terça-feira, 10 de outubro de 2006

A bem-sucedida invenção do gaúcho


Marcelo Spalding

Gaúchos estão espalhados por todo o país, dos ministérios palaciais às fazendas matogrossenses, dos gramados futebolísticos às redações de jornais. Espalhados não, espraiados. E se perguntarmos a você o que é ser gaúcho, provavelmente você responderá sem dificuldades que é andar a cavalo pelos pampas verdejantes, comer churrasco com a família, tomar chimarrão numa roda de amigos, dançar ao som da gaita e do violão com bota e bombacha, ainda que sete entre dez gaúchos não conheçam o pampa senão de carro, nunca tenham galopado, não dancem senão de tênis e jeans, além daqueles tantos que não gostam de chimarrão e os outros não tantos vegetarianos.

Não, não se trata de um estereótipo, mas de uma imagem de gaúcho construída ao longo dos anos e consolidada no imaginário brasileiro (incluindo o gaúcho). Alguns dirão que tal imagem vem desde os anos heróicos da Revolução Farroupilha ou, mais remota ainda, da Guerra Guaranítica. Mas não: é uma imagem que solidificou-se e espalhou-se sobremaneira só a partir de 1948 (pouco mais de cinqüenta anos atrás!), ano em que Barbosa Lessa e outros jovens fundaram o Centro de Tradições Gaúchas “35 CTG”.

Com o objetivo de fortalecer a cultura gaúcha sem preocupar-se com a história verdadeira, mas a fim de projetar um futuro melhor ao povo, um futuro mais “estável”, calcado nas “tradições” da terra, este grupo idealizou o tradicionalismo e fundou locais específicos de encontro, com regras de dar inveja a qualquer manual de etiqueta. Estes Centros se espalharam, começaram a promover festivais, concursos, tornarem-se fortes especialmente no interior, chegaram a outros estados e países. Hoje, disseminado, convive com a indústria cultural, tornou a churrascaria um negócio lucrativo no mundo todo e atrai de executivos engravatados a operários da construção civil. Ficou de tal forma embrenhado na cultura que na geração atual poucos sabem que a “prenda” não usava aquele vestido armado, que o termo “gaúcho” era considerado pejorativo, que algumas regiões desenvolveram-se à mercê do cavalo e que nossos heróis farroupilhas não usavam botas de couro como as hoje apregoadas. Não sabem porque de tal forma esse imaginário ficou consolidado que tomamos por verdade uma tradição e um passado elaborados há pouco mais de cinqüenta anos. Não sabem por que a invenção criou o invento, e hoje de fato ser gaúcho é tomar chimarrão e comer churrasco vestindo bota e bombacha, ainda que nos finais de semana ou na Semana Farroupilha.

Uma boa oportunidade para se conhecer um pouco melhor essa invenção cultural tão bem sucedida é o livro Gaúcho, o campeiro do Brasil (Letras Brasileiras, 2006, 84 págs.). Na obra, um texto inédito de Barbosa Lessa (o já referido fundador do “35 CTG”) é ilustrado por fotografias belíssimas de Leonid Streliaev numa edição bilíngüe impecável, colorida, diagramada com cuidado e impressa em folha especial. Além disso, o editor e apresentador Jakzam Kaiser (diga-se de passagem, um também entusiasta do tradicionalismo) teve o cuidado de publicar no final um texto escrito por Barbosa Lessa e aprovado em 1954 como documento matriz do Movimento Tradicionalista Gaúcho, “O sentido e o valor do tradicionalismo”, um texto importantíssimo que não era publicado desde 1979.

Se o texto inédito de Lessa é uma repetição ufanista das características do gaúcho, apresentadas em verbetes como “A fauna”, “A flora”, “O pampa”, “O churrasco”, “A estância”, o documento de 54 é uma síntese esclarecedora do pensamento daqueles que fundaram – ou inventaram – o tradicionalismo, a tradição, o gaúcho:

“Quando a cultura de determinado povo é invadida por novos hábitos e novas idéias, duas coisas podem ocorrer. Se o patrimônio tradicional dessa cultura é coerente e forte, a sociedade somente tem a lucrar com o referido contato. Se, porém, a cultura invadida não é predominante e forte, a confusão social é inevitável. (...) O movimento tradicionalista rio-grandense visa precisamente a combater os reconhecidos fatores de desintegração social. (...) E ao dizermos isso, estamos acentuando o erro daqueles que acreditam ser o Tradicionalismo uma tentativa estéril de 'retorno ao passado'. A realidade é justamente o oposto: o Tradicionalismo constrói para o futuro.” (Grifo meu.)

Vale fazer uma breve contextualização histórica da criação do movimento, iniciado com força em 1947. O Brasil como um todo modernizava-se sobremaneira a partir do segundo quartel do século, especialmente depois do ciclo do café. Em 1930, uma revolução liderada pelo gaúcho Getúlio Vargas assume o poder nacional e este gaúcho – um gaúcho pampiano, estancieiro, o protótipo do gaúcho decantado pelo tradicionalismo – se mantém por quinze anos no poder, até 1945. Quando deixa a presidência, após o fim da II Guerra, o mercado brasileiro está muito mais aberto, as influências culturais são diversas a partir do desenvolvimento das comunicações e os rio-grandenses perdem espaço na disputa pelo poder nacional. Não por acaso dois anos depois funda-se o primeiro CTG, e apenas dois anos mais tarde Erico Veríssimo lança O Continente, abrindo caminho para uma vasta tradição gaúcha de romances históricos.

Não que construir uma tradição, como o próprio Barbosa Lessa afirma ser o objetivo do tradicionalismo, seja novidade. Estudiosos como Homi Bhabha, Edward Said e Stuart Hall falam na nação como uma narração e nas comunidades nacionais como comunidades imaginadas. Hall sintetiza este esforço de uma forma interessante: “não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural para representá-los como pertencendo à mesma e grande família nacional”. Dessa forma, os esforços tradicionalistas à Lessa para blindarem o Rio Grande do Sul contra a invasão cultural estrangeira não leva em consideração as culturas alemã, italiana, portuguesa, indígena, negra e metropolitana (Porto Alegre, Rio Grande), também fortes no Estado.

Um exemplo claro do tipo de contradição e, por que não falar, de violência cultural que esta visão unificadora de uma sociedade pode causar está simbolizado no capítulo “Crença” do livro de Barbosa Lessa. O texto fala da mais conhecida lenda gaúcha, a do Negrinho do Pastoreio, a legenda da foto fala de “religiosidade sincrética”, e a fotografia colorida de quase página inteira mostra uma criança pequena, negra, vestida como um jesuíta e segurando um terço católico. Ou seja, será que unificar significa mesmo mesclar, será que se consegue ser sincrético ou no final das contas ideologias dominantes – a do estancieiro, a do cristianismo – preponderam e subordinam as demais?

Questão que extrapola o debate sobre o gaúcho e não invalida os esforços ainda hoje empregados para que a chama tradicionalista se mantenha forte (esforços inclusive dos governos: a Lei da Semana Farroupilha é de 1964; a da Pilcha Gaúcha, de 1989; a do Dia do Gaúcho, de 1991; a do Cavalo Crioulo, de 2002; a do Churrasco e Chimarrão, de 2003). Mas parece importante não perdermos de vista esta construção política de uma cultura para não encobrir divergências históricas ou impedir que surjam no seio da sociedade gaúcha novas e modernas tendências culturais, tendências estas não mais nem menos legítimas, não mais nem menos puras.

Nota do Editor
Leia também "Breve reflexão cultural sobre gaúchos e lagostas".

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 10/10/2006.

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