terça-feira, 25 de julho de 2006

A literatura feminina de Adélia Prado

Marcelo Spalding


Ilustra by Tartaruga Feliz

Menina não entra. Este era o lema da Academia Brasileira de Letras até pouco tempo atrás. Já na sua criação, em 1897, a aplaudida romancista, contista e cronista Júlia Lopes de Almeida foi deixada de fora e em seu lugar convidado o marido, Filinto de Almeida, escritor inexpressivo. Em 1930, a piauiense Amélia de Freitas Beviláqua era forte candidata para a cadeira nº 23, mas também foi preterida com a justificativa de que no estatuto constava que a Academia era apenas para os brasileiros, não para as brasileiras (história narrada no próprio site da ABL). Essa lógica, absurda e criticada mesmo àquela época, ainda deixou de fora escritoras como Clarice Lispector e Cecília Meireles. Somente em 1970 uma mulher tornou-se imortal, Raquel de Queiroz, e apenas em 1996 uma mulher presidiu a Academia, Nélida Piñon.

Cito estes episódios não para acusar a Academia e, sim, para lembrar que a literatura foi escrita e institucionalizada exclusivamente pelos homens e que essa situação só vem se modificando há 40, 50 anos. Ainda hoje definimos uma literatura feita por mulheres que narra histórias de mulheres com conflitos femininos como uma “literatura feminina”, enquanto um livro como Memórias de Minhas Putas Tristes, de autor masculino, narrador masculino e conflito masculino é tido por literatura, sem o adjetivo "masculina".

Adélia Prado, poeta mineira não-imortalizada que incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa, sempre se presta à discussão de gênero por ser apontada pela crítica como uma escritora que encontrou equilíbrio entre o feminino e o feminismo. Mas se este equilíbrio significar ausência de conflito, Quero minha mãe (Record, 2005, 84 págs.), sua mais recente narrativa longa, embaralha de novo as cartas.

Em Quero minha mãe Adélia Prado dá a voz a Olímpia, uma senhora de sessenta anos que descobre ter câncer no útero e acredita estar próxima da morte. Através de fragmentos narrativos essa senhora constrói um mosaico de sua vida presente e reflete sobre o passado, inevitavelmente problematizando sua condição de mulher, esposa e católica. Ainda que seja o motivo da narração, a doença em si ocupa a menor parte do texto de Olímpia. Ela aproveita a proximidade da morte mais para refletir sobre a vida e valorizá-la do que lamentar-se, lembrando, nesse aspecto, o recente sucesso de Garcia Márquez. É como se a certeza da morte – e talvez a consciência da idade – a aproximasse da falecida mãe, das amigas também doentes, de si própria.

Adélia foge com maestria e delicadeza do discurso combativo das feministas, mas, ao voltar-se para si, Olímpia vê acima de tudo uma mulher “retida”, incapaz de alçar vôos a não ser em sonhos, e por isso chama pela mãe, identificando na progenitora as suas angústia e os seus medos: “coitada da minha mãe, tinha tristeza de me ver descalça e a minutos de encontrar o julgamento divino cuidava para que não me vissem com os pés no chão”, lembra a filha, agora mãe, prestes a repetir a sina daquela que chama.

Ocorre que Olímpia, ao encarar a morte e buscar um sentido para a vida, descobre e expõe alguns claros conflitos de gênero, especialmente ligados ao sexo, que não a permitiam “voar”:

“Quando a gente casa a gente pode fazer tudo? Tudo o quê, minha filha? Tudo, uai. Seu ouvido de padre estrangeiro novo no Brasil não entendia o que era 'a gente'. Ficou falando na santidade do matrimônio, os conselhos me soando anêmicos e escapistas. Ia me casar com moço forte e escovado, muito diferente dos maridos da Upac que eu conhecia, agarrados na mulher como em tábua de naufrágio.” (pág. 63)

Seria precipitado afirmar que Adélia esteja levantando uma bandeira feminista a partir de sua representação, mas essa imagem lembra um trecho de O Segundo Sexo, clássico da “literatura feminina”, de Simone de Beauvoiur: “o coito não poderia realizar-se sem o consentimento do macho e é a satisfação do macho que constitui o fim natural do ato”.

Em outro fragmento essa relação de marido e mulher se mostra ainda mais conflituosa para a narradora, incapaz de admitir que a amiga continue passando a roupa do marido depois que ele a chamou de “bocetuda”.

“Lulu havia me contado a última do Alcenir e eu viajava longe no detalhe dele chamar a Izaltina de bocetuda. Certas palavras me derrubam, fiquei com raiva da mulher, tratada assim e continuar passando a roupa dele, fazendo todo santo domingo molho pardo pro gorila, tão ansiosa (...). Bocetuda? Um míssil na minha cabeça faria menos estrago.” (pág. 20-21)

Note que Olímpia não veria nada de errado em passar a roupa do marido ou fazer todo santo domingo o molho pardo se ele não tivesse a desrespeitado. E de fato a narradora – assim como a autora em suas poesia já o tinha feito – assume com algum prazer a condição de mãe e esposa, menina casta e mulher crente, e esta talvez esta seja a marca do trabalho de Adélia. Equilibrando-se (e não equilibrada) entre o feminismo e a ratificação dos valores de uma sociedade patriarcal, Adélia não recusa os papéis destinados às mulheres mas reivindica um outro olhar, uma outra perspectiva para estas mulheres.

Em Quero minha mãe a mulher não é apenas narradora e autora, é protagonista: é da mãe que a narradora sente falta em seus momentos de tristeza, é às amigas que ela recorre, é a empregada que reza por ela e é uma doutora que a opera. Fazendo um balanço de sua vida cinco anos depois da cirurgia, Olímpia afirma: “tornei-me um pouco melhor, (...) venci minha antiga, arraigada e preconceituosa admiração pelo homem. (...) Fui salva pelas mulheres, espanto-me em percebê-lo”. E é curioso que a mesma operação que tirou dela o útero, o útero doente, o símbolo da maternidade, o símbolo do feminino, tenha despertado o feminino em sua essência, um feminino livre de pré-conceitos, livre de imposições, livre de ideologias.

Agora, sessenta e tantos anos depois, “o vôo impossível acontece”, exulta a narradora. E o que é melhor, um vôo em vida.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 25/07/2006.

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