terça-feira, 21 de março de 2006

Micronarrativa e pornografia


Marcelo Spalding

Encontrei o orgasmo da literatura. Foi quando comecei a estudar a micronarrativa – ou microcontos. Em busca de uma metáfora para explicar a micronarrativa e compará-la aos demais gêneros, cheguei a conclusão de que a leitura de um livro pode ser comparada ao ato sexual, e o orgasmo seria, aí, o que os doutos antigos chamavam de clímax (também consegui uma comparação com o futebol, em que o clímax seria o gol, mas esta analogia mais pornográfica me pareceu melhor pela universalidade e polêmica). Avante, então.

Já se disse que micronarrativas são narrativas muito pequenas. Alguns citam “Um Apólogo”, de Machado de Assis, como um pioneiro deste gênero, mas a narrativa do mestre ultrapassa 500 palavras, além de estar inserida num contexto sócio-cultural completamente diferente daquele em que surge e se afirma a micronarrativa contemporânea. A raiz do gênero estaria no minimalismo norte-americano, que gerou um Raymond Carver inspirado na concisão de Hemingway e reducionista como só ele. Daí nasceu o termo Flash Fiction, que abarcaria contos curtos de até 1000 palavras. E com a redução cada vez maior do tempo de leitura e do tamanho dos contos, batizaram os norte-americanos de micro-fiction uma ficção produzida com até 300 palavras.

Para entender como é possível uma narrativa tão curta, recorremos ao sexo. O que caracteriza uma relação sexual completa (não importa aqui se boa ou ruim) na cultura ocidental? O orgasmo, sem dúvida. Pode haver relação sem orgasmo, mas não se diria que seja completa. Mas pode haver sexo sem preliminares, até sem beijos, já diria o vampiro de Curitiba, desde que haja orgasmo. Pois bem, o mesmo ocorre com a micronarrativa.

Enquanto o romance é uma relação sexual profunda, calma, em que os parceiros tocam-se com carinho e perícia, beijam-se demoradamente, procuram os sexos com as mãos, um aperta os seios contra o peito, outra arranha as costas com a ponta das unhas, para finalmente haver a penetração e o gozo, a micronarrativa é a parte da penetração e do gozo. A rapidinha.

Provavelmente a sensação de prazer será maior na primeira relação, em que todo o clima criado pelo casal culminará num êxtase profundo. Exatamente a sensação do leitor ao final de um bom romance: inesquecível. Isso não quer dizer que o casal não goste muito, eventualmente, da relação fugaz e ardente de poucos minutos, menos de um minuto. O casal pode, por exemplo, estar há semanas sem se ver, provocando-se mutuamente por telefone, influenciados por um filme lascivo da TV, pensando na modelo do outdoor ou simplesmente com pressa para não perder o avião.

É provável que antigamente, no tempo dos contos de diversas páginas de Machado, o sexo também fosse mais longo. As relações, os passos, os bondes, a vida era mais devagar e por isso o espaço parecia maior. Não por acaso o século XX inventou a machete e o lead nos jornais, o slogan na publicidade, o refrão na música, o avião, a internet. O tempo do mundo acelerou à medida dos automóveis e, em pleno século XXI, parece impensável alguém ficar horas lendo uma única narrativa como O Tempo e o Vento, de Érico Verissimo.

Além da pressa, o fato de as pessoas estarem acostumadas e até extenuadas de narrativas contribui para a possibilidade de um contato mais fugaz com a literatura sem que se perca o prazer deste contato, assim como o erotismo dos tempos modernos acelera relação, penetração e orgasmo de qualquer amante em condições naturais (não vale praticantes de yoga ou consumidores de Viagra).

No Brasil, o primeiro exemplar de “rapidinhas” foi chamado pelo seu autor de ministórias. É de Dalton Trevisan e foi publicado em 1994. Eis uma destas “rapidinhas” não batizadas:

Assustada, a velha pula da cadeira, se debruça na cama:
– João. Fale comigo, João.
Geme lá no fundo, abre o olhinho vazio:
– Bruuuxa... diaaaba...
– Ai, que alívio. Graças a Deus.
Em trinta palavras o narrador apresentou personagens em movimento dentro de determinado espaço, caracterizando o básico de uma narrativa. Ainda que não estejam definidas as personagens nem delimitado o espaço, entende-se tratar de um casal de idosos em sua casa. E isso basta. Provoca o riso no leitor, terminando a relação. É fugaz, provavelmente seja esquecido até se chegar ao final do livro, mas ficará a impressão geral do conjunto de narrativas.

Nos anos seguintes, diversos livros de “rapidinhas”, ou micronarrativas, foram publicados no país e alguns, inclusive, premiados. Entre agosto de 1998 e dezembro de 2001, João Gilberto Noll publica 338 pequenas narrativas na Folha de S. Paulo sob o título de “Relâmpagos”, textos que mais tarde, em 2003, seriam reunidos e publicados pela Francis no livro Mínimos, múltiplos, comuns, Prêmio Academia Brasileira de Letras em 2004. Em 2001, Luiz Rufatto surpreende com Eles eram muitos cavalos, onde conta 70 histórias, por ele chamada de “flashes”, da cidade de São Paulo no dia 9 de maio de 2000, e fatura o Prêmio Machado de Assis da mesma Academia. No mesmo ano Fernando Bonassi publica o ótimo Passaporte, relatos de viagem em forma de micronarrativas que vão muito além de relatos. Mas precisariam de mais alguns anos para que o reducionismo na ficção chegasse ao seu ápice, uma radicalização enriquecedora para a compreensão e estudo da micronarrativa: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizado pelo escritor Marcelino Freire em 2004.

A antologia traz cem contos de até cinqüenta letras de renomados autores brasileiros contemporâneos como Glauco Mattoso, Sérgio Sant’Anna, Márcia Denser, Miguel Sanches Neto e, claro, Fernando Bonassi e Luiz Rufatto. É nessa obra que se entende a essência do conceito de “rapidinha”:

Uma vida inteira pela frente.
O tiro veio por trás.
O texto de Cíntia Moscovich tem dez palavras, sem título nem qualquer outra referência. E a um leitor contemporâneo, acostumado com Rubem Fonseca e a violência urbana, encerra todo um significado. Não há descrição alguma assim como na “rapidinha” não há perfume. As personagens não têm nome, assim como na “rapidinha”. Não há cenário, ou melhor, o cenário pode ser qualquer um. Já apresentação da obra, Ítalo Moriconi afirma: “alguém já disse, poesia é uma frase ou duas e uma paisagem inteira por trás”. E deve ter havido alguém – provavelmente um homem – que tenha dito: “sexo é orgasmo e uma enrolação inteira antes”.

Evidente que a analogia sexo/narrativa é mais humorada do que científica. Mas consegue, além de ser descritiva, dar uma pista para o juízo de valor dessa nova estética. Em meio a uma vida sexual repleta de beijos, carícias, abraços e massagens, há de haver momentos de rompante sexual e transas alucinadamente rápidas. Mas não serão a regra, sob o risco de banalizar o orgasmo e tirar dele seu melhor: a intensidade. Assim o é com a micronarrativa: em meio a aparente mesmice dos romances, novelas, contos, filmes a que somos submetidos, cai bem a velocidade alucinadamente rápida da micronarrativa. Mas não pode ser ela a regra sob o risco de banalizar a narrativa e dela tirar seu melhor: a intensidade.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 21/3/2006.

terça-feira, 7 de março de 2006

Sr. Google, não perca essa chance


Marcelo Spalding

Encarem este texto como uma carta aberta ao Sr. Google, seja ele quem for, sejam meia dúzia de jovens milionários ou ricos executivos engravatados. E quem escreve esta carta é um escritor que ganha dinheiro com a web, produzindo sites, e alguém que estudou a grande rede mais ou menos a fundo antes de se formar em jornalismo.

Sr. Google, não se deixe seduzir pelo canto da sereia dourada, não perca a chance de fazer história na internet por permitir igualdade de espaço a pobres e ricos, empresas e pessoas físicas, organizações e associações, todos igualmente importantes. Não impeça que plebeus brasileiros e moçambicanos divulguem seus sites, seus trabalhos, suas vidas por uma ferramenta que pode se tornar um modelo de democracia e globalidade, uma enciclopédia viva e pulsante sobre tudo e todos, um espaço democrático porque livre e global porque presente em cada canto do mundo.

Explico.

Duas teses sobre a web e o futuro me marcaram enquanto estudava o Rádio Digital, lá no fim do curso de jornalismo. A primeira é do sempre polêmico Bill Gates, que já em 1995, no seu A estrada do futuro, afirmava que “a diferença entre profissionais e amadores será de talento e não de acesso a ferramentas”. Ou seja, com o barateamento das ferramentas de produção (por enquanto, especialmente, produção cultural), será o talento do criador o grande diferencial.

A outra é de Nicholas Negroponte, que, também em 1995, em Vida digital, afirma ser a internet “modelo e metáfora do que se verá nas comunicações do século XXI” por causa da simultaneidade do emissor e receptor, ou seja, de quem publica e quem acessa. Não haveria mais uma Grande Rede G emitindo sinais para cem milhões de brothers ao mesmo big tempo, e sim dez milhões de usuários emitindo bits para em média dez pessoas. Uma simultaneidade já permitida pela facilidade de criar blogs, flogs e, principalmente, pela facilidade de criar sites (aqui vale um aplauso para o baixo custo da hospedagem e do registro de domínio).

Os conceitos de Gates e Negroponte convergem no fato de que o mundo do futuro (e estamos no começo de mundo apregoado em 1995) será um mundo de comunicação global e diversificada onde cada um poderá ser emissor, ter seu site, publicar textos ou fotos ou artigos ou idéias estapafúrdias. O que diferenciará o site da Coca-Cola do site da Tubaína será o talento de quem montou o site, e não tanto o faturamento anual da Coca-Cola. O que diferenciará um filme de Spielberg de um filme do meu amigo Zé será o talento do Zé, e não o quanto o Spielberg gastou em atores.

Mas parece um mundo irreal, não é mesmo? Parece um sonho? Pois é. Acontece que o mundo político e econômico sempre interfere na naturalidade da evolução tecnológica, especialmente quando tal evolução vem para beneficiar a população como um todo, e não os pequenos grupos de sempre (vide o caso da TV e do rádio digitais).

Quando comecei a trabalhar com sites, em 2001, conseguia cadastrar meus sites gratuitamente no Cadê, no Yahoo, no Google e em tantos outros. Como todos os clientes pediam basicamente estes três, cito apenas eles. Aí o Yahoo começou a cobrar. E logo comprou o Cadê. Foi um momento de muitas explicações para os clientes, crentes de que eu os estava enrolando. Mas não. O que parecia livre e universal, o futuro, começou a criar entraves, cobrar tarifas como tanto se faz no mundo físico e real. Só que com o tempo o Google ganhou tanto espaço que hoje ninguém mais fala “cadastra nos sites de busca”, mas simplesmente “cadastra no Google”. O Google virou referência, e inclusive outros diretórios de busca utilizam-se de seus robozinhos.

E se você, Sr. Google, conseguir manter a não-cobrança e agilizar o cadastramento de novos sites, o Google será um grande passo para o futuro, um grande passo para que a internet seja a tão sonhada mídia da massa, e não uma mídia de massa. Porque de nada adianta ser fácil criar um site, um blog, um álbum de fotos, se for difícil divulgá-lo. Cairemos na mesmice das mídias tradicionais. A grande novidade da internet, e aí está a importância do Google, é igualdade de ferramentas, então é preciso que tanto a Coca-Cola quanto a Tubaína, tanto o Spielberg quanto o Zé possam constar no Google e serem achados pelo mundo todo.

Espero, Sr. Google, sinceramente, que ouça as vozes aqui do Sul, do sul do Brasil, do sul do mundo. E dessa forma ensine para tantos o que é, de fato, democracia.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 7/3/2006.