terça-feira, 17 de outubro de 2006

A caixa de confeitos da literatura contemporânea


Marcelo Spalding

Certa vez um professor meu comparou a literatura contemporânea com um destes produtos alimentícios que inundam as prateleiras dos supermercados. Uma bolacha recheada Bono, digamos. Vocês já repararam na embalagem, dizia ele, nas curvas, formas e cores vivas da embalagem, na delícia promissora do recheio, na crocância do biscoito, já repararam? Aí a gente abre e é aquele gosto insosso de sempre, pasteurizado, industrializado, enfim o gosto possível para uma bolacha recheada.

Evidentemente discordo do meu digno professor de que toda a literatura contemporânea seja vítima do mundo dito pós-moderno, o mundo midiático, pasteurizado, materialista e individualista em que nos vemos metidos. Prefiro ver nossa literatura como belas caixas de confeitos em que dentro delas pode estar desde o mais saboroso chocolate de Gramado até a tal bolacha Bono ou outras mil vezes piores, verdadeiros isopores achocolatados. Isso porque o barateamento das edições de livros permite que qualquer pessoa imprima dois mil exemplares de boa qualidade, com capa colorida e orelhas dos dois lados, mas nem todo o dinheiro do mundo compra um bom texto, um texto que mereça uma edição de dois mil exemplares com capa colorida e orelhas dos dois lados.

Acredito ser este um bom nariz de certa para falar de A Caixa de Confeitos e Contos Sortidos (Manole, 2006, 148 págs.), livro de estréia de Leonardo de Moraes. Primeiro porque a edição é graficamente belíssima, segundo porque o sabor de seus confeitos é extremamente desigual.

O autor, que muito antes de escritor é um bem sucedido profissional, mestre em Direito, professor universitário e assessor de Cláudio Lembo, hoje governador de São Paulo, é estreante no mundo dos livros, mas não no mundo das Letras. Em tempos de blog, já havia publicado os capítulos de sua novela A Caixa de Confeitos no Ragazzo di Famiglia, o que encorajou-o a levar o projeto adiante. Ou pelo menos estimulou-o, pois numa já não comum “Nota do Autor” faz questão de ponderar:

1) “Escrever é fácil. O difícil é enfrentar as próprias palavras depois de escritas. (...) Como impedir horas, anos de ilusão, senão com a opinião não-viciada a situar palavras, intenções, reindicando contextos? Por isso, meu caro leitor, teus olhos estarão prestando um serviço de absoluta utilidade pública com teu simples torcer de nariz”;

2) “Tão de pronto, meus objetivos resumem-se prosaicos”.

Se entendermos as palavras de Leonardo como um desarme à leitura exigente, crítica, encerre-se aqui esta resenha e toda discussão. Mas aí encerra-se também o papel social de qualquer texto que sai de uma gaveta para site e depois para uma edição nacional de dois mil exemplares, digamos. É exatamente a discussão e o efeito que a obra vai causar o que interessa para o autor, como já diria Poe. Portanto, sigamos.

A obra traz nove narrativas, sendo uma novela com mais de oitenta páginas e oito contos mais curtos. A novela é que traz o título de “A Caixa de Confeitos”, e é também nela que se concentram os maiores problemas do livro. Primeiro, a história: uma loira recebe uma caixa de confeitos de sua amiga com a ordem de não abrir até um dia tal porque nela há algo perigoso. As duas se encontram numa Igreja, percebem estarem sendo seguidas, a morena conta que dentro da caixa há um doce e nele um cartão de memória e quando vai revelar o que há de tão importante no cartão é atropelada e entra em coma. Desesperada e perseguida por homens de terno preto, a loira liga para um delegado e pede ajuda. Logo se descobre que o delegado era namorado de colégio da morena, recém chegada da França, e ele promete ajudar a amiga a desvendar o mistério e prender os bandidos. Quase são mortos, quase são pegos, quase se entregam, mas o final, que não queremos antecipar aqui, coroa os esforços de todos os mocinhos da história e pune exemplarmente todos os bandidos de terno preto.

Enredado em clichês que até Hollywood já abandonou, pelo menos nos seus melhores filmes, a trama peca por em nenhum momento dar um salto em relação a si mesma, criar algum conflito novo e original, trazer à tona ambigüidades que desfaçam um pouco o maquiavelismo da velha luta do bem contra mal. Note que o problema não é se tratar de uma história policial, longe disso, o problema é ficar na superfície de uma trama policialesca que sequer convence num país como o Brasil, onde não temos a tradição de tiras duros de matar como os norte-americanos, ou num Estado como São Paulo, às voltas com o PCC.

Afora isso, há um desleixo formal que nos parece grave. O narrador em terceira pessoa não apenas tudo sabe, vê e sente como antecipa ao leitor sentimentos, medos, dúvidas, até pensamentos das personagens. É a subversão de uma velha regra da criação literária, "to tell, not to show", ou seja, mostre a heroína ansiosa fazendo dela uma chocólatra que não pode parar de mastigar, não diga simplesmente que ela está muito ansiosa com tudo isso. Este detalhe torna-se problemático quando, por exemplo, na última cena, a mais próxima de um clímax, um choque mata o bandido e linhas depois já estão as personagens contando a história, rindo e conversando.

Verdade que estes problemas não são privilégios do Leonardo; já Julio Cortázar alertava, em ensaio sobre os aspectos do conto, que “os contistas inexperientes costumam cair na ilusão de imaginar que lhes bastará escrever chã e fluentemente um tema que os comoveu para comover por seu turno os leitores”, aludindo, a seguir, que esta é a mesma ingenuidade daqueles que “acham belíssimo o seu filho e dão por certo que os outros o julguem igualmente belo”.

Mas a novela é apenas uma parte do livro, ainda que a parte maior. Há os contos. E nos contos vemos algumas boas realizações, particularmente “Dóris vai pular” e “Episódio de um pai dedicado”, que, aliás, poderia ser uma história interessante para a novela longa, pois cria uma situação cômica embaralhando valores sociais arraigados como família, fidelidade e sinceridade.

De qualquer forma, quiçá o autor consiga ultrapassar os desafios do primeiro livro e continue fazendo de seu blog um espaço rico para a experimentação, ainda que nem sempre confiável pela eterna camaradagem entre os blogueiros. Afinal, como diria o próprio Cortázar na continuação deste ensaio, “com o tempo, com o fracasso, o contista, capaz de superar essa primeira etapa ingênua, aprende que em literatura não valem as boas intenções. Descobre que para voltar a criar no leitor essa comoção que levou ele próprio a escrever o conto é necessário um ofício de escritor, e que esse ofício consiste entre muitas outras coisas em conseguir esse clima próprio de todo grande conto, que obriga a continuar lendo, que prende a atenção, que isola o leitor de tudo o que o rodeia, para depois, terminado o conto, voltar a pô-lo em contato com o ambiente de uma maneira nova, enriquecida, mais profunda e mais bela”.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 17/10/2006.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

A bem-sucedida invenção do gaúcho


Marcelo Spalding

Gaúchos estão espalhados por todo o país, dos ministérios palaciais às fazendas matogrossenses, dos gramados futebolísticos às redações de jornais. Espalhados não, espraiados. E se perguntarmos a você o que é ser gaúcho, provavelmente você responderá sem dificuldades que é andar a cavalo pelos pampas verdejantes, comer churrasco com a família, tomar chimarrão numa roda de amigos, dançar ao som da gaita e do violão com bota e bombacha, ainda que sete entre dez gaúchos não conheçam o pampa senão de carro, nunca tenham galopado, não dancem senão de tênis e jeans, além daqueles tantos que não gostam de chimarrão e os outros não tantos vegetarianos.

Não, não se trata de um estereótipo, mas de uma imagem de gaúcho construída ao longo dos anos e consolidada no imaginário brasileiro (incluindo o gaúcho). Alguns dirão que tal imagem vem desde os anos heróicos da Revolução Farroupilha ou, mais remota ainda, da Guerra Guaranítica. Mas não: é uma imagem que solidificou-se e espalhou-se sobremaneira só a partir de 1948 (pouco mais de cinqüenta anos atrás!), ano em que Barbosa Lessa e outros jovens fundaram o Centro de Tradições Gaúchas “35 CTG”.

Com o objetivo de fortalecer a cultura gaúcha sem preocupar-se com a história verdadeira, mas a fim de projetar um futuro melhor ao povo, um futuro mais “estável”, calcado nas “tradições” da terra, este grupo idealizou o tradicionalismo e fundou locais específicos de encontro, com regras de dar inveja a qualquer manual de etiqueta. Estes Centros se espalharam, começaram a promover festivais, concursos, tornarem-se fortes especialmente no interior, chegaram a outros estados e países. Hoje, disseminado, convive com a indústria cultural, tornou a churrascaria um negócio lucrativo no mundo todo e atrai de executivos engravatados a operários da construção civil. Ficou de tal forma embrenhado na cultura que na geração atual poucos sabem que a “prenda” não usava aquele vestido armado, que o termo “gaúcho” era considerado pejorativo, que algumas regiões desenvolveram-se à mercê do cavalo e que nossos heróis farroupilhas não usavam botas de couro como as hoje apregoadas. Não sabem porque de tal forma esse imaginário ficou consolidado que tomamos por verdade uma tradição e um passado elaborados há pouco mais de cinqüenta anos. Não sabem por que a invenção criou o invento, e hoje de fato ser gaúcho é tomar chimarrão e comer churrasco vestindo bota e bombacha, ainda que nos finais de semana ou na Semana Farroupilha.

Uma boa oportunidade para se conhecer um pouco melhor essa invenção cultural tão bem sucedida é o livro Gaúcho, o campeiro do Brasil (Letras Brasileiras, 2006, 84 págs.). Na obra, um texto inédito de Barbosa Lessa (o já referido fundador do “35 CTG”) é ilustrado por fotografias belíssimas de Leonid Streliaev numa edição bilíngüe impecável, colorida, diagramada com cuidado e impressa em folha especial. Além disso, o editor e apresentador Jakzam Kaiser (diga-se de passagem, um também entusiasta do tradicionalismo) teve o cuidado de publicar no final um texto escrito por Barbosa Lessa e aprovado em 1954 como documento matriz do Movimento Tradicionalista Gaúcho, “O sentido e o valor do tradicionalismo”, um texto importantíssimo que não era publicado desde 1979.

Se o texto inédito de Lessa é uma repetição ufanista das características do gaúcho, apresentadas em verbetes como “A fauna”, “A flora”, “O pampa”, “O churrasco”, “A estância”, o documento de 54 é uma síntese esclarecedora do pensamento daqueles que fundaram – ou inventaram – o tradicionalismo, a tradição, o gaúcho:

“Quando a cultura de determinado povo é invadida por novos hábitos e novas idéias, duas coisas podem ocorrer. Se o patrimônio tradicional dessa cultura é coerente e forte, a sociedade somente tem a lucrar com o referido contato. Se, porém, a cultura invadida não é predominante e forte, a confusão social é inevitável. (...) O movimento tradicionalista rio-grandense visa precisamente a combater os reconhecidos fatores de desintegração social. (...) E ao dizermos isso, estamos acentuando o erro daqueles que acreditam ser o Tradicionalismo uma tentativa estéril de 'retorno ao passado'. A realidade é justamente o oposto: o Tradicionalismo constrói para o futuro.” (Grifo meu.)

Vale fazer uma breve contextualização histórica da criação do movimento, iniciado com força em 1947. O Brasil como um todo modernizava-se sobremaneira a partir do segundo quartel do século, especialmente depois do ciclo do café. Em 1930, uma revolução liderada pelo gaúcho Getúlio Vargas assume o poder nacional e este gaúcho – um gaúcho pampiano, estancieiro, o protótipo do gaúcho decantado pelo tradicionalismo – se mantém por quinze anos no poder, até 1945. Quando deixa a presidência, após o fim da II Guerra, o mercado brasileiro está muito mais aberto, as influências culturais são diversas a partir do desenvolvimento das comunicações e os rio-grandenses perdem espaço na disputa pelo poder nacional. Não por acaso dois anos depois funda-se o primeiro CTG, e apenas dois anos mais tarde Erico Veríssimo lança O Continente, abrindo caminho para uma vasta tradição gaúcha de romances históricos.

Não que construir uma tradição, como o próprio Barbosa Lessa afirma ser o objetivo do tradicionalismo, seja novidade. Estudiosos como Homi Bhabha, Edward Said e Stuart Hall falam na nação como uma narração e nas comunidades nacionais como comunidades imaginadas. Hall sintetiza este esforço de uma forma interessante: “não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural para representá-los como pertencendo à mesma e grande família nacional”. Dessa forma, os esforços tradicionalistas à Lessa para blindarem o Rio Grande do Sul contra a invasão cultural estrangeira não leva em consideração as culturas alemã, italiana, portuguesa, indígena, negra e metropolitana (Porto Alegre, Rio Grande), também fortes no Estado.

Um exemplo claro do tipo de contradição e, por que não falar, de violência cultural que esta visão unificadora de uma sociedade pode causar está simbolizado no capítulo “Crença” do livro de Barbosa Lessa. O texto fala da mais conhecida lenda gaúcha, a do Negrinho do Pastoreio, a legenda da foto fala de “religiosidade sincrética”, e a fotografia colorida de quase página inteira mostra uma criança pequena, negra, vestida como um jesuíta e segurando um terço católico. Ou seja, será que unificar significa mesmo mesclar, será que se consegue ser sincrético ou no final das contas ideologias dominantes – a do estancieiro, a do cristianismo – preponderam e subordinam as demais?

Questão que extrapola o debate sobre o gaúcho e não invalida os esforços ainda hoje empregados para que a chama tradicionalista se mantenha forte (esforços inclusive dos governos: a Lei da Semana Farroupilha é de 1964; a da Pilcha Gaúcha, de 1989; a do Dia do Gaúcho, de 1991; a do Cavalo Crioulo, de 2002; a do Churrasco e Chimarrão, de 2003). Mas parece importante não perdermos de vista esta construção política de uma cultura para não encobrir divergências históricas ou impedir que surjam no seio da sociedade gaúcha novas e modernas tendências culturais, tendências estas não mais nem menos legítimas, não mais nem menos puras.

Nota do Editor
Leia também "Breve reflexão cultural sobre gaúchos e lagostas".

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 10/10/2006.

Um defeito de cor, um acerto de contas


Marcelo Spalding

"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime."

Luís Gama

Imagine se você, um autor desconhecido, chegasse hoje numa grande editora, em tempos de crise no setor editorial, com um romance de quase mil páginas. Mil! Nem arriscaria, não é mesmo? Pois a mineira Ana Maria Gonçalves, nascida em Ibiá (MG) e com trinta e poucos anos ignorou a lógica do mercado e apresentou para a Record Um defeito de cor (Record, 2006, 952 págs.), publicado em maio deste ano, com honrosas 952 páginas de narrativa. “Talvez seja o mais extenso romance brasileiro publicado em uma única obra”, orgulha-se a autora.

Bom para o romance que os primeiros três capítulos são marcantes, lidos de uma só sentada, tamanha a densidade e a fluidez da narrativa. Narrativa, aliás, que é mais uma metaficção historiográfica de feitio pós-moderno – mesclando verdade e ficção, dados históricos com “pegadinhas”, não preocupando-se em ser definitiva nem isenta – e ao mesmo tempo é o grande romance da nossa literatura sobre a mais cruel, atrasada e vergonhosa experiência brasileira: a escravidão. Não apenas a escravidão em si, mas a escravidão, seus efeitos, suas conseqüência nas gentes e nas pátrias daqui e além-mar narradas por uma negra raptada de sua tribo e vendida como escrava.

Kehinde, essa protagonista, nasceu em Savalu, reino de Daomé, em 1810. Ibêji (ou seja, gêmea), passa os primeiros anos da vida com a mãe, a avó, o irmão e a irmã gêmea, Taiwo, com quem acredita dividir a alma. Certo dia um grupo de guerreiros que invade a casa da avó para roubar, descobre que ela cultua os voduns, acusa-a de bruxaria e promove uma grande chacina, matando e violentando a mãe diante das filhas, abusando das meninas e matando o irmão. A avó parte com as ibêjis para o litoral, onde as meninas são raptadas na rua e presas como mercadoria para vender no Brasil. A avó, desesperada, oferece-se para ir com elas e embarcam num navio negreiro de péssimas condições. Nestes capítulos, as cenas narradas são de efeito único no leitor, misturando a crueza necessária para representar a viagem e o lirismo transcendental que mantém a narrativa palatável e Kehinde, viva:

“Não nos davam comida todos os dias, e me acostumei a isso. Acho que todos nos acostumamos, gostando de uma certa sensação de conforto causada pela fome e pela fraqueza. Era como se o espírito se separasse do corpo e ficasse livre e solto, tanto da carne quanto do porão do navio.”

Nesta travessia morrem muitos negros, entre eles a avó e a irmã de Kehinde, que chega sozinha no Brasil e teme virar carneiro, como diziam que acontecia com os capturados em África. Não demora, entretanto, para a menina descobrir que o destino de um escravo pode ser muito pior que o dos carneiros. Nos primeiros anos torna-se dama de companhia de bondosa sinhazinha, com quem depois conviverá ao longo de toda a vida, mas cresce, a sinhazinha vai estudar na capital e a luxúria do sinhô descobre o corpo em formação da escravinha. Kehinde, sabedora das intenções do dono, pede proteção a outro negro, Lourenço, por quem está apaixonada, mas depois de uma tentativa frustrada pelo namorado de violentar a escrava, o sinhô tortura Lourenço, estupra Kehinde, estupra Lourenço e por fim o castra. Da tragédia resultará uma grave doença que levará o sinhô à morte, uma humilhação eterna para Lourenço e um filho para Kehinde.

Daqui em diante a história toma novo rumo e onde antes só havia espaço para a desgraça e a tragédia nasce uma esperança. A família muda-se para Salvador, a escrava de casa vira escrava de ganho, a menina torna-se mulher e a protagonista se transforma em heroína. Sem adiantar demais o enredo, pode-se dizer que ela não apenas liberta-se e prospera como também acultura-se, chegando a dar aos dois últimos filhos os nomes de João e Maria Clara, mesmo vivendo na África.

Mas Kehinde também é a narradora, uma narradora com pressa de terminar suas memórias endereçadas ao filho que dela foi tirado. Não é o filho fruto do abuso (este, um abiku, morre ainda criança), mas o filho de um casamento entre ela e um português que, quando o menino está com 10 anos, vende-o para saldar suas dívidas. Ainda que faça de tudo para encontrá-lo, viajando por Salvador, Rio de Janeiro, Santos e São Paulo, Kehinde não o encontra e resolve voltar para a África, onde forma nova família. Já velha, resolve fazer a viagem de volta por causa de novas e tardias pistas sobre o paradeiro do filho, e é no trajeto desta viagem que narra a história do livro.

A estratégia da autora de narrar a história assim, a partir da protagonista, torna a linguagem simples e eficiente e exime a obra de imprecisões ou omissões históricas – vale ressaltar que não deixa de haver uma enorme pesquisa histórico-social por trás do romance. Adotando o ponto de vista de uma escrava, ou seja, de uma mulher negra lutando por sua identidade e seus amores em tempos de homens brancos empenhados em construir uma nação, Ana Maria particulariza e humaniza um grupo social fundamental para a construção desse país mas sempre referido no coletivo, revelando detalhes cotidianos da escravidão e desvelando sua face mais cruel.

O deslocamento do narrador para uma classe explorada e aculturada à força também permite uma pouco comum ênfase em questões religiosas – fundamentais inclusive para se entender as motivações de Kehinde e o último capítulo do romance –, ênfase traduzida em descrições detalhadas dos voduns africanos às festas católicas de então, formando uma rica e fascinante teia sincrética de um tempo onde o espiritual não foi ainda rendido pelo racionalismo etnocêntrico e liberal.

Já a aposta estética da autora, um romance extenso e denso publicado num único livro (e não em tomos, como O Tempo e o Vento, por exemplo), pode por um lado conferir autoridade e credibilidade para a história e por outro afastar sobremaneira os leitores. Dessa forma não nos cabe achar boa ou ruim a escolha, mas pensar em como funciona um texto tão extenso, talvez o maior em língua portuguesa.

Primeiro é preciso entender que as ações são narradas oralmente por Kehinde para uma acompanhante num continuum temporal como quem conta suas memórias, sem grandes saltos no tempo e com interrupções providenciais para descrições detalhadas dos ambientes, das questões políticas, culturais, sociais e religiosas, bem como impressões e explicações pessoais do narrador. Tudo isso entremeado por histórias paralelas num feitio de oralidade construída já canonizada no Grande Sertão. Mas aqui, diferentemente do romance de Rosa, que opta por contar apenas as últimas batalhas de Riobaldo, a história começa com as primeiras lembranças de Kehinde, aos 6 anos, e só termina com sua chegada de volta ao Brasil (ou seria sua morte?). Assim, não é difícil entender que mesmo novecentas e tantas páginas não sejam suficientes, e não é rara a sensação do leitor de imprecisão e apressamento em algumas cenas, especialmente em cenas capitais como a morte e o sumiço dos filhos.

Se por um lado a pressa da narradora causa essas elipses maléficas ao todo, também é importante mencionar que a obra é divida em dez partes e que cada parte é dividida em pequenos capítulos num total de 329, permitindo que a leitura flua de forma veloz. Sim, veloz, e aqui é interessante notarmos que em raros momentos o texto é prolixo, ainda que pareça estranho que um romance de quase mil páginas possa ser considerado conciso. Ocorre que ser conciso não é ser breve, e sim fazer caber mais em menos espaço, e realmente Um defeito de cor narra não apenas a movimentada vida de Kehinde como pontua episódios políticos do Brasil republicano e pincela matizes das sociedades urbanas em formação com espantosa verossimilhança e visibilidade.

Millôr Fernandes, em coluna na Folha de São Paulo em setembro de 2006, coloca Um defeito de cor entre um dos livros mais importantes, entre os 10 melhores que leu “em nossa bela língua eslava”. Idelber Avelar, no Biscoito Fino, afirma que Um defeito de cor está no mesmo nível de Quarup, de Antonio Callado, Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, Catatau, de Paulo Leminski, e Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, “todos eles um par de degraus abaixo do romanção-mor das nossas letras (o Sertão de Rosa): ou seja, Ana escreveu um dos cinco grandes romanções-cosmogonias da última metade de século na literatura brasileira, no mínimo”.

De minha parte acho impossível para nós, contemporâneos ainda espantados com os riscos assumidos, definirmos que se trata de um daqueles romances dignos de figurar nas teses e dissertações universitárias e na lista de obrigatórios para o vestibular. Mas parece claro desde já que estamos diante de um acontecimento, uma obra que mexe com a produção contemporânea, retoma com coragem a idéia realista de representar a realidade defendendo posições e inova esteticamente trazendo a oralidade para o primeiro plano. Não bastasse isso, Ana Maria investe na prosa longa e levanta o véu de um período muito pouco debatido de nossa história num contundente e já necessário acerto de contas, dando voz a quem a sociedade calava a chibatadas.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 31/10/2006.