terça-feira, 20 de dezembro de 2005

10 sugestões de leitura para as férias


Marcelo Spalding

Odeio listas. Ainda mais as pretensiosas. Mas eis uma lista pretensiosa.

Apesar de ter virado clichê nas revistas semanais (100 Receitas imperdíveis para o Natal, 50 posições chocantes para a noite de núpcias, 75 negócios próprios para abrir com menos de mil reais, 2006 desejos para o Ano Novo) resolvi beber da popularidade que tais listas gozam e batizar esta coluna inaugural de “10 sugestões de leitura para as férias”.

Porque as férias são aqueles dias em que temos a ilusão de estar descansando, quando na verdade colocamos tudo em dia, bronzeado, visitas às tias, consertos no carro, leituras. As leituras especialmente para nós, que de alguma forma estamos ligados à literatura. Um momento único para resgatar clássicos guardados na prateleira há horas ou procurar aquele romance tão bem falado pelos amigos durante o ano.

Mas vamos à prepotente lista. São livros na maioria leves (não indicaria Os Sertões ou Angústia para quem quer descansar) mas de reconhecida qualidade literária, daqueles que você pode ler à beira da praia ou dentro de um ônibus. E espero que você comente acrescentando outros ou questionando o autor por algum absurdo.

Aí vai, em ordem alfabética:

Algum Chico Buarque

Está bem, nem todos são “leves”. Os romances de Chico não chegam a deprimir o leitor nem escancaram as mazelas sociais do mundo, são mais introspectivos, existenciais e exploram essa tênue fronteira entre lucidez e loucura, exigindo um leitor atento e experimentado. Especialmente Budapeste (2003), o mais recente e premiado, fará você esquecer do calor e se transportar para a fria Budapeste ou a orla carioca. Ao lado do Chico.

Algum Sherlock Holmes

Uma obra que é aplaudida pela crítica e lida pelo público deve ser examinada com atenção e espanto. E sem dúvida o mais famoso – mas não o primeiro – detetive da literatura mundial está entre eles. Sir Arthur Conan Doyle não apenas criou uma personagem como consolidou um gênero a partir de Um Estudo em Vermelho (1887). São histórias curtas e independentes entre si, portanto escolha qualquer Sherlock de bolso nas livrarias e boas férias.

As aventuras de Tom Sawer

Outro clássico, é sempre bom alternar clássicos e novidades. As aventuras de Tom Sawer, publicado em 1876 por Mark Twain, foi apontado por Hemingway como o precursor da moderna literatura norte-americana e até hoje é um modelo para os autores infanto-juvenis.

Deixe o quarto como está

Quando Amílcar Bettega venceu o Prêmio Portugal Telecom de 2005 com Os lados do círculo (2004) todos aqui no Sul ficaram pasmos. Não porque o nosso conterrâneo não merecesse, pelo contrário. Mas é que Deixe o quarto como está (2002), publicado antes mas escrito depois, é ainda melhor e merece ser recuperado pelos novos leitores de Amílcar.

Dom Quixote

Este ano você ouviu falar muito de Dom Quixote, publicado em 1605 – a primeira parte –, um dos precursores do romance moderno. Pois uma boa idéia é aproveitar as férias para ler um pouco desta obra tão importante para a literatura ocidental, deixar-se encantar por Sancho Pança e espantar por Dom Quixote de La Mancha.

Dores, amores e assemelhados

Cláudia Tajes, outra gaúcha que já está se espraiando, figurou na lista dos mais vendidos e na Ana Maria Braga por seu recente A vida sexual da mulher feia (2005). Mas em Dores, amores e assemelhados (2002), a surpreendentemente tímida autora já criara uma história muito bem humorada e contemporânea, digna de se ler nas férias, entre risadas e indagações do tipo: será que eu também sou assim?

Haicais de mãe e filha (Alice e Estrela Ruiz)

O haicai é a cara do verão, não é mesmo? Leitura leve, rápida e muitas vezes profunda, reflexiva. Pois os livros dessas duas moças, mãe e filha, a consagrada Alice Ruiz (Yuuka) e a estreante Estrela Ruiz Leminski (Cupido: Cuspido, Escarrado), são boa pedida para começar o ano. Publicados pela “Ame o Poema” em 2003, elas seguem uma linha menos ortodoxa do haicai e conseguem renovar um gênero aparentemente sem muitas alternativas. Só aparentemente.

Lolita

Nada mais verão que Lolita (1955). Aquelas viagens por estradas intermináveis de um lobo mau moderno transportando sua Chapeuzinho ninfeta. Não que Lolita ainda cause escândalo ou excite alguém (na Era da internet e dos canais à cabo isso seria difícil), mas acima de tudo Lolita é a reflexão inteligente sobre a própria vida, o amor, as expectativas, pois Nabokov, russo vivendo na América, deixa de lado o tom discursivo para narrar uma história repleta de ações e conflitos, uma história sem heróis ou vilões, uma crônica de costumes do american way of life de cinqüenta anos atrás.

Mario Quintana

Você ouvirá falar muito em Mario Quintana em 2006, pois será comemorado o centenário de nascimento do poeta do cotidiano, das coisas simples, ainda assim profundo e de técnica exuberante. Falecido em 1994, Mario ainda hoje é presença garantida nas agendas de fim de ano ou nos diários juvenis por belas frases, chamadas quintanares, que publicou ao longo da carreira. E por isso a sugestão de livro do Mario é o Caderno H (1973) que, conforme ele mesmo, se chamava assim, porque era feito na última hora, na hora “H”.

Sonho de uma noite de verão

Shakespeare tem que aparecer em qualquer lista sobre literatura. Então, se você conhece apenas suas tragédias profundas, como Hamlet, Rei Lear e Romeu e Julieta, vai se surpreender com este leve Sonho de uma noite de verão, uma história de amor com final feliz que se passa na Grécia antiga. Aliás, eis um bom presente para o namorado ou a namorada.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 20/12/2005.

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