terça-feira, 10 de outubro de 2006

Um defeito de cor, um acerto de contas


Marcelo Spalding

"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime."

Luís Gama

Imagine se você, um autor desconhecido, chegasse hoje numa grande editora, em tempos de crise no setor editorial, com um romance de quase mil páginas. Mil! Nem arriscaria, não é mesmo? Pois a mineira Ana Maria Gonçalves, nascida em Ibiá (MG) e com trinta e poucos anos ignorou a lógica do mercado e apresentou para a Record Um defeito de cor (Record, 2006, 952 págs.), publicado em maio deste ano, com honrosas 952 páginas de narrativa. “Talvez seja o mais extenso romance brasileiro publicado em uma única obra”, orgulha-se a autora.

Bom para o romance que os primeiros três capítulos são marcantes, lidos de uma só sentada, tamanha a densidade e a fluidez da narrativa. Narrativa, aliás, que é mais uma metaficção historiográfica de feitio pós-moderno – mesclando verdade e ficção, dados históricos com “pegadinhas”, não preocupando-se em ser definitiva nem isenta – e ao mesmo tempo é o grande romance da nossa literatura sobre a mais cruel, atrasada e vergonhosa experiência brasileira: a escravidão. Não apenas a escravidão em si, mas a escravidão, seus efeitos, suas conseqüência nas gentes e nas pátrias daqui e além-mar narradas por uma negra raptada de sua tribo e vendida como escrava.

Kehinde, essa protagonista, nasceu em Savalu, reino de Daomé, em 1810. Ibêji (ou seja, gêmea), passa os primeiros anos da vida com a mãe, a avó, o irmão e a irmã gêmea, Taiwo, com quem acredita dividir a alma. Certo dia um grupo de guerreiros que invade a casa da avó para roubar, descobre que ela cultua os voduns, acusa-a de bruxaria e promove uma grande chacina, matando e violentando a mãe diante das filhas, abusando das meninas e matando o irmão. A avó parte com as ibêjis para o litoral, onde as meninas são raptadas na rua e presas como mercadoria para vender no Brasil. A avó, desesperada, oferece-se para ir com elas e embarcam num navio negreiro de péssimas condições. Nestes capítulos, as cenas narradas são de efeito único no leitor, misturando a crueza necessária para representar a viagem e o lirismo transcendental que mantém a narrativa palatável e Kehinde, viva:

“Não nos davam comida todos os dias, e me acostumei a isso. Acho que todos nos acostumamos, gostando de uma certa sensação de conforto causada pela fome e pela fraqueza. Era como se o espírito se separasse do corpo e ficasse livre e solto, tanto da carne quanto do porão do navio.”

Nesta travessia morrem muitos negros, entre eles a avó e a irmã de Kehinde, que chega sozinha no Brasil e teme virar carneiro, como diziam que acontecia com os capturados em África. Não demora, entretanto, para a menina descobrir que o destino de um escravo pode ser muito pior que o dos carneiros. Nos primeiros anos torna-se dama de companhia de bondosa sinhazinha, com quem depois conviverá ao longo de toda a vida, mas cresce, a sinhazinha vai estudar na capital e a luxúria do sinhô descobre o corpo em formação da escravinha. Kehinde, sabedora das intenções do dono, pede proteção a outro negro, Lourenço, por quem está apaixonada, mas depois de uma tentativa frustrada pelo namorado de violentar a escrava, o sinhô tortura Lourenço, estupra Kehinde, estupra Lourenço e por fim o castra. Da tragédia resultará uma grave doença que levará o sinhô à morte, uma humilhação eterna para Lourenço e um filho para Kehinde.

Daqui em diante a história toma novo rumo e onde antes só havia espaço para a desgraça e a tragédia nasce uma esperança. A família muda-se para Salvador, a escrava de casa vira escrava de ganho, a menina torna-se mulher e a protagonista se transforma em heroína. Sem adiantar demais o enredo, pode-se dizer que ela não apenas liberta-se e prospera como também acultura-se, chegando a dar aos dois últimos filhos os nomes de João e Maria Clara, mesmo vivendo na África.

Mas Kehinde também é a narradora, uma narradora com pressa de terminar suas memórias endereçadas ao filho que dela foi tirado. Não é o filho fruto do abuso (este, um abiku, morre ainda criança), mas o filho de um casamento entre ela e um português que, quando o menino está com 10 anos, vende-o para saldar suas dívidas. Ainda que faça de tudo para encontrá-lo, viajando por Salvador, Rio de Janeiro, Santos e São Paulo, Kehinde não o encontra e resolve voltar para a África, onde forma nova família. Já velha, resolve fazer a viagem de volta por causa de novas e tardias pistas sobre o paradeiro do filho, e é no trajeto desta viagem que narra a história do livro.

A estratégia da autora de narrar a história assim, a partir da protagonista, torna a linguagem simples e eficiente e exime a obra de imprecisões ou omissões históricas – vale ressaltar que não deixa de haver uma enorme pesquisa histórico-social por trás do romance. Adotando o ponto de vista de uma escrava, ou seja, de uma mulher negra lutando por sua identidade e seus amores em tempos de homens brancos empenhados em construir uma nação, Ana Maria particulariza e humaniza um grupo social fundamental para a construção desse país mas sempre referido no coletivo, revelando detalhes cotidianos da escravidão e desvelando sua face mais cruel.

O deslocamento do narrador para uma classe explorada e aculturada à força também permite uma pouco comum ênfase em questões religiosas – fundamentais inclusive para se entender as motivações de Kehinde e o último capítulo do romance –, ênfase traduzida em descrições detalhadas dos voduns africanos às festas católicas de então, formando uma rica e fascinante teia sincrética de um tempo onde o espiritual não foi ainda rendido pelo racionalismo etnocêntrico e liberal.

Já a aposta estética da autora, um romance extenso e denso publicado num único livro (e não em tomos, como O Tempo e o Vento, por exemplo), pode por um lado conferir autoridade e credibilidade para a história e por outro afastar sobremaneira os leitores. Dessa forma não nos cabe achar boa ou ruim a escolha, mas pensar em como funciona um texto tão extenso, talvez o maior em língua portuguesa.

Primeiro é preciso entender que as ações são narradas oralmente por Kehinde para uma acompanhante num continuum temporal como quem conta suas memórias, sem grandes saltos no tempo e com interrupções providenciais para descrições detalhadas dos ambientes, das questões políticas, culturais, sociais e religiosas, bem como impressões e explicações pessoais do narrador. Tudo isso entremeado por histórias paralelas num feitio de oralidade construída já canonizada no Grande Sertão. Mas aqui, diferentemente do romance de Rosa, que opta por contar apenas as últimas batalhas de Riobaldo, a história começa com as primeiras lembranças de Kehinde, aos 6 anos, e só termina com sua chegada de volta ao Brasil (ou seria sua morte?). Assim, não é difícil entender que mesmo novecentas e tantas páginas não sejam suficientes, e não é rara a sensação do leitor de imprecisão e apressamento em algumas cenas, especialmente em cenas capitais como a morte e o sumiço dos filhos.

Se por um lado a pressa da narradora causa essas elipses maléficas ao todo, também é importante mencionar que a obra é divida em dez partes e que cada parte é dividida em pequenos capítulos num total de 329, permitindo que a leitura flua de forma veloz. Sim, veloz, e aqui é interessante notarmos que em raros momentos o texto é prolixo, ainda que pareça estranho que um romance de quase mil páginas possa ser considerado conciso. Ocorre que ser conciso não é ser breve, e sim fazer caber mais em menos espaço, e realmente Um defeito de cor narra não apenas a movimentada vida de Kehinde como pontua episódios políticos do Brasil republicano e pincela matizes das sociedades urbanas em formação com espantosa verossimilhança e visibilidade.

Millôr Fernandes, em coluna na Folha de São Paulo em setembro de 2006, coloca Um defeito de cor entre um dos livros mais importantes, entre os 10 melhores que leu “em nossa bela língua eslava”. Idelber Avelar, no Biscoito Fino, afirma que Um defeito de cor está no mesmo nível de Quarup, de Antonio Callado, Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, Catatau, de Paulo Leminski, e Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, “todos eles um par de degraus abaixo do romanção-mor das nossas letras (o Sertão de Rosa): ou seja, Ana escreveu um dos cinco grandes romanções-cosmogonias da última metade de século na literatura brasileira, no mínimo”.

De minha parte acho impossível para nós, contemporâneos ainda espantados com os riscos assumidos, definirmos que se trata de um daqueles romances dignos de figurar nas teses e dissertações universitárias e na lista de obrigatórios para o vestibular. Mas parece claro desde já que estamos diante de um acontecimento, uma obra que mexe com a produção contemporânea, retoma com coragem a idéia realista de representar a realidade defendendo posições e inova esteticamente trazendo a oralidade para o primeiro plano. Não bastasse isso, Ana Maria investe na prosa longa e levanta o véu de um período muito pouco debatido de nossa história num contundente e já necessário acerto de contas, dando voz a quem a sociedade calava a chibatadas.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 31/10/2006.

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