sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Dois mil e cinco: o primeiro ano pós-esperança


Marcelo Spalding

Em 2005 caiu o muro de Berlim brasileiro. Seus tijolos eram de sonhos, projetos, ideais, utopias. Muitos o viam vermelho com estrelas amarelas. Mais do que dividir povos, um muro que marcava a existência de um outro lado, uma alternativa. Mas o muro caiu. Ruiu. O de lá e o de cá. Não porque os lados tenham deixado de ser diferentes, muito menos porque um deles tenha descoberto a fórmula da igualdade. Simplesmente não há mais alternativa.

Se o socialismo utópico se transformou na temida face de Lênin, se a ilusão da igualdade virou a aparente pobreza dos cubanos, se o símbolo de prosperidade e sucesso é uma BMW na garagem e um cartão de crédito internacional, o muro tinha que cair. E até que no Brasil demorou muito.

Não que em dois mil e cinco tenha se inventado a corrupção. Mas se conseguiu dar a impressão de que ela é inerente ao governo, qualquer governo, e assim se tirou do povo, daquele sem internet e que só sabe votar e ver Jornal Nacional, trabalhar e receber alguns mínimos, quando muito, se tirou dessa gente a esperança. Não era a estrela, não era o partido, não eram as pessoas nem o metalúrgico. Era a possibilidade de ser diferente um dia.

Porque mais do que denúncias divulgadas e multiplicadas por televisões, rádios, jornais, revistas – sempre as mesmas, mas ainda muito eficientes na tarefa de divulgar e multiplicar –, vimos a esquerda de nosso país transformar-se numa Heloísa Helena caricata, gritona e de dedo em riste contra Lula, Dilma, Paim e todos os que um dia estiveram ao lado dela, um dia foram pobres, um dia foram o outro lado do muro.

Pelo menos o mesmo país que derrubou seu muro – anos depois do mundo “civilizado” o ter feito – foi brilhante na defesa de um direito fundamental para todos, dos pobres e pretos aos pobres e brancos, dos ricos e pretos aos ricos e brancos. Não, não é o direito à educação, saúde, alimentação, livros, futebol, pão e circo. É o direito a ter uma arma. O direito de defender-se à bala. O direito à justiça, ainda que com as próprias mãos.

Muito da culpa é nossa. Nós, a burguesia, nós que temos internet, acessamos sites de textos com cinco mil caracteres, sabemos ler, escrever e pensar. A burguesia que não apenas vota como discute política, a burguesia que faz a mídia, as mídias. Então menos do que lamentar o ano que termina, deveríamos pensar sobre nossa vã existência, ainda que assistindo Jardineiro Fiel no DVD de nossa casa, imunes ao calor da rua e dos povos pelo ar-condicionado.

Nesse momento talvez devêssemos pensar em como será o ano da pós-esperança. Como será um ano sem o Jefferson na Câmara para cassar o Dirceu, um ano em que até a CPI já chega cansada dos arroubos do Malvadeza Neto?

Dois mil e seis será um ano de Eleições, isso é certo. Um ano em que terá de se eleger os neocorruptos ou os mesmos corruptos de sempre, estes posando como defensores da moralidade e da ordem pública. Talvez surja uma vassoura como a de Jânio ou um caçador de marajás collorido. O que não vai haverá é o outro lado, a não ser aquele de dedo em riste e cabelo preso visitando a Hebe.

Será um ano de Copa, e por um mês seremos o melhor país do mundo, o país de craques milionários e consagrados como o Ronaldinho Gaúcho, o país de times centenários, populares e falidos como aquele que – ironia do destino – formou o Ronaldinho Gaúcho.

Será um ano de instabilidade econômica. De mortes no trânsito. De arroubos verbais do Bush. Arroubos verbais do Chávez. Lições de moral do Fernando Henrique. Progressos da China. Mortes da África.

Dois mil e seis será um ano como todos os outros. Uma certeza tão óbvia e tão dura com a qual nós, brasileiros, precisamos nos acostumar.

Literatura
Para não dizer que não falei de flores, ou de livros, num site em que escrevo para isso. Mas se não falei de literatura no topo do artigo, e o deixei para cá, quase no rodapé, é por uma humilde certeza de que literatura não dá manchete, não desperta multidões nem gera acessos. E se torna uma instituição cada vez mais respeitada e menos popular.

Não é culpa da mídia nem das pessoas nem das professoras mal pagas que não conhecem literatura e não têm como fazer seus alunos conhecerem. Em parte é a própria literatura que se acostumou a viver em academias como se fossem mosteiros, e de lá sair uma voz apenas para criticar o novo best-seller. Ou premiar a unanimidade. Mas o fato é que a literatura está muito distante da gente contemporânea, e aqui não falo mais de gente pobre ou rica ou preta ou branca. A literatura está se distanciando do executivo que senta em frente ao DVD, liga o ar condicionado para ficar imune ao calor da rua e dos povos e assiste O Jardineiro Fiel. Distante dos intelectuais que debatem num bar o futuro sombrio de uma esquerda caricata. Distante dos vestibulandos obrigados a decorar Eça de Queirós.

Mas é graças a Deus ou a Saramago (gente como ele, não apenas ele), que a produção literária continua intensa, em quantidade e qualidade, como se escrever fosse tão lucrativo quanto desfilar maquiada e pelada nas passarelas de Milão. Só em Porto Alegre mais de mil e quinhentos autores deram autógrafos na Feira do Livro. E as prateleiras das livrarias não param de abarrotar-se à exaustão.

Entretanto, diferente da política e porque literatura não dá manchete, demorará uns cinco anos para sabermos o que de melhor as letras de dois mil e cinco produziram para a posteridade. Nesse momento eu arriscaria em Saramago com As Intermitências da Morte pelo nome canônico mas também pela qualidade da obra, que põe o dedo em feridas variadas e antigas como a Igreja, as pessoas, a vida, a morte e a palavra, esta que usamos para dizer o que é bom ou ruim, para decretar o fim da esquerda e para sugerir que os povos devam se “endireitar”.

Prometo tentar, dois mil e seis. Prometo tentar desde que você não nos brinde com mais um Malvadeza.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 9/12/2005.

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