terça-feira, 4 de julho de 2006

Fragmentos de história ou a história em frangalhos


Marcelo Spalding

De uma coisa os robozinhos do século XXX não poderão reclamar: nós, homens e mulheres do século XX, estamos produzindo retratos do nosso tempo em profusão, de teses acadêmicas a pinturas, de livros didáticos a notícias de jornal, representações, reproduções e interpretações de nossa própria história. Se os nossos filhos e netos souberem preservar parte dessa riqueza, se não repetirmos a queima de Alexandria ou a bomba atômica não explodir o mundo, os robozinhos dos anos três mil terão material de sobra para pesquisar sobre a vida dos dois mil.

A fartura de registros, aliada a uma tendência pós-moderna de revisitar e problematizar a história, tirando dela a aura de verdade intocada, parece estar gerando um gênero literário particular e curioso, algo que podemos chamar memorialista-histórico-ficcional. O caso mais nítido é O livro dos fragmentos (Civilização Brasileira, 2006, 160 págs.), de Antônio Carlos Villaça.

Villaça é, ele próprio, um verbete da história brasileira dos 900s. Carioca de 1928, é reconhecido como um dos mais importantes memorialistas e resenhistas do Brasil, saudado por homens como Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre, Manuel Bandeira e Graciliano Ramos e vencedor do Prêmio Machado de Assis de 2003. Faleceu no dia 29 de maio de 2005, mas graças a Luciana Villas-Boas foi publicado, no começo deste ano, O livro dos fragmentos, onde o autor recompõe em poucas linhas fragmentos de histórias de personagens que fizeram parte da sua vida, alguns mais outros menos renomados.

Os primeiros fragmentos são dedicados a Gilberto Amado, jornalista, político, diplomata, poeta, ensaísta, cronista, romancista e memorialista falecido em 1969 e personagem preferida de Villaça. Adiante encontraremos histórias de muitos outros jornalistas cariocas hoje praticamente desconhecidos (pelo menos para um jovem de fora do Rio) misturadas com histórias de personalidades como Getúlio Vargas, Guimarães Rosa, Rui Barbosa, Machado de Assis, Carlos Lacerda, Hélder Câmara. Tratando suas personagens com a mesma importância e respeito, todos com certa intimidade e sem receio em emitir juízos negativos de valor, Villaça conquista a simpatia do leitor e desarma este da eterna cobrança pela verdade, algo descabido neste gênero memorialista-histórico-ficcional.

As datas e os lugares, os nomes e os sobrenomes são reais, mas o narrador em nenhum momento pretende ir além de sua memória e de sua subjetividade. Não poupa adjetivos em nome da objetividade, não presta referência a ditos heróis, simplesmente conta histórias – ou estórias, como diria Guimarães Rosa –, muitas das quais insignificantes para o leitor ou para o país, todas fundamentais para ajudar a compor o painel de um Rio de Janeiro pós segunda guerra e pré Brasília.

Também é este o tempo e o espaço preferidos de Fausto Wolff em A Milésima Segunda Noite (Bertrand Brasil, 2005, 742 págs.). O jornalista gaúcho radicado no Rio compõe uma obra monumental (pela originalidade e pelo tamanho) misturando micronarrativas, poesias, pensamentos, ensaios filosóficos, críticas políticas e também textos de feitio memorialista-histórico-ficcional. Ainda que as histórias de Wolff alcancem da Cleópatra a Fernando Henrique Cardoso, neste momento nos interessa os inúmeros textos em que Fausto conta passagens de Millôr Fernandes, Antônio Maria, Joel Silveira, Elmar Machado e do impagável e fictício Nataniel Jebão.

Como Villaça, Wolff conta fragmentos, na maioria cômicos e saudosos, em que seus amigos surgem como seres geniais e espirituosos. Com exceção de um ou outro, como Millôr, são personagens que não terão seus nomes repetidos até os robozinhos dos anos 3000 (talvez como os próprios autores destas memórias-histórico-ficcionais) e que são ali transformados em personagens como uma forma de eternizá-los em palavras.

Nesse ponto não se pode deixar de citar também Minhas Histórias dos Outros (Planeta, 2005, 270 págs.), de Zuenir Ventura. Apesar de trazer uma proposta diferente, aprofundando suas histórias em textos maiores do que duas páginas (como fazem Villaça e Fausto), também Zuenir se propõe a recontar ou dar sua interpretações de fragmentos históricos do século XX, especialmente do século XX carioca pós-segunda guerra.

É difícil explicar o porquê de as três obras terem sido editadas no Rio de Janeiro em 2005. Talvez seja coincidência ou a percepção de um nicho de mercado. Mais fácil é entender por que os três autores são jornalistas (e não historiadores ou sociólogos ou doutores). Em sendo jornalistas, os três já abandonaram a ilusão da objetividade e da verdade e não se constrangem (como possivelmente aconteceria com um historiador) em narrar suas memórias com todas as suas imperfeições. Também estão acostumados a escolher fragmentos em meio à multidão de fatos diários que chegam a uma redação (o que talvez um sociólogo não saberia fazer). E por fim (como nenhum doutor) sabem ser superficiais e explorar a caricatura de suas personagens, não pretendendo que o leitor conheça a “real” personalidade delas.

Curioso, ao final das três leituras, é constatar que o trio jamais se cita ou se encontra em suas histórias (sem dúvida se conhecem mas não são do mesmo grupo, apesar de pertencerem ao mesmo círculo). Por vezes contam as mesmas histórias, mas nem por aí se pode confirmar a veracidade ou não delas. Na verdade, o que menos importa neste novo gênero é a História, essa dos livros didáticos ou das grandes narrativas. Estando ela cada vez mais em frangalhos, entendem os jornalistas que a única forma de contá-la é a partir de fragmentos. E assim temos o princípio não de um livro dos fragmentos mas de um “cânone dos fragmentos”.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 04/07/2006.

Nenhum comentário:

Postar um comentário