terça-feira, 7 de novembro de 2006

A Feira do Livro de Porto Alegre


Marcelo Spalding

Que gaúcho é exibido, a gente sabe, mas, cá pra nós, tem coisas de que a gente tem mesmo de se orgulhar, e uma delas é a Feira do Livro de Porto Alegre. Maior Feira do Livro a céu aberto da América Latina, atravessou golpes militares e revoluções tecnológicas, viu a TV surgir e se firmar como grande mídia, a internet tomar conta dos lares, o McDonald's fincar sua bandeira em praça pública e as megalivrarias erguerem seus mausoléus no coração dos shoppings. Mas nada disso impediu que ela acontecesse ao longo destes cinqüenta e dois anos, sempre na principal praça do centro da capital gaúcha.

Os números de hoje impressionam. Só ano passado foram 713 sessões de autógrafos, reunindo cerca de 1.900 autores, devido às antologias, além de 258 eventos na área adulta, 260 na área infantil e 47 oficinas. Mas o processo até chegarmos a essa magnitude foi lento e começou no longínquo 16 de novembro de 1955, quando 14 barracas de madeira foram montadas em torno do monumento ao General Osório.

Walter Galvani, hoje jornalista consagrado, escritor respeitado, patrono da Feira em 2003 e autor, entre outros, do livro A Feira da Gente, lembra com saudades da primeira vez que viu a Feira. Um dia passava pela Praça da Alfândega, pensando no brilhantismo do ataque colorado formado por Larri e Bodinho, quando viu uma intensa movimentação de pedreiros. Curioso, mal chegou na redação do Correio do Povo, quis saber de P.F. Gastal, já uma espécie de guru cultural, o que era aquilo. “Ora, menino”, teria dito Gastal, “tu volta lá, por castigo, pergunta o que está acontecendo, fala com todos que puderes falar e depois vem para cá e faz uma notícia sobre isso”. Assim ele descobriu a Feira, à época com a barraca da Companhia Editora Nacional anunciando biografia de Monteiro Lobato e já desde aquela época com caixas de saldos em que se pode encontrar clássicos a preços de banana.

Talvez hoje não se tenha a dimensão do que foi levar o livro para a praça, mas há cinqüenta anos atrás o livro ainda era símbolo de erudição e as livrarias eram consideradas territórios de luxo, onde as pessoas só entravam bem vestidas e não manuseavam os exemplares com a desenvoltura de hoje. Porto Alegre também não passava de uma província incrustada no Sul do Brasil, sem a relevância cultural que tem hoje para o país.

Foi também com a Feira do Livro que surgiu por aqui a sessão de autógrafos. Em 1956, quando Erico Verissimo, que em 1955 não conseguira voltar dos Estados Unidos a tempo de participar, lançou o livro México, importou para o Brasil a novidade. “Até então, os escritores achavam aquilo um exibicionismo, e Erico foi fundamental para popularizar e incentivar os demais autores”, lembra Galvani. Não era uma sessão como se conhece hoje. O autor permanecia alguns momentos na banca da sua editora e, ali mesmo, assinava os exemplares dos leitores.

Em 2006, a Feira começou no dia 27 de outubro e vai até 12 de novembro, com 154 expositores além de bibliotecas, oficinas, cursos, concursos e centenas de sessões de autógrafos. Além da praça, a Feira já se estende para os armazéns do Cais do Porto, onde fica a Área Infanto-Juvenil; abriga bares, estúdios de rádio e TV, estandes dos Correios, da Bovespa, enfim, é também um grande negócio.

Naturalmente esta visão empresarial, que permitiu o patrocínio de grandes empresas, os financiamentos das leis de incentivo à cultura e a grande cobertura da mídia, foi fundamental para o gigantismo de uma Feira que começou tímida. Gigantismo que cobra seus preços, como a constrangedora banalização da publicação de livros, a eventual superficialidade das discussões, o tratamento estritamente mercadológico das listas de mais vendidos e o parasitismos de cozinheiros, jornalistas, políticos e pseudocelebridades que em época de Feira publicam livros e distribuem autógrafos.

Ainda que um sucesso comercial, a Feira hoje não se livra de questionamentos, principalmente dos literatos e dos saudosistas, que acusam-na de tratar os livros como se fossem casquinhas do McDonald's, ignorando questões de qualidade e pertinência. Reclamam da multidão em meio aos estandes e da dificuldade de se procurar livros nos balaios. Sem dúvidas lembram do ar-condicionado das megalivrarias, dos atendentes sorridentes das megalivrarias, das cadeiras acolchoadas das megalivrarias. Fato é que, por causa da Feira ou à revelia dela, o livro popularizou-se, hoje vende-se livros em bancas de revista e supermercados e, mais do que isso, as editoras e livrarias deixaram o bucolismo e tornaram-se empresas arrojadas, por vezes multinacionais, interessadas naquilo que move o mundo contemporâneo.

Mas não se pode fechar questão sobre a validade ou não de uma Feira no coração da cidade, mesmo sob um olhar literato, especialmente ao acompanhar a multidão de homens, mulheres e crianças que circulam pelas barracas, gente que talvez compre seu primeiro livro, conheça seu primeiro escritor e talvez nunca mais pare de ler. Opinião esta que tem eco nos depoimentos de alguns escritores gaúchos sobre sua Feira, com os quais fechamos este texto e abrimos este debate:

“A Feira é um verdadeiro festival da literatura, com palestras, painéis, apresentações, sem falar no convívio proporcionado às pessoas e na possibilidade de encontros entre escritores e leitores.” Moacyr Scliar (patrono em 1987)

“As megalivrarias facilitaram, só até certo ponto, o acesso ao livro. Experimente entrar numa delas. Você ficará confuso, pois as publicações – as mais diversas – se atropelam umas às outras.” Armindo Trevisan (patrono em 2000)

“Na Feira há um encontro concreto, cotidiano, informal das pessoas com livros, escritores, literatura, enfim.” Lya Luft (patronesse em 1996)

“A importância da Feira é simbólica: o livro na praça, democratizado, acessível. A Feira de Leipzig tem mais de 600 anos. A nossa, já passou dos 50. Eu me orgulho de viver numa cidade cuja Feira do Livro já tem meio século.” Charles Kiefer

“A Feira é uma tradição, e tradições não caem, mesmo com mudanças, como o advento das megalivrarias. Além disso, a Feira é bem mais democrática que as megalivrarias. E mais simpática. E mais completa. E tem clima de festa, coisa que megalivraria não tem.” Paulo Bentancur

“A Feira do Livro faz parte da identidade da nossa cidade, e isso é o mais importante. Quando se pensa em Porto Alegre, se pensa na Feira. Além disso, é o evento que coloca em contato autor, obra, leitor e, de alguma forma, todos saem enriquecidos.” Jane Tutikian

“As Feiras do Livro fazem da leitura um fato social, criam debates na grande imprensa, promovem livros e autores.” Vitor Biasoli

“A Feira do Livro já seria suficientemente importante por se constituir num evento que chama a atenção para a literatura. Contudo, além de veicular o tema literatura, ela dinamiza a cultura, enquanto acontecimento social, e mobiliza leitores, escritores, educadores e educandos.” Paula Mastroberti

“Acho que o mais importante da Feira é a festa. Se a melancia tem festa, se a uva tem festa, o livro também pode ter.” Ernani SsóPublicado originalmente no Digestivo Cultural em 7/11/2006.

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