terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Luandino Vieira, o melhor de 2006


Marcelo Spalding

Num ano de presidente reeleito com votação consagradora, heróis da bola transformados em vilões, revista fazendo papel de panfleto e televisão fazendo as vezes de juiz eleitoral, quero eleger como melhor do ano um escritor que sequer é brasileiro, não escrevia nada de novo desde o começo dos anos 70 e rejeitou, em 2006, o maior prêmio literário da língua portuguesa. Seu nome: Luandino Vieira.

Comecemos falando do prêmio. Instituído em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil com o objetivo de “consagrar anualmente um autor de língua portuguesa que, pelo valor intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua comum”, o Prêmio Camões concede ao vencedor a importante quantia de cem mil euros, ou seja, cerca de trezentos mil reais! Entre os ganhadores figuram nomes como os portugueses Miguel Torga, José Saramago e Sophia de Mello Breyner, os brasileiros João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Rubem Fonseca e Lygia Fagundes Telles e o africano Pepetela. Nenhum deles, por óbvio, recusou-o.

Mas Luandino Vieira tem uma biografia muito própria e interessante, guardando mágoas de um tempo de guerras e coerência num tempo de volubilidades. Nascido em Portugal em 1935, foi ainda pequeno para Angola – então um país colonizado –, onde ao invés de ajudar seus patrícios no enriquecimento fácil, combateu ao lado dos angolanos no MPLA, movimento de guerrilha pela libertação de Angola. Em 1959 foi preso pela primeira vez e, em 1961, preso novamente e mandado para o Tarrafal, campo de concentração numa ilha inóspita para onde os presos de guerra eram enviados por Salazar. Enviados para morrer, mas incrivelmente Luandino permaneceu preso por oito anos, ao fim dos quais passou a viver em Lisboa em regime de residência vigiada.

Foi na prisão que o escritor produziu grande parte de sua obra, incluindo o famoso livro de contos Luuanda (Companhia das Letras, 2006, 144 págs.). Em suas três “estórias” – note aqui a influência de Guimarães Rosa –, Luandino foge de um realismo combativo, como se poderia esperar de um preso político, e mescla lirismo e crônica social de forma tão feliz que o livro, publicado em 1963, ganha o Prêmio Camilo Castelo Branco da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1965. Na ocasião, o governo Salazar aproveitou a oportunidade para fechar a Sociedade e aumentar ainda mais a repressão cultural no país e nas colônias.

Repressão e guerra colonial que durariam ainda até 1974, quando ocorre a Revolução dos Cravos e cai o regime salazarista. No ano seguinte, 1975, os países africanos tornam-se independentes e Luandino volta a seu país e chega a participar do governo, mas com o fiasco das primeiras eleições livres e o recomeço de uma nova guerra civil, em 1992 decide regressar a Portugal e isola-se de tudo e de todos na fazenda de um amigo no Minho, onde se torna agricultor.

José Rodrigues, outro amigo do escritor, por ocasião da recusa afirmou: "Luandino tem seu mundo muito próprio, e por isso esta reação não me surpreende. A única coisa que me surpreenderia é se ele deixasse de escrever, mas tenho a certeza de que isto não acontecerá".

De fato, no começo de novembro de 2006, Luandino Vieira voltou à cena com a publicação pela editora portuguesa Editorial Caminho de O livro dos rios, primeiro volume de uma trilogia chamada De rios velhos e guerrilheiros. Além disso, também em 2006 a obra Luuanda ganhou nova edição pela Companhia das Letras, facilitando o acesso para os leitores contemporâneos deste acontecimento literário.

Diante da coincidência da recusa do prêmio em pleno ano em que voltou a publicar, não faltou quem acusasse o escritor de fazer marketing para promover seu novo romance ou chamar a atenção para sua figura, o que, cá entre nós, é uma heresia: primeiro porque ninguém rejeita ganhar 300 mil reais por marketing, muito menos um cidadão angolano ciente da quantidade de problemas sociais do seu país. Depois porque o romance de certo estava planejado há anos e escrito há tempos, e só o fato de um escritor premiado nos anos 60 voltar a escrever depois de trinta anos já despertaria interesse da mídia e do público.

As razões para a recusa do prêmio, portanto, são bem mais profundas e, até, anacrônicas. É preciso voltar no tempo, voltar a um tempo em que ideologia não era utopia, em que havia espaço para novas esperanças e homens dispostos a pegar em armas para lutar por elas. Verdade que a resposta foi cruel e em nome da luta foi derramado muito sangue, aniquilado muito sonho, devastado o país. Ainda hoje as minas são um problema sério em Angola, mais sério que os altos índices de analfabetismo, de miséria, de fome e da AIDS.

Por tudo isso não se pode deixar de saudar um ano em que o mesmo império português que prendeu e torturou um homem oferece a ele um prêmio. Um ano em que este homem, com hombridade e coerência, recusa tal prêmio. E, de quebra, no mesmo abençoado ano na vida da literatura angolana, lança o começo de uma trilogia esperada há pelo menos trinta anos.

Por tudo isso Luandino Vieira é o personagem deste 2006 para os leitores de língua portuguesa.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 19/12/2006.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

As cicatrizes da África na Moçambique de Mia Couto


Marcelo Spalding

As feridas da África são profundas: cinco séculos de colonização, escravização do povo, exploração das minas, violências físicas e culturais como apagamento das tradições, dos cultos, das crenças, das línguas e das organizações sociais. Feridas tão profundas quanto antigas que impediram os países não apenas de se projetarem no mercado globalizado internacional como tiraram deles qualquer perspectiva de futuro. De presente.

Vejamos o caso de Moçambique, uma nação que compartilha com nós, brasileiros, a mesma língua e a mesma colonização portuguesas. Em Moçambique – país independente há cerca de trinta anos e em paz há menos de quinze – mais da metade da população é analfabeta, 1,5 milhão de pessoas estão vivendo com o vírus da Aids e a expectativa de vida não supera os 50 anos. Um índice muito comentado por aqui, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano da ONU), sintetiza bem essa realidade: enquanto Portugal ocupa a 28º posição com índice de 0,904, o Brasil está na 69ª posição com um IDH de 0,792 e Moçambique tem um índice que é metade do brasileiro, 0,390, e aparece como o 168º país menos desenvolvido entre 177 países pesquisados.

Fadado ao ostracismo e esquecimento por aqueles que tomam decisões nas cadeiras da ONU ou do Banco Mundial, o país encontrou um meio de expressão na velha e européia literatura, que nas mãos de escritores africanos como Mia Couto ganhou variações formais, novas preocupações, novos conflitos e transformou-se em voz dos milhões de moçambicanos em situação de extrema miséria. Mas não espere de Mia Couto (jornalista, biólogo, ex-militante político e descendente de portugueses) densos romances criticando a condição de vida dos africanos ou acusações contra a colonização portuguesa. Mia evita tratar das questões sociais de seu país de nascença de forma panfletária, combativa ou mesmo direta, prefere o lirismo a que a literatura se permite, a sutil representação de personagens e enredos complexos em textos cheios de ironia, ambigüidade e questionamentos, textos feitos ao gosto do público pós-moderno que compra e lê livros – e que naturalmente não está em Moçambique. Dessa forma, o autor é um dos mais europeus dos africanos e ao mesmo tempo o que talvez mais faça pela situação miserável de seu país desde Vozes Anoitecidas, o primeiro livro de contos, em 1986, até O outro pé da sereia (Companhia das Letras, 2006, 332 págs.), romance lançado agora e com edição também no Brasil.

Romance seguro de autor maduro, O outro pé da sereia consolida a forma Mia Couto de escrever – aqui com menos neologismos e mais espaço para ditos populares –, assim como recoloca a difícil retradicionalização africana no centro da narrativa. A questão fundadora das personagens, tanto do afro-americano que desembarca na Moçambique dos anos 2000 em busca do passado de seus ancestrais quanto dos filhos daquela terra que se esforçam por “inventar uma África” ao gosto do estrangeiro, é descobrir suas origens. Em momento avançado da obra um dos africanos dirá à esposa do estrangeiro: “Nós também não sabemos de onde viemos”; e eis a síntese da dificuldade que têm as pessoas e o país como um todo de se inserir num cenário internacional sem sequer reconhecer suas raízes.

Sintomático dessa busca por raízes profundas é a divisão que o autor faz da obra em duas histórias paralelas, que alternam-se capítulo a capítulo: uma que conta a chegada dos estrangeiros na Moçambique de 2002 e outra com a viagem de um padre português e sua santa abençoada pelo Papa a uma Moçambique selvagem no ano de 1560. Quem liga as duas histórias é uma humilde camponesa, Mwadia, ao encontrar em 2002 a estátua e alguns escritos desse padre, D. Gonçalo da Silveira, e seguir rumo à cidade para abrigar a santa com segurança.

Mas se você já leu o romance sabe que dizer que Mwadia liga as duas histórias é um exagero para uma mente racional como a de nosso leitor ocidental. Mwadia é um fio condutor com o qual o narrador costura (nem sempre de forma evidente, nem sempre de forma feliz) uma teia de acontecimentos, conflitos e personagens, permitindo que a obra trate ao mesmo tempo de política, relações pessoais, identidade, memória, permanência, pertencimento e morte. Nas pouco mais de trezentas páginas desfilam pelo menos dez protagonistas, que se alternam ao longo dos dezenove capítulos, todos com histórias complexas e muita ambigüidade, especialmente em relação a suas origens e personalidades, fazendo com que o leitor navegue em águas revoltas e sem segurança do seu destino.

Fundamental para entender essa teia é ler as epígrafes dos capítulos, que como já é tradicional em Mia Couto são excertos de frases das personagens do romance. Em uma delas está expressa a sina que move o romance, as personagens e também o narrador:

“Eis a nossa sina: esquecer para ter passado,
mentir para ter destino.”


Tal sina é muito bem representada em certa cena em que os moçambicanos apresentam para o afro-americano uma árvore conhecida como “a árvore das voltas: quem rodasse três vezes em seu redor perdia a memória, deixaria de saber de onde veio, quem era os seus antepassados. Tudo para ele se tornaria recente, sem raiz, sem amarras. Quem não tem passado não pode ser responsabilizado” (p. 276). Desta forma, esquecer o passado torna-se a única forma de suportar as dores e não abrir ainda mais as feridas, pois os africanos seriam obrigados a reconhecer, por exemplo, que não apenas os brancos escravizaram e mataram os negros como também os negros escravizaram e mataram os próprios negros.

Por isso Mia Couto em sua obra vai além de questões político-sociais contemporâneas: acredita ele que para resolver os problemas moçambicanos – e de resto os problemas do continente – é preciso que o africano reencontre suas origens, suas tradições, seus cultos, suas crenças. Tal posicionamento explica porque em O outro pé da sereia não há apenas a história de Vila Longe e Mwadia no ano 2002, história por si só rica e interessante, mas também, intercalada, a história de D. Gonçalo em 1560: Mia aponta para este período como fundador da identidade africana, mas não para pensar num paraíso negro anterior à presença do branco nem para sugerir o pacifismo da raça negra, e sim para mostrar como a mistura estava acontecendo já àquela época com a presença de indianos, de tribos diversas e cultos diversos ao longo do enorme continente.

Em suma, Mia se nega a inventar uma África exótica e disposta a tudo para voltar a viver como nos tempos idos. Mia se nega a falar de florestas e animais selvagens ou crianças morrendo famintas nas estradas de terra, optando por representar as profundas feridas – mais ou menos cicatrizadas – que perpassam não apenas a nação moçambicana mas todo o continente africano, antes tão explorado e agora tão esquecido pelos racionais e globalizados do ocidente.

Nota do Editor
Leia também "Mia Couto revisitado".

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 5/12/2006.