terça-feira, 6 de junho de 2006

Um livro para ler no (ou lembrar do) carnaval


Marcelo Spalding

Há livros que se deve ler como um oriental aprecia uma xícara de chá e outros que se pode ler na fila do banco, na beira da praia, no trem ou no ônibus. Não entenda isso como juízo de valor, há livros “profundos” e ruins e outros “superficiais” maravilhosos (não vou citar o Dom Quixote como exemplo para evitar incomodações). Digamos que essa segunda categoria seja feita de livros ideais para se ler no feriado de carnaval, quando a mente está descansada e o espírito, desarmado.

Não por acaso o segundo livro do músico e jornalista João Gabriel de Lima se chama Carnaval (Objetiva, 2006, 132 págs.). Pedro, o narrador egocêntrico, é um comerciante obscuro casado com uma executiva multinacional. Enquanto ela viaja a negócios ele permanece atrás do balcão de sua locadora de DVDs imaginando clientes em cenas de filmes. O cinema, aliás, é sua única paixão pós-desgaste matrimonial, até conhecer Lenita Duarte, uma famosa chef. Pedro apaixona-se por Lenita, torna-se seu amante e o casal combina de se encontrar no Rio de Janeiro, no desfile da Império Serrano (o de 2005, em que o samba-enredo foi novamente “Aquarela Brasileira”).

Utilizando este como ponto de partida do livro, Pedro relata para a amante o que teria se passado entre o vôo para o Rio e o desfile da Império: “se eu tivesse um diário, teria anotado cada detalhe daquela noite que você [a amante] me convidou para passar o carnaval no Rio de Janeiro”. As histórias daquela noite carioca em que Pedro conhece músicos e musas (e aqui o autor espalha um tanto de sua formação musical) é intercalada por flashbacks que remetem à história do narrador em São Paulo, toda permeada pela sua lembrança de filmes que vão de Coração Satânico a Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.

Vivêssemos ainda no tempo do formalismo, não haveria esta resenha, pois o texto é simples, a linguagem, coloquial e a leitura, rápida. Digamos que se o autor estivesse escrevendo um filme, e não um livro, seria um longa hollywoodiano para passar no cinema, ter sobrevida para chegar na Sessão da Tarde mas jamais perto de um Oscar. E este também não é um juízo de valor.

Romance desigual, as primeiras páginas de Carnaval abusam da primeira pessoa e do discurso debochado, mas aos poucos a narrativa cresce, envolve, firma personagens, conflitos e termina magistralmente. “Como Femme Fatale”, diria o narrador, “como o final surpreendente e desconstrutivo filme Femme Fatale”.

Não sendo nossa intenção contar o final, voltemos para a primeira página do livro, mais especificamente para uma frase que servirá de chave mestra da história: “registrei aquela noite apenas na memória e ela não é muito confiável”. A partir daí temos uma seqüência veloz de cenas em que realidade e ficção tornam-se difusas. Tudo parece verossímil, afinal estamos no carnaval, mas um bom leitor não deixará de notar uma ou outra contradição: “como Pedro pretenderia anotar tudo em papel e caneta no meio do turbilhão da marquês?”. Ou “como o narrador conhece melhor a história de Zédinho do que ele próprio?”. E mesmo não revelando a surpresa podemos dizer que no final as coisas se encaixam e a proposta da obra se torna clara: desconstruir a noção de realidade não só da vida, noção bastante abalada em tempos de carnaval, como do próprio romance.

Dentro dessa proposta desconstrutiva da obra, as cenas a partir do capítulo onze, em que a ligação do narrador com o cinema é intensificada (o capítulo em que a relação com Marta do primeiro sexo ao desgaste matrimornial é contada a partir de filmes hollywoodianos contemporâneos é o ponto alto do livro), o narrador faz diversas referências a cenas, lugares e personagens do cinema transpondo-os para a realidade e vice-versa, suscitando uma questão crucial para a arte: será que a representação do real não se torna o próprio real? Quer ver: se perguntarem a você se conhece as pirâmides do Egito você dirá que sim ou não? E se perguntarem se você conhece Gandhi? E Paris?

Claro que sim, estamos fartos de ver filmes, livros e fotografias sobre as pirâmides, Gandhi ou Paris.

Claro que não, nunca vimos pessoalmente Gandhi e raros são os que visitaram as pirâmides ou Paris.

Entre o sim e o não absolutos estão as noções difusas que temos sobre cidades, personalidades, áreas do conhecimento, noções obtidas apenas através de representações, sejam elas ficcionais ou pretensamente não ficcionais. Mergulhados nesse oceano de representações, acabamos por conhecer o mundo e a vida a partir de representações artísticas do real e estas, enquanto subjetividades, não são o real, o que nos leva a um paradoxo complexo que transforma toda memória, e não apenas a de Pedro, em algo inconfiável.

Rio X São Paulo

Merece capítulo à parte os espaços escolhidos para a história, as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Pedro, sua esposa mora em São Paulo, mas é no carnaval do Rio que o narrador encontrará sua amante. Esta ponte aérea dentro da história aparentemente não tem função específica, mas podemos entender a dicotomia Rio/São Paulo como mais uma entre as diversas dicotomias suscitadas pelo livro (esposa/amante, cinema/música, morro/universidade), culminando na dicotomia real/irreal.

A representação das cidades, um tanto caricatural, talvez não tenha sido um problema para o autor, nascido em São Paulo e hoje morando no Rio, mas causa um efeito interessante num leitor gaúcho que jamais passou mais do que um fim de semana numa dessas capitais. São Paulo é Marta, a esposa de Pedro, uma mulher bem sucedida, pragmática, eficiente, que adora o dia e perdeu a capacidade de apreciar filmes com o marido. O Rio de Janeiro é Paula, bela mulher que o narrador conhece na cidade maravilhosa, uma filha de músico transformada em musa por algumas canções e hoje ainda bela, embora envelhecida, disposta a gozar os prazeres da vida ainda que precise conviver com diversas angústias e neuroses. São Paulo é o progresso, Rio é a decadência, São Paulo é fria, o Rio preserva uma beleza lasciva, São Paulo é o dia, o Rio é a noite, São Paulo é o cinema, o pós-moderno, o Rio é a música, os anos dourados. E entre todas essas dicotomias, entre Paula/Marta, mulher/amante, vida/arte, música/cinema, real/irreal, emerge um indivíduo incapaz de reconhecer a própria realidade, afogado no seu próprio oceano de representações: Pedro.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 06/06/2006.

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