terça-feira, 12 de setembro de 2006

Livros do bem e do mal


Marcelo Spalding

Poucos são os escritores que conseguem ser ao mesmo tempo acolhidos no seio da crítica e badalados pela indústria cultural, e raros os que têm essa dupla satisfação antes de completar trinta anos de idade. Caso de Daniel Galera.

Autor de dois romances e uma coletânea de contos (esta já traduzida para italiano), Galera nasceu em São Paulo em 1979 mas cresceu, começou a escrever e publicar em Porto Alegre. De biografia já recheada e interessantíssima, tendo sido um dos primeiros a ficar conhecido por causa da internet, onde publica desde 1996, Galera projetou-se para o Estado e viu seu nome ecoar no centro do país quando criou, junto com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, a editora Livros do Mal. Com pequenas edições pagas pelos autores, publicou por lá Dentes Guardados (contos), em 2001, e Até o dia em que o cão morreu (romance), em 2003. Segundo o site da editora suas atividades foram suspensas em 11 de maio de 2004, mas até aquela altura o trio, além de nomes como Paulo Scott, já havia alçado vôo.

Mãos de Cavalo (Companhia das Letras, 2006, 192 págs.) é o primeiro trabalho de Galera depois deste vôo, e de quebra sai por uma das maiores editoras do país, legítima confirmação nacional de uma promessa local. Ambientado em Porto Alegre, o romance retrata o protagonista em três fases da vida em uma trama delicada sobre perda e culpa na formação de uma identidade. A inquietação do sujeito pós-moderno e a efemeridade das relações afetivas voltam ao centro da narração – como em Até o dia em que o cão morreu – mas sem o imobilismo de seu primeiro romance. A aposta em Mãos de Cavalo é mais na sutileza, no discurso do narrador em terceira pessoa, aqui não cabe e não precisa a dose exagerada de maconha, álcool e sexo da primeira história.

Talvez os primeiros e fiéis leitores de Galera achem Mãos de Cavalo politicamente correto demais se comparado aos “livros do mal”, onde termos como "cagalhão", "mijo", "fodida", "enfiar o pau no cu", "filhadaputa", "porra" e "punheta" desfilam sem constrangimento pelo texto. Mas para este resenhista ficou a impressão oposta: Galera não precisa mais reforçar uma identidade, firmar um jeito de escrever, ser “do mal”. Galera não precisa mais ser politicamente incorreto, o protagonista em Mãos de Cavalo pode abandonar a maior aventura de sua vida para ficar com esposa e filha, pode ser um médico bem sucedido e pode ter compaixão por um menino. Muito diferente do protagonista de Até o dia em que o cão morreu, sujeito atordoado e sem ânimo para qualquer trabalho ou estudo, hedonista, niilista ateu, que vê em Marcela uma boa transa, nos pais um dinheiro certo e no futuro uma chateação. Só isso. Sem remorsos, sem decisões.

Afora exageros que acompanham as edições e as matérias jornalísticas sobre Galera, trata-se de um grande autor, muito alinhado com o momento em que vivemos e dono de um texto ágil, rápido, cinematográfico, sem concessões à ignorância mas sem firulas anacrônicas. O que o destaca, sem dúvida, mas não chega a fazer dele, pelo menos ainda, o melhor de uma geração ou o símbolo “da tribo paranóica dos anos 90”, como sugere Fabrício Carpinejar na contracapa de Até o dia em que o cão morreu.

Um crítico poderia dizer que o segredo do sucesso de seus dois romances é que eles seguem à risca a definição de Lukács para o gênero, “epopéia burguesa de um mundo sem Deus”: em Galera nenhum personagem deixa de ser médico porque o vestibular nas federais é um funil intransponível para 95% dos jovens ou porque nas particulares cobram mais do que o salário de 90% das famílias, nenhum jovem de rua pede o resto do baseado ou o fundo da garrafa de cachaça, ninguém trabalha fritando batatinhas e lavando banheiros no McDonald’s, ninguém passa oito horas num escritório de advocacia criminal para pagar os oitocentos reais da PUC à noite.

Preciso e precioso raio X de uma fatia da juventude contemporânea, Galera tem feito muito barulho e recebido muitos elogios primeiro pela qualidade de seu texto, que deixa transparecer um sujeito bem educado, de boas leituras, multilingüe, formado na universidade e em oficina literária, mas também por acertar na escolha desse recorte, expondo a juventude com a cara que a mídia a ela atribuiu.

Neste contexto “Livros do Mal” é mais do que uma boa sacada de marketing, é uma ironia com todas as editoras e todos os “livros do bem” de até então. Ironia inteligente num tempo em que ser bom é ser babaca e ser mau – ainda que não se saiba ao certo o que é ser mau – torna-se a única saída. Um tempo livre do politicamente correto onde um protagonista pode ser maconheiro, alcoólatra, vagabundo, filhinho de papai e ainda assim terminar em Nova York depois que o cão morreu.

Quase na contramão, Mãos de Cavalo já é a concessão do narrador para os “livros do bem”. Agora temos um narrador com menos certezas e mais idade, seguro o suficiente para não fazer caricaturas e conhecido o bastante para não chocar pelas palavras. Resta saber se adiante veremos a vitória do bem ou do mal nesta batalha maniqueísta, o que no fundo também não interessa, desde que ganhe e permaneça a literatura.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 12/9/2006.

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