terça-feira, 18 de abril de 2006

O que faz de um livro um clássico

Marcelo Spalding

Não seria melhor terminar o título com uma interrogação? Então, corrijamos: o que faz de um livro um clássico? E eis uma questão com mil possíveis respostas, nenhuma definitiva nem alheia a polêmicas. Mas quem gosta, estuda ou trabalha com literatura não pode se furtar de buscar tais respostas, ou pelo menos dar palpites, ainda mais quando estamos diante de um clássico contundente, comentado e decantado pela efeméride dos 50 anos, Grande Sertão: Veredas.

À época os críticos já desconfiavam estar diante de um monumento da literatura nacional, mas é hoje, passado meio século, que se tem melhor noção da importância do romance roseano para as “belas-letras” brasileiras. Sim, para o que se chamava “belas-letras”, aquela literatura refinada, original, canônica, acadêmica. A ponto de comparar-se Guimarães Rosa a Machado, num nível acima de Macunaíma, por exemplo. Mas distante das cabeceiras dos brasileiros.

Deixemos, ou tentemos deixar, o impressionismo de lado. Não estamos lidando com boxe para saber quem é o melhor da década, do século ou do país. E voltemos àquela inicial e difícil pergunta: o que faz de um livro um clássico? Mais especificamente, o que faz de Grande Sertão: Veredas um clássico?

Assim como ocorre com a Odisséia, o Dom Quixote, O Vermelho e o Negro, não se pode definir o Grande Sertão em meia dúzia de palavras, e aí está sem dúvida um mérito seu. Não se consegue sequer encaixá-lo na tradição da literatura fantástica sul-americana ou no romance de 30 brasileiro: de um lado há, sim, o Brasil rural e miserável dos romancistas de 30, de outro há, sim, um pacto com o diabo verossímil mas irreal tão próprio dos fantásticos, mas a obra não é só uma coisa ou outra. Ela utiliza os elementos, maneja as armas de ambos, para ir além.

Paulo Polzonoff Jr., em artigo neste mesmo Digestivo, afirma que o Grande Sertão é “uma aventura divertida e, para usar uma palavra da moda, eletrizante”. Pois eu escreveria, antes de ler seu texto, sobre a história de amor que Riobaldo conta, uma história de amor transcendental, proibida mas intensa, sufocada em meio à guerra e ao ódio com um desfecho emocionante e genial, que fortalece todo enredo e justifica a narração prolixa do jagunço sábio e triste. Estamos diante de uma bela história de aventura e de uma bela história de amor ao mesmo tempo, o que nos permite afirmar que o enredo proposto por Guimarães é parte importante para o epíteto de clássico que a obra merece.

Não só o enredo, é claro. Talvez se Guimarães escrevesse uma obra sobre jagunços no sertão no começo do século XX, um pouco depois de Euclides e seu Os Sertões, no auge de Lampião e Maria Bonita, não estaríamos diante de um clássico arrebatador. Em meados da década de 50, o Brasil já é um Brasil progressista, um Brasil que tenta entrar no jogo da internacionalização, do capitalismo, um Brasil juscelinista, dos “50 anos em 5”. Um Brasil da cidade, veloz. E surge Guimarães com uma prosa arrastada, rural, sem fim moral ou ideologia política, uma história local e universal, local nas paisagens e na linguagem, universal nos conflitos e nos temas. Grande Sertão: Veredas é um réquiem ao sertanejo, ao jagunço, ao sertão, e novamente cabe a comparação com Dom Quixote, um réquiem ao cavaleiro andante e heróico. Os dois saúdam um país, ou um espaço, que não existe mais.

Finalmente, os lingüistas dirão, com alguma segurança, que o grande trunfo da obra é a linguagem inovadora, a forma erudita com que Guimarães tratou a fala popular do jagunço, do interiorano brasileiro. Tire a linguagem de Guimarães e o Grande Sertão se torna apenas mais um romance, dirão. Mas é evidente que não se pode simplesmente tirar a linguagem de Guimarães, seria como tirar os olhos da Ana Paula Arósio, da Bruna Lombardi ou de Diadorim.

Já conseguimos, assim, chegar a três aspectos fundamentais para a canonização de Grande Sertão: Veredas: 1) um brilhante enredo, que não nega as temáticas universais (leia-se européias), quais sejam a luta e o amor; 2) o lúcido e poético resgate histórico de um país em transformação; 3) a inegável ousadia, se não revolução, lingüística promovida com fôlego por Guimarães. Aí outra pergunta se impõe: porque o romance não é um sucesso de público, especialmente entre os jagunços, os brasileiros interioranos?

Voltando à metáfora dos olhos claros das belas, imagine que o interlocutor destas musas seja daltônico, e, em vez do azul ou verde, enxergue um cinza escuro e sem graça. Pois é o que ocorre com o Grande Sertão: a maioria dos leitores é "daltônica", não vai além da narrativa e vê a linguagem mais como um obstáculo que dificulta a leitura do que um prazer estético e inovador. Não vai aqui uma acusação a essa “classe ignorante que é o leitor”, que prefere Dan Brown a Guimarães. Nada disso. Nós mesmos provavelmente só lemos o Grande Sertão: Veredas (até o fim) por uma necessidade de erudição ou compromisso profissional/acadêmico. Uma constatação que embaralha muito a tentativa de resposta já esboçada em três itens para o que faz de um livro um clássico. Como afirmar, então, que estamos diante de um clássico contundente se Guimarães é menos lido que Jô Soares (para não falar em coelhos)?

Além de uma possível carência de leitores, outra contradição evidente que se nota a partir da canonização do Grande Sertão é a falta de obras contemporâneas que, inspiradas naquele modelo, possam figurar, daqui a cinqüenta anos, na lista das grandes obras brasileiras. E talvez as duas contradições estejam relacionadas, a falta de leitores para Guimarães e a falta de escritores à Guimarães: “os novos escritores, afinados com os hábitos alimentícios deste fim de século, publicam livros light, para serem consumidos rapidamente. Na falta de idéias novas, muitos deles voltam a um classicismo acadêmico; glosam, citam, pasticham textos de escritores do passado: outros imitam as formas da mídia, adotam temas de impacto e um estilo rápido e seco, concorrendo com as páginas policiais dos jornais ou, melhor, com os noticiários Aqui e Agora; outros, ainda, se comprazem na contemplação narcísica do pequeno eu, sem pretender ou conseguir dar o salto proustiano para o universal. De modo geral, os livros de ficção se tornaram mais curtos e mais leves; nenhum pretende ser mais o Livro, e os próprios fragmentos se contentam com ser meros pedaços soltos”, escreve Leyla Perrone-Moisés o que o autor deste humilde texto gostaria de ter escrito.

Mais do que comemorar, saudar, contemplar o Grande Sertão, é preciso lê-lo. E discuti-lo. Levantar os aspectos que fazem dele um clássico, como algo positivo, e o que faz dele um livro de difícil leitura, admitindo ser isso um problema importante. Só com a análise dessas duas verdades é que entenderemos o que faz de um livro um clássico. Considerando, é claro, que sejam questões literárias, e não políticas, que fazem de um livro um clássico.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 18/4/2006.

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