terça-feira, 29 de agosto de 2006

Suicídio on-line põe internet no banco dos réus


Marcelo Spalding

Quarta feira, 26 de julho de 2006. Onze horas da manhã na fria capital gaúcha. Milhares de jovens estudam química, física, biologia, matemática, português, inglês, centenas de meninas trocam olhares com centenas de meninos e alguns matam aula para namorar longe da escola, enquanto outros milhares aproveitam a manhã livre para treinar musculação ou dormir até mais tarde. Quarta feira, 26 de julho de 2006. Onze horas na fria capital gaúcha. Bairro São Geraldo. Através de um fórum de discussão, um jovem de 16 anos anuncia seu suicídio pela internet.

Até aqui a história não surpreende, afinal a adolescência é um período repleto de instabilidades e fóruns e blogs são espaços públicos e íntimos ao mesmo tempo em que se pode confessar algo assim. Ocorre que aquela viagem iniciada às 11 horas da manhã não teria volta: os demais participantes do fórum incentivam o jovem porto-alegrense, dão dicas, acenda quatro bocas de gás, não se preocupe com o calor, tenha calma, vá em frente. Uma menina do Canadá, amiga do jovem, estupefata, liga para a polícia local e às 15h45 a Polícia Federal brasileira é informada do caso pelos canadenses. “Quando chegamos, tocamos interfone, campainha, e nada. Entramos e quando chegamos ao banheiro ele estava enforcado no cano do chuveiro”, conta o delegado de Homicídios e Desaparecidos Juliano Ferreira, que foi à casa do garoto com a Brigada Militar assim que informado pela PF.

A delegada da Criança Vítima, Eliete Rodrigues, que ficou responsável pelo caso em razão da idade do jovem, determinou perícia em seu computador e afirma que “tudo indica que os participantes sejam de fora do país, não só do Estado”. Ainda assim lembrou que a indução, instigação ou auxílio ao suicídio é crime com pena de dois a seis anos de reclusão.

O caso chocou tanto nossa fria cidade que até os meios de comunicação, que normalmente têm o suicídio como tabu, noticiaram o fato em suas manchetes. Não propriamente pelo suicídio – o Rio Grande do Sul tem o maior índice de suicídios do país, 16,6 casos para cada grupo de 100 mil pessoas –, mas pelo envolvimento da internet no caso. E a este fato vieram se somar as brigas de torcidas marcadas on-line (quem não lembra dos banheiros queimados no Grenal) e os abusos eleitorais cometidos na rede para dar eco aos que insistem em colocar a internet no banco dos réus. Os pais, alarmados, falam em tirar o computador dos quartos dos filhos e limitar o acesso à rede. Os professores, despreparados, apontam a importância dos livros.

Mas também os livros, como quando Os sofrimentos do jovem Werther foi lançado na Alemanha em 1774 e provocou uma onda de suicídio entre os jovens, foram alvo de questionamentos. Não apenas essa história de Goethe, mas os objetos em si. E hoje os livros não sofrem nenhum tipo de censura, ainda que, como diria Eduardo Galeano, os preços já os proíbam

Com a internet a situação é bem diferente. Jovem, incompreendida e revolucionária, tem sido apontada como modelo e metáfora do mundo contemporâneo, onde qualquer pessoa é produtora de conteúdo, desvirtuando lógicas milenares de transmissão de conhecimento. Na era digital o professor lê um artigo do aluno, o pai aprende com o blog do filho e o leitor sugere pautas para seu jornal. Não é mais preciso um capital considerável para se publicar idéias, angústias ou mesmo para defender bandeiras, expondo como nunca as rachaduras de sociedades antes vistas como homogêneas.

O caso do jovem gaúcho, embora realmente chocante, não é inédito na Era Digital. Em julho de 2005 um blogueiro italiano narrara seu suicídio pela internet, e pelo menos dois pactos suicidas pela internet foram registrados no Japão, em outubro de 2000 e fevereiro de 2003.

Culpar a internet pelas mortes, pelas brigas no Grenal ou pela baixaria eleitoral é confundir sobremaneira meio e mensagem, ignorando as reais razões que levam um jovem a cometer ato tão extremo. E aproveitar-se disso para levantar a possibilidade de restrições para o uso da rede é um crime para a democracia. Imagine se o golpe de 64 fosse articulado nos dias de hoje quantos Ziraldos o Brasil não teria, quantos Pasquins, quantos manifestos e movimentos apócrifos, muitos internacionais, lutando pela liberdade de imprensa. Imagine se a internet fosse uma realidade na Berlim da Guerra Fria quantas famílias não ficariam tão separadas, quantas mentiras não se solidificariam e quantas vidas não seriam poupadas.

Mas a tecnologia da grande rede não é imune à ambição dos ditadores. O Google, a fim de obter autorização para o funcionamento do site na China, concordou em omitir o conteúdo não-aprovado pelo governo chinês: “Para operarmos na China, tivemos de remover informações disponíveis no Google.cn, obedecendo às leis, regras e políticas locais. Apesar de esta ação não estar de acordo com nossa missão, deixar de oferecer o serviço seria ainda pior", justificou Andrew McLaughlin, do conselho de políticas da empresa, à agência de notícias Reuters. Recentemente também a Microsoft reconheceu que seu sistema de blogs em chinês impede literalmente que se escrevam termos como “liberdade” ou “democracia”: “Se para o Google e a Microsoft censurar suas páginas é um preço bom para entrar no mercado chinês, quem poderá dizer o contrário? Não pense na IBM, ela já é chinesa.”, questiona o jornalista Gustavo Mansur.

Fica claro, desta forma, que pais e professores não deveriam assustar-se tanto com o computador nem com a rede, e sim com as tentativas de encobrir as rachaduras e diferenças sociais ao invés de enfrentá-las e resolvê-las. A vida do jovem Werther porto-alegrense não podemos trazer de volta, mas com um tanto de conversa muitas outras podemos salvar sem precisar crucificar uma tecnologia.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 29/8/2006.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Poder, sexo e fé na história dos vendilhões


Marcelo Spalding

Política, religião e mulher não se discute: ainda bem que Scliar nunca deve ter ouvido esta frase.

Em Vendilhões do Templo (Companhia das Letras, 2006, 296 págs.), as personagens não apenas discutem como suas vidas são movidas pela política, pela religião ou pelas mulheres. Quando não o são é porque a personagem deixou-se levar pela ganância, pelas moedas sujas que Cristo já condenara no episódio do vendilhão do templo.

Aliás, uma resenha séria sobre esta obra necessariamente começaria reproduzindo os versículo 12 e 13 do capítulo 21 do evangelho de Mateus: “e entrou Jesus no Templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no Templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombos. E disse-lhes: ‘Está escrito: a minha casa é casa de oração, mas vós fizestes dela um covil de ladrões’”. É a partir deste episódio bíblico que Scliar conduz a narrativa. A primeira parte é uma narração em terceira pessoa com o foco no vendilhão do Templo molestado por Cristo na Jerusalém do ano 33 d.C. Aqui não apenas o vendilhão é humanizado e suas virtudes (a superação, o amor aos filhos) postas ao lado de seus pecados (a ganância, a ganância, a ganância) como também Cristo é mais um grande homem como o de Saramago (em Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991) do que o bíblico filho de Deus.

Mas a obra vai além, e o salto de mil e tantos anos que o narrador faz da primeira para a segunda parte é proporcional ao salto que faz um escritor experiente, seguro e consagrado como Scliar, não se limitando a recontar uma história bíblica e sim resgatando-a para falar dos conflitos contemporâneos. Nesta segunda parte somos levados a uma fictícia redução indígena no Sul do Brasil, no ano de 1635, para onde é enviado um jovem jesuíta. Lá ele deve substituir o padre mais experiente, mas este morre antes mesmo que o jovem aprenda a falar guarani. Sem querer antecipar o desfecho desta parte, vale apenas mencionar que um suspeito andarilho chegará no local de forma misteriosa e será o intérprete entre índios e jesuíta.

Esta segunda parte retoma alguns elementos da história bíblica, primeiro demonstrando de que forma a palavra do Mestre, perseguida pelos romanos e calada na cruz, se espalhou até chegar a menor das reduções indígenas no sul de um outro continente num outro século. E com que distorções, naturalmente. Também está aí a ganância do vendilhão, ainda que os vendilhões de então já não vendam pombos, mas índios. Como o protagonista da primeira parte, o desta vive mais de dúvidas do que certezas, aliás uma frase que o autor retoma nos momentos capitais do livro. Mas ainda que retomando elementos anteriores, esta parte da história funciona por si só e, mais que isso, vale a leitura da obra. Quem leu O Continente, de Erico Veríssimo, aqui lembrará do capítulo "A fonte", em que ele narra um episódio na mais famosa das colônias indígenas, a de São Miguel das Missões. Mas a abordagem de Scliar é outra, o conflito é bem mais sutil e o desfecho, sublime.

Terceira parte, novo salto no tempo, desta vez para o ano de 1997 na mesma redução indígena, hoje cidade (fictícia) de São Nicolau do Oeste. Aqui o narrador é um jornalista sem dinheiro, separado, trabalhando como funcionário da prefeitura e bastante melancólico. A história começa com uma ligação do amigo Félix – espécie de reencarnação do vendilhão do Templo ou do andarilho misterioso – um patife, nas palavras do próprio narrador. Ele quer um favor do jornalista, uma intervenção na prefeitura, mas a simples lembrança de Félix faz com que o narrador volte no tempo, mais precisamente ao final de um ano letivo em que Félix organiza uma peça de teatro sobre o episódio do Vendilhão do Templo (sim, aqui era só um, nenhum colega aceitou ser vendilhão a não ser Matias).

Na terceira parte abundam personagens, todos complexos e com conflitos próprios. À ideologia religiosa, digamos assim, soma-se a ideologia política, pois Félix representa um herdeiro com mentalidade liberal (queria transformar a casa que herda em Mc Donald's), enquanto o novo prefeito e o chefe do narrador são eminentemente de esquerda (e querem tombar a casa que Félix herda para fazer um Centro Cultural). Há também um professor de História que se torna camelô, uma grande fodedora que ronda a prefeitura, um padre que dá aulas de Matemática, um menino esquizofrênico, todos girando em torno no narrador-protagonista. E a esta altura ficamos sabendo que as duas histórias anteriores são fruto de uns manuscritos deste jornalista mais ou menos frustrado, mais ou menos fracassado, emocionalmente falido e ideologicamente vazio.

Esta última carta que Scliar tira da manga, este último nó que o autor dá para ligar as três partes acaba também o absolvendo de eventuais críticas ideológicas (das feministas, dos cristãos, dos marxistas ou dos liberais), pois como se disse o livro trata de política, religião e mulher, três temas explosivos. Poderia se dizer que ainda mais explosivos nas mãos de um judeu, homem, branco, médico, gaúcho, mas neste sentido Scliar é magistral, deixa sua ideologia transparecer bem menos que a de um Saramago, por exemplo, e bem menos que a do próprio Scliar de Um Exército de um homem só (1973).

Este distanciamento maduro não impede que na obra estejam representados conflitos bastante latentes, e aqui nos damos a liberdade de reproduzir apenas um trecho (da primeira parte) em que se nota o olhar dos anos dois mil para a história dos anos trinta e três.

“Só que duvidava dessa possibilidade. Duvidava que o homem fosse capaz de fazer milagres. Por uma simples razão: se estava a seu alcance realizar tais prodígios, por que continuava pobre, usando vestes comuns, andando no meio da multidão? Por que não produzia, do nada, ouro, palácios, manjares, mulheres? Ou será que mulheres não lhe interessavam?” (pág. 86)

Como se percebe neste pequeno trecho, o narrador não se furta de tocar em feridas ainda abertas como a mercantilização até mesmo das ideologias ou a falta de sentido e de respostas para a vida da classe média (a classe que é produto da histórica atividade dos vendilhões, opa, dos comerciantes), afinal o narrador, o nosso jornalista emocionalmente falido e ideologicamente vazio, não deixa de ser um produto destes dois mil anos de História. Como nós.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 15/8/2006.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

O centenário de Mario Quintana, o poeta passarinho


Marcelo Spalding

Lembra aquele passarinho que você ouviu assobiar quando acordou anteontem? Era Quintana, Mario Quintana, poeta, tradutor e jornalista nascido no dia 30 de julho de 1906.

Popular especialmente em Porto Alegre, Quintana é estátua de bronze no banco da praça, dá nome à Casa de Cultura mais importante da capital e é aclamado por nove em cada dez poetas gaúchos contemporâneos. Mais do que um escritor, Quintana representa um modo de vida. Para ele “ser poeta não é uma maneira de escrever, é uma maneira de ser”, bem disse certa vez em uma entrevista.

Nacionalmente, ainda que tenha recebido elogios e saudações de nomes como Manuel Bandeira, Érico Veríssimo e Cecília Meireles, Quintana nunca foi reconhecido como grande poeta de sua geração. A própria Academia Brasileira de Letras negou Quintana três vezes, e depois de ter perdido a terceira indicação para a Academia, em 1983, ele escreveu o famoso “Poeminha do Contra”.

Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho!


Como se realmente tivesse se transformado em passarinho, o tempo soprou a favor de Quintana. Apenas como ilustração, hoje, na plataforma Lattes do CNPQ brasileiro, há pelo menos 254 pesquisadores que de alguma forma estudaram o poeta, gente como a professora Tânia Carvalhal (UFRGS), Maria da Glória Bordini (PUCRS), Simone Pereira Schmidt (UFSC), Sérgio Alves Peixoto (UFMG), Helena Gomes Parente Cunha (UFRJ), o que demonstra a presença de Quintana como objeto de estudo brasileiro, não apenas gaúcho.

É natural, entretanto, que em Porto Alegre o seu centenário seja saudado com entusiasmo comparado ao de Érico Veríssimo – mesmo por aqueles que entendem ser o romancista muito mais representativo para a instituição literatura do que o poeta. E nesse contexto surgem reportagens e biografias que abordam a obra e/ou a vida de Quintana, como Mario Quintana: uma vida para a poesia (WS Editor, 2006, 88 págs.), escrita pelos irmãos Luís Augusto Fischer e Sérgio Luís Fischer e boa porta de entrada para interessados na vida do poeta.

A apresentação da obra começa pela morte impressionante de Ayrton Senna, no dia primeiro de maio de 1994, para chegar ao dia cinco de maio do mesmo ano, quando morria de forma discreta o poeta, às vésperas de completar 88 anos. Àquela altura Quintana já tornara-se símbolo da cidade e havia recebido (quase) todas as honras que merecia, como título de Cidadão de Porto Alegre, Doutor Honoris Causa por diversas universidades, Prêmio Machado de Assis, além de ver, em 1990, o pleno funcionamento da monumental Casa de Cultura Mario Quintana, uma iniciativa do Estado batizada com seu nome.

Sua vida começa como a de tantos artistas: nasceu em 1906 em Alegrete e mudou-se para a capital em 1919 para estudar como interno no Colégio Militar, aos 18 anos começou a trabalhar como “desempacotador de livros estrangeiros” na Livraria e Editora Globo mas acabou voltando para sua cidade onde trabalhou na farmácia da família sob os olhares severos de seu Celso, decepcionado com o fracasso do filho nos estudos. Só em 1929, após a morte dos pais, voltou para Porto Alegre e começou a trabalhar em um jornal, O Estado do Rio Grande. Mas o jornal seria fechado e, pressionado pela necessidade, Quintana traduziu para a já forte Editora Globo o livro de contos Palavras e sangue, de Giovanni Papini. Isso em 1934, e novas traduções – de Virgínia Woolf, Joseph Conrad e outros – viriam antes de seu primeiro livro, em 1940, o Rua dos Cataventos.

Surpreendente reunião de sonetos em tempos de vigor modernista, Rua dos Cataventos é um livro de estréia com “qualidade técnica, vocabulário ao mesmo tempo variado e compreensível, imagens elaboradas e acessíveis e reflexões sobre a vida em geral”, escrevem os irmãos Fischer.

Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha... (...)

("Soneto XVII", em Rua dos Cataventos)

Seu segundo livro surge apenas quando o poeta já completava 40 anos e chama-se Canções. Aqui o poeta retoma a ironia e a simplicidade da linguagem mas abandona o soneto. É o começo de uma fase profícua: entre 1947 e 1953, Mario Quintana publica cinco novos livros: Sapato Florido, com poemas em prosa, e O batalhão das letras, poema infantil, em 1947; O aprendiz de feiticeiro, com poemas de forma e verso livres, em 1950; Espelho mágico, com poemas na forma exclusiva do quarteto, em 1951; Inéditos e esparsos, em 1953.

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!

("Da felicidade", em Espelho Mágico)

Segundo os novos biógrafos já mencionados, “os anos 1960 comportam um paradoxo na vida de Quintana: é a década em que ele menos publica – aliás, não publica nenhum livro, só textos em periódicos – e é a década em que ele ganha consagração nacional. Consagração nacional talvez seja um pouco de exagero, mas é certo que em sua terra ele virou celebridade e no centro do Brasil ele passou a ser visto como um poeta do primeiro time”. É nessa época que o poeta vai ao Rio por convite de Manuel Bandeira e é saudado na Academia Brasileira de Letras por Augusto Meyer, e é também quando dois grandes nomes da poesia brasileira, Cecília Meireles e o próprio Bandeira, compõem poemas em sua homenagem. Não bastasse toda essa movimentação, em 1967 ele recebe o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre, consagrando definitivamente o poeta na capital gaúcha, onde já era uma pequena celebridade.

O Natal foi diferente
porque o Menino Jesus
disse à Senhora Sant’Ana:
“Vovozinha, eu já não gosto
das canções de antigamente:
cante as do Mario Quintana!”

("Quitanares", de Cecília Meirelles)

Senhora, eu vos amo tanto,
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto...

(De Quintana para Cecília Meirelles)

Nos anos 70 saem Caderno H, de 1973, Apontamentos de história sobrenatural, de 1976, e Quintanares, também de 1976. Mas são os anos 80 e 90 que reservam ao poeta a verdadeira consagração. A partir de 1982 ele recebe alguns títulos de doutor Honoris Causa de universidades respeitáveis Brasil afora, além de ter seu nome escolhido para batizar a Casa de Cultura planejada pelo Estado. Sua carreira como autor de livros para crianças ganha um impulso extraordinário com as coletâneas Lili inventa o mundo, de 1983, O sapo amarelo, de 1984, e Sapato furado, de 1994, que vieram a se somar com Pé de pilão, clássico infantil publicado nos anos setenta.

“Do ponto de vista da história da literatura brasileira”, escrevem os irmãos Fischer, “há uma certa hesitação em enquadrá-lo na chamada segunda geração de poetas modernistas, na companhia que lhe é de direito: Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes.(...) Não existe régua clara para medir essas coisas da arte, mas há um certo consenso em tomar como o maior dos poetas modernos brasileiros a Drummond, pela profundidade com que tratou os temas de sua época(...) Mas Mario Quintana, não lá nos anos 40 mas a longo prazo, fica bem na companhia de Vinícius de Moraes e Cecília Meireles, com sua fama tendo sido conquistada com muito mais dificuldade”.

Capítulo à parte é a vida pessoal de Quintana, atormentada pela bebida – há depoimentos de contemporâneos que falam de situações em que Quintana tinha de ser levado para casa –, solitário e de vida bastante humilde – viveu de 1968 a 1980 no já decadente Hotel Majestic, que seria depois transformado na Casa de Cultura Mário Quintana, uma casa que o poeta jamais teve, tão grande e tão bela, no centro da cidade que ele amou. Mas ainda é um desafio para a crítica estudar como esta “vida de poeta” influencia na poesia em si.

Luís Augusto e Sérgio Luís Fischer, na biografia que orienta esta resenha, concluem a história do poeta lembrando que “em seus últimos anos, figura amplamente consagrada na cidade, grudou-se nele, por obra da mídia e por efeito de sua própria obra, a imagem de um velhinho sábio, espécie de parente mais velho de seu próprio personagem, o anjo Malaquias. Por isso não fica difícil saber por que a imagem que ficou dele, na impressão difusa da chamada opinião pública, foi essa, e não a do atormentado homem, que ele também foi”.

Assim Mario Quintana permanece, mesmo doze anos depois de sua morte, mais imortal do que se a ele fosse permitido usar o fardão bordado a ouro da Academia Brasileira de Letras. Permanece como poeta, como personagem, nas prateleiras e bibliotecas, nos bancos acadêmicos e nas agendas de frases.

Enquanto nós passamos, ele passarinho.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 08/08/2006.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Elegbara


Marcelo Spalding

Prestem a atenção nas manchetes dos jornais, olhem para a fome na África e as guerras na Terra outrora Santa, a violência urbana na América do Sul e a violência militar no Oriente Médio. Algo escureceu desde o século das luzes, o Iluminismo que deixou ao mundo o legado do racionalismo, do cientificismo. Pois em Elegbara (Record, 2005, 144 págs.), de Alberto Mussa, somos convidados a uma fantástica viagem no tempo, no espaço e na cultura, somos levados ao mundo indígena e ao mundo árabe, retornamos aos cristãos Portugal e Brasil e logo estamos em Palmares ou nos Campos dos Goitacazes em busca de essências anteriores a este mundo racionalista e eurocêntrico.

Publicado originalmente em 1997 e com nova edição em 2005, o livro traz dez narrativas – assim chamadas pelo próprio autor – que não se limitam às já clássicas teorias do conto e se aproximam mais de uma literatura “primitiva”, popular, de raiz oral. O narrador é mais um contador de histórias e o leitor se sente sentado com pernas de índio ao redor de uma fogueira.

Assim sendo, não cobrem verdade, não procurem demais verossimilhança, história oculta e história aparente, não tentem encontrar nexos entre as dez narrativas. Não se pode alcançar a verdade de Elegbara com as premissas do século das Luzes. É preciso fazer como os sábios de Timbuctu, elucubrar sobre as faces da verdade com esmero, ou como Féti, alcançar o domínio sobre o fogo e sobre a vida apenas com a observação minuciosa.

Além dos sábios de Timbuctu e do cativo Féti, desfilam pelas narrativas diversos personagens como o Onça, Zumbi dos Palmares, Ganga Zumba, Caminha, Cabral, Dom Sebastião e, claro, Elegbara – uma das denominações do orixá africano Exu –, alguns retomando elementos da vida real, todos questionando a realidade da vida. Ou da morte.

A luta contra a morte ou a transcendência em relação à morte é, de longe, o tema mais recorrente nas histórias e mais estranho a nossas mentes racionalistas. Os heróis parecem lutar menos pelas suas terras e nomes do que por uma espécie de permanência, mesmo que essa permanência se restrinja às rodas de contação de histórias ao redor da fogueira. Confira o final de quatro das dez narrativas:

“Mas, ainda depois de morto, o bugre continuou apavorando. (...) E ainda contam que – quando enfim tiveram coragem de atirá-lo ao Paraíba, o mar tomou de imediato a cor barrenta do rio.” (pág. 63) 

“Vagando pelas brenhas, certamente ainda há algum Zumbi para morrer” (pág. 71) 

“Do fundo do seu túmulo humilde de rei esquecido – como quiseram os padres de Faro – dom Sebastião continua ensinando. Sobretudo não esperar, não crer” (pág. 142) 

“E tinha razão: não há rei senão Deus. Elegbara é assim.” (pág. 53) 

De certo você sairá desta viagem mais confuso do que quando nela embarcou, mas isso se deve ao contato com tantas outras culturas e mitos. Aos leitores não iniciados nestas culturas – como este que vos fala – é aconselhado um pulinho numa enciclopédia para conhecer um pouco da vida de D. Sebastião e sua morte misteriosa em Alcácer Quibir, o porquê da cidade de Timbuctu ser patrimônio cultural da Unesco, a história do homem de Neandertal e a rivalidade entre Zumbi e Ganga Zumba no quilombo dos Palmares. Não são informações fundamentais, mas enriquecem e dão algum sentido a estas histórias. Isso, é claro, supondo que elas precisem de sentido, afinal ainda somos filhos do apagadinho século das Luzes.

Será que livro é lugar de crônica?


Marcelo Spalding

Ela está todos os dias em nossos jornais, invadiu a rede a partir dos blogs, transforma jornalista em artista e jornalismo em literatura: eis uma definição de crônica entre tantas possíveis. Gênero dos mais polêmicos, a crônica é ao mesmo tempo berço de grandes nomes como Machado de Assis e arena de gladiadores verbais como Roberto de Campos.

Em minhas oficinas, quando preciso diferenciar a crônica do conto (ou de uma narrativa ficcional), costumo lembrar que na crônica o narrador e o autor devem ser a mesma pessoa, que a crônica deve refletir algo da realidade e encerra uma opinião. Necessariamente, portanto, é datada, diferentemente do que costumamos chamar de literatura, e por isso mesmo não é comum vermos livros de crônica bem sucedidos, a não ser que compilem as crônicas de um conhecido jornalista contemporâneo (Jabor, LFV), mas aí vende pelo autor, não pelo gênero. Muito mais raro é vermos um importante prêmio literário concedido a um cronista em detrimento a um romancista, contista ou poeta.

Esse preconceito dos literatos para com a crônica não impede que alguns cronistas rompam a efemeridade jornalística e tornem-se escritores mais ou menos respeitados, especialmente a partir da mudança do jornalismo político para o empresarial. É o caso de João do Rio, o pioneiro, mas também de vários da geração seguinte, como Millôr Fernandes, Fausto Wolff e Antônio Maria.

Antônio Maria d´Albuquerque de Moraes (“Zé Maria, para os íntimos”) foi cronista dos mais originais e compositor de algumas das músicas mais tristes e bonitas do cancioneiro brasileiro, como “Ninguém me ama”. Nascido em 1921 no Pernambuco, criou programas de rádio, trabalhou na televisão, produziu esquetes para teatro e escreveu quase três mil crônicas que exploravam um lado oposto ao do compositor, o riso. E é este lado que Joaquim Ferreira dos Santos procura resgatar em Seja feliz e faça os outros felizes (Civilização Brasileira, R$ 22,90, 112 págs.). Joaquim, também jornalista, selecionou 34 crônicas escritas para jornais garimpando coleções de O Globo, Última Hora e O Jornal entre 1955 e 1964, ano da morte do cronista.

Pela diagramação já percebemos que os editores também se perguntaram se livro é lugar de crônica: há um cabeçalho trabalhado em cada página, letra capitular no começo dos capítulos e o desenho de um homem lendo jornal ao lado dos títulos, além da reprodução de páginas de jornal. Também a apresentação do livro tem este objetivo de transportar o leitor para o mundo das redações barulhentas em que Maria trabalhava num Rio de Janeiro há muito perdido. Mas são os próprios textos que nos remetem ao passado – e este é o ponto forte do livro –, não pela linguagem, que é desembolorada e clara, mas pela visão de mundo de um homem que viveu num mundo já meio século distante do nosso: “você fez mal, José, quando se casou com uma mulher feia”, escreve Antônio Maria na crônica que abre esta antologia, “diz um escritor francês que nós, homens, devemos desposar mulheres muito bonitas, porque só assim, um dia, nos veremos livres delas”.

Num sentido inverso, é impressionante que desde àquela época temas como mendicância, crise financeira e dólar alto já estivessem em pauta, nos levando a perguntar o que fizemos com nosso país ao longo destes cinqüenta anos. Apenas para ilustrar, veja se estas “Frases para dezembro” não poderiam estar nos jornais do fim do ano passado: “Eu espero que o ano que vem seja um pouquinho melhor”, “Nunca houve um ano tão ruim para negócios”, “Minha filha, com a vida pelo preço que está, nós não vamos fazer nada”, “Mas, hoje em dia, qual é a diferença que existe entre o champanhe nacional e o francês”, “Você acha que, com as coisas como estão, este Governo agüenta até o fim do ano?”.

Provavelmente você agora quer saber a que dezembro estas frases se referem, mas curiosamente a data de publicação não é mencionada em lugar nenhum, tampouco o jornal e o local onde o texto foi publicado, o que só podemos atribuir a um descuido da edição que, se não compromete, empobrece o ponto forte do livro, qual seja a competência que Antônio Maria tem de suscitar saudade mesmo em quem não viveu seu tempo, um tempo em que os melhores escritores eram impressos nas páginas mal cheirosas dos jornais, um tempo anterior aos blogs, à ditadura militar e à ditadura do mercado.

Seja feliz e faça os outros felizes, bem como outros livros de Antônio Maria lançados pela Civilização Brasileira, ainda tem outras duas funções importantes. A primeira é mostrar aos novos “escritores” e blogueiros que escrever crônica só parece simples, pois requer originalidade, talento e criatividade para lidar com temas cotidianos sem torná-los corriqueiros. A outra função é fazer eco à personagem que Maria se tornou ao longo do tempo, personagem de histórias folclóricas repetidas ainda hoje por gente como Millôr, Cony e Wolff. Uma delas, contada por Fausto Wolff, em A Milésima Segunda Noite, merece ser reproduzida aqui e fica como fecho da metade cômica do cronista Antônio Maria:

“(...)Um dia, Maria teve de viajar para São Paulo e numa reunião social encontrou uma mulher realmente deslumbrante que se deslumbrou com sua verve. Ambos haviam bebido um pouco demais e, quando a mulher perguntou-lhe o nome, não titubeou:

"– Carlos Heitor Cony

"Cony era realmente muito conhecido e admirado em São Paulo por causa dos seus excelentes romances e a mulher que já parara na de Maria ficou ainda mais excitada.

"Não sabemos se por culpa ou bebedeira, no quarto do hotel, Maria não deu conta do recado. Voltou para o Rio, e, ao encontrar-se com Cony alguns dias depois, no Lidador, lhe informou:

"– Broxaste em São Paulo.”


Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 01/08/2006.