terça-feira, 23 de maio de 2006

Para você que escreve e tem mais ou menos 30 anos

Marcelo Spalding

Você participa de uma oficina literária, arrisca escrever e divulgar alguns contos, publica um ou dois livros individuais no seu Estado, começa a ser comentado, lido e procurado para comentar e ler, entra numa associação de escritores, conhece outros escritores, tudo isso e você tem menos de 30 anos. De repente, alguém lhe pergunta: você é um destes escritores da nova geração, a geração 2000, a geração do computador? Você, indeciso, balança a cabeça. Sim, claro que sou, afinal sou jovem e escrevo. Aí, lembra da galera que por algum motivo ganhou a fama de ser precursora da tal nova geração. E recua, balança a cabeça noutro sentido: não, claro que não, minha temática é outra, minha ideologia é outra, enfim, não sou como aquela turma e...

Rótulos. Simplificações. Preconceitos.

Você se arma com estas três palavras para refutar a idéia de que todo autor jovem, com mais ou menos 30 anos, precisa ser parte integrante de uma geração una e de características determinadas, quais sejam escrever sem grande preocupação estilística (mas ainda assim escrever bem), ter começado a publicar pela internet, abusar de vez em quando de palavrões e cenas de sexo (sexo pesado, de preferência), criar uma história fragmentada, preferencialmente com um narrador confuso, e, acima de tudo, ser visual, o mais visual possível se você quer um dia parar nas telas da televisão.

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Não é de hoje a briga entre escritores e periodizações literárias. Machado de Assis não via futuro no realismo, Monteiro Lobato era inimigo declarado dos modernistas, o pai do minimalismo norte-americano que gerou a micronarrativa, Raymond Carver, detestava o adjetivo minimalista, Lya Luft não admite que chamem seu Perdas e Ganhos de auto-ajuda e assim por diante. O fato é que os escritores precisam simplesmente escrever, não cabe a eles escolher de que forma desejam ser lembrados, entendidos e citados, muito menos se devem ou não ser citados. Isso fica a cargo do...

E aí temos o primeiro traço característico da Geração 2000: não são mais os críticos, os escritores tarimbados, os concursos literários nem mesmo os editores que decidem quem merece destaque, é a mídia. Pierre Bourdieu, em uma conferência transformada em livro, Sobre a Televisão, já alertava que a mídia tinha o poder de destacar personalidades dentro de qualquer campo ainda que a personalidade destacada não fosse referência para os especialistas no assunto. Um exemplo? Quem é hoje o melhor médico do Brasil? Pergunte para qualquer pessoa na rua, naturalmente pessoas que não entendam de medicina, e aposto que dirão ser Dráuzio Varela. Mas será que ele mesmo se considera o melhor médico do Brasil? Provavelmente não, no máximo pode se considerar o melhor em sua especialidade. Assim como Roberto Justus não teria autoridade para dar megapalestras não tivesse se transformado em um showman. Idem o Beto Carrero.

Particularmente, desconfio de qualquer rótulo e vou além: quando falamos de contemporaneidade, definir rótulos e tendências é criminoso. Se admitirmos que exista uma Geração 2000 de escritores, uma geração de novos escritores “saídos da internet e sem papas na língua”, estamos negando a possibilidade de um suposto jovem escritor negro publicar um romance sobre a discriminação racial na polícia. Ou, no mínimo, estaremos incentivando a que todos os alunos de oficinas e dos cursos de letras, todos aqueles que ainda compram livros e sonham um dia serem editados pela Companhia das Letras, escrevam como os seus novos ídolos bastante badalados. O que seria um erro, o que a literatura menos precisa é de mais do mesmo.

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Sempre conto que, quando estava no colégio, pensava ser o melhor escritor do mundo. Um pouco por entender quase nada do que fosse bem escrever e muito por não conhecer nada dos contemporâneos. Pensava estarem todos os gênios já mortos, e eu ali dando sopa. Claro que saindo da ilusão burguesa de um colégio particular deparei-me com centenas de jovens como eu, muito mais talentosos, escrevendo e tentando espaço no mercado editorial. Vi que meu conterrâneo Daniel Galera, junto com alguns amigos, entre eles Daniel Pelizzari, chamava a atenção, ganhava capas do nosso famigerado caderno cultural local, vez que outra aparecia na televisão. Tempos depois vi nascer uma estrela instantânea, Letícia Wierzchowski, capaz de levar o Rio Grande do Sul de volta para a Rede Globo. Um ou dois anos mais tarde uma outra escritora, essa eu já conhecia pessoalmente, dava entrevistas no Jô Soares e aparecia na lista dos mais vendidos, Claudia Tajes (e me permitam arriscar alguns nomes, anotem e me cobrem um dia: Cristina Gomes, Ítalo Ogliari e Monique Revillion).

Aos poucos, entendi que a lógica do mercado é essa mesma: rotular, escolher um ou dois ícones do momento e trabalhar incessantemente com eles. Mas o que ainda me surpreende é a pressa, a pressa que temos em achar o novo Pelé em qualquer jogador franzino ou de encontrar um Prêmio Nobel em qualquer jovem barbudo dando os primeiros passos no tortuoso caminho das letras.

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Volto para cima do muro. Daqui a gente observa melhor o movimento das coisas, das gentes. Daqui entendo que muito mais do que definirmos se existe uma literatura própria dos anos 2000, dos novos autores, devíamos pensar por que tanta gente tem publicado tantos livros. Por que tantos jovens têm publicado tantos livros? Estaremos diante de um boom da literatura brasileira, mais ou menos como nos profícuos anos 70, ainda que em novas bases e calcada em novos valores? Ou estaremos apenas reproduzindo e alimentando a indústria cultural televisiva e hoje também digital?

Daqui de cima do muro a gente só faz perguntas, não arrisca respostas. Mas também daqui se consegue constatar uma lógica: você lembra quando alguns lamentavam que o cânone era composto apenas por homens brancos da classe média? E lembra a tristeza com que se constatou algo parecido nos autores de conto dos anos 70? Pois bem, hoje parece que ninguém mais se preocupa com isso. Porque não são mais apenas homens, são homens e mulheres. Mas ninguém mais se preocupa que permaneçam sendo os brancos de classe média (média?) os “escolhidos” do momento.

Talvez porque os que lêem também são apenas estes. Talvez porque as temáticas também não lembrem destes. Talvez porque estejamos com pressa demais para detalhes sociais.

O fato é que mal conseguimos entender e estudar o romance suburbano de Bonassi e Paulo Lins, mal conseguimos aceitar a micronarrativa de Rufatto e Wolff como literárias e já tentamos identificar um novo estilo, uma nova geração, inclusive escolhendo vozes para representá-la em nome de não sei o quê.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 23/5/2006.

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