terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Sartre, palavras e moscas


Marcelo Spalding

O último de uma época, um mestre para adultos, indispensável para o universo. Sobram epítetos para os muitos Sartres: filósofo francês, dramaturgo, ativista político, pai do existencialismo e figura fundamental para a geração revolucionária dos anos do pós-guerra (no Brasil, especialmente a geração que enfrentaria a ditadura militar dos anos 60 e 70). Mas não são muitas as oportunidades para se voltar a Sartre nos anos 2000, relê-lo, discutir sobre sua obra e suas idéias, assistir suas peças. Ainda que as inquietações do mestre se mantenham bastante atuais.

Daí a necessidade de louvar o relançamento da Editora Nova Fronteira das obras de Sartre, em edições impecáveis e de preços razoavelmente acessíveis. Elas são um convite a este retorno: retorno a um passado não muito distante, a uma Era em que os ídolos escreviam livros e os revolucionários não disputavam eleições majoritárias. Em comemoração ao centenário de seu nascimento (1905), foram publicados ano passado os romances A Náusea, de 1938, primeiro romance de Sartre, Os Caminhos da Liberdade, volumes um, dois e três, também romances, O Muro, contos de 1939, Verdade e existência, ensaios escritos em 1948, Diário de uma guerra estranha, cadernos escritos por Sartre à época da II Guerra e publicados postumamente, Freud, além da alma, biografia nascida como roteiro para um filme em 1958, além dos antológicos As Palavras e As moscas.

Em As Palavras (2005, Nova Fronteira, 176 págs.), publicado originalmente em 1964, ápice da sua melhor fase, Sartre reinventa o livro de memórias ao tratar de forma crítica, crua e lírica sua infância, até os 10 anos, quando entra para a escola. Não se trata de uma auto-biografia à Nietzsche nem de uma narrativa como a recente de Garcia Marquez, mas de uma espécie de sessão pública de psicanálise, onde Sartre busca na sua infância as explicações para o homem que se tornou. Annie Cohen-Solal, a melhor biógrafa de Sartre, vê em As Palavras a tentativa de responder à mesma questão que os estudos sobre Genet e Flaubert: “de que maneira um homem se torna alguém que escreve?”. Não por acaso o livro é dividido em duas grandes partes, Ler e Escrever.

A arrancada da obra é fenomenal: Sartre narra como se ficção fosse a história de um mestre-escola alsaciano de 1850 que elege seu primogênito, Charles, para ser pastor. Este se nega a tal destino e vai para a estrada procurar uma amazona. Não a encontra, mas casa-se com Louise, já na França, onde dá aulas de alemão, e lhe fez quatro “filhos de surpresa”. Aí a narração salta para outro espaço da mesma França onde um médico do interior desposou a filha de um rico proprietário, mas logo após o casório constatou-se que o sogro não possuía um vintém. Indignado, o doutor ficou anos sem dirigir palavra a mulher, mas partilhava seu leito e nasceram três “filhos do silêncio”, dois meninos e uma menina. Pois logo se saberá que são os avós de Sartre um dos “filhos de surpresa” e um dos “filhos do silêncio”.

Também nas primeira páginas ele relata a morte do pai, pelo qual sua mãe jamais foi apaixonada (curioso que os Sartre só contribruíram com o esperma e o nome, enquanto os Schweitzer foram responsáveis pela educação e os cuidados, mas foi o nome Sartre o imortalizado). E é a partir desse acontecimento e da natural ida da mãe para a casa dos pais pequenos-burgueses, que se forma a criança Sartre, protagonista da obra narrada a partir do próprio protagonista alguns anos mais velho.

O leitor da primeira parte é um menino prodígio, perigosamente precoce e solitário. Lê enciclopédias, lê e relê Madame Bovary, “sem irmão nem irmã e nem camaradas, converti (os livros) em meus primeiros amigos”, admite o senhor ao refletir sobre o menino. O mesmo senhor descreve o menino como uma criança mimada, apaixonada por cinema, sem superego, apegadíssimo a mãe e com a pretensão de ser indispensável para o universo. Ao mesmo tempo que culpa Charles Schweitzer pela solidão e sisudez de sua infância precoce, reconhece nele um mestre que o guiou para a futura vida de escritor.

Aí começa a segunda parte, sem necessariamente uma ordem cronológica, pois o leitor e o escritor surgem concomitantes, frutos de uma infância em meio aos livros (e longe de crianças.) Nesta segunda parte a relação com o avô Schweitzer se torna mais amarga, pois este deixava transparecer que o neto escrevia mal, influenciado pelas más leituras providenciada por uma mãe preocupada. “‘Ah!’, declarava meu avô, ‘não basta ter olhos, é preciso aprender a utilizá-los. Você sabe o que fazia Flaubert quando Maupassant era pequeno? Instalava-o diante de uma árvore e concedia-lhe duas horas para descrevê-la’”, conta.

E essa angústia própria de um escritor iniciante marcou na memória do senhor Sartre de As Palavras discursos fabulosos dignos de um romance de formação e altamente indicados a pretensos escritores: “meus livros recendem a suor e a trabalho, admito que fedem para o nariz de nossos aristocratas”, afirma. “Eu era eleito, marcado, mas sem talento: tudo viria da minha longa paciência e de minhas desventuras”, completa.

É também nessa fase que Sartre gesta o que seriam seus libertários ensaios existencialistas: “nasci da escritura. (...) Escrevendo eu existia, escapava aos adultos: mas eu só existia para escrever, e se dizia eu, isso significa: eu que escrevo”.

Quem está tomando contato com o filósofo através destas singelas palavras deve estar se perguntando como o menino superdotado, pequeno burguês e criado dentro do sistema por um avô conservador tornou-se ícone da esquerda mundial. Para Cohen-Solal, “a Segunda Guerra Mundial é um choque para o escritor que, até então, vivera em meios preservados”. E não apenas a guerra como a tomada da França pelos nazistas e sua prisão em 1940. Daí o porquê, libertado do campo de prisioneiros em 1941, funda o grupo “Socialismo e Liberdade” ao lado de amigos como Simone de Beauvoir.

E é nesse momento que o autor publica O Ser e o Nada e As moscas, inaugurando sua melhor fase e consolidando-se como “um modelo, uma prática, (...) o último de uma época, (...) uma bussola ética”, nAs Palavras de sua biógrafa.

Surpreendentemente publicado pela primeira vez no Brasil, em As moscas (2005, Nova Fronteira, 144 págs.) Sartre cria um palco para apresentar sua filosofia existencialista. Utilizando-se da tragédia grega como forma de denunciar a Ocupação nazista, Sartre exorta o povo a assumir as responsabilidades de seus próprios atos, abrindo mão das desculpas com as quais muitas vezes tentamos, na vida política e pessoal, esconder de nós mesmos a angústia de sermos livres. “Depois de dissolvido o grupo em 1941, Sartre passa a considerar o teatro como a única forma de resistência acessível”, afirma Caio Liudvik, tradutor desta edição de As moscas e autor de uma apresentação belíssima porque profunda e elucidativa, “Orestes na barricada: As Moscas e a resistência ao nazismo”.

Liudvik se atribui a tarefa de elucidar o porquê da escolha de uma tragédia, tão marcada pela fatalidade e sendo a fatalidade o contrário do que Sartre pregava em seu existencialismo humanista. “Recorrer à mitologia tornava-se, no contexto específico da Ocupação, um excelente disfarce para conteúdos políticos que não podiam ser expressos abertamente, devido às malhas da censura”, lembra o tradutor, e com isso traça paralelos entre a Argos criada por Sartre e a França ocupada pelos nazistas, entre Júpiter e a igreja católica, Orestes e a Resistência, entre um povo e outro, ambos cheios de remorso, medo e condenados à inação.

Na versão de Sartre para a tragédia grega de Electra e Orestes, o herói é um herói existencialista, ciente de sua liberdade e livre de remorsos ou culpas. É “uma tragédia da liberdade em oposição a tragédia da fatalidade”, segundo o próprio autor. Orestes, condenado a ser livre, como reza o preceito filosófico de O Ser e o Nada, desafia sozinho o rei Egisto, sua mãe, a rainha Clitemnestra, o deus Júpiter, as moscas que invadiram a cidade, o povo cheio de medo e remorso e até a insegurança de sua irmã, Electra. Desafia para libertar o povo.

O ponto alto da tragédia é a cena em que Júpiter admite a fraqueza dos deuses perante os homens que sabem ser livres: “tens (segredo) sim”, revela Júpiter ao rei Egisto, seu comparsa, “O mesmo que eu. O doloroso segredo dos deuses e dos reis: é que os homens são livres. Eles são livres, Egisto. Tu o sabes, eles não. (...) Egisto, os deuses têm um outro segredo... Uma vez que a liberdade explodiu na alma de um homem, os deuses nada podem contra ele”.

Ainda para Liudvik, a crítica de Sartre à ideologia teológico-política de Vichy, em As Moscas, lembra muito a denúncia nietzschiana do ressentimento cristão. Mas lembra ainda, ou simboliza, retrata, ilustra, o Sartre pedagogo e seus métodos de participação numa sociedade em que a hierarquia era muito evidente nos bancos escolares; o “rebelde insolente” tão próximo dos jovens de maio de 68; o Sartre militante ético que luta contra a discriminação racial de que são vítimas os negros norte-americanos; o Sartre terceiro-mundista e anti-colonialista que, em plena França, defende a Argélia em sua guerra pela independência; o Sartre avesso a cerimônias que nega um Prêmio Nobel em 1964.

Sim, isso mesmo. Sartre, verdadeiramente, é um Nobel, fora escolhido como tal logo após a publicação de As Palavras mas, como apenas Orestes e Sartre poderiam fazer, como jamais o avô Schweitzer ou o menino prodígio poderiam imaginar, Sartre nega o prêmio. Sem com isso deixar de ser o último de uma época, um mestre para adultos, indispensável para o universo.

“Um intelectual para mim é isto: alguém que é fiel a um conjunto político e social, mas que não cessa de contestá-lo”
Jean-Paul Sartre

Para ir além

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 21/2/2006.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Uma rosa entre a história e o sujeito


Marcelo Spalding

Muitos pensaram que a morte de Hemingway e sua geração seria também a morte do romance. Não foi. O gênero se renovou através do realismo mágico, do romance de revisão histórica, da prosa existencialista à Sartre. Mais tarde, a prosa urbana traria de volta matizes do neo-realismo e o resultado é um século XXI repleto de possibilidades romanescas. Talvez até demais.

A Rosa Verde (Edufsc/Unerj, 128 págs., 2005) é um bom exemplar destes tempos contemporâneos. A obra à primeira vista é um romance histórico, mas já no princípio o leitor se sente dentro de um romance psicológico sobre o conflito da identidade, algo como Budapeste. Ou dentro de um romance de formação, um romance sobre o romance. É na orelha que se encontra uma pista para entendermos o texto: “Carlos Henrique Schroeder subverte a lógica do romance histórico (...)”. Senti logo: estava ou diante de uma obra-prima inovadora ou de um texto confuso e egocêntrico.

Bem, comecemos pela história. Seremos obrigados a resumi-la de forma linear, diferente do que faz o autor. Ele divide a obra em capítulos alternando o presente e o passado, varia o narrador, o sujeito do verbo, as personagens e espaços, ainda que a cidade se mantenha Jaraguá do Sul (Jaraguá, nos tempos da AIB -Ação Integralista Brasileira). A história do passado tem como protagonista Bertoldo, jovem que se alista na AIB nos anos 30 porque está apaixonado por uma moça, mas acaba prosperando e tornando-se braço direito de Ricardo Gruenwaldt, uma das personagens reais da história, líder do movimento integralista na cidade. A história do presente é de Wagner, gerente de uma loja de informática que sofre um grande baque. Como estas histórias se cruzam não posso antecipar aqui.

O resultado é curioso, inovador, talvez, mas o romance não consegue ser suficientemente histórico para sua pretensão de “subverter o romance histórico”. Acontece que o narrador posto em Bertoldo enfraquece demais o enfoque político do livro, pois ele é mais apaixonado por Clara que pela causa, descreve-a com mais detalhes que o contexto brasileiro, perde-se em seu olhar, em suas cócegas. A cena em que ambos se conhecem é narrada com muito mais esmero que o assassinato dos líderes integralistas, e esta seria uma cena histórica fundamental e riquíssima. Verdade que o próprio Bertoldo, na pseudo apresentação do livro que narrou, alerta: “às vezes posso ser meio piegas, mas quem não é de vez em quando?”. E ainda que desculpemos as pieguices e pequenos clichês deste narrador, isso prejudica demais a História, trazendo ao leitor moderno apenas alguns nomes e datas e ações. Falta o conflito étnico-social de um Pedro Stiehl, em Bárbaros no Paraíso, a narração objetiva e coesa de um Assis Brasil, em Pintor de Retratos, ou ainda a dosagem certa entre romance e política de um Sanches Neto, em Um Amor Anarquista.

Além do enfraquecimento histórico, falta fôlego e paixão para um texto em primeira pessoa. Note a facilidade com que o narrador, ainda Bertoldo, se refere a suicídio pela primeira vez:

“Chegando lá, deitei no sofá e chorei. Poder se arrepender é uma das coisas que nos difere dos animais, por mais que digam que nunca devemos nos arrepender do que fazemos, me arrependi amargamente. Não conseguindo dormir, tomei mais um pouco de conhaque e pensei em me matar, mas me lembrei dos olhos azuis e dormi navegando na imensidão daquele oceano.” (pág. 40)

Assim, apesar de estarmos num romance psicológico (além de histórico), na mesma linha a personagem pensa em se matar, lembra da sua amada – que ainda nem tinha lhe dado um oi – e dorme. Concluo que, apesar das leituras e esforços, Bertoldo não é um bom narrador.

Sorte que Carlos Henrique Schroeder é bem melhor.

Os capítulos da contemporaneidade, narrados em terceira pessoa, apresentam personagens convincentes e bem desenhados (a analogia da secretaria com Juliete Binoche merece destaque), situações entre o cômico e o trágico e reflexões pertinentes acerca do mundo moderno. Tanto o mundo dos computadores e suas RAMs quanto o da política, dominado pelo Bush, referenciado no livro.

A construção romanesca também é original e beira o confuso sem ultrapassar tal limite, pois revela-se no final de forma surpreendente mas verossímil. Além de arrematar o texto, insere o próprio autor, aparente alterego de suas personagens, como personagem da história, mais um elemento importante desta crise da identidade do sujeito. Escrevendo realmente em primeira pessoa, Carlos Henrique derrama no papel as angústias de qualquer jovem escritor escondido aqui no Sul do Brasil, lutando contra uma estante de mitos que vai de Hemingway à Joyce, Gogól à Kafka:

“Eles continuam ali, rindo, me ameaçando com suas obras grandiosas, criativas, geniais, me reduzindo, intimidando. (...) Poderia, sei lá... inventar um movimento, Lars von Trier e Thomas Vinterberg criaram o Dogma 95, propondo o fim da artificialidade no cinema, eu poderia fazer isso com a literatura, nada de jargões, recursos como vozes interiores, cortes de efeito, enredo para prender o leitor, algo novo, diferente... não, tentar ser ultra-vanguardista é coisa de escritor medíocre querendo chamar atenção.” (pág. 118-9)

Enfim, aguardarei ansioso o próximo romance de Carlos Henrique, jovem ainda, 35 anos, com a certeza de que ele saberá dosar os exageros, simplificar para ser mais profundo e, assim, ou produzir um romance histórico consistente e politizado ou uma novela contemporânea sarcástica e existencial.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 7/2/2006.