terça-feira, 26 de setembro de 2006

Eleição nas prateleiras (ou todo dia tem eleição)


Marcelo Spalding

Levei um susto quando entrei no meu quarto: na televisão passava o horário eleitoral gratuito e nas prateleiras o Orwell discutia ferrenhamente com o Górki. Era o velho e – dizem – já superado debate sobre capitalismo e comunismo, aquele debate em que um venceu mas nenhum convenceu. Teriam se acalmado logo não fosse o Sartre falar em moscas e o Saramago em Jesus Cristo: aí a Adélia interviu, o Wolff retrucou, instalou-se o caos. Confesso que fiquei sem ação, mas não de todo surpreso (com exceção de uma briga entre o Chico e o Caetano que até agora não entendi). No fundo eu sabia que logo eles se acalmariam se eu mantivesse os teóricos fechados em outra prateleira.

Brincadeiras à parte, montar uma biblioteca é politicamente muito mais importante do que dar um voto. Porque são os livros que você lê ao longo da vida, os filmes e programas a que assiste, as conversas que trava, as pessoas com quem escolhe conviver que formarão o ser pensante que você é, o ser ideológico. Não há voto sem ideologia. Mesmo os que se vangloriam de não ter ideologia alguma, de estarem livres das politiquices, devem rezar para algum Deus ou carregar nos braços uma tatuagem simbólica (seja este símbolo um ideograma oriental ou uma guitarra de rock). Votar é apenas um gesto, um singelo gesto.

Singelo porque votar é como escolher entre o lilás, o violeta ou o roxo. Cá pra nós, não é o presidente quem governa o país. Em tempos de capital globalizado e “instituições sólidas”, não há homem ou mulher, negro ou pobre que possa fazer muito mais do que se tem feito. Está nas manchetes dos jornais: a classe média cresceu e a miséria diminuiu. Mas em que níveis? Quantos anos mais levaremos para erradicar essa miséria? A que preço? E será que ainda se pode esperar? Mais ainda: algum país que em 1900 era subdesenvolvido tornou-se de “primeiro mundo”? Os Estados Unidos, sim, mas para isso precisaram duas Grandes Guerras. Não há nenhum caso entre a África e a América Latina – continentes explorados primeiro pelo colonialismo, depois pelo capital – em que se desfez a desigualdade e se instaurou uma paz social ao longo de cem anos!

Ocorre que infelizmente a democracia num país periférico parece estar restrita a este dia de outubro em que vamos todos votar, em fila. Alguns com bandeiras, outros com adesivos, a maioria silenciosa e mesmo enfadada. Mal sabem que um voto se constrói ao longo de uma vida – pelo menos um bom voto, um voto consistente – e um país se faz no dia-a-dia. Mal sabem que as decisões sobre nossas questões fundamentais sequer são tomadas aqui, e que qualquer decisão aqui tomada está sujeita a uma intervenção além-fronteiras (que o digam os bolivianos sobre os brasileiros).

Por outro lado, quantos votaram pela Independência do Brasil? E pela proclamação da República? Quantos votaram pela mudança da capital para Brasília? E pelo fim da ditadura militar? As mudanças mais importantes de nosso país foram construídas sem voto popular, sem sangue mas com muita palavra, muita disputa ideológica. Disputa em que comumente livros e escritores têm papel fundamental.

Não estou sendo original, é verdade. Já Barthes dizia: todo texto é ideológico. “Alguns querem um texto (uma arte, uma pintura) sem sombra, cortada da ‘ideologia dominante’, mas é querer um texto sem fecundidade, sem produtividade, um texto estéril”. Por isso insisto que montar uma biblioteca é muito mais importante do que dar um voto.

Biblioteca, aqui, é o sentido figurado para aquele conjunto de livros que lemos ao longo da vida. E mais do que isso, aqueles que lemos e nos dizem alguma coisa, de algum modo influenciam nossa forma de pensar. Já dissera um sábio: livros não mudam o mundo, livros mudam pessoas, e as pessoas mudam o mundo. De fato. Mas e quando as pessoas não têm acesso ao livro? E quando a média de leitura é menor do que dois livros por pessoa por ano, caso do Brasil? Não é casual que todos os países desenvolvidos tenham índices de leitura altíssimos, seja isso causa ou conseqüência: assim como o conjunto de leituras de uma pessoa forma o ser pensante, o conjunto de leituras de uma nação forma a nação pensante, uma nação independente de fato, não apenas de direito.

Em outubro, iremos às urnas, em fila, escolher entre matizes da mesma cor. O arco-íris é mais amplo (e dizem que há cores que sequer o olho humano consegue ver). Mas mesmo essas diversas matizes da mesma cor são suficientemente diferentes para não sortearmos nosso voto ou deixá-lo nas mãos dos marqueteiros. Votar é diferente de comprar refrigerante. Não pode ser a propaganda eleitoral a balizar nossa escolha, afinal em propagandas as suspeitas viram acusações, o passado é esquecido, os depoimentos gravados e regravados à exaustão.

Em outubro, irei à urna, e lá depositarei um singelíssimo gesto de esperança, um voto que será centelha entre milhões e que provavelmente não será decisivo para as eleições. Depois, por quatro anos, assistirei à mídia pautando as prioridades presidenciais, o congresso negociando urgências e barrando reformas, os magistrados julgando aumento dos seus salários e o capital chantageando a nação com seu entra-e-sai especulativo. Confesso que assistirei sem ação, mas não de todo surpreso: no fundo eu sei que ao fim todos se entendem se mantivermos os livros trancados em suas prateleiras. Junto com suas idéias.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 26/9/2006.

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