tema tão em voga (ainda que tão mal tratado) que eu penso que logo abrirá uma faculdade de sexologia: sim, se há faculdade para se estudar a literatura, a música, há faculdade para se estudar a estatística, a publicidade, por que não para estudar o sexo? Não falo em psicanálise nem em pedagogia sexual, falo em uma abordagem multidisciplinar que aborde o sexo de forma séria, investigando-o, levantando véus e mesmo alertando para os perigos de um hedonismo sem limites.

Mas estou abusando das preliminares, não quero broxar meu leitor: o assunto aqui é sexo e literatura. Muito antes do cinema, a literatura já rompeu diversas vezes com o status quo e recheou suas páginas de sensualidade, erotismo, pornografia. De Sade a Flaubert – sim, Flaubert, quem mais excitante que a Madame Bovary? –, de Bocage a José de Alencar – quem mais excitante que Iracema? –, a sexualidade tem sido tema constante seja como protagonista seja como condutora silenciosa da história. Presença que não poderia deixar de se acentuar na contemporaneidade, quando os clipes musicais, a publicidade e a novela das oito exploram o tema quase ao limite da banalidade, desafiando a quem queira manter o erotismo sem desbancar para a vulgaridade.

A este desafio se propôs o gaúcho Elizário Goulart Rocha em seu romance de estréia, Silêncio no Bordel de Tia Chininha (Letras Brasileiras, 2006, 120 p.). Publicado em 2001, ganha agora uma belíssima segunda edição da Letras Brasileiras, que, aliás, vem chamando a atenção do mercado editorial do sul deste Brasil.

O bordel, sem dúvidas, está no imaginário de nove entre dez homens, tenha ele freqüentado ou não algo parecido com um bordel literário: é que o bordel literário é recheado de mulheres lindas, disponíveis, alegres; fica num lugar distante, exótico, até, e não tem a exploração absurda das sofisticadas casas noturnas das capitais modernas: tanto as meninas quanto os clientes são tratados com respeito. Eis o cenário.

Mas não espere de Elizário um romance pornográfico, de uma pornografia barata, aqui estamos falando primeiro em literatura, depois em sensualidade. O conflito que movimenta a história é o eterno dilema dos retirantes: Ataliba, casado e pai de cinco filhos, diz que vai tentar a vida no Rio de Janeiro e abandona sua família à própria sorte. Jovita, bela mulher de 24 anos, carola o suficiente para achar que sexo é pecado, que desejo é pecado, vê-se obrigada a abandonar a casa onde mora antes que seja despejada e procura a sogra, Tia Chininha, dona do bordel mais respeitado da cidade. A sogra acolhe a mulher e os “ranhentinhos”, como os chama o narrador, mas a eles reserva o quarto dos fundos onde devem permanecer durante toda a noite em completo silêncio, sem sair dali por nenhum motivo, nem para fazer xixi ou cocô.

É desse encontro entre a velha dona de bordel e a jovem menina reprimida que nasce a história, daí que emergem os conflitos, os desejos. Jovita tem “os peitos arrepiados” e sente “o roçar do lençol”. Não é indiferente aos gemidos do salão principal, aos corpos esculturais das meninas preferidas e nem ao corpo em formação da filha, Camila Luciane.

“Jovita andava sentindo uma coisa estranha. Devia sentir saudade, muita saudade, mas não sentia. Devia achar insuportável a falta do marido, mas não achava. Devia ficar constrangida por andar tão à vontade num lugar daqueles, e às vezes à vontade mesmo, de mini-blusa que ficava suspensa abaixo dos seios, que marcava os mamilos e os excitava ainda mais, não à noite que a coragem não era tanta, mas de dia, mesmo assim, as calças justas, às vezes sem calcinhas, porque tinha poucas, e quando chovia não secavam, e o roçar do jeans, quem diria, agora até de jeans andava, dê-lhe a excitá-la, mas não ficava constrangida. Os elogios de Laura Melina, agora simplesmente Mel, e Isabel, agora simplesmente Bel, eram capazes de satisfazê-la tanto quanto os melhores galanteios masculinos que já ouvira. Não tinha qualquer intenção de gostar de mulher, o que é que é isso, pelamordedeus, homem é coisa muito boa, mas elogio é ainda melhor.”

Eis um trecho de singular sensualidade de uma história de singular sensualidade em que a todo instante o leitor vê-se excitado, de fato e com o desenrolar dos acontecimentos, excitação essa que nunca chegará ao êxtase, pois o narrador mantém com rédeas firmes o rumo de sua história e interrompe algumas cenas potencialmente eróticas antes que elas se consumam, cabendo ao leitor imaginá-las e inventá-las a partir de seus fetiches.

Jovita, aliás, é filha do fetiche. Sempre desconfio quando homens escrevem sobre a sexualidade de mulheres, há sempre ali muito mais um desejo masculino do que uma verdade feminina, e Jovita é uma jovem de peitos duros louca para saciar desejos profundos, que anda com poucas roupas e repara nas outras meninas, ou seja, um desejo masculino. Aliás, há outra personagem que cresce com o passar das páginas, ou melhor, com o passar dos dias, que seria uma espécie de neta do fetiche, posto que é a filha “de coxas grossas e pelinhos loiros” de Jovita.

Um leitor que tenha se baseado simplesmente na capa, em que vemos uma bela e jovem mulher deitada, nua e possivelmente se masturbando, com a palavra Bordel em destaque, talvez não chegue ao final do livro. Este leitor espera pornografia, e o que temos, já foi dito, é erotismo, é o jogo da sensualidade. Como diz Barthes em O Prazer do Texto, o que seduz é a encenação do aparecimento e desaparecimento, não a total nudez.

Portanto é para um leitor experimentado, iniciado e apreciador não apenas das generosas formas do corpo humano mas também da beleza estética da literatura que Silêncio no Bordel de Tia Chininha foi escrito. Leitores como Eduardo Bueno e Deonísio da Silva, o primeiro que saúda o romance na orelha e o segundo que tem nessa segunda edição publicada como prefácio uma crítica que escreveu a época do lançamento, crítica em que qualifica a obra como “forte candidato a um dos melhores romances deste alvorecer de século”. Se é para tanto ou não, depende de cada leitor. No final das contas julgar um livro é como julgar uma mulher: desde que não sejam notoriamente mal feitos, a beleza e a qualidade estão muito mais nos olhos de quem vê.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 5/6/2007.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Abuso sexual de crianças: do silêncio para a tela



Marcelo Spalding

Menina do outro lado do teclado, jovem, adolescente, filha, moça que já pode ser mãe, mãe, tia, avó, mulher que lê estas linhas enfraquecidas diante de um tema tão penoso, mulher que evita certos assuntos para não perturbar os sonhos, mulher que soma a todos os desafios comuns de nosso mundo o desafio de ser mulher, é chegada a hora de romper o silêncio. É chegada a hora de falar abertamente sobre o abuso sexual de crianças e adolescentes sob pena de a sociedade inverter a lógica e começar a acusar as vítimas, repetindo preconceitos e escondendo uma chaga social de todos os tempos, de todos os lugares, de todas as classes.

Eu poderia usar como gancho para escrever sobre este delicado tema o maravilhoso filme de Almodóvar, Volver, um conto belíssimo do último livro de Dalton Trevisan, “Tio Beto”, ou ainda lembrar do romance recém relançado de Fernando Bonasi, Subúrbio. Mas muito já se tem escrito sobre o papel da arte na abordagem de temas como este e parece que finalmente a sociedade brasileira está madura o suficiente para lidar com tais temas de frente, em pesquisas acadêmicas, entrevistas publicadas na mídia, documentários para a televisão. Por isso falarei de Canto de cicatriz, documentário da gaúcha Laís Chaffe que tem feito bonito papel em festivais e chegou ao Canal Brasil neste mês de maio.

Com 37 minutos de duração na versão que foi ao ar pelo Canal Brasil, o documentário se concentra nas duas principais formas de violência sexual que atingem as meninas, o abuso e a exploração sexual comercial (na versão em 18 minutos, também disponível no DVD, o foco se concentra mais no abuso intrafamiliar). O tema é abordado a partir de uma perspectiva de gênero, contando inclusive com a parceria (leia-se captação de recursos) do coletivo Feminino Plural, pois, embora meninos também sejam abusados, as principais vítimas são crianças do sexo feminino.

Diante de tema tão delicado, Chaffe optou por compor o documentário com um mosaico de recursos, partindo do poema “Canção para a menina maltratada”, feito especialmente para o documentário pelo escritor e psiquiatra infantil Celso Gutfreind e interpretado por Ingra Liberato. O poema, ao lado da música instrumental e de alguns takes de parques de diversões dão um tom lírico ao documentário (Laís também é escritora e grande leitora, especialmente de contos e poesias), embora os recursos jornalísticos também se façam presente: há inevitáveis e riquíssimos depoimentos de vítimas que relatam detalhes dos abusos sofridos, comentários de especialistas, filmes de ficção e enquetes nas quais ficam evidentes os mitos e preconceitos envolvendo o assunto.

Os depoimentos das meninas e mulheres, algumas dessas mulheres identificadas sem efeito especial ou contraluz, são evidentemente o ponto central do documentário, especialmente por evitar o sensacionalismo e priorizar a história: em apenas um momento a depoente chora, e ainda que a câmara não tenha cedido à tentação de fazer um close do rosto e das lágrimas, isso está longe de comprometer a sensibilidade e seriedade com que o tema é tratado. A depoente em questão é Iva, uma artesã adulta, muito bem articulada que conta não apenas do abuso como também deixa transparecer os efeitos na vida da mulher que deu lugar àquela criança: ela fala indignada dos covardes que fazem isso, pede que se denuncie, que não se cale, chora. Casada pela segunda vez há sete anos, diz que começou a se libertar do acontecido quando falou com seu marido sobre o caso, contando com todo seu apoio. Mais importante que suas palavras, porém, é o fato de não se esconder das câmeras e expôr não apenas sua história, mas seu belo rosto e seu doce olhar: é assim que Iva mostra ao telespectador que essas histórias são muito mais reais do que se pensa e estão muito mais próximas do que se pode imaginar.

Entre as histórias, a mais horrível é narrada por uma menina não identificada, já com seus vinte e poucos anos, que conta que era abusada pelo padrasto até o dia em que ele mesmo contou para a mãe da menina. Esta, indignada por achar que ambos a haviam enganado, começou a obrigar a menina a transar diariamente com o padrasto e seu filho, até o dia em que resolve que a menina deve transar com ela também. “Eu penso assim, não vai apagar, vão ficar marcas pro resto da vida, com certeza, se ver um filme vai sentir, se ficar sabendo de alguma história vai mexer um pouco, mas tem pessoas que vão acreditar, tem como ter uma vida normal depois disso, tem uma luz no fim do túnel, é preciso que se não confiar em alguém da família procure um amigo, uma professora, um vizinho, alguém vai acreditar e aí a pessoa vai conseguir terminar com aquele ciclo”, diz a menina, que ainda admite ter muita dificuldade de confiar em qualquer pessoa, independente do sexo, embora esteja melhorando depois dos dois anos de terapia.

Outro ponto alto do documentário são as enquetes com populares, de grande destaque na versão em 37 minutos. Na verdade, Laís demonstra grande coragem ao incluir trechos destas entrevistas, pois são declarações surpreendentes que desnudam a hipocrisia do silêncio social: revela-se o imaginário de que o abuso sexual só acontece em famílias pobres, em vilas, e de que a culpa muitas vezes é da própria criança ou adolescente que teria seduzido o adulto. Opiniões correntes, mas extremamente cruéis com aquelas que aos quatro anos de idade foram submetidas a toques e carícias involuntárias, a constrangimentos que a acompanharam por toda a vida, marcando para sempre suas identidades tal qual cicatriz encravada na mais sensível das partes humanas: a honra.

Alternadas a estas opiniões, especialistas dão sua visão dos fatos, explicando, por exemplo, que o abuso sexual não ocorre apenas em classes humildes, o que existe é um abafamento, um silêncio tácito quando estes casos se dão em famílias de classes média e alta. Exatamente por isso o documentário, os especialistas e as entrevistadas a todo momento exortam as mulheres a romper este silêncio e denunciar o abusador por mais difícil que seja essa situação: por vezes ele está dentro de casa, convive no seio da família, é tio, pai, avô.

Longe de esgotar o assunto ou propor uma solução para esta chaga social tão cruel com as mulheres, Canto de cicatriz tem o enorme mérito de romper o silêncio e levar o assunto para a televisão, ainda que um canal obscuro da tevê paga. Quem sabe o próximo passo seja a publicação no YouTube, quem sabe mesmo a veiculação nos cinemas na abertura de um filme de ficção, um dia quiçá uma televisão aberta se interesse pelo documentário, ou pelo menos pelo tema, e assim você, menina do outro lado do teclado, jovem, adolescente, filha, moça que já pode ser mãe, mãe, tia, avó, mulher, enfim, pode não apenas orientar outras mulheres ao seu redor como denunciar sem constrangimento o seu caso, pois infelizmente, segundo estatísticas, mais de 10% das mulheres foram vítimas de algum tipo de abuso sexual na infância.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 29/5/2007.

terça-feira, 22 de maio de 2007

As religiões do Rio e do Brasil



Marcelo Spalding

Escrevo no domingo das mães, domingo em que o Papa Bento XVI celebrou missa em Aparecida (SP) e nos jornais, nas rádios e nas televisões só se fala disso. Curioso como a mídia brasileira encara a religião, é como se ela fizesse questão de manter-se laica, cobrir acima de tudo política, futebol e bolsa de valores, mas ao mesmo tempo preserva um enorme respeito à Igreja Católica Apostólica Romana, cedendo-lhe espaços continuamente em pronunciamentos papais, feriados religiosos, procissões e morte de bispos. Uma cobertura respeitosa, sim, mas não espiritual, jamais se entra no mérito dos dogmas católicos, jamais se debate os valores cristãos, muitos já esquecidos e amassados pelo mundo contemporâneo materialista. E mesmo sendo assim, já é muito, pois as demais religiões nunca merecem manchete nos jornais. Quando o islamismo aparece na televisão em nosso país dissociado dos ataques terroristas? Quando o espiritismo ou as religiões afro merecem destaque em nossas rádios dissociadas de curandeiros ou adivinhos suspeitos?

Isso me faz lembrar o já centenário e clássico As religiões do Rio (José Olympio, 2006, 308 págs.), conjunto de reportagens de João do Rio publicadas em 1904 que ganhou recente edição da José Olympio. À época, o então jovem jornalista andou pelas entranhas da capital para levar ao público aspectos curiosos e históricos das diversas religiões que permeavam a cidade, publicando as reportagens na Gazeta de Notícias entre janeiro e março daquele ano. O sucesso foi tamanho que antes mesmo do final do ano elas foram publicadas em livro pela Garnier e alcançaram nos anos seguintes a surpreendente edição de dez mil exemplares.

Mas lembrei-me do livro por causa da (insistente) cobertura da visita papal, e permitam-me reproduzir um trechinho da apresentação de João do Rio para mostrar como as coisas parecem ter mudado pouco nestes mais de cem anos: “ao ler os grandes diários, imagina a gente que está num país essencialmente católico, onde alguns matemáticos são positivistas. Entretanto, a cidade pulula de religiões. Basta parar em qualquer esquina, interrogar. A diversidade dos cultos espantar-vos-á. São swedenborgianos, pagãos literários, fisiólatras, defensores de dogmas exóticos, autores de reformas da vida, reveladores do futuro, amantes do Diabo, bebedores de sangue, descendentes da rainha de Sabá, judeus, cismáticos, espíritas, babalaôs de Lagos, mulheres que respeitam o oceano, todos os cultos, todas as crenças, todas as forças do susto.”

A partir desta provocação inicial, João do Rio percorrerá espaços judaicos, maronistas, espíritas, satânicos e tantos outros, com especial atenção ao “mundo dos feitiços”, capítulo que abre o livro e tem a maior extensão. Neste, o autor deixa evidente algo que já fascinava (e espantava) os brasileiros do começo do século passado, os pedidos a deuses pagãos, especialmente entidades negras de origem africanas.

“Nós dependemos do feitiço. Não é um paradoxo, é a verdade de uma observação longa e dolorosa. Há no Rio magos estranhos que conhecem a alquimia e os filtros encantados, como nas mágicas de teatro, há espíritos que incomodam as almas para fazer os maridos incorrigíveis voltarem ao tálamo conjugal, há bruxas que abalam o invisível só pelo prazer de ligar dois corpos apaixonados, mas nenhum desses homens, nenhuma dessas horrendas mulheres tem para este povo o indiscutível valor do feitiço, do misterioso preparado dos negros.”

Entre a descrição de trabalhos e de mandingas indicadas pelos feiticeiros, o jornalista não deixa de chamar a atenção para a ambição destes, que exigem dinheiro a todo momento, afirmando que nem os espíritos fazem qualquer coisa sem dinheiro e sem sacrifício. Também critica veementemente a conivência da polícia, que visita essas casas como consultante. E arremata o capítulo definindo as bases “desse templo formidável do feitiço como sendo dinheiro, mortes e infâmia.”

José Carlos Rodrigues, na apresentação da edição da José Olympio, chama a atenção para o fato de João do Rio ter formação positivista e ser um “mulato claro pertencente à alta cultura”, o que justificaria seu olhar distante dos cultos afros e a falta de vínculo com os negros e mulatos da classe baixa, sempre tratados em terceira pessoa. Isso não seria um preconceito, segundo Rodrigues, pois deve-se levar em conta que a escravidão recém terminara no país e a cisão cultural era enorme.

Prova de que a postura crítica de João do Rio frente à feitiçaria é mais fruto da educação e dos valores positivistas do jornalista do que preconceito de cor é o capítulo em que ele fala da Associação Cristã de Moços, a ACM, ainda tão presente em nossos dias. Depois de contar com algum detalhe a história de George Williams e Christopher Smith, não se furtando de expor números impressionantes sobre o crescimento da Associação, o autor terminará o texto dizendo-se aflito: “Saí meio aflito. É possível que ainda se encontre um cristão de conto católico em plena cidade do vício, é possível essa candura?.”

Célebre também é sua descrição da Missa Negra, no capítulo sobre os satanistas, descritos como cristãos ao contrário. Aqui os bebedores de sangue ganham a cena, impressionando e enojando o cronista e o leitor, mas é o Diabo, o velho e bíblico Diabo quem conquista o protagonismo: “nunca este espírito interessante deixou de ser adorado. No início dos séculos, na Idade Média, nos tempos modernos contemporaneamente, os cultos e os incultos veneram-no como a encarnação dos deuses pagãos, como o poder contrário à cata das almas, como o Renegado. As almas das mulheres tremem ao ouvir-lhe o nome, as criações literárias fazem-no de idéias frias e brilhantes como floretes de aço.”

Verdade que se algumas das religiões descritas por João do Rio seguem influenciando nossa cultura no século XXI, como o espiritismo, o judaísmo, a feitiçaria e a própria ACM, outras perderam-se no tempo, como os swedenborgianos, espécie de catolicismo primitivo iniciado pelo inglês Emanuel Swedenborg, o que apenas comprova a vitalidade das religiões numa cidade como o Rio de Janeiro, num país como o Brasil. E apesar dessa vitalidade, de lá para cá que estudos sistemáticos se tem feito sobre as religiões? Como os jornais têm coberto os cultos evangélicos que se multiplicam nos pontos mais frágeis de nossa população, nas vilas, nos presídios? De que forma convivem na mesma cidade, na mesma família um físico ateu, uma senhora católica que freqüenta centros espíritas, um filho budista e outro convertido em evangélico pela última esposa? Que impacto esse sincretismo, que por vezes não é tão sincrético, e sim conflituoso, tem em nossa formação identitária? Será mesmo que o rótulo de “maior país católico do mundo” é suficiente para descrever as religiões brasileiras? E as velas acessas nas esquinas de nossas metrópoles? E os templos budistas espalhados pelas colinas do país? E os médicos e psicólogos que fazem regressão em seus consultórios?

Questões que talvez não possam ser respondidas, como de resto as grandes questões sobre a vida também não o são sem a ajuda de alguma religião, mas que deveriam pelo menos ser formuladas pela nossa mídia uníssona sob pena de ficarmos mais cem anos reproduzindo um discurso católico-apóstólico-romano sem olhar para os lados, para trás, para frente, para nossas contradições internas, para nossa formação.

Para ir além



Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 22/5/2007.