terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Luandino Vieira, o melhor de 2006


Marcelo Spalding

Num ano de presidente reeleito com votação consagradora, heróis da bola transformados em vilões, revista fazendo papel de panfleto e televisão fazendo as vezes de juiz eleitoral, quero eleger como melhor do ano um escritor que sequer é brasileiro, não escrevia nada de novo desde o começo dos anos 70 e rejeitou, em 2006, o maior prêmio literário da língua portuguesa. Seu nome: Luandino Vieira.

Comecemos falando do prêmio. Instituído em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil com o objetivo de “consagrar anualmente um autor de língua portuguesa que, pelo valor intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua comum”, o Prêmio Camões concede ao vencedor a importante quantia de cem mil euros, ou seja, cerca de trezentos mil reais! Entre os ganhadores figuram nomes como os portugueses Miguel Torga, José Saramago e Sophia de Mello Breyner, os brasileiros João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Rubem Fonseca e Lygia Fagundes Telles e o africano Pepetela. Nenhum deles, por óbvio, recusou-o.

Mas Luandino Vieira tem uma biografia muito própria e interessante, guardando mágoas de um tempo de guerras e coerência num tempo de volubilidades. Nascido em Portugal em 1935, foi ainda pequeno para Angola – então um país colonizado –, onde ao invés de ajudar seus patrícios no enriquecimento fácil, combateu ao lado dos angolanos no MPLA, movimento de guerrilha pela libertação de Angola. Em 1959 foi preso pela primeira vez e, em 1961, preso novamente e mandado para o Tarrafal, campo de concentração numa ilha inóspita para onde os presos de guerra eram enviados por Salazar. Enviados para morrer, mas incrivelmente Luandino permaneceu preso por oito anos, ao fim dos quais passou a viver em Lisboa em regime de residência vigiada.

Foi na prisão que o escritor produziu grande parte de sua obra, incluindo o famoso livro de contos Luuanda (Companhia das Letras, 2006, 144 págs.). Em suas três “estórias” – note aqui a influência de Guimarães Rosa –, Luandino foge de um realismo combativo, como se poderia esperar de um preso político, e mescla lirismo e crônica social de forma tão feliz que o livro, publicado em 1963, ganha o Prêmio Camilo Castelo Branco da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1965. Na ocasião, o governo Salazar aproveitou a oportunidade para fechar a Sociedade e aumentar ainda mais a repressão cultural no país e nas colônias.

Repressão e guerra colonial que durariam ainda até 1974, quando ocorre a Revolução dos Cravos e cai o regime salazarista. No ano seguinte, 1975, os países africanos tornam-se independentes e Luandino volta a seu país e chega a participar do governo, mas com o fiasco das primeiras eleições livres e o recomeço de uma nova guerra civil, em 1992 decide regressar a Portugal e isola-se de tudo e de todos na fazenda de um amigo no Minho, onde se torna agricultor.

José Rodrigues, outro amigo do escritor, por ocasião da recusa afirmou: "Luandino tem seu mundo muito próprio, e por isso esta reação não me surpreende. A única coisa que me surpreenderia é se ele deixasse de escrever, mas tenho a certeza de que isto não acontecerá".

De fato, no começo de novembro de 2006, Luandino Vieira voltou à cena com a publicação pela editora portuguesa Editorial Caminho de O livro dos rios, primeiro volume de uma trilogia chamada De rios velhos e guerrilheiros. Além disso, também em 2006 a obra Luuanda ganhou nova edição pela Companhia das Letras, facilitando o acesso para os leitores contemporâneos deste acontecimento literário.

Diante da coincidência da recusa do prêmio em pleno ano em que voltou a publicar, não faltou quem acusasse o escritor de fazer marketing para promover seu novo romance ou chamar a atenção para sua figura, o que, cá entre nós, é uma heresia: primeiro porque ninguém rejeita ganhar 300 mil reais por marketing, muito menos um cidadão angolano ciente da quantidade de problemas sociais do seu país. Depois porque o romance de certo estava planejado há anos e escrito há tempos, e só o fato de um escritor premiado nos anos 60 voltar a escrever depois de trinta anos já despertaria interesse da mídia e do público.

As razões para a recusa do prêmio, portanto, são bem mais profundas e, até, anacrônicas. É preciso voltar no tempo, voltar a um tempo em que ideologia não era utopia, em que havia espaço para novas esperanças e homens dispostos a pegar em armas para lutar por elas. Verdade que a resposta foi cruel e em nome da luta foi derramado muito sangue, aniquilado muito sonho, devastado o país. Ainda hoje as minas são um problema sério em Angola, mais sério que os altos índices de analfabetismo, de miséria, de fome e da AIDS.

Por tudo isso não se pode deixar de saudar um ano em que o mesmo império português que prendeu e torturou um homem oferece a ele um prêmio. Um ano em que este homem, com hombridade e coerência, recusa tal prêmio. E, de quebra, no mesmo abençoado ano na vida da literatura angolana, lança o começo de uma trilogia esperada há pelo menos trinta anos.

Por tudo isso Luandino Vieira é o personagem deste 2006 para os leitores de língua portuguesa.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 19/12/2006.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

As cicatrizes da África na Moçambique de Mia Couto


Marcelo Spalding

As feridas da África são profundas: cinco séculos de colonização, escravização do povo, exploração das minas, violências físicas e culturais como apagamento das tradições, dos cultos, das crenças, das línguas e das organizações sociais. Feridas tão profundas quanto antigas que impediram os países não apenas de se projetarem no mercado globalizado internacional como tiraram deles qualquer perspectiva de futuro. De presente.

Vejamos o caso de Moçambique, uma nação que compartilha com nós, brasileiros, a mesma língua e a mesma colonização portuguesas. Em Moçambique – país independente há cerca de trinta anos e em paz há menos de quinze – mais da metade da população é analfabeta, 1,5 milhão de pessoas estão vivendo com o vírus da Aids e a expectativa de vida não supera os 50 anos. Um índice muito comentado por aqui, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano da ONU), sintetiza bem essa realidade: enquanto Portugal ocupa a 28º posição com índice de 0,904, o Brasil está na 69ª posição com um IDH de 0,792 e Moçambique tem um índice que é metade do brasileiro, 0,390, e aparece como o 168º país menos desenvolvido entre 177 países pesquisados.

Fadado ao ostracismo e esquecimento por aqueles que tomam decisões nas cadeiras da ONU ou do Banco Mundial, o país encontrou um meio de expressão na velha e européia literatura, que nas mãos de escritores africanos como Mia Couto ganhou variações formais, novas preocupações, novos conflitos e transformou-se em voz dos milhões de moçambicanos em situação de extrema miséria. Mas não espere de Mia Couto (jornalista, biólogo, ex-militante político e descendente de portugueses) densos romances criticando a condição de vida dos africanos ou acusações contra a colonização portuguesa. Mia evita tratar das questões sociais de seu país de nascença de forma panfletária, combativa ou mesmo direta, prefere o lirismo a que a literatura se permite, a sutil representação de personagens e enredos complexos em textos cheios de ironia, ambigüidade e questionamentos, textos feitos ao gosto do público pós-moderno que compra e lê livros – e que naturalmente não está em Moçambique. Dessa forma, o autor é um dos mais europeus dos africanos e ao mesmo tempo o que talvez mais faça pela situação miserável de seu país desde Vozes Anoitecidas, o primeiro livro de contos, em 1986, até O outro pé da sereia (Companhia das Letras, 2006, 332 págs.), romance lançado agora e com edição também no Brasil.

Romance seguro de autor maduro, O outro pé da sereia consolida a forma Mia Couto de escrever – aqui com menos neologismos e mais espaço para ditos populares –, assim como recoloca a difícil retradicionalização africana no centro da narrativa. A questão fundadora das personagens, tanto do afro-americano que desembarca na Moçambique dos anos 2000 em busca do passado de seus ancestrais quanto dos filhos daquela terra que se esforçam por “inventar uma África” ao gosto do estrangeiro, é descobrir suas origens. Em momento avançado da obra um dos africanos dirá à esposa do estrangeiro: “Nós também não sabemos de onde viemos”; e eis a síntese da dificuldade que têm as pessoas e o país como um todo de se inserir num cenário internacional sem sequer reconhecer suas raízes.

Sintomático dessa busca por raízes profundas é a divisão que o autor faz da obra em duas histórias paralelas, que alternam-se capítulo a capítulo: uma que conta a chegada dos estrangeiros na Moçambique de 2002 e outra com a viagem de um padre português e sua santa abençoada pelo Papa a uma Moçambique selvagem no ano de 1560. Quem liga as duas histórias é uma humilde camponesa, Mwadia, ao encontrar em 2002 a estátua e alguns escritos desse padre, D. Gonçalo da Silveira, e seguir rumo à cidade para abrigar a santa com segurança.

Mas se você já leu o romance sabe que dizer que Mwadia liga as duas histórias é um exagero para uma mente racional como a de nosso leitor ocidental. Mwadia é um fio condutor com o qual o narrador costura (nem sempre de forma evidente, nem sempre de forma feliz) uma teia de acontecimentos, conflitos e personagens, permitindo que a obra trate ao mesmo tempo de política, relações pessoais, identidade, memória, permanência, pertencimento e morte. Nas pouco mais de trezentas páginas desfilam pelo menos dez protagonistas, que se alternam ao longo dos dezenove capítulos, todos com histórias complexas e muita ambigüidade, especialmente em relação a suas origens e personalidades, fazendo com que o leitor navegue em águas revoltas e sem segurança do seu destino.

Fundamental para entender essa teia é ler as epígrafes dos capítulos, que como já é tradicional em Mia Couto são excertos de frases das personagens do romance. Em uma delas está expressa a sina que move o romance, as personagens e também o narrador:

“Eis a nossa sina: esquecer para ter passado,
mentir para ter destino.”


Tal sina é muito bem representada em certa cena em que os moçambicanos apresentam para o afro-americano uma árvore conhecida como “a árvore das voltas: quem rodasse três vezes em seu redor perdia a memória, deixaria de saber de onde veio, quem era os seus antepassados. Tudo para ele se tornaria recente, sem raiz, sem amarras. Quem não tem passado não pode ser responsabilizado” (p. 276). Desta forma, esquecer o passado torna-se a única forma de suportar as dores e não abrir ainda mais as feridas, pois os africanos seriam obrigados a reconhecer, por exemplo, que não apenas os brancos escravizaram e mataram os negros como também os negros escravizaram e mataram os próprios negros.

Por isso Mia Couto em sua obra vai além de questões político-sociais contemporâneas: acredita ele que para resolver os problemas moçambicanos – e de resto os problemas do continente – é preciso que o africano reencontre suas origens, suas tradições, seus cultos, suas crenças. Tal posicionamento explica porque em O outro pé da sereia não há apenas a história de Vila Longe e Mwadia no ano 2002, história por si só rica e interessante, mas também, intercalada, a história de D. Gonçalo em 1560: Mia aponta para este período como fundador da identidade africana, mas não para pensar num paraíso negro anterior à presença do branco nem para sugerir o pacifismo da raça negra, e sim para mostrar como a mistura estava acontecendo já àquela época com a presença de indianos, de tribos diversas e cultos diversos ao longo do enorme continente.

Em suma, Mia se nega a inventar uma África exótica e disposta a tudo para voltar a viver como nos tempos idos. Mia se nega a falar de florestas e animais selvagens ou crianças morrendo famintas nas estradas de terra, optando por representar as profundas feridas – mais ou menos cicatrizadas – que perpassam não apenas a nação moçambicana mas todo o continente africano, antes tão explorado e agora tão esquecido pelos racionais e globalizados do ocidente.

Nota do Editor
Leia também "Mia Couto revisitado".

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 5/12/2006.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Confissões de um crítico em tempos de internet


Marcelo Spalding

Para mim a tecnologia é como uma onda, uma enorme onda – ou uma sucessão de ondas – que vem das profundezas do oceano e arrasta o que está pela frente. Mas não destrói, transforma. Assim foi com o teatro, assim foi com a música e assim está sendo com a literatura. Em tempos de internet – ou seja, num tempo em que nem o cinema nem o vídeo são mais novidades – é impossível atribuir ao livro e a literatura a importância de outros tempos, uma importância capaz de colocá-la no vestibular ao lado da química, da história, da matemática. E quem mais sente isso são os escritores e estudiosos da literatura, cada vez mais distantes do que chamaríamos o “público médio”, ou o leitor.

Com este nariz de cera pretendo fazê-lo entender o quão importante é este espaço que tenho ocupado há um ano no Digestivo Cultural. Porque se por um lado a literatura é preterida pelos grandes meios – e a meia dúzia de espaços que ainda falam de livros e publicam crítica revezam os mesmos nomes de sempre –, por outro a internet abriu a possibilidade de se formarem núcleos, guetos, grupos de interesses restritos, particulares e exóticos (como os dos que gostam de ler!). Mas também a internet é um mar de conteúdo e poucos conseguem se destacar, criar credibilidade, constância, e por sorte deste reles colunista o Digestivo é um dos que têm conseguido.

Comecei a escrever no site mais ou menos por acaso. Havia sido publicada no Digestivo uma crítica sobre um livro da Casa Verde, grupo do qual faço parte aqui em Porto Alegre, e eu estava com uma resenha encalhada sobre o romance Um Amor Anarquista. A resenha tinha sido escrita para o site da Aplauso, mas até hoje não sei porque o editor de lá, cujo nome declino, sequer me disse algo como "seu texto está vago", "ruim" ou "não gostamos do seu enfoque ideológico". Simplesmente não respondeu (e olha que era meu amigo!). Então mandei pro Digestivo, e qual não foi minha surpresa quando o Julio e o Fabio não só publicaram como elogiaram muito o texto. Dias depois fiz uma resenha sobre a novela Bang Bang (então eu ainda me sentia mais à vontade para falar de tevê e jornalismo do que de livros), e eles me convidaram para ser colunista do site.

Foi com alegria e apreensão que vi aquela caixa de livros chegar na minha casa: por onde começar? Será que dou conta? Alguns eu já tinha ouvido falar, outros não fazia nem noção. E pior que isso: não estava seguro sobre como escrever uma crítica literária. Você sabe, a faculdade de jornalismo forma generalistas, especialistas em nada, então tive de aprender com a leitura e a feitura. Com o Digestivo.

Hoje me perguntam, em algumas palestras ou oficinas, dicas para novos escritores. E eu digo que o escritor deve fazer como o músico, ser crooner. Mas ao invés dos bares da vida, o espaço do crooner literário são os sites, e hoje sei que o Digestivo foi um ótimo espaço para eu exercitar esse texto que não pode abrir mão da qualidade mas também precisa ter apelo de público, precisa da consistência acadêmica mas não pode abrir mão da factualidade jornalística. Um texto ao feitio das músicas do crooner.

Dois momentos neste ano de trabalho me marcaram: a primeira resenha em que tive de fazer dura crítica a um livro e a resenha de um romance que considero dos melhores que se escreveu em língua portuguesa. O primeiro foi um livro do Leonardo de Moraes, que no fim se mostrou um cavalheiro, ao qual tive de fazer algumas críticas. Ele leu a resenha antes dela ser publicada e me enviou alguns comentários, naturalmente chateado que estava. Mudei alguma coisa da resenha, mas deixei a impressão geral. Lembro de sair de casa naquele dia me questionando se não seria melhor se omitir ao invés de fazer uma crítica negativa. Afinal de contas, se trata de um escritor jovem, iniciante, como eu, como nós. Aí lembrei de um texto do Machado de Assis de 1865, chamado “O ideal do crítico”, em que o mestre diz coisas como: “a crítica deve ser sincera, sob pena de ser nula”; “não compreendo o crítico sem consciência”; “para que a crítica seja mestra, é preciso que seja imparcial”. Quando voltei para casa, respondi o e-mail ao Leonardo e lembro que a certa altura disse que eu poderia muito bem ter elogiado o livro e depois mandado currículo para trabalhar no governo de São Paulo (ele é assessor direto do Cláudio Lembo), mas como ele mesmo acreditaria nas minhas críticas se estas fossem sempre elogiosas? Como os cinco ou seis leitores que me acompanham coluna a coluna vão acreditar em mim se houver sistematicamente o elogio ou a crítica?

A outra experiência, oposta, foi com o romance Um defeito de cor, romance de quase mil páginas da mineira e também jovem Ana Maria Gonçalves. É provável que o livro não se torne best-seller nem ganhe espaço na mídia, mas de certo será muito estudado em universidades e eu sabia que ao publicar a resenha ela se tornaria uma – entre tantas outras – referência para estudos acadêmicos de recepção da obra em sua época. Por isso tive o cuidado de levantar alguns aspectos da obra que me chamaram a atenção – como a extensão, é claro, e a oralidade – mas sem fechar questão sobre a maioria das coisas. No título, por exemplo, evitei escrever algo como “O grande romance dos anos 2000”. Ainda que “o grande” pudesse ser um trocadilho com a extensão. Mas não, preferi uma postura menos ufanista e até as perguntas que enviei para a autora foram nessa direção, o que me faz ter a impressão de que ela não saiba o quanto este leitor aqui gostou do livro.

Enfim, ainda que sejam menos de 25 colunas, um ano e pouco de textos quinzenais, já posso afirmar que é possível, sim, se fazer crítica literária em tempos de internet, e que as dificuldades e os prazeres não são menores, muito pelo contrário. Hoje temos uma infinidade de livros publicados por ano e selecionar o que é e o que não é assunto já é a primeira tarefa de um crítico. Além disso uma bobagem publicada na internet não é uma bobagem de um dia, como no jornal, ou uma semana, como na revista, ela perpetua-se pelo ciberespaço enquanto o site não sair do ar. Mas no fim das contas vale a pena, vale pelo crescimento pessoal, pelo meu gosto particular por levantar polêmicas e, acima de tudo, por demonstrar a vivacidade da literatura em tempos de internet.


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 28/11/2006.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

A Feira do Livro de Porto Alegre


Marcelo Spalding

Que gaúcho é exibido, a gente sabe, mas, cá pra nós, tem coisas de que a gente tem mesmo de se orgulhar, e uma delas é a Feira do Livro de Porto Alegre. Maior Feira do Livro a céu aberto da América Latina, atravessou golpes militares e revoluções tecnológicas, viu a TV surgir e se firmar como grande mídia, a internet tomar conta dos lares, o McDonald's fincar sua bandeira em praça pública e as megalivrarias erguerem seus mausoléus no coração dos shoppings. Mas nada disso impediu que ela acontecesse ao longo destes cinqüenta e dois anos, sempre na principal praça do centro da capital gaúcha.

Os números de hoje impressionam. Só ano passado foram 713 sessões de autógrafos, reunindo cerca de 1.900 autores, devido às antologias, além de 258 eventos na área adulta, 260 na área infantil e 47 oficinas. Mas o processo até chegarmos a essa magnitude foi lento e começou no longínquo 16 de novembro de 1955, quando 14 barracas de madeira foram montadas em torno do monumento ao General Osório.

Walter Galvani, hoje jornalista consagrado, escritor respeitado, patrono da Feira em 2003 e autor, entre outros, do livro A Feira da Gente, lembra com saudades da primeira vez que viu a Feira. Um dia passava pela Praça da Alfândega, pensando no brilhantismo do ataque colorado formado por Larri e Bodinho, quando viu uma intensa movimentação de pedreiros. Curioso, mal chegou na redação do Correio do Povo, quis saber de P.F. Gastal, já uma espécie de guru cultural, o que era aquilo. “Ora, menino”, teria dito Gastal, “tu volta lá, por castigo, pergunta o que está acontecendo, fala com todos que puderes falar e depois vem para cá e faz uma notícia sobre isso”. Assim ele descobriu a Feira, à época com a barraca da Companhia Editora Nacional anunciando biografia de Monteiro Lobato e já desde aquela época com caixas de saldos em que se pode encontrar clássicos a preços de banana.

Talvez hoje não se tenha a dimensão do que foi levar o livro para a praça, mas há cinqüenta anos atrás o livro ainda era símbolo de erudição e as livrarias eram consideradas territórios de luxo, onde as pessoas só entravam bem vestidas e não manuseavam os exemplares com a desenvoltura de hoje. Porto Alegre também não passava de uma província incrustada no Sul do Brasil, sem a relevância cultural que tem hoje para o país.

Foi também com a Feira do Livro que surgiu por aqui a sessão de autógrafos. Em 1956, quando Erico Verissimo, que em 1955 não conseguira voltar dos Estados Unidos a tempo de participar, lançou o livro México, importou para o Brasil a novidade. “Até então, os escritores achavam aquilo um exibicionismo, e Erico foi fundamental para popularizar e incentivar os demais autores”, lembra Galvani. Não era uma sessão como se conhece hoje. O autor permanecia alguns momentos na banca da sua editora e, ali mesmo, assinava os exemplares dos leitores.

Em 2006, a Feira começou no dia 27 de outubro e vai até 12 de novembro, com 154 expositores além de bibliotecas, oficinas, cursos, concursos e centenas de sessões de autógrafos. Além da praça, a Feira já se estende para os armazéns do Cais do Porto, onde fica a Área Infanto-Juvenil; abriga bares, estúdios de rádio e TV, estandes dos Correios, da Bovespa, enfim, é também um grande negócio.

Naturalmente esta visão empresarial, que permitiu o patrocínio de grandes empresas, os financiamentos das leis de incentivo à cultura e a grande cobertura da mídia, foi fundamental para o gigantismo de uma Feira que começou tímida. Gigantismo que cobra seus preços, como a constrangedora banalização da publicação de livros, a eventual superficialidade das discussões, o tratamento estritamente mercadológico das listas de mais vendidos e o parasitismos de cozinheiros, jornalistas, políticos e pseudocelebridades que em época de Feira publicam livros e distribuem autógrafos.

Ainda que um sucesso comercial, a Feira hoje não se livra de questionamentos, principalmente dos literatos e dos saudosistas, que acusam-na de tratar os livros como se fossem casquinhas do McDonald's, ignorando questões de qualidade e pertinência. Reclamam da multidão em meio aos estandes e da dificuldade de se procurar livros nos balaios. Sem dúvidas lembram do ar-condicionado das megalivrarias, dos atendentes sorridentes das megalivrarias, das cadeiras acolchoadas das megalivrarias. Fato é que, por causa da Feira ou à revelia dela, o livro popularizou-se, hoje vende-se livros em bancas de revista e supermercados e, mais do que isso, as editoras e livrarias deixaram o bucolismo e tornaram-se empresas arrojadas, por vezes multinacionais, interessadas naquilo que move o mundo contemporâneo.

Mas não se pode fechar questão sobre a validade ou não de uma Feira no coração da cidade, mesmo sob um olhar literato, especialmente ao acompanhar a multidão de homens, mulheres e crianças que circulam pelas barracas, gente que talvez compre seu primeiro livro, conheça seu primeiro escritor e talvez nunca mais pare de ler. Opinião esta que tem eco nos depoimentos de alguns escritores gaúchos sobre sua Feira, com os quais fechamos este texto e abrimos este debate:

“A Feira é um verdadeiro festival da literatura, com palestras, painéis, apresentações, sem falar no convívio proporcionado às pessoas e na possibilidade de encontros entre escritores e leitores.” Moacyr Scliar (patrono em 1987)

“As megalivrarias facilitaram, só até certo ponto, o acesso ao livro. Experimente entrar numa delas. Você ficará confuso, pois as publicações – as mais diversas – se atropelam umas às outras.” Armindo Trevisan (patrono em 2000)

“Na Feira há um encontro concreto, cotidiano, informal das pessoas com livros, escritores, literatura, enfim.” Lya Luft (patronesse em 1996)

“A importância da Feira é simbólica: o livro na praça, democratizado, acessível. A Feira de Leipzig tem mais de 600 anos. A nossa, já passou dos 50. Eu me orgulho de viver numa cidade cuja Feira do Livro já tem meio século.” Charles Kiefer

“A Feira é uma tradição, e tradições não caem, mesmo com mudanças, como o advento das megalivrarias. Além disso, a Feira é bem mais democrática que as megalivrarias. E mais simpática. E mais completa. E tem clima de festa, coisa que megalivraria não tem.” Paulo Bentancur

“A Feira do Livro faz parte da identidade da nossa cidade, e isso é o mais importante. Quando se pensa em Porto Alegre, se pensa na Feira. Além disso, é o evento que coloca em contato autor, obra, leitor e, de alguma forma, todos saem enriquecidos.” Jane Tutikian

“As Feiras do Livro fazem da leitura um fato social, criam debates na grande imprensa, promovem livros e autores.” Vitor Biasoli

“A Feira do Livro já seria suficientemente importante por se constituir num evento que chama a atenção para a literatura. Contudo, além de veicular o tema literatura, ela dinamiza a cultura, enquanto acontecimento social, e mobiliza leitores, escritores, educadores e educandos.” Paula Mastroberti

“Acho que o mais importante da Feira é a festa. Se a melancia tem festa, se a uva tem festa, o livro também pode ter.” Ernani SsóPublicado originalmente no Digestivo Cultural em 7/11/2006.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

A caixa de confeitos da literatura contemporânea


Marcelo Spalding

Certa vez um professor meu comparou a literatura contemporânea com um destes produtos alimentícios que inundam as prateleiras dos supermercados. Uma bolacha recheada Bono, digamos. Vocês já repararam na embalagem, dizia ele, nas curvas, formas e cores vivas da embalagem, na delícia promissora do recheio, na crocância do biscoito, já repararam? Aí a gente abre e é aquele gosto insosso de sempre, pasteurizado, industrializado, enfim o gosto possível para uma bolacha recheada.

Evidentemente discordo do meu digno professor de que toda a literatura contemporânea seja vítima do mundo dito pós-moderno, o mundo midiático, pasteurizado, materialista e individualista em que nos vemos metidos. Prefiro ver nossa literatura como belas caixas de confeitos em que dentro delas pode estar desde o mais saboroso chocolate de Gramado até a tal bolacha Bono ou outras mil vezes piores, verdadeiros isopores achocolatados. Isso porque o barateamento das edições de livros permite que qualquer pessoa imprima dois mil exemplares de boa qualidade, com capa colorida e orelhas dos dois lados, mas nem todo o dinheiro do mundo compra um bom texto, um texto que mereça uma edição de dois mil exemplares com capa colorida e orelhas dos dois lados.

Acredito ser este um bom nariz de certa para falar de A Caixa de Confeitos e Contos Sortidos (Manole, 2006, 148 págs.), livro de estréia de Leonardo de Moraes. Primeiro porque a edição é graficamente belíssima, segundo porque o sabor de seus confeitos é extremamente desigual.

O autor, que muito antes de escritor é um bem sucedido profissional, mestre em Direito, professor universitário e assessor de Cláudio Lembo, hoje governador de São Paulo, é estreante no mundo dos livros, mas não no mundo das Letras. Em tempos de blog, já havia publicado os capítulos de sua novela A Caixa de Confeitos no Ragazzo di Famiglia, o que encorajou-o a levar o projeto adiante. Ou pelo menos estimulou-o, pois numa já não comum “Nota do Autor” faz questão de ponderar:

1) “Escrever é fácil. O difícil é enfrentar as próprias palavras depois de escritas. (...) Como impedir horas, anos de ilusão, senão com a opinião não-viciada a situar palavras, intenções, reindicando contextos? Por isso, meu caro leitor, teus olhos estarão prestando um serviço de absoluta utilidade pública com teu simples torcer de nariz”;

2) “Tão de pronto, meus objetivos resumem-se prosaicos”.

Se entendermos as palavras de Leonardo como um desarme à leitura exigente, crítica, encerre-se aqui esta resenha e toda discussão. Mas aí encerra-se também o papel social de qualquer texto que sai de uma gaveta para site e depois para uma edição nacional de dois mil exemplares, digamos. É exatamente a discussão e o efeito que a obra vai causar o que interessa para o autor, como já diria Poe. Portanto, sigamos.

A obra traz nove narrativas, sendo uma novela com mais de oitenta páginas e oito contos mais curtos. A novela é que traz o título de “A Caixa de Confeitos”, e é também nela que se concentram os maiores problemas do livro. Primeiro, a história: uma loira recebe uma caixa de confeitos de sua amiga com a ordem de não abrir até um dia tal porque nela há algo perigoso. As duas se encontram numa Igreja, percebem estarem sendo seguidas, a morena conta que dentro da caixa há um doce e nele um cartão de memória e quando vai revelar o que há de tão importante no cartão é atropelada e entra em coma. Desesperada e perseguida por homens de terno preto, a loira liga para um delegado e pede ajuda. Logo se descobre que o delegado era namorado de colégio da morena, recém chegada da França, e ele promete ajudar a amiga a desvendar o mistério e prender os bandidos. Quase são mortos, quase são pegos, quase se entregam, mas o final, que não queremos antecipar aqui, coroa os esforços de todos os mocinhos da história e pune exemplarmente todos os bandidos de terno preto.

Enredado em clichês que até Hollywood já abandonou, pelo menos nos seus melhores filmes, a trama peca por em nenhum momento dar um salto em relação a si mesma, criar algum conflito novo e original, trazer à tona ambigüidades que desfaçam um pouco o maquiavelismo da velha luta do bem contra mal. Note que o problema não é se tratar de uma história policial, longe disso, o problema é ficar na superfície de uma trama policialesca que sequer convence num país como o Brasil, onde não temos a tradição de tiras duros de matar como os norte-americanos, ou num Estado como São Paulo, às voltas com o PCC.

Afora isso, há um desleixo formal que nos parece grave. O narrador em terceira pessoa não apenas tudo sabe, vê e sente como antecipa ao leitor sentimentos, medos, dúvidas, até pensamentos das personagens. É a subversão de uma velha regra da criação literária, "to tell, not to show", ou seja, mostre a heroína ansiosa fazendo dela uma chocólatra que não pode parar de mastigar, não diga simplesmente que ela está muito ansiosa com tudo isso. Este detalhe torna-se problemático quando, por exemplo, na última cena, a mais próxima de um clímax, um choque mata o bandido e linhas depois já estão as personagens contando a história, rindo e conversando.

Verdade que estes problemas não são privilégios do Leonardo; já Julio Cortázar alertava, em ensaio sobre os aspectos do conto, que “os contistas inexperientes costumam cair na ilusão de imaginar que lhes bastará escrever chã e fluentemente um tema que os comoveu para comover por seu turno os leitores”, aludindo, a seguir, que esta é a mesma ingenuidade daqueles que “acham belíssimo o seu filho e dão por certo que os outros o julguem igualmente belo”.

Mas a novela é apenas uma parte do livro, ainda que a parte maior. Há os contos. E nos contos vemos algumas boas realizações, particularmente “Dóris vai pular” e “Episódio de um pai dedicado”, que, aliás, poderia ser uma história interessante para a novela longa, pois cria uma situação cômica embaralhando valores sociais arraigados como família, fidelidade e sinceridade.

De qualquer forma, quiçá o autor consiga ultrapassar os desafios do primeiro livro e continue fazendo de seu blog um espaço rico para a experimentação, ainda que nem sempre confiável pela eterna camaradagem entre os blogueiros. Afinal, como diria o próprio Cortázar na continuação deste ensaio, “com o tempo, com o fracasso, o contista, capaz de superar essa primeira etapa ingênua, aprende que em literatura não valem as boas intenções. Descobre que para voltar a criar no leitor essa comoção que levou ele próprio a escrever o conto é necessário um ofício de escritor, e que esse ofício consiste entre muitas outras coisas em conseguir esse clima próprio de todo grande conto, que obriga a continuar lendo, que prende a atenção, que isola o leitor de tudo o que o rodeia, para depois, terminado o conto, voltar a pô-lo em contato com o ambiente de uma maneira nova, enriquecida, mais profunda e mais bela”.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 17/10/2006.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

A bem-sucedida invenção do gaúcho


Marcelo Spalding

Gaúchos estão espalhados por todo o país, dos ministérios palaciais às fazendas matogrossenses, dos gramados futebolísticos às redações de jornais. Espalhados não, espraiados. E se perguntarmos a você o que é ser gaúcho, provavelmente você responderá sem dificuldades que é andar a cavalo pelos pampas verdejantes, comer churrasco com a família, tomar chimarrão numa roda de amigos, dançar ao som da gaita e do violão com bota e bombacha, ainda que sete entre dez gaúchos não conheçam o pampa senão de carro, nunca tenham galopado, não dancem senão de tênis e jeans, além daqueles tantos que não gostam de chimarrão e os outros não tantos vegetarianos.

Não, não se trata de um estereótipo, mas de uma imagem de gaúcho construída ao longo dos anos e consolidada no imaginário brasileiro (incluindo o gaúcho). Alguns dirão que tal imagem vem desde os anos heróicos da Revolução Farroupilha ou, mais remota ainda, da Guerra Guaranítica. Mas não: é uma imagem que solidificou-se e espalhou-se sobremaneira só a partir de 1948 (pouco mais de cinqüenta anos atrás!), ano em que Barbosa Lessa e outros jovens fundaram o Centro de Tradições Gaúchas “35 CTG”.

Com o objetivo de fortalecer a cultura gaúcha sem preocupar-se com a história verdadeira, mas a fim de projetar um futuro melhor ao povo, um futuro mais “estável”, calcado nas “tradições” da terra, este grupo idealizou o tradicionalismo e fundou locais específicos de encontro, com regras de dar inveja a qualquer manual de etiqueta. Estes Centros se espalharam, começaram a promover festivais, concursos, tornarem-se fortes especialmente no interior, chegaram a outros estados e países. Hoje, disseminado, convive com a indústria cultural, tornou a churrascaria um negócio lucrativo no mundo todo e atrai de executivos engravatados a operários da construção civil. Ficou de tal forma embrenhado na cultura que na geração atual poucos sabem que a “prenda” não usava aquele vestido armado, que o termo “gaúcho” era considerado pejorativo, que algumas regiões desenvolveram-se à mercê do cavalo e que nossos heróis farroupilhas não usavam botas de couro como as hoje apregoadas. Não sabem porque de tal forma esse imaginário ficou consolidado que tomamos por verdade uma tradição e um passado elaborados há pouco mais de cinqüenta anos. Não sabem por que a invenção criou o invento, e hoje de fato ser gaúcho é tomar chimarrão e comer churrasco vestindo bota e bombacha, ainda que nos finais de semana ou na Semana Farroupilha.

Uma boa oportunidade para se conhecer um pouco melhor essa invenção cultural tão bem sucedida é o livro Gaúcho, o campeiro do Brasil (Letras Brasileiras, 2006, 84 págs.). Na obra, um texto inédito de Barbosa Lessa (o já referido fundador do “35 CTG”) é ilustrado por fotografias belíssimas de Leonid Streliaev numa edição bilíngüe impecável, colorida, diagramada com cuidado e impressa em folha especial. Além disso, o editor e apresentador Jakzam Kaiser (diga-se de passagem, um também entusiasta do tradicionalismo) teve o cuidado de publicar no final um texto escrito por Barbosa Lessa e aprovado em 1954 como documento matriz do Movimento Tradicionalista Gaúcho, “O sentido e o valor do tradicionalismo”, um texto importantíssimo que não era publicado desde 1979.

Se o texto inédito de Lessa é uma repetição ufanista das características do gaúcho, apresentadas em verbetes como “A fauna”, “A flora”, “O pampa”, “O churrasco”, “A estância”, o documento de 54 é uma síntese esclarecedora do pensamento daqueles que fundaram – ou inventaram – o tradicionalismo, a tradição, o gaúcho:

“Quando a cultura de determinado povo é invadida por novos hábitos e novas idéias, duas coisas podem ocorrer. Se o patrimônio tradicional dessa cultura é coerente e forte, a sociedade somente tem a lucrar com o referido contato. Se, porém, a cultura invadida não é predominante e forte, a confusão social é inevitável. (...) O movimento tradicionalista rio-grandense visa precisamente a combater os reconhecidos fatores de desintegração social. (...) E ao dizermos isso, estamos acentuando o erro daqueles que acreditam ser o Tradicionalismo uma tentativa estéril de 'retorno ao passado'. A realidade é justamente o oposto: o Tradicionalismo constrói para o futuro.” (Grifo meu.)

Vale fazer uma breve contextualização histórica da criação do movimento, iniciado com força em 1947. O Brasil como um todo modernizava-se sobremaneira a partir do segundo quartel do século, especialmente depois do ciclo do café. Em 1930, uma revolução liderada pelo gaúcho Getúlio Vargas assume o poder nacional e este gaúcho – um gaúcho pampiano, estancieiro, o protótipo do gaúcho decantado pelo tradicionalismo – se mantém por quinze anos no poder, até 1945. Quando deixa a presidência, após o fim da II Guerra, o mercado brasileiro está muito mais aberto, as influências culturais são diversas a partir do desenvolvimento das comunicações e os rio-grandenses perdem espaço na disputa pelo poder nacional. Não por acaso dois anos depois funda-se o primeiro CTG, e apenas dois anos mais tarde Erico Veríssimo lança O Continente, abrindo caminho para uma vasta tradição gaúcha de romances históricos.

Não que construir uma tradição, como o próprio Barbosa Lessa afirma ser o objetivo do tradicionalismo, seja novidade. Estudiosos como Homi Bhabha, Edward Said e Stuart Hall falam na nação como uma narração e nas comunidades nacionais como comunidades imaginadas. Hall sintetiza este esforço de uma forma interessante: “não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá-los numa identidade cultural para representá-los como pertencendo à mesma e grande família nacional”. Dessa forma, os esforços tradicionalistas à Lessa para blindarem o Rio Grande do Sul contra a invasão cultural estrangeira não leva em consideração as culturas alemã, italiana, portuguesa, indígena, negra e metropolitana (Porto Alegre, Rio Grande), também fortes no Estado.

Um exemplo claro do tipo de contradição e, por que não falar, de violência cultural que esta visão unificadora de uma sociedade pode causar está simbolizado no capítulo “Crença” do livro de Barbosa Lessa. O texto fala da mais conhecida lenda gaúcha, a do Negrinho do Pastoreio, a legenda da foto fala de “religiosidade sincrética”, e a fotografia colorida de quase página inteira mostra uma criança pequena, negra, vestida como um jesuíta e segurando um terço católico. Ou seja, será que unificar significa mesmo mesclar, será que se consegue ser sincrético ou no final das contas ideologias dominantes – a do estancieiro, a do cristianismo – preponderam e subordinam as demais?

Questão que extrapola o debate sobre o gaúcho e não invalida os esforços ainda hoje empregados para que a chama tradicionalista se mantenha forte (esforços inclusive dos governos: a Lei da Semana Farroupilha é de 1964; a da Pilcha Gaúcha, de 1989; a do Dia do Gaúcho, de 1991; a do Cavalo Crioulo, de 2002; a do Churrasco e Chimarrão, de 2003). Mas parece importante não perdermos de vista esta construção política de uma cultura para não encobrir divergências históricas ou impedir que surjam no seio da sociedade gaúcha novas e modernas tendências culturais, tendências estas não mais nem menos legítimas, não mais nem menos puras.

Nota do Editor
Leia também "Breve reflexão cultural sobre gaúchos e lagostas".

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 10/10/2006.

Um defeito de cor, um acerto de contas


Marcelo Spalding

"Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime."

Luís Gama

Imagine se você, um autor desconhecido, chegasse hoje numa grande editora, em tempos de crise no setor editorial, com um romance de quase mil páginas. Mil! Nem arriscaria, não é mesmo? Pois a mineira Ana Maria Gonçalves, nascida em Ibiá (MG) e com trinta e poucos anos ignorou a lógica do mercado e apresentou para a Record Um defeito de cor (Record, 2006, 952 págs.), publicado em maio deste ano, com honrosas 952 páginas de narrativa. “Talvez seja o mais extenso romance brasileiro publicado em uma única obra”, orgulha-se a autora.

Bom para o romance que os primeiros três capítulos são marcantes, lidos de uma só sentada, tamanha a densidade e a fluidez da narrativa. Narrativa, aliás, que é mais uma metaficção historiográfica de feitio pós-moderno – mesclando verdade e ficção, dados históricos com “pegadinhas”, não preocupando-se em ser definitiva nem isenta – e ao mesmo tempo é o grande romance da nossa literatura sobre a mais cruel, atrasada e vergonhosa experiência brasileira: a escravidão. Não apenas a escravidão em si, mas a escravidão, seus efeitos, suas conseqüência nas gentes e nas pátrias daqui e além-mar narradas por uma negra raptada de sua tribo e vendida como escrava.

Kehinde, essa protagonista, nasceu em Savalu, reino de Daomé, em 1810. Ibêji (ou seja, gêmea), passa os primeiros anos da vida com a mãe, a avó, o irmão e a irmã gêmea, Taiwo, com quem acredita dividir a alma. Certo dia um grupo de guerreiros que invade a casa da avó para roubar, descobre que ela cultua os voduns, acusa-a de bruxaria e promove uma grande chacina, matando e violentando a mãe diante das filhas, abusando das meninas e matando o irmão. A avó parte com as ibêjis para o litoral, onde as meninas são raptadas na rua e presas como mercadoria para vender no Brasil. A avó, desesperada, oferece-se para ir com elas e embarcam num navio negreiro de péssimas condições. Nestes capítulos, as cenas narradas são de efeito único no leitor, misturando a crueza necessária para representar a viagem e o lirismo transcendental que mantém a narrativa palatável e Kehinde, viva:

“Não nos davam comida todos os dias, e me acostumei a isso. Acho que todos nos acostumamos, gostando de uma certa sensação de conforto causada pela fome e pela fraqueza. Era como se o espírito se separasse do corpo e ficasse livre e solto, tanto da carne quanto do porão do navio.”

Nesta travessia morrem muitos negros, entre eles a avó e a irmã de Kehinde, que chega sozinha no Brasil e teme virar carneiro, como diziam que acontecia com os capturados em África. Não demora, entretanto, para a menina descobrir que o destino de um escravo pode ser muito pior que o dos carneiros. Nos primeiros anos torna-se dama de companhia de bondosa sinhazinha, com quem depois conviverá ao longo de toda a vida, mas cresce, a sinhazinha vai estudar na capital e a luxúria do sinhô descobre o corpo em formação da escravinha. Kehinde, sabedora das intenções do dono, pede proteção a outro negro, Lourenço, por quem está apaixonada, mas depois de uma tentativa frustrada pelo namorado de violentar a escrava, o sinhô tortura Lourenço, estupra Kehinde, estupra Lourenço e por fim o castra. Da tragédia resultará uma grave doença que levará o sinhô à morte, uma humilhação eterna para Lourenço e um filho para Kehinde.

Daqui em diante a história toma novo rumo e onde antes só havia espaço para a desgraça e a tragédia nasce uma esperança. A família muda-se para Salvador, a escrava de casa vira escrava de ganho, a menina torna-se mulher e a protagonista se transforma em heroína. Sem adiantar demais o enredo, pode-se dizer que ela não apenas liberta-se e prospera como também acultura-se, chegando a dar aos dois últimos filhos os nomes de João e Maria Clara, mesmo vivendo na África.

Mas Kehinde também é a narradora, uma narradora com pressa de terminar suas memórias endereçadas ao filho que dela foi tirado. Não é o filho fruto do abuso (este, um abiku, morre ainda criança), mas o filho de um casamento entre ela e um português que, quando o menino está com 10 anos, vende-o para saldar suas dívidas. Ainda que faça de tudo para encontrá-lo, viajando por Salvador, Rio de Janeiro, Santos e São Paulo, Kehinde não o encontra e resolve voltar para a África, onde forma nova família. Já velha, resolve fazer a viagem de volta por causa de novas e tardias pistas sobre o paradeiro do filho, e é no trajeto desta viagem que narra a história do livro.

A estratégia da autora de narrar a história assim, a partir da protagonista, torna a linguagem simples e eficiente e exime a obra de imprecisões ou omissões históricas – vale ressaltar que não deixa de haver uma enorme pesquisa histórico-social por trás do romance. Adotando o ponto de vista de uma escrava, ou seja, de uma mulher negra lutando por sua identidade e seus amores em tempos de homens brancos empenhados em construir uma nação, Ana Maria particulariza e humaniza um grupo social fundamental para a construção desse país mas sempre referido no coletivo, revelando detalhes cotidianos da escravidão e desvelando sua face mais cruel.

O deslocamento do narrador para uma classe explorada e aculturada à força também permite uma pouco comum ênfase em questões religiosas – fundamentais inclusive para se entender as motivações de Kehinde e o último capítulo do romance –, ênfase traduzida em descrições detalhadas dos voduns africanos às festas católicas de então, formando uma rica e fascinante teia sincrética de um tempo onde o espiritual não foi ainda rendido pelo racionalismo etnocêntrico e liberal.

Já a aposta estética da autora, um romance extenso e denso publicado num único livro (e não em tomos, como O Tempo e o Vento, por exemplo), pode por um lado conferir autoridade e credibilidade para a história e por outro afastar sobremaneira os leitores. Dessa forma não nos cabe achar boa ou ruim a escolha, mas pensar em como funciona um texto tão extenso, talvez o maior em língua portuguesa.

Primeiro é preciso entender que as ações são narradas oralmente por Kehinde para uma acompanhante num continuum temporal como quem conta suas memórias, sem grandes saltos no tempo e com interrupções providenciais para descrições detalhadas dos ambientes, das questões políticas, culturais, sociais e religiosas, bem como impressões e explicações pessoais do narrador. Tudo isso entremeado por histórias paralelas num feitio de oralidade construída já canonizada no Grande Sertão. Mas aqui, diferentemente do romance de Rosa, que opta por contar apenas as últimas batalhas de Riobaldo, a história começa com as primeiras lembranças de Kehinde, aos 6 anos, e só termina com sua chegada de volta ao Brasil (ou seria sua morte?). Assim, não é difícil entender que mesmo novecentas e tantas páginas não sejam suficientes, e não é rara a sensação do leitor de imprecisão e apressamento em algumas cenas, especialmente em cenas capitais como a morte e o sumiço dos filhos.

Se por um lado a pressa da narradora causa essas elipses maléficas ao todo, também é importante mencionar que a obra é divida em dez partes e que cada parte é dividida em pequenos capítulos num total de 329, permitindo que a leitura flua de forma veloz. Sim, veloz, e aqui é interessante notarmos que em raros momentos o texto é prolixo, ainda que pareça estranho que um romance de quase mil páginas possa ser considerado conciso. Ocorre que ser conciso não é ser breve, e sim fazer caber mais em menos espaço, e realmente Um defeito de cor narra não apenas a movimentada vida de Kehinde como pontua episódios políticos do Brasil republicano e pincela matizes das sociedades urbanas em formação com espantosa verossimilhança e visibilidade.

Millôr Fernandes, em coluna na Folha de São Paulo em setembro de 2006, coloca Um defeito de cor entre um dos livros mais importantes, entre os 10 melhores que leu “em nossa bela língua eslava”. Idelber Avelar, no Biscoito Fino, afirma que Um defeito de cor está no mesmo nível de Quarup, de Antonio Callado, Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, Catatau, de Paulo Leminski, e Romance da Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, “todos eles um par de degraus abaixo do romanção-mor das nossas letras (o Sertão de Rosa): ou seja, Ana escreveu um dos cinco grandes romanções-cosmogonias da última metade de século na literatura brasileira, no mínimo”.

De minha parte acho impossível para nós, contemporâneos ainda espantados com os riscos assumidos, definirmos que se trata de um daqueles romances dignos de figurar nas teses e dissertações universitárias e na lista de obrigatórios para o vestibular. Mas parece claro desde já que estamos diante de um acontecimento, uma obra que mexe com a produção contemporânea, retoma com coragem a idéia realista de representar a realidade defendendo posições e inova esteticamente trazendo a oralidade para o primeiro plano. Não bastasse isso, Ana Maria investe na prosa longa e levanta o véu de um período muito pouco debatido de nossa história num contundente e já necessário acerto de contas, dando voz a quem a sociedade calava a chibatadas.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 31/10/2006.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Eleição nas prateleiras (ou todo dia tem eleição)


Marcelo Spalding

Levei um susto quando entrei no meu quarto: na televisão passava o horário eleitoral gratuito e nas prateleiras o Orwell discutia ferrenhamente com o Górki. Era o velho e – dizem – já superado debate sobre capitalismo e comunismo, aquele debate em que um venceu mas nenhum convenceu. Teriam se acalmado logo não fosse o Sartre falar em moscas e o Saramago em Jesus Cristo: aí a Adélia interviu, o Wolff retrucou, instalou-se o caos. Confesso que fiquei sem ação, mas não de todo surpreso (com exceção de uma briga entre o Chico e o Caetano que até agora não entendi). No fundo eu sabia que logo eles se acalmariam se eu mantivesse os teóricos fechados em outra prateleira.

Brincadeiras à parte, montar uma biblioteca é politicamente muito mais importante do que dar um voto. Porque são os livros que você lê ao longo da vida, os filmes e programas a que assiste, as conversas que trava, as pessoas com quem escolhe conviver que formarão o ser pensante que você é, o ser ideológico. Não há voto sem ideologia. Mesmo os que se vangloriam de não ter ideologia alguma, de estarem livres das politiquices, devem rezar para algum Deus ou carregar nos braços uma tatuagem simbólica (seja este símbolo um ideograma oriental ou uma guitarra de rock). Votar é apenas um gesto, um singelo gesto.

Singelo porque votar é como escolher entre o lilás, o violeta ou o roxo. Cá pra nós, não é o presidente quem governa o país. Em tempos de capital globalizado e “instituições sólidas”, não há homem ou mulher, negro ou pobre que possa fazer muito mais do que se tem feito. Está nas manchetes dos jornais: a classe média cresceu e a miséria diminuiu. Mas em que níveis? Quantos anos mais levaremos para erradicar essa miséria? A que preço? E será que ainda se pode esperar? Mais ainda: algum país que em 1900 era subdesenvolvido tornou-se de “primeiro mundo”? Os Estados Unidos, sim, mas para isso precisaram duas Grandes Guerras. Não há nenhum caso entre a África e a América Latina – continentes explorados primeiro pelo colonialismo, depois pelo capital – em que se desfez a desigualdade e se instaurou uma paz social ao longo de cem anos!

Ocorre que infelizmente a democracia num país periférico parece estar restrita a este dia de outubro em que vamos todos votar, em fila. Alguns com bandeiras, outros com adesivos, a maioria silenciosa e mesmo enfadada. Mal sabem que um voto se constrói ao longo de uma vida – pelo menos um bom voto, um voto consistente – e um país se faz no dia-a-dia. Mal sabem que as decisões sobre nossas questões fundamentais sequer são tomadas aqui, e que qualquer decisão aqui tomada está sujeita a uma intervenção além-fronteiras (que o digam os bolivianos sobre os brasileiros).

Por outro lado, quantos votaram pela Independência do Brasil? E pela proclamação da República? Quantos votaram pela mudança da capital para Brasília? E pelo fim da ditadura militar? As mudanças mais importantes de nosso país foram construídas sem voto popular, sem sangue mas com muita palavra, muita disputa ideológica. Disputa em que comumente livros e escritores têm papel fundamental.

Não estou sendo original, é verdade. Já Barthes dizia: todo texto é ideológico. “Alguns querem um texto (uma arte, uma pintura) sem sombra, cortada da ‘ideologia dominante’, mas é querer um texto sem fecundidade, sem produtividade, um texto estéril”. Por isso insisto que montar uma biblioteca é muito mais importante do que dar um voto.

Biblioteca, aqui, é o sentido figurado para aquele conjunto de livros que lemos ao longo da vida. E mais do que isso, aqueles que lemos e nos dizem alguma coisa, de algum modo influenciam nossa forma de pensar. Já dissera um sábio: livros não mudam o mundo, livros mudam pessoas, e as pessoas mudam o mundo. De fato. Mas e quando as pessoas não têm acesso ao livro? E quando a média de leitura é menor do que dois livros por pessoa por ano, caso do Brasil? Não é casual que todos os países desenvolvidos tenham índices de leitura altíssimos, seja isso causa ou conseqüência: assim como o conjunto de leituras de uma pessoa forma o ser pensante, o conjunto de leituras de uma nação forma a nação pensante, uma nação independente de fato, não apenas de direito.

Em outubro, iremos às urnas, em fila, escolher entre matizes da mesma cor. O arco-íris é mais amplo (e dizem que há cores que sequer o olho humano consegue ver). Mas mesmo essas diversas matizes da mesma cor são suficientemente diferentes para não sortearmos nosso voto ou deixá-lo nas mãos dos marqueteiros. Votar é diferente de comprar refrigerante. Não pode ser a propaganda eleitoral a balizar nossa escolha, afinal em propagandas as suspeitas viram acusações, o passado é esquecido, os depoimentos gravados e regravados à exaustão.

Em outubro, irei à urna, e lá depositarei um singelíssimo gesto de esperança, um voto que será centelha entre milhões e que provavelmente não será decisivo para as eleições. Depois, por quatro anos, assistirei à mídia pautando as prioridades presidenciais, o congresso negociando urgências e barrando reformas, os magistrados julgando aumento dos seus salários e o capital chantageando a nação com seu entra-e-sai especulativo. Confesso que assistirei sem ação, mas não de todo surpreso: no fundo eu sei que ao fim todos se entendem se mantivermos os livros trancados em suas prateleiras. Junto com suas idéias.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 26/9/2006.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Livros do bem e do mal


Marcelo Spalding

Poucos são os escritores que conseguem ser ao mesmo tempo acolhidos no seio da crítica e badalados pela indústria cultural, e raros os que têm essa dupla satisfação antes de completar trinta anos de idade. Caso de Daniel Galera.

Autor de dois romances e uma coletânea de contos (esta já traduzida para italiano), Galera nasceu em São Paulo em 1979 mas cresceu, começou a escrever e publicar em Porto Alegre. De biografia já recheada e interessantíssima, tendo sido um dos primeiros a ficar conhecido por causa da internet, onde publica desde 1996, Galera projetou-se para o Estado e viu seu nome ecoar no centro do país quando criou, junto com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, a editora Livros do Mal. Com pequenas edições pagas pelos autores, publicou por lá Dentes Guardados (contos), em 2001, e Até o dia em que o cão morreu (romance), em 2003. Segundo o site da editora suas atividades foram suspensas em 11 de maio de 2004, mas até aquela altura o trio, além de nomes como Paulo Scott, já havia alçado vôo.

Mãos de Cavalo (Companhia das Letras, 2006, 192 págs.) é o primeiro trabalho de Galera depois deste vôo, e de quebra sai por uma das maiores editoras do país, legítima confirmação nacional de uma promessa local. Ambientado em Porto Alegre, o romance retrata o protagonista em três fases da vida em uma trama delicada sobre perda e culpa na formação de uma identidade. A inquietação do sujeito pós-moderno e a efemeridade das relações afetivas voltam ao centro da narração – como em Até o dia em que o cão morreu – mas sem o imobilismo de seu primeiro romance. A aposta em Mãos de Cavalo é mais na sutileza, no discurso do narrador em terceira pessoa, aqui não cabe e não precisa a dose exagerada de maconha, álcool e sexo da primeira história.

Talvez os primeiros e fiéis leitores de Galera achem Mãos de Cavalo politicamente correto demais se comparado aos “livros do mal”, onde termos como "cagalhão", "mijo", "fodida", "enfiar o pau no cu", "filhadaputa", "porra" e "punheta" desfilam sem constrangimento pelo texto. Mas para este resenhista ficou a impressão oposta: Galera não precisa mais reforçar uma identidade, firmar um jeito de escrever, ser “do mal”. Galera não precisa mais ser politicamente incorreto, o protagonista em Mãos de Cavalo pode abandonar a maior aventura de sua vida para ficar com esposa e filha, pode ser um médico bem sucedido e pode ter compaixão por um menino. Muito diferente do protagonista de Até o dia em que o cão morreu, sujeito atordoado e sem ânimo para qualquer trabalho ou estudo, hedonista, niilista ateu, que vê em Marcela uma boa transa, nos pais um dinheiro certo e no futuro uma chateação. Só isso. Sem remorsos, sem decisões.

Afora exageros que acompanham as edições e as matérias jornalísticas sobre Galera, trata-se de um grande autor, muito alinhado com o momento em que vivemos e dono de um texto ágil, rápido, cinematográfico, sem concessões à ignorância mas sem firulas anacrônicas. O que o destaca, sem dúvida, mas não chega a fazer dele, pelo menos ainda, o melhor de uma geração ou o símbolo “da tribo paranóica dos anos 90”, como sugere Fabrício Carpinejar na contracapa de Até o dia em que o cão morreu.

Um crítico poderia dizer que o segredo do sucesso de seus dois romances é que eles seguem à risca a definição de Lukács para o gênero, “epopéia burguesa de um mundo sem Deus”: em Galera nenhum personagem deixa de ser médico porque o vestibular nas federais é um funil intransponível para 95% dos jovens ou porque nas particulares cobram mais do que o salário de 90% das famílias, nenhum jovem de rua pede o resto do baseado ou o fundo da garrafa de cachaça, ninguém trabalha fritando batatinhas e lavando banheiros no McDonald’s, ninguém passa oito horas num escritório de advocacia criminal para pagar os oitocentos reais da PUC à noite.

Preciso e precioso raio X de uma fatia da juventude contemporânea, Galera tem feito muito barulho e recebido muitos elogios primeiro pela qualidade de seu texto, que deixa transparecer um sujeito bem educado, de boas leituras, multilingüe, formado na universidade e em oficina literária, mas também por acertar na escolha desse recorte, expondo a juventude com a cara que a mídia a ela atribuiu.

Neste contexto “Livros do Mal” é mais do que uma boa sacada de marketing, é uma ironia com todas as editoras e todos os “livros do bem” de até então. Ironia inteligente num tempo em que ser bom é ser babaca e ser mau – ainda que não se saiba ao certo o que é ser mau – torna-se a única saída. Um tempo livre do politicamente correto onde um protagonista pode ser maconheiro, alcoólatra, vagabundo, filhinho de papai e ainda assim terminar em Nova York depois que o cão morreu.

Quase na contramão, Mãos de Cavalo já é a concessão do narrador para os “livros do bem”. Agora temos um narrador com menos certezas e mais idade, seguro o suficiente para não fazer caricaturas e conhecido o bastante para não chocar pelas palavras. Resta saber se adiante veremos a vitória do bem ou do mal nesta batalha maniqueísta, o que no fundo também não interessa, desde que ganhe e permaneça a literatura.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 12/9/2006.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Suicídio on-line põe internet no banco dos réus


Marcelo Spalding

Quarta feira, 26 de julho de 2006. Onze horas da manhã na fria capital gaúcha. Milhares de jovens estudam química, física, biologia, matemática, português, inglês, centenas de meninas trocam olhares com centenas de meninos e alguns matam aula para namorar longe da escola, enquanto outros milhares aproveitam a manhã livre para treinar musculação ou dormir até mais tarde. Quarta feira, 26 de julho de 2006. Onze horas na fria capital gaúcha. Bairro São Geraldo. Através de um fórum de discussão, um jovem de 16 anos anuncia seu suicídio pela internet.

Até aqui a história não surpreende, afinal a adolescência é um período repleto de instabilidades e fóruns e blogs são espaços públicos e íntimos ao mesmo tempo em que se pode confessar algo assim. Ocorre que aquela viagem iniciada às 11 horas da manhã não teria volta: os demais participantes do fórum incentivam o jovem porto-alegrense, dão dicas, acenda quatro bocas de gás, não se preocupe com o calor, tenha calma, vá em frente. Uma menina do Canadá, amiga do jovem, estupefata, liga para a polícia local e às 15h45 a Polícia Federal brasileira é informada do caso pelos canadenses. “Quando chegamos, tocamos interfone, campainha, e nada. Entramos e quando chegamos ao banheiro ele estava enforcado no cano do chuveiro”, conta o delegado de Homicídios e Desaparecidos Juliano Ferreira, que foi à casa do garoto com a Brigada Militar assim que informado pela PF.

A delegada da Criança Vítima, Eliete Rodrigues, que ficou responsável pelo caso em razão da idade do jovem, determinou perícia em seu computador e afirma que “tudo indica que os participantes sejam de fora do país, não só do Estado”. Ainda assim lembrou que a indução, instigação ou auxílio ao suicídio é crime com pena de dois a seis anos de reclusão.

O caso chocou tanto nossa fria cidade que até os meios de comunicação, que normalmente têm o suicídio como tabu, noticiaram o fato em suas manchetes. Não propriamente pelo suicídio – o Rio Grande do Sul tem o maior índice de suicídios do país, 16,6 casos para cada grupo de 100 mil pessoas –, mas pelo envolvimento da internet no caso. E a este fato vieram se somar as brigas de torcidas marcadas on-line (quem não lembra dos banheiros queimados no Grenal) e os abusos eleitorais cometidos na rede para dar eco aos que insistem em colocar a internet no banco dos réus. Os pais, alarmados, falam em tirar o computador dos quartos dos filhos e limitar o acesso à rede. Os professores, despreparados, apontam a importância dos livros.

Mas também os livros, como quando Os sofrimentos do jovem Werther foi lançado na Alemanha em 1774 e provocou uma onda de suicídio entre os jovens, foram alvo de questionamentos. Não apenas essa história de Goethe, mas os objetos em si. E hoje os livros não sofrem nenhum tipo de censura, ainda que, como diria Eduardo Galeano, os preços já os proíbam

Com a internet a situação é bem diferente. Jovem, incompreendida e revolucionária, tem sido apontada como modelo e metáfora do mundo contemporâneo, onde qualquer pessoa é produtora de conteúdo, desvirtuando lógicas milenares de transmissão de conhecimento. Na era digital o professor lê um artigo do aluno, o pai aprende com o blog do filho e o leitor sugere pautas para seu jornal. Não é mais preciso um capital considerável para se publicar idéias, angústias ou mesmo para defender bandeiras, expondo como nunca as rachaduras de sociedades antes vistas como homogêneas.

O caso do jovem gaúcho, embora realmente chocante, não é inédito na Era Digital. Em julho de 2005 um blogueiro italiano narrara seu suicídio pela internet, e pelo menos dois pactos suicidas pela internet foram registrados no Japão, em outubro de 2000 e fevereiro de 2003.

Culpar a internet pelas mortes, pelas brigas no Grenal ou pela baixaria eleitoral é confundir sobremaneira meio e mensagem, ignorando as reais razões que levam um jovem a cometer ato tão extremo. E aproveitar-se disso para levantar a possibilidade de restrições para o uso da rede é um crime para a democracia. Imagine se o golpe de 64 fosse articulado nos dias de hoje quantos Ziraldos o Brasil não teria, quantos Pasquins, quantos manifestos e movimentos apócrifos, muitos internacionais, lutando pela liberdade de imprensa. Imagine se a internet fosse uma realidade na Berlim da Guerra Fria quantas famílias não ficariam tão separadas, quantas mentiras não se solidificariam e quantas vidas não seriam poupadas.

Mas a tecnologia da grande rede não é imune à ambição dos ditadores. O Google, a fim de obter autorização para o funcionamento do site na China, concordou em omitir o conteúdo não-aprovado pelo governo chinês: “Para operarmos na China, tivemos de remover informações disponíveis no Google.cn, obedecendo às leis, regras e políticas locais. Apesar de esta ação não estar de acordo com nossa missão, deixar de oferecer o serviço seria ainda pior", justificou Andrew McLaughlin, do conselho de políticas da empresa, à agência de notícias Reuters. Recentemente também a Microsoft reconheceu que seu sistema de blogs em chinês impede literalmente que se escrevam termos como “liberdade” ou “democracia”: “Se para o Google e a Microsoft censurar suas páginas é um preço bom para entrar no mercado chinês, quem poderá dizer o contrário? Não pense na IBM, ela já é chinesa.”, questiona o jornalista Gustavo Mansur.

Fica claro, desta forma, que pais e professores não deveriam assustar-se tanto com o computador nem com a rede, e sim com as tentativas de encobrir as rachaduras e diferenças sociais ao invés de enfrentá-las e resolvê-las. A vida do jovem Werther porto-alegrense não podemos trazer de volta, mas com um tanto de conversa muitas outras podemos salvar sem precisar crucificar uma tecnologia.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 29/8/2006.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Poder, sexo e fé na história dos vendilhões


Marcelo Spalding

Política, religião e mulher não se discute: ainda bem que Scliar nunca deve ter ouvido esta frase.

Em Vendilhões do Templo (Companhia das Letras, 2006, 296 págs.), as personagens não apenas discutem como suas vidas são movidas pela política, pela religião ou pelas mulheres. Quando não o são é porque a personagem deixou-se levar pela ganância, pelas moedas sujas que Cristo já condenara no episódio do vendilhão do templo.

Aliás, uma resenha séria sobre esta obra necessariamente começaria reproduzindo os versículo 12 e 13 do capítulo 21 do evangelho de Mateus: “e entrou Jesus no Templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no Templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombos. E disse-lhes: ‘Está escrito: a minha casa é casa de oração, mas vós fizestes dela um covil de ladrões’”. É a partir deste episódio bíblico que Scliar conduz a narrativa. A primeira parte é uma narração em terceira pessoa com o foco no vendilhão do Templo molestado por Cristo na Jerusalém do ano 33 d.C. Aqui não apenas o vendilhão é humanizado e suas virtudes (a superação, o amor aos filhos) postas ao lado de seus pecados (a ganância, a ganância, a ganância) como também Cristo é mais um grande homem como o de Saramago (em Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991) do que o bíblico filho de Deus.

Mas a obra vai além, e o salto de mil e tantos anos que o narrador faz da primeira para a segunda parte é proporcional ao salto que faz um escritor experiente, seguro e consagrado como Scliar, não se limitando a recontar uma história bíblica e sim resgatando-a para falar dos conflitos contemporâneos. Nesta segunda parte somos levados a uma fictícia redução indígena no Sul do Brasil, no ano de 1635, para onde é enviado um jovem jesuíta. Lá ele deve substituir o padre mais experiente, mas este morre antes mesmo que o jovem aprenda a falar guarani. Sem querer antecipar o desfecho desta parte, vale apenas mencionar que um suspeito andarilho chegará no local de forma misteriosa e será o intérprete entre índios e jesuíta.

Esta segunda parte retoma alguns elementos da história bíblica, primeiro demonstrando de que forma a palavra do Mestre, perseguida pelos romanos e calada na cruz, se espalhou até chegar a menor das reduções indígenas no sul de um outro continente num outro século. E com que distorções, naturalmente. Também está aí a ganância do vendilhão, ainda que os vendilhões de então já não vendam pombos, mas índios. Como o protagonista da primeira parte, o desta vive mais de dúvidas do que certezas, aliás uma frase que o autor retoma nos momentos capitais do livro. Mas ainda que retomando elementos anteriores, esta parte da história funciona por si só e, mais que isso, vale a leitura da obra. Quem leu O Continente, de Erico Veríssimo, aqui lembrará do capítulo "A fonte", em que ele narra um episódio na mais famosa das colônias indígenas, a de São Miguel das Missões. Mas a abordagem de Scliar é outra, o conflito é bem mais sutil e o desfecho, sublime.

Terceira parte, novo salto no tempo, desta vez para o ano de 1997 na mesma redução indígena, hoje cidade (fictícia) de São Nicolau do Oeste. Aqui o narrador é um jornalista sem dinheiro, separado, trabalhando como funcionário da prefeitura e bastante melancólico. A história começa com uma ligação do amigo Félix – espécie de reencarnação do vendilhão do Templo ou do andarilho misterioso – um patife, nas palavras do próprio narrador. Ele quer um favor do jornalista, uma intervenção na prefeitura, mas a simples lembrança de Félix faz com que o narrador volte no tempo, mais precisamente ao final de um ano letivo em que Félix organiza uma peça de teatro sobre o episódio do Vendilhão do Templo (sim, aqui era só um, nenhum colega aceitou ser vendilhão a não ser Matias).

Na terceira parte abundam personagens, todos complexos e com conflitos próprios. À ideologia religiosa, digamos assim, soma-se a ideologia política, pois Félix representa um herdeiro com mentalidade liberal (queria transformar a casa que herda em Mc Donald's), enquanto o novo prefeito e o chefe do narrador são eminentemente de esquerda (e querem tombar a casa que Félix herda para fazer um Centro Cultural). Há também um professor de História que se torna camelô, uma grande fodedora que ronda a prefeitura, um padre que dá aulas de Matemática, um menino esquizofrênico, todos girando em torno no narrador-protagonista. E a esta altura ficamos sabendo que as duas histórias anteriores são fruto de uns manuscritos deste jornalista mais ou menos frustrado, mais ou menos fracassado, emocionalmente falido e ideologicamente vazio.

Esta última carta que Scliar tira da manga, este último nó que o autor dá para ligar as três partes acaba também o absolvendo de eventuais críticas ideológicas (das feministas, dos cristãos, dos marxistas ou dos liberais), pois como se disse o livro trata de política, religião e mulher, três temas explosivos. Poderia se dizer que ainda mais explosivos nas mãos de um judeu, homem, branco, médico, gaúcho, mas neste sentido Scliar é magistral, deixa sua ideologia transparecer bem menos que a de um Saramago, por exemplo, e bem menos que a do próprio Scliar de Um Exército de um homem só (1973).

Este distanciamento maduro não impede que na obra estejam representados conflitos bastante latentes, e aqui nos damos a liberdade de reproduzir apenas um trecho (da primeira parte) em que se nota o olhar dos anos dois mil para a história dos anos trinta e três.

“Só que duvidava dessa possibilidade. Duvidava que o homem fosse capaz de fazer milagres. Por uma simples razão: se estava a seu alcance realizar tais prodígios, por que continuava pobre, usando vestes comuns, andando no meio da multidão? Por que não produzia, do nada, ouro, palácios, manjares, mulheres? Ou será que mulheres não lhe interessavam?” (pág. 86)

Como se percebe neste pequeno trecho, o narrador não se furta de tocar em feridas ainda abertas como a mercantilização até mesmo das ideologias ou a falta de sentido e de respostas para a vida da classe média (a classe que é produto da histórica atividade dos vendilhões, opa, dos comerciantes), afinal o narrador, o nosso jornalista emocionalmente falido e ideologicamente vazio, não deixa de ser um produto destes dois mil anos de História. Como nós.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 15/8/2006.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

O centenário de Mario Quintana, o poeta passarinho


Marcelo Spalding

Lembra aquele passarinho que você ouviu assobiar quando acordou anteontem? Era Quintana, Mario Quintana, poeta, tradutor e jornalista nascido no dia 30 de julho de 1906.

Popular especialmente em Porto Alegre, Quintana é estátua de bronze no banco da praça, dá nome à Casa de Cultura mais importante da capital e é aclamado por nove em cada dez poetas gaúchos contemporâneos. Mais do que um escritor, Quintana representa um modo de vida. Para ele “ser poeta não é uma maneira de escrever, é uma maneira de ser”, bem disse certa vez em uma entrevista.

Nacionalmente, ainda que tenha recebido elogios e saudações de nomes como Manuel Bandeira, Érico Veríssimo e Cecília Meireles, Quintana nunca foi reconhecido como grande poeta de sua geração. A própria Academia Brasileira de Letras negou Quintana três vezes, e depois de ter perdido a terceira indicação para a Academia, em 1983, ele escreveu o famoso “Poeminha do Contra”.

Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho!


Como se realmente tivesse se transformado em passarinho, o tempo soprou a favor de Quintana. Apenas como ilustração, hoje, na plataforma Lattes do CNPQ brasileiro, há pelo menos 254 pesquisadores que de alguma forma estudaram o poeta, gente como a professora Tânia Carvalhal (UFRGS), Maria da Glória Bordini (PUCRS), Simone Pereira Schmidt (UFSC), Sérgio Alves Peixoto (UFMG), Helena Gomes Parente Cunha (UFRJ), o que demonstra a presença de Quintana como objeto de estudo brasileiro, não apenas gaúcho.

É natural, entretanto, que em Porto Alegre o seu centenário seja saudado com entusiasmo comparado ao de Érico Veríssimo – mesmo por aqueles que entendem ser o romancista muito mais representativo para a instituição literatura do que o poeta. E nesse contexto surgem reportagens e biografias que abordam a obra e/ou a vida de Quintana, como Mario Quintana: uma vida para a poesia (WS Editor, 2006, 88 págs.), escrita pelos irmãos Luís Augusto Fischer e Sérgio Luís Fischer e boa porta de entrada para interessados na vida do poeta.

A apresentação da obra começa pela morte impressionante de Ayrton Senna, no dia primeiro de maio de 1994, para chegar ao dia cinco de maio do mesmo ano, quando morria de forma discreta o poeta, às vésperas de completar 88 anos. Àquela altura Quintana já tornara-se símbolo da cidade e havia recebido (quase) todas as honras que merecia, como título de Cidadão de Porto Alegre, Doutor Honoris Causa por diversas universidades, Prêmio Machado de Assis, além de ver, em 1990, o pleno funcionamento da monumental Casa de Cultura Mario Quintana, uma iniciativa do Estado batizada com seu nome.

Sua vida começa como a de tantos artistas: nasceu em 1906 em Alegrete e mudou-se para a capital em 1919 para estudar como interno no Colégio Militar, aos 18 anos começou a trabalhar como “desempacotador de livros estrangeiros” na Livraria e Editora Globo mas acabou voltando para sua cidade onde trabalhou na farmácia da família sob os olhares severos de seu Celso, decepcionado com o fracasso do filho nos estudos. Só em 1929, após a morte dos pais, voltou para Porto Alegre e começou a trabalhar em um jornal, O Estado do Rio Grande. Mas o jornal seria fechado e, pressionado pela necessidade, Quintana traduziu para a já forte Editora Globo o livro de contos Palavras e sangue, de Giovanni Papini. Isso em 1934, e novas traduções – de Virgínia Woolf, Joseph Conrad e outros – viriam antes de seu primeiro livro, em 1940, o Rua dos Cataventos.

Surpreendente reunião de sonetos em tempos de vigor modernista, Rua dos Cataventos é um livro de estréia com “qualidade técnica, vocabulário ao mesmo tempo variado e compreensível, imagens elaboradas e acessíveis e reflexões sobre a vida em geral”, escrevem os irmãos Fischer.

Da vez primeira que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha... (...)

("Soneto XVII", em Rua dos Cataventos)

Seu segundo livro surge apenas quando o poeta já completava 40 anos e chama-se Canções. Aqui o poeta retoma a ironia e a simplicidade da linguagem mas abandona o soneto. É o começo de uma fase profícua: entre 1947 e 1953, Mario Quintana publica cinco novos livros: Sapato Florido, com poemas em prosa, e O batalhão das letras, poema infantil, em 1947; O aprendiz de feiticeiro, com poemas de forma e verso livres, em 1950; Espelho mágico, com poemas na forma exclusiva do quarteto, em 1951; Inéditos e esparsos, em 1953.

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!

("Da felicidade", em Espelho Mágico)

Segundo os novos biógrafos já mencionados, “os anos 1960 comportam um paradoxo na vida de Quintana: é a década em que ele menos publica – aliás, não publica nenhum livro, só textos em periódicos – e é a década em que ele ganha consagração nacional. Consagração nacional talvez seja um pouco de exagero, mas é certo que em sua terra ele virou celebridade e no centro do Brasil ele passou a ser visto como um poeta do primeiro time”. É nessa época que o poeta vai ao Rio por convite de Manuel Bandeira e é saudado na Academia Brasileira de Letras por Augusto Meyer, e é também quando dois grandes nomes da poesia brasileira, Cecília Meireles e o próprio Bandeira, compõem poemas em sua homenagem. Não bastasse toda essa movimentação, em 1967 ele recebe o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre, consagrando definitivamente o poeta na capital gaúcha, onde já era uma pequena celebridade.

O Natal foi diferente
porque o Menino Jesus
disse à Senhora Sant’Ana:
“Vovozinha, eu já não gosto
das canções de antigamente:
cante as do Mario Quintana!”

("Quitanares", de Cecília Meirelles)

Senhora, eu vos amo tanto,
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto...

(De Quintana para Cecília Meirelles)

Nos anos 70 saem Caderno H, de 1973, Apontamentos de história sobrenatural, de 1976, e Quintanares, também de 1976. Mas são os anos 80 e 90 que reservam ao poeta a verdadeira consagração. A partir de 1982 ele recebe alguns títulos de doutor Honoris Causa de universidades respeitáveis Brasil afora, além de ter seu nome escolhido para batizar a Casa de Cultura planejada pelo Estado. Sua carreira como autor de livros para crianças ganha um impulso extraordinário com as coletâneas Lili inventa o mundo, de 1983, O sapo amarelo, de 1984, e Sapato furado, de 1994, que vieram a se somar com Pé de pilão, clássico infantil publicado nos anos setenta.

“Do ponto de vista da história da literatura brasileira”, escrevem os irmãos Fischer, “há uma certa hesitação em enquadrá-lo na chamada segunda geração de poetas modernistas, na companhia que lhe é de direito: Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes.(...) Não existe régua clara para medir essas coisas da arte, mas há um certo consenso em tomar como o maior dos poetas modernos brasileiros a Drummond, pela profundidade com que tratou os temas de sua época(...) Mas Mario Quintana, não lá nos anos 40 mas a longo prazo, fica bem na companhia de Vinícius de Moraes e Cecília Meireles, com sua fama tendo sido conquistada com muito mais dificuldade”.

Capítulo à parte é a vida pessoal de Quintana, atormentada pela bebida – há depoimentos de contemporâneos que falam de situações em que Quintana tinha de ser levado para casa –, solitário e de vida bastante humilde – viveu de 1968 a 1980 no já decadente Hotel Majestic, que seria depois transformado na Casa de Cultura Mário Quintana, uma casa que o poeta jamais teve, tão grande e tão bela, no centro da cidade que ele amou. Mas ainda é um desafio para a crítica estudar como esta “vida de poeta” influencia na poesia em si.

Luís Augusto e Sérgio Luís Fischer, na biografia que orienta esta resenha, concluem a história do poeta lembrando que “em seus últimos anos, figura amplamente consagrada na cidade, grudou-se nele, por obra da mídia e por efeito de sua própria obra, a imagem de um velhinho sábio, espécie de parente mais velho de seu próprio personagem, o anjo Malaquias. Por isso não fica difícil saber por que a imagem que ficou dele, na impressão difusa da chamada opinião pública, foi essa, e não a do atormentado homem, que ele também foi”.

Assim Mario Quintana permanece, mesmo doze anos depois de sua morte, mais imortal do que se a ele fosse permitido usar o fardão bordado a ouro da Academia Brasileira de Letras. Permanece como poeta, como personagem, nas prateleiras e bibliotecas, nos bancos acadêmicos e nas agendas de frases.

Enquanto nós passamos, ele passarinho.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 08/08/2006.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Elegbara


Marcelo Spalding

Prestem a atenção nas manchetes dos jornais, olhem para a fome na África e as guerras na Terra outrora Santa, a violência urbana na América do Sul e a violência militar no Oriente Médio. Algo escureceu desde o século das luzes, o Iluminismo que deixou ao mundo o legado do racionalismo, do cientificismo. Pois em Elegbara (Record, 2005, 144 págs.), de Alberto Mussa, somos convidados a uma fantástica viagem no tempo, no espaço e na cultura, somos levados ao mundo indígena e ao mundo árabe, retornamos aos cristãos Portugal e Brasil e logo estamos em Palmares ou nos Campos dos Goitacazes em busca de essências anteriores a este mundo racionalista e eurocêntrico.

Publicado originalmente em 1997 e com nova edição em 2005, o livro traz dez narrativas – assim chamadas pelo próprio autor – que não se limitam às já clássicas teorias do conto e se aproximam mais de uma literatura “primitiva”, popular, de raiz oral. O narrador é mais um contador de histórias e o leitor se sente sentado com pernas de índio ao redor de uma fogueira.

Assim sendo, não cobrem verdade, não procurem demais verossimilhança, história oculta e história aparente, não tentem encontrar nexos entre as dez narrativas. Não se pode alcançar a verdade de Elegbara com as premissas do século das Luzes. É preciso fazer como os sábios de Timbuctu, elucubrar sobre as faces da verdade com esmero, ou como Féti, alcançar o domínio sobre o fogo e sobre a vida apenas com a observação minuciosa.

Além dos sábios de Timbuctu e do cativo Féti, desfilam pelas narrativas diversos personagens como o Onça, Zumbi dos Palmares, Ganga Zumba, Caminha, Cabral, Dom Sebastião e, claro, Elegbara – uma das denominações do orixá africano Exu –, alguns retomando elementos da vida real, todos questionando a realidade da vida. Ou da morte.

A luta contra a morte ou a transcendência em relação à morte é, de longe, o tema mais recorrente nas histórias e mais estranho a nossas mentes racionalistas. Os heróis parecem lutar menos pelas suas terras e nomes do que por uma espécie de permanência, mesmo que essa permanência se restrinja às rodas de contação de histórias ao redor da fogueira. Confira o final de quatro das dez narrativas:

“Mas, ainda depois de morto, o bugre continuou apavorando. (...) E ainda contam que – quando enfim tiveram coragem de atirá-lo ao Paraíba, o mar tomou de imediato a cor barrenta do rio.” (pág. 63) 

“Vagando pelas brenhas, certamente ainda há algum Zumbi para morrer” (pág. 71) 

“Do fundo do seu túmulo humilde de rei esquecido – como quiseram os padres de Faro – dom Sebastião continua ensinando. Sobretudo não esperar, não crer” (pág. 142) 

“E tinha razão: não há rei senão Deus. Elegbara é assim.” (pág. 53) 

De certo você sairá desta viagem mais confuso do que quando nela embarcou, mas isso se deve ao contato com tantas outras culturas e mitos. Aos leitores não iniciados nestas culturas – como este que vos fala – é aconselhado um pulinho numa enciclopédia para conhecer um pouco da vida de D. Sebastião e sua morte misteriosa em Alcácer Quibir, o porquê da cidade de Timbuctu ser patrimônio cultural da Unesco, a história do homem de Neandertal e a rivalidade entre Zumbi e Ganga Zumba no quilombo dos Palmares. Não são informações fundamentais, mas enriquecem e dão algum sentido a estas histórias. Isso, é claro, supondo que elas precisem de sentido, afinal ainda somos filhos do apagadinho século das Luzes.

Será que livro é lugar de crônica?


Marcelo Spalding

Ela está todos os dias em nossos jornais, invadiu a rede a partir dos blogs, transforma jornalista em artista e jornalismo em literatura: eis uma definição de crônica entre tantas possíveis. Gênero dos mais polêmicos, a crônica é ao mesmo tempo berço de grandes nomes como Machado de Assis e arena de gladiadores verbais como Roberto de Campos.

Em minhas oficinas, quando preciso diferenciar a crônica do conto (ou de uma narrativa ficcional), costumo lembrar que na crônica o narrador e o autor devem ser a mesma pessoa, que a crônica deve refletir algo da realidade e encerra uma opinião. Necessariamente, portanto, é datada, diferentemente do que costumamos chamar de literatura, e por isso mesmo não é comum vermos livros de crônica bem sucedidos, a não ser que compilem as crônicas de um conhecido jornalista contemporâneo (Jabor, LFV), mas aí vende pelo autor, não pelo gênero. Muito mais raro é vermos um importante prêmio literário concedido a um cronista em detrimento a um romancista, contista ou poeta.

Esse preconceito dos literatos para com a crônica não impede que alguns cronistas rompam a efemeridade jornalística e tornem-se escritores mais ou menos respeitados, especialmente a partir da mudança do jornalismo político para o empresarial. É o caso de João do Rio, o pioneiro, mas também de vários da geração seguinte, como Millôr Fernandes, Fausto Wolff e Antônio Maria.

Antônio Maria d´Albuquerque de Moraes (“Zé Maria, para os íntimos”) foi cronista dos mais originais e compositor de algumas das músicas mais tristes e bonitas do cancioneiro brasileiro, como “Ninguém me ama”. Nascido em 1921 no Pernambuco, criou programas de rádio, trabalhou na televisão, produziu esquetes para teatro e escreveu quase três mil crônicas que exploravam um lado oposto ao do compositor, o riso. E é este lado que Joaquim Ferreira dos Santos procura resgatar em Seja feliz e faça os outros felizes (Civilização Brasileira, R$ 22,90, 112 págs.). Joaquim, também jornalista, selecionou 34 crônicas escritas para jornais garimpando coleções de O Globo, Última Hora e O Jornal entre 1955 e 1964, ano da morte do cronista.

Pela diagramação já percebemos que os editores também se perguntaram se livro é lugar de crônica: há um cabeçalho trabalhado em cada página, letra capitular no começo dos capítulos e o desenho de um homem lendo jornal ao lado dos títulos, além da reprodução de páginas de jornal. Também a apresentação do livro tem este objetivo de transportar o leitor para o mundo das redações barulhentas em que Maria trabalhava num Rio de Janeiro há muito perdido. Mas são os próprios textos que nos remetem ao passado – e este é o ponto forte do livro –, não pela linguagem, que é desembolorada e clara, mas pela visão de mundo de um homem que viveu num mundo já meio século distante do nosso: “você fez mal, José, quando se casou com uma mulher feia”, escreve Antônio Maria na crônica que abre esta antologia, “diz um escritor francês que nós, homens, devemos desposar mulheres muito bonitas, porque só assim, um dia, nos veremos livres delas”.

Num sentido inverso, é impressionante que desde àquela época temas como mendicância, crise financeira e dólar alto já estivessem em pauta, nos levando a perguntar o que fizemos com nosso país ao longo destes cinqüenta anos. Apenas para ilustrar, veja se estas “Frases para dezembro” não poderiam estar nos jornais do fim do ano passado: “Eu espero que o ano que vem seja um pouquinho melhor”, “Nunca houve um ano tão ruim para negócios”, “Minha filha, com a vida pelo preço que está, nós não vamos fazer nada”, “Mas, hoje em dia, qual é a diferença que existe entre o champanhe nacional e o francês”, “Você acha que, com as coisas como estão, este Governo agüenta até o fim do ano?”.

Provavelmente você agora quer saber a que dezembro estas frases se referem, mas curiosamente a data de publicação não é mencionada em lugar nenhum, tampouco o jornal e o local onde o texto foi publicado, o que só podemos atribuir a um descuido da edição que, se não compromete, empobrece o ponto forte do livro, qual seja a competência que Antônio Maria tem de suscitar saudade mesmo em quem não viveu seu tempo, um tempo em que os melhores escritores eram impressos nas páginas mal cheirosas dos jornais, um tempo anterior aos blogs, à ditadura militar e à ditadura do mercado.

Seja feliz e faça os outros felizes, bem como outros livros de Antônio Maria lançados pela Civilização Brasileira, ainda tem outras duas funções importantes. A primeira é mostrar aos novos “escritores” e blogueiros que escrever crônica só parece simples, pois requer originalidade, talento e criatividade para lidar com temas cotidianos sem torná-los corriqueiros. A outra função é fazer eco à personagem que Maria se tornou ao longo do tempo, personagem de histórias folclóricas repetidas ainda hoje por gente como Millôr, Cony e Wolff. Uma delas, contada por Fausto Wolff, em A Milésima Segunda Noite, merece ser reproduzida aqui e fica como fecho da metade cômica do cronista Antônio Maria:

“(...)Um dia, Maria teve de viajar para São Paulo e numa reunião social encontrou uma mulher realmente deslumbrante que se deslumbrou com sua verve. Ambos haviam bebido um pouco demais e, quando a mulher perguntou-lhe o nome, não titubeou:

"– Carlos Heitor Cony

"Cony era realmente muito conhecido e admirado em São Paulo por causa dos seus excelentes romances e a mulher que já parara na de Maria ficou ainda mais excitada.

"Não sabemos se por culpa ou bebedeira, no quarto do hotel, Maria não deu conta do recado. Voltou para o Rio, e, ao encontrar-se com Cony alguns dias depois, no Lidador, lhe informou:

"– Broxaste em São Paulo.”


Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 01/08/2006.