terça-feira, 4 de abril de 2006

A pata da gazela transviada


Marcelo Spalding

Já diria o teórico, vivemos numa logosfera onde cada texto é elo de uma cadeia, e não uma entidade isolada. Parece pomposo mas é apenas uma definição do que se chama intertextualidade, ou seja, o diálogo que os textos fazem um com o outro ao longo do tempo. Normalmente o autor não deixa claro com que obras ele está “dialogando”, mas não é difícil perceber influências, por exemplo, de Simões Lopes Neto em Erico Verissimo, em Luiz Antonio de Assis Brasil de ambos e em Cíntia Moscovich de Assis Brasil (para ficar nos meus conterrâneos gaúchos). Não que escrevam os quatro sobre o mesmo tema, mas a intertextualidade pode ser temática e/ou técnica. Um leu o outro.

A forma mais direta e polêmica de intertextualidade é o pastiche, onde uma obra literária é imitada servilmente de outra. Direta porque a referência deve ser explícita, pois o leitor precisa conhecer a versão antiga para que a nova se justifique. E polêmica porque a linha divisória entre o pastiche e o plágio, ou o pastiche e a paródia, é tênue.

Mas polêmica nunca foi problema para Glauco Mattoso, poeta, ficcionista, ensaísta, tradutor e letrista que nos anos 70 participou, entre os chamados "poetas marginais", da resistência cultural à ditadura militar. E se polêmica não é problema, não esperem que A planta da donzela (2005, Lamparina, 224 págs.), seja apenas uma versão moderna ou atualizada da célebre A pata da gazela, de José de Alencar. Não é. Longe disso. Se tivermos de adjetivar a nova versão, ela seria uma versão transviada.

Comecemos pelo romance de Alencar. Escrito em 1870, época em que no Rio de Janeiro não existia automóvel, futebol, Cristo Redentor, república nem Garotinho (graças a Deus), narra um triângulo amoroso entre três jovens, a bela e virgem e rica Amélia, o introspectivo e sério e humilde Leopoldo e o vaidoso e popular e belo Horácio. Este último apaixona-se por Amélia a partir de uma botina que esta deixara cair no chão, e de tal forma fica fascinado pela forma minúscula do pé da moça que resolve namorá-la. Descrito como um “leão da moda”, não é difícil para Horácio conquistar os suspiros da romântica donzela, mas por algum motivo que escapa à moça, esta importuna-se com a presença de Leopoldo. Leopoldo, por sua vez, ama Amélia desde a primeira vez que a vê, mas confunde seu pé com o de sua prima Laura e acredita ter ela um horrendo aleijão. Sem entender como pode tão bela moça ter anomalia tão terrível, questiona seu amor e chega a ficar doente nesta dúvida, até que descobre amar em Amélia não a beleza, o pé, mas sua alma.

Temos, aí, uma oposição muito cara aos românticos da época de Alencar entre o amor materialista e o amor espiritualista, em que o segundo triunfará sobre o primeiro. Ainda que Amélia se encante com a beleza de Horácio, pregará uma peça no homem para ver se ele realmente a ama ou ama apenas sua figura (leia-se seu pé), e no final da história casará com Leopoldo. Enfim, uma história simples, de personagens simples, individualistas mas apaixonados. Uma espécie de cinderela brasileira.

Pois aí vem Glauco Mattoso, autor, só para se ter uma idéia, do romance autobiográfico Manual do podólatra amador (1986), e debruça-se sobre a obra de Alencar para criar seu mais novo romance, A planta da donzela. Nas primeiras páginas o pastiche é total, o narrador volta a mesma cena na Rua do Ouvidor de 1870 e começa cenas inteiras com “segundo o romancista da época”, e abre aspas. Para reforçar o contexto histórico e social da época, no começo de cada capítulo Glauco recorre ainda a um historiador, e com a deixa “refere o historiador que”, abre aspas e descreve o Rio de Janeiro de então. É um narrador dentro do narrador, como em Dom Quixote, técnica aliás brilhantemente usada por Glauco. Mas de repente, na cena em que Leopoldo deveria ver o aleijão de Amélia e começar todas as suas crises românticas, uma surpresa: em Glauco é o próprio Leopoldo quem tem os pés deformados, e por isso mesmo ele apaixona-se por Amélia. E ainda que isso fosse o suficiente para desvirtuar toda a história original, em Glauco Amélia jamais apaixona-se por Leopoldo, em Glauco Horácio não está interessado em sentimentalismo, mas em sensualidade, e em Glauco Dona Clementina é Madame Fragonard e a ingênua prima de Amélia, Laura, é a sadomasoquista Laura Lawrence.

A partir daí surgem novos personagens e o argumento da trama muda completamente (entra em cena o autor do Manual do Podólatra Amador): Horácio, tarado pelo pé de Amélia, depois de ter encontrado a botina, depara-se com um desafio feito pela moça: participar de sessões didascálicas, qual seja ser amarrado em um pelourinho inglês e açoitado, pisado. Não contaremos o final, é claro, e se já fomos longe é para mostrar o quão longe vai Glauco na alteração do original.

Como exercício cômico e enquanto acabamento formal a história funciona, o problema é que ao transportar o mundo do século XXI, o mundo sensualizado, egoísta, em crise existencial e freudiano do século XXI, para o mundo romântico de 1870, Glauco exagera tanto quanto Alencar em seu romantismo. Entre a obra de Alencar e esta versão de 130 anos depois não há meio termo: uma é um simples suspiro; a outra, violenta masturbação.

Não faltarão estudantes ou professores ou simples amantes das letras para traçar, futuramente, comparativos entre as duas obras, entre a escola romântica e a escola contemporânea, entre o Rio de Janeiro de meio milhão de pessoas, se tanto, de Alencar e o Rio de seis milhões de almas de Glauco. E nesse sentido a comparação entre A pata da gazela e A planta da donzela é primorosa. Mas a obra isolada, se lida por alguém que não conheça a da gazela, corre o risco de mostrar-se frágil, inverossímil. Ou, para um bom fetichista, inspiradora.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 4/4/2006.

Nenhum comentário:

Postar um comentário