terça-feira, 20 de junho de 2006

Você se sente mais brasileiro por causa da Copa?

Marcelo Spalding

No tempo do meu avô, brasileiros foram para a Guerra defender sua pátria e sua bandeira. No tempo do meu pai, brasileiros foram mortos e exilados por não amarem sua pátria e sua bandeira. Hoje, corpo ereto, mão direita no coração, cantamos o hino nacional em frente à televisão onde estão os onze heróis que defenderão nossa pátria e nossa bandeira. Mas, afinal, que pátria é essa?

Um intelectual muito conhecido, Homi Bhabha, tornou-se célebre pelos seus estudos acerca da nação como narração. Para ele, a idéia de nação com fronteiras bem definidas, bandeira, língua e identidade firmes e próprias é uma criação da modernidade com fins políticos (as pessoas precisavam se sentir parte do país para lutar em nome dele, respeitar suas leis e pagar seus impostos). Bhabba alerta para a diversidade existente dentro das próprias nações mesmo quando este conceito foi criado, especialmente no século XIX, e lembra como essa diversidade sempre foi reprimida por um discurso oficial e homogeneizador da nação, o discurso do estado, das escolas, da mídia, da literatura.

Verdade que hoje se tem muito mais noção de como o conceito de nacionalidade é delicado e do quanto somos dependentes dos demais países (financeira, política e culturalmente). Muitos já estudam em outro país, casam-se com mulheres de outro continente, têm filhos de outras nacionalidades. Alguns namoram uma espanhola pela internet ou investem na Bolsa de Tóquio. Ainda assim existe a Seleção Brasileira, os onze heróis e a camisa verde-amarela.

Não quero ser mais um a acusar injustamente o futebol de alienante, mas quero chamar a atenção de como a Copa do Mundo se tornou o melhor palco para a exibição do espírito nacional. Depois que as guerras perderam sentido e que todos se horrorizaram com a raça dita superior, restaram a cultura e o esporte para representar um país. A cultura, por aqui, fez e faz sua parte com Tom Jobim, Caetano Veloso, Seu Jorge, mas inevitavelmente a cultura representará mais uma classe do que a totalidade do povo. Já o esporte, e especialmente o futebol, conseguiu ao longo do tempo representar o rico e o pobre, o branco e o preto, o do sul e o do norte. E a Copa do Mundo é o grande palco para exibir essa metonímia da nação. Um jogo entre Alemanha e Polônia torna-se um ajuste de contas histórico por causa das guerras e invasões entre os dois países, uma partida entre Portugal e Angola se transforma em símbolo do embate entre capital e colônia, a primeira participação em copas de Trinidad e Tobago vira epígrafe da inserção do país no contexto internacional.

O próprio presidente da ONU, Kofi Annan, em artigo publicado pouco antes do começo da Copa, admite que a “Copa do Mundo nos enche de inveja, pois é um jogo no qual só importam duas coisas: o talento e o trabalho em equipe. Tomara tivéssemos essa mesma igualdade na arena global, um comércio livre e justo sem a interferência de subvenções, barreiras ou tarifas”.

Mesmo a Copa do Mundo, porém, reflete os novos tempos da nossa sociedade, um tempo de “culturas híbridas”, como gostam de dizer os intelectuais. Se você ver a fotografia de Gerald Asamoah, atacante “alemão” que jogou na Copa de 2002 e volta em 2006, dirá que pertence a qualquer seleção africana, talvez à brasileira, mas nunca a da Alemanha, país que há menos de cem anos exaltou a raça ariana. Mais incrível é o caso de outros dois atacantes (não) alemães, Klose e Lukas Podolski. Ambos nasceram na Polônia, primeiro país invadido por Hitler em 1939. É possível que algum de seus avôs ou bisavôs tenham sucumbido por uma bala alemã, mas em 14 de junho de 2006 ambos entraram em campo e cantaram o hino alemão como um dos onze heróis que arrancariam a histórica vitória dos poloneses aos 46 do segundo tempo.

Outro exemplo já clássico é o de Zinedine Zidane, filho de imigrantes argelinos e principal jogador da história do futebol francês depois da Copa de 98. Aliás, naquela seleção ainda haviam o zagueiro Desailly, nascido em Gana, o lateral Thuran, em Guadalupe, um arquipélago no Mar do Caribe, o volante Karembeu, da Nova Caledônia, um arquipélago no Oceano Pacífico, os meio-campistas Djorkaeff, de origem armênia, e Trezeguet, filho de argentinos, além de Patrick Vieira, nascido em Dakar, Senegal. Jornalistas à época diziam que a conquista do título era um “tapa na cara” de pessoas como Jean-Marie Le Pen, líder da direita francesa que fez campanha contra os imigrantes (aliás, uma luta reacendida há poucos meses com a revolta dos estudantes).

Enfim, a Copa do Mundo pode até fazer com que nos sintamos mais brasileiros ou com que aumente nosso orgulho pelo Brasil. Nada de mal em vestir verde e amarelo ou pintar o rosto de azul com estrelas brancas. Mas tomara que nunca mais essa construção narrativa que é a nação, travestida com o poder do Estado, convoque jovens para morrerem pela pátria no além-mar. Tomara que nunca mais governos autoritários exijam que se ame ou se deixe o Brasil. E muito menos que um presidente prenda e mate homens, mulheres e crianças que não tenham seu sangue em nome de uma raça. Fatos que parecem esquecidos nos livros de história mas que me vêm em mente a cada vez que ouço (nos intervalos da Copa, é claro) notícias vindas do Iraque, do Afeganistão, da prisão de Guantánamo...

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 20/06/2006.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Um livro para ler no (ou lembrar do) carnaval


Marcelo Spalding

Há livros que se deve ler como um oriental aprecia uma xícara de chá e outros que se pode ler na fila do banco, na beira da praia, no trem ou no ônibus. Não entenda isso como juízo de valor, há livros “profundos” e ruins e outros “superficiais” maravilhosos (não vou citar o Dom Quixote como exemplo para evitar incomodações). Digamos que essa segunda categoria seja feita de livros ideais para se ler no feriado de carnaval, quando a mente está descansada e o espírito, desarmado.

Não por acaso o segundo livro do músico e jornalista João Gabriel de Lima se chama Carnaval (Objetiva, 2006, 132 págs.). Pedro, o narrador egocêntrico, é um comerciante obscuro casado com uma executiva multinacional. Enquanto ela viaja a negócios ele permanece atrás do balcão de sua locadora de DVDs imaginando clientes em cenas de filmes. O cinema, aliás, é sua única paixão pós-desgaste matrimonial, até conhecer Lenita Duarte, uma famosa chef. Pedro apaixona-se por Lenita, torna-se seu amante e o casal combina de se encontrar no Rio de Janeiro, no desfile da Império Serrano (o de 2005, em que o samba-enredo foi novamente “Aquarela Brasileira”).

Utilizando este como ponto de partida do livro, Pedro relata para a amante o que teria se passado entre o vôo para o Rio e o desfile da Império: “se eu tivesse um diário, teria anotado cada detalhe daquela noite que você [a amante] me convidou para passar o carnaval no Rio de Janeiro”. As histórias daquela noite carioca em que Pedro conhece músicos e musas (e aqui o autor espalha um tanto de sua formação musical) é intercalada por flashbacks que remetem à história do narrador em São Paulo, toda permeada pela sua lembrança de filmes que vão de Coração Satânico a Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.

Vivêssemos ainda no tempo do formalismo, não haveria esta resenha, pois o texto é simples, a linguagem, coloquial e a leitura, rápida. Digamos que se o autor estivesse escrevendo um filme, e não um livro, seria um longa hollywoodiano para passar no cinema, ter sobrevida para chegar na Sessão da Tarde mas jamais perto de um Oscar. E este também não é um juízo de valor.

Romance desigual, as primeiras páginas de Carnaval abusam da primeira pessoa e do discurso debochado, mas aos poucos a narrativa cresce, envolve, firma personagens, conflitos e termina magistralmente. “Como Femme Fatale”, diria o narrador, “como o final surpreendente e desconstrutivo filme Femme Fatale”.

Não sendo nossa intenção contar o final, voltemos para a primeira página do livro, mais especificamente para uma frase que servirá de chave mestra da história: “registrei aquela noite apenas na memória e ela não é muito confiável”. A partir daí temos uma seqüência veloz de cenas em que realidade e ficção tornam-se difusas. Tudo parece verossímil, afinal estamos no carnaval, mas um bom leitor não deixará de notar uma ou outra contradição: “como Pedro pretenderia anotar tudo em papel e caneta no meio do turbilhão da marquês?”. Ou “como o narrador conhece melhor a história de Zédinho do que ele próprio?”. E mesmo não revelando a surpresa podemos dizer que no final as coisas se encaixam e a proposta da obra se torna clara: desconstruir a noção de realidade não só da vida, noção bastante abalada em tempos de carnaval, como do próprio romance.

Dentro dessa proposta desconstrutiva da obra, as cenas a partir do capítulo onze, em que a ligação do narrador com o cinema é intensificada (o capítulo em que a relação com Marta do primeiro sexo ao desgaste matrimornial é contada a partir de filmes hollywoodianos contemporâneos é o ponto alto do livro), o narrador faz diversas referências a cenas, lugares e personagens do cinema transpondo-os para a realidade e vice-versa, suscitando uma questão crucial para a arte: será que a representação do real não se torna o próprio real? Quer ver: se perguntarem a você se conhece as pirâmides do Egito você dirá que sim ou não? E se perguntarem se você conhece Gandhi? E Paris?

Claro que sim, estamos fartos de ver filmes, livros e fotografias sobre as pirâmides, Gandhi ou Paris.

Claro que não, nunca vimos pessoalmente Gandhi e raros são os que visitaram as pirâmides ou Paris.

Entre o sim e o não absolutos estão as noções difusas que temos sobre cidades, personalidades, áreas do conhecimento, noções obtidas apenas através de representações, sejam elas ficcionais ou pretensamente não ficcionais. Mergulhados nesse oceano de representações, acabamos por conhecer o mundo e a vida a partir de representações artísticas do real e estas, enquanto subjetividades, não são o real, o que nos leva a um paradoxo complexo que transforma toda memória, e não apenas a de Pedro, em algo inconfiável.

Rio X São Paulo

Merece capítulo à parte os espaços escolhidos para a história, as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Pedro, sua esposa mora em São Paulo, mas é no carnaval do Rio que o narrador encontrará sua amante. Esta ponte aérea dentro da história aparentemente não tem função específica, mas podemos entender a dicotomia Rio/São Paulo como mais uma entre as diversas dicotomias suscitadas pelo livro (esposa/amante, cinema/música, morro/universidade), culminando na dicotomia real/irreal.

A representação das cidades, um tanto caricatural, talvez não tenha sido um problema para o autor, nascido em São Paulo e hoje morando no Rio, mas causa um efeito interessante num leitor gaúcho que jamais passou mais do que um fim de semana numa dessas capitais. São Paulo é Marta, a esposa de Pedro, uma mulher bem sucedida, pragmática, eficiente, que adora o dia e perdeu a capacidade de apreciar filmes com o marido. O Rio de Janeiro é Paula, bela mulher que o narrador conhece na cidade maravilhosa, uma filha de músico transformada em musa por algumas canções e hoje ainda bela, embora envelhecida, disposta a gozar os prazeres da vida ainda que precise conviver com diversas angústias e neuroses. São Paulo é o progresso, Rio é a decadência, São Paulo é fria, o Rio preserva uma beleza lasciva, São Paulo é o dia, o Rio é a noite, São Paulo é o cinema, o pós-moderno, o Rio é a música, os anos dourados. E entre todas essas dicotomias, entre Paula/Marta, mulher/amante, vida/arte, música/cinema, real/irreal, emerge um indivíduo incapaz de reconhecer a própria realidade, afogado no seu próprio oceano de representações: Pedro.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 06/06/2006.