terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Uma rosa entre a história e o sujeito


Marcelo Spalding

Muitos pensaram que a morte de Hemingway e sua geração seria também a morte do romance. Não foi. O gênero se renovou através do realismo mágico, do romance de revisão histórica, da prosa existencialista à Sartre. Mais tarde, a prosa urbana traria de volta matizes do neo-realismo e o resultado é um século XXI repleto de possibilidades romanescas. Talvez até demais.

A Rosa Verde (Edufsc/Unerj, 128 págs., 2005) é um bom exemplar destes tempos contemporâneos. A obra à primeira vista é um romance histórico, mas já no princípio o leitor se sente dentro de um romance psicológico sobre o conflito da identidade, algo como Budapeste. Ou dentro de um romance de formação, um romance sobre o romance. É na orelha que se encontra uma pista para entendermos o texto: “Carlos Henrique Schroeder subverte a lógica do romance histórico (...)”. Senti logo: estava ou diante de uma obra-prima inovadora ou de um texto confuso e egocêntrico.

Bem, comecemos pela história. Seremos obrigados a resumi-la de forma linear, diferente do que faz o autor. Ele divide a obra em capítulos alternando o presente e o passado, varia o narrador, o sujeito do verbo, as personagens e espaços, ainda que a cidade se mantenha Jaraguá do Sul (Jaraguá, nos tempos da AIB -Ação Integralista Brasileira). A história do passado tem como protagonista Bertoldo, jovem que se alista na AIB nos anos 30 porque está apaixonado por uma moça, mas acaba prosperando e tornando-se braço direito de Ricardo Gruenwaldt, uma das personagens reais da história, líder do movimento integralista na cidade. A história do presente é de Wagner, gerente de uma loja de informática que sofre um grande baque. Como estas histórias se cruzam não posso antecipar aqui.

O resultado é curioso, inovador, talvez, mas o romance não consegue ser suficientemente histórico para sua pretensão de “subverter o romance histórico”. Acontece que o narrador posto em Bertoldo enfraquece demais o enfoque político do livro, pois ele é mais apaixonado por Clara que pela causa, descreve-a com mais detalhes que o contexto brasileiro, perde-se em seu olhar, em suas cócegas. A cena em que ambos se conhecem é narrada com muito mais esmero que o assassinato dos líderes integralistas, e esta seria uma cena histórica fundamental e riquíssima. Verdade que o próprio Bertoldo, na pseudo apresentação do livro que narrou, alerta: “às vezes posso ser meio piegas, mas quem não é de vez em quando?”. E ainda que desculpemos as pieguices e pequenos clichês deste narrador, isso prejudica demais a História, trazendo ao leitor moderno apenas alguns nomes e datas e ações. Falta o conflito étnico-social de um Pedro Stiehl, em Bárbaros no Paraíso, a narração objetiva e coesa de um Assis Brasil, em Pintor de Retratos, ou ainda a dosagem certa entre romance e política de um Sanches Neto, em Um Amor Anarquista.

Além do enfraquecimento histórico, falta fôlego e paixão para um texto em primeira pessoa. Note a facilidade com que o narrador, ainda Bertoldo, se refere a suicídio pela primeira vez:

“Chegando lá, deitei no sofá e chorei. Poder se arrepender é uma das coisas que nos difere dos animais, por mais que digam que nunca devemos nos arrepender do que fazemos, me arrependi amargamente. Não conseguindo dormir, tomei mais um pouco de conhaque e pensei em me matar, mas me lembrei dos olhos azuis e dormi navegando na imensidão daquele oceano.” (pág. 40)

Assim, apesar de estarmos num romance psicológico (além de histórico), na mesma linha a personagem pensa em se matar, lembra da sua amada – que ainda nem tinha lhe dado um oi – e dorme. Concluo que, apesar das leituras e esforços, Bertoldo não é um bom narrador.

Sorte que Carlos Henrique Schroeder é bem melhor.

Os capítulos da contemporaneidade, narrados em terceira pessoa, apresentam personagens convincentes e bem desenhados (a analogia da secretaria com Juliete Binoche merece destaque), situações entre o cômico e o trágico e reflexões pertinentes acerca do mundo moderno. Tanto o mundo dos computadores e suas RAMs quanto o da política, dominado pelo Bush, referenciado no livro.

A construção romanesca também é original e beira o confuso sem ultrapassar tal limite, pois revela-se no final de forma surpreendente mas verossímil. Além de arrematar o texto, insere o próprio autor, aparente alterego de suas personagens, como personagem da história, mais um elemento importante desta crise da identidade do sujeito. Escrevendo realmente em primeira pessoa, Carlos Henrique derrama no papel as angústias de qualquer jovem escritor escondido aqui no Sul do Brasil, lutando contra uma estante de mitos que vai de Hemingway à Joyce, Gogól à Kafka:

“Eles continuam ali, rindo, me ameaçando com suas obras grandiosas, criativas, geniais, me reduzindo, intimidando. (...) Poderia, sei lá... inventar um movimento, Lars von Trier e Thomas Vinterberg criaram o Dogma 95, propondo o fim da artificialidade no cinema, eu poderia fazer isso com a literatura, nada de jargões, recursos como vozes interiores, cortes de efeito, enredo para prender o leitor, algo novo, diferente... não, tentar ser ultra-vanguardista é coisa de escritor medíocre querendo chamar atenção.” (pág. 118-9)

Enfim, aguardarei ansioso o próximo romance de Carlos Henrique, jovem ainda, 35 anos, com a certeza de que ele saberá dosar os exageros, simplificar para ser mais profundo e, assim, ou produzir um romance histórico consistente e politizado ou uma novela contemporânea sarcástica e existencial.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 7/2/2006.

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