terça-feira, 24 de janeiro de 2006

O desafio de publicar


Marcelo Spalding

Publicar um livro ainda é o grande sonho de quem gosta de escrever. Fazemos oficinas, participamos de concursos, figuramos em blogs e sites e newsletters, mas publicar um livro ainda é o grande sonho. Um grande sonho e, para muitos, um tortuoso caminho.

Isso me lembra a menina pobre de uma escola humilde perguntando como fazer para publicar suas poesias. Ou um personagem-escritor de Dom Quixote batalhando para imprimir seu livro. Me lembra a Marô Barbieri e o Mario Pirata, competentes escritores gaúchos e promotores das próprias obras. E me lembra as livrarias modernas, enormes, organizadas, com cheiro de tudo, menos de livro.

É, há um looongo caminho entre o ponto final e o cheiro de papel.

De forma simples, podemos identificar três processos depois do ponto final em um texto. Primeiro, descobrir a dificuldade que é publicar, especialmente pela primeira vez. Segundo, entender o porquê dessa dificuldade (excesso de escritores, escassez de leitores, mercado com leis capitalistas e alto custo do papel são algumas pistas). Terceiro, encontrar uma solução para superar tais entraves.

Muitas obras que o autor considera “imortais” morrem aí, no ponto final. Ficam restritas ao escritor ou aos amigos do escritor. Não, ainda não foram recusadas por centenas de editoras. Simplesmente o autor, ao olhar para o mercado editorial, se pergunta: para que pôr mais um livro no mundo? Será que sou bom o suficiente?

Minha dica – se de cá posso dar alguma – é não desistir tão fácil. Querer publicar um livro é como querer ter um filho, não há nenhuma razão lógica para se pôr mais um filho nesse covil, mas é o sonho de muitos e, se formos otimistas, um bom livro nunca é demais para uma sociedade em formação. Melhor do que desistir seria tomar a consciência do tamanho da literatura, muito superior a qualquer outra arte, e reescrever mil vezes o texto, melhorando-o cada vez mais antes da publicação apressada.

Porque só a literatura compete de forma tão evidente com toda a sua história, uma história milenar. Na mesma prateleira de um romance estará Dom Quixote e Madame Bovary, na mesma estante de um teatro estarão os de Shakespeare e Ibsen. Um conflito, aliás, muito bem representado por Carlos Henrique Schroeder em A Rosa Verde (tema da próxima coluna): “eles continuam ali, rindo, me ameaçando com suas obras grandiosas, criativas, geniais, me reduzindo, intimidando”. Se a intimidação servir de estímulo para a releitura, para a visão crítica do que se produziu, ótimo, estamos no caminho certo.

E então o texto está pronto e relido. Agora sim, pensa a menina, eu, os mil e um escritores por aí afora, agora sim vale a publicação. Aí há três caminhos:

1) enviar para uma editora comercial;
2) inscrever a obra em algum concurso literário;
3) pagar a própria edição.

É evidente que qualquer escritor começará pela 1, mas raramente terá sucesso. As editoras comerciais são mais comerciais que editoras. E nós não somos (ainda) o Pedro Bial biografando a vida do chefe. Então passaremos para a 2. Conheço muita gente que começou por um concurso ou financiamento público, pode ser uma alternativa. Mas requer, além de qualidade, muita paciência.

O terceiro caminho é o mais traiçoeiro e viável. Antes, vale ressaltar que sempre se pagou para publicar (de Augusto dos Anjos a James Redfield). A auto-publicação não é errada e se existe preconceito é pela quantidade de lixo que se publica por conta própria. O que torna traiçoeira esta alternativa são as falsas editoras que mal fazem o papel de gráfica, diagramando e imprimindo o livro para o jovem escritor por um preço muito superior ao que se conseguirá pelas vendas. Especialmente porque, depois do ponto final e do cheiro de papel, há outro problema, a distribuição.

Mas voltando à publicação, ela não atribui, por si só, qualidade a um texto. A gente pensa que publicar trará reconhecimento, mas não basta ver nossa história eternizada em papel. É preciso ter boas histórias, acima de tudo. E bem contadas. As que forem realmente boas, acabarão no papel. Porque o mercado editorial tem lá suas regras, parecidas com as de um banco, uma loja ou um canal de televisão. Ele está atolado no mercado, nas leis liberais deste, e só de vez em quando estica os olhos para a novidade, para a arte. Cabe a nós, iniciantes aventureiros malucos escritores em busca de espaço, aprimorar nossos textos para que se aproximem desta tal arte. E assim sejam percebidos nessas esticadas de olhos do mercado.

Dicas para quem tem um original pronto e não sabe o que fazer com ele:

1) Procure um bom primeiro leitor, de preferência algum escritor, professor ou leitor exigente que aponte mais defeitos do que qualidades;

2) Envie o texto para uma revisão, preferencialmente profissional;

3) Registre seu texto na Biblioteca Nacional (clique aqui);

4) Se você quiser enviar para editoras e concursos, mapeie quais estão adequadas ao perfil do livro. É importante conhecer a editora, pois você tem mais chances de publicar um livro de contos na Cia. das Letras do que na Sextante, por exemplo;

5) Prepare um original sem erros de digitação, diagramado com fonte de boa legibilidade e espaço no mínimo um e meio entre as linhas; acrescente antes do texto uma breve carta de apresentação sua e, depois, uma sinopse do livro que seja curta e eficiente;

6) Entregue o livro pessoalmente ou, se não for possível, envie pelo correio. E não hesite em enviar para mais de uma editora ao mesmo tempo. Mas se você for aceito por alguma, é no mínimo elegante avisar as demais;

7) Se você optar por uma edição paga, vá adiante, mas cuidado, principalmente, com a editora que vai escolher. Tente se informar sobre suas obras anteriores, converse com autores da editora, procure saber o que ela oferece em contrapartida e sua reputação no mercado;

8) Se você quiser fazer uma edição do autor, tenha em mente que pode ser importante o código de barras e a ficha catalográfica para a colocação em livrarias e até alguns prêmios literários;

9) Cuide, no caso de livros publicados por conta própria, com os custos de impressão em relação a tiragem e com a divulgação e distribuição da obra. Devido ao fotolito, é sempre mais barato o custo unitário do livro para tiragens maiores;

10) Não deixe de continuar produzindo e, especialmente, participando da comunidade literária enquanto seu livro não é aceito por nenhuma editora. Infelizmente ter um nome (re)conhecido é tão importante quanto um bom texto.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 24/1/2006.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Romanceiro da Inconfidência


Marcelo Spalding

Literatura e história sempre andaram de mãos dadas, a literatura traduzindo a história em personagens, enredos, prosa e verso, tornando-a popular e compreensível para maior quantidade de pessoas; a história alimentando a imaginação e recheando as páginas da literatura. Por vezes, mais que de mãos dadas, estiveram abraçadas, grudadas, unas. É o que acontece em Romanceiro da Inconfidência (Nova Fronteira, 288 págs., 2005), de Cecília Meireles, que resgata em versos as personagens e o contexto da Inconfidência Mineira.
Verdade que o próprio livro já faz parte da História da Literatura. Publicado originalmente em 1953, é leitura obrigatória de vestibulares, conta com cerca de 15.000 citações no Google e inúmeras edições, uma delas lançada recentemente e ilustrada por Renina Katz. Mas esta edição, da Nova Fronteira, aposta acertadamente no texto, acrescentando uma apresentação de Ana Maria Machado e uma conferência em que Cecília conta como escreveu o Romanceiro. A apresentação vale o livro, e compensa a conferência.
Em poucas e fáceis palavras, Ana Maria resgata a origem oral da poesia para explicar o uso de rima, estribilhos, paralelismos, refrões, que facilitavam a memorização. Conta a origem do termo "romance" (à moda dos romanos) e didaticamente conclui que "chamamos de romance hoje, em poesia, os poemas narrativos que os colonizadores nos trouxeram e ficaram muito populares no Brasil, feitos em redondilhas (versos de cinco ou sete sílabas), com rima nos versos pares e bastante uso de repetições e paralelismo". A apresentadora ainda cita o Romanceiro Cigano, de Frederico Garcia Lorca, inspiração de Cecília, e adverte que, apesar da tradição do Romanceiro ser de métrica rígida, "em Romanceiro da Inconfidência há variedade de formas, métricas distintas, liberdade nas rimas e muita inventividade".
Já a conferência de Cecília, proferida no 1º Festival de Ouro Preto, em 20 de abril de 1955, decepciona. Ainda que a explanação não tenha sido feita num Congresso de Escritores, numa Oficina Literária ou numa Universidade de Letras, frases como "Deixei Ouro Preto, mas seguiram comigo todos esses fantasmas" e "aqui o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer" podem levar o leitor a acreditar que literatura é inspiração. Que a poeta não se preocupou com rimas, aliterações ou métrica. Que a poeta não pesquisou nem investigou a história brasileira e portuguesa dos setecentos. Que a poeta nada mais fez do que começar a escrever. Quando tudo o que segue diz o contrário. Ainda que a platéia deva ter ido ao delírio, poderia ter Cecília explorado mais, por exemplo, o motivo pelo qual nenhum mineiro, quase duzentos anos depois, escrevera sobre a Inconfidência. A própria autora cita que deve ter sido o trauma, mas pára aí, não retoma a história tão bem pesquisada.
O Romanceiro em si, para quem ainda não leu e terá a oportunidade através desta bela edição, traz 84 romances, mais quatro cenários e poemas que chamo de prólogo e êxodo (numa referência às tragédias). É notável o cuidado da autora em dividir os romances em partes cronológicas, escolher em cada uma destas partes um ou dois protagonistas – Tiradentes, Tomás Antônio Gonzaga, D. Maria I, a Louca – e não deixar os fatos históricos principais sem menção nos textos, o que sugere um planejamento rígido semelhante aos escritores realistas – e contraditório ao que diz em sua conferência. Também é evidente o uso planejado de recursos poéticos, a métrica mais curta em romances tensos, a métrica alongada em romances líricos.
A poesia musical de Cecília torna fácil a percepção de aliterações e assonâncias, como nesta estrofe, em que as vogais se alternam entre as sibilares, marcando a dicotomia Portugal e Espanha de um lado e o casamento próxima, porém tenso, de outro.
"Já se preparam as festas
para os famosos noivados
que entre Portugal e Espanha
breve serão celebrados."

("Da transmutação dos metais", Romance VI)
O discurso engajado de um sujeito poético sem medo de assumir um lado não apenas marca o Romanceiro como o alista ao lado dos grandes romances de 30, recém produzidos e ainda influentes, numa luta da palavra contra os desmandos (antes de Portugal, à época do capitalismo norte-americano).
"Estes branquinhos do Reino
nos querem tomar a terra:
porém, mais tarde ou mais cedo,
os deitamos fora dela."

("Do sapateiro Capanema", Romance XLII)
Vale lembrar que a Inconfidência, uma revolução interrompida antes que eclodisse e que poderia ter antecipado a Independência e mudado a história do Brasil, foi reprimida com grande violência pelas autoridades locais. Além de enforcar e esquartejar Tiradentes, o grande poeta árcade Cláudio Manoel da Costa morreu na prisão no mesmo ano, 1789, e o ainda maior Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu da Marília, foi exilado em terras africanas.
Outras estrofes do Romanceiro da Inconfidência, incrivelmente escritos há cinqüenta anos atrás, referindo-se a um acontecimento de dois séculos atrás, permanecem atuais e poderiam ser a epígrafe de qualquer editorial de um jornal dos anos dois mil.
"(A terra tão rica
e – ó almas inertes! –
o povo tão pobre...
Ninguém que proteste! (...)"

("Do animoso Alferes", Romance XXVII)
A esta altura poderíamos nos entregar a um clichê e dizer que Romanceiro da Inconfidência é uma bela senhora de mais de cinqüenta anos. Mas não seria justo. Como a história que Cecília conta da Inconfidência, escolhendo heróis e vilões, culpados e inocentes, é semelhante a história que os contemporâneos contam, atribuindo a Tiradentes o título de primeiro – e talvez único – herói da Independência, a obra literária permanece extremamente atual e interessante. Diferente da tal conferência.
Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 10/1/2006.