sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Um Amor Anarquista


Marcelo Spalding

Como a filha de Adele, Um Amor Anarquista (Record, 2005, 250 págs.) não conhece seu pai. Há nele sinais evidentes de A Desobediência Civil, de Thoreau, Un Episodio d' Amore nella Colonia Cecília, de Giovanni Rossi, Anarquistas Graças a Deus, de Zélia Gattai, O Anarquismo Experimental, de Cândido de Mello Neto, e até pitadas de Karl Marx e Marquês de Sade, entre tantos outros. Mas a esta criança carinhosa basta a mãe, no caso um homem, Miguel Sanches Neto, capaz de dar forma a um mosaico eclético e delicado.

Sanches Neto, considerado o melhor escritor da sua geração pela revista Veja após o lançamento de Um Amor Anarquista, nasceu pobre, perdeu o pai muito cedo, ficou em último lugar num concurso de redação no colégio, formou-se em Letras, mas não quis buscar o diploma, foi reprovado na seleção para o mestrado da UFRGS e hoje é doutor em literatura pela Unicamp, crítico literário, professor e escritor capaz de produzir respeitáveis haicais, contos, críticas, poesias e romances. Todo este biografismo para ressaltar a importância da pesquisa na obra, cuja relação entre realidade e ficção é tamanha que o leitor menos atento tomará cada linha por verdade histórica.

Do ponto de vista literário, Um Amor Anarquista é um filho simples e ordeiro, nem afetado nem genial. O discurso apresenta léxico comum, narrador onisciente na maior parte do tempo, índices entre capítulos sob forma de cartas, feedback inicial introduzindo uma ordem linear, herói hierarquicamente bem definido, elipse de anos no final, muitas lágrimas, muitas declarações de amor, muita fome e muitos sonhos. Pode-se dizer que é esta uma síntese do imigrante italiano: lágrimas, declarações, fome e sonhos. Mas faltam ousadias formais, como a aplicação de conceitos anárquicos mesclados aos românticos, quebra da hierarquia entre as personagens, rompimento da linearidade narrativa, liberdade lingüística.

Se por um lado estas ausências tornam algumas cenas previsíveis, por outro preservam o entendimento da história. E eis o grande mérito de Sanches Neto: contar uma boa história, densa, polêmica, clara, onde o narrador não é o centro das atenções, muito menos o autor.

A história se passa num tempo em que anarquismo ainda não era sinônimo de desordem. Giovanni Rossi, intelectual italiano, idealiza uma comunidade experimental na América do Sul, onde aplicaria os princípios socialistas não só à produção, mas também às relações pessoais e amorosas. Seria a primeira experiência do amor livre. O problema é que as poucas mulheres da colônia não estão dispostas a tal prática, e os solteiros têm urgência de amor. As casadas mantêm-se voluntariamente presas ao marido como se este fosse um patrão, os pais não aceitam que as filhas se percam numa vida insegura e errante, enquanto algumas meninas solteiras trocam favores sexuais por presentes, prática abominada por Rossi. A pobreza do lugar e o mau comportamento de alguns imigrantes são reflexos e conseqüência dessa falta de amor (na verdade, de sexo), enquanto o comportamento de pais e maridos em relação a suas mulheres se mostra uma incômoda evidência de que os princípios anarquistas ainda eram utopias distantes. E neste ambiente Rossi conhece Adele, uma italiana socialista, casada e disposta a quebrar preconceitos e adotar o amor livre, beneficiando justamente Rossi, por quem se apaixona.

A Colônia Cecília, pano de fundo para esta história de amor, existiu de fato entre os anos de 1890 e 1894 em Palmeira, cidade do Paraná, tornando-se célebre pela obra Anarquistas, Graças a Deus, de Zélia Gattai (filha de um dos fundadores da colônia). No entanto, diferentemente de Zélia, e também de Afonso Schmidt e Cândido de Mello Neto, o autor paranaense não volta à Colônia Cecília para resgatar valores anarquistas (como pode parecer pelo título e pela concepção da obra), mas sim para questionar a família sob a égide do amor livre. No passado, Escolina trocava marido e filho por noites de amor com Colli, sem deixar de amar Lorenzo e com consentimento deste. Hoje, enquanto num canto da cidade meninas bem arrumadas trocam de namorado a cada noite – ou casais lotam as casas de swing – noutro canto jovens bem sucedidos e com as lições capitalistas na ponta da língua fazem hora extra para enriquecer mais e pagar pelo conserto de seus carros importados com bancos de couro. Pelos pôneis da filha. Tudo em nome da família.

A pergunta “seria constrangedor não conhecer a paternidade de um filho que você viesse a ter?”, feita por Rossi a Adele, é, por isso, o ponto alto do livro, ou pelo menos a síntese de suas indagações. E ainda hoje não se tem uma resposta rápida e tranqüila. Mesmo cem anos depois do episódio na Colônia Cecília, depois da ascensão e queda do Comunismo na Rússia, de duas guerras mundiais, da renovação da Igreja, do Maio de 68 e de Woodstock, o debate sobre o papel da família chega renovado ao século XXI. O que não ocorre, infelizmente, com o debate sobre o socialismo, enterrado pelas cabeças pensantes – ou pelos bolsos mandantes – do novo tempo.

Aliás, do ponto de vista ideológico, o narrador não deixa muita margem para ilusões. Chega a afirmar: “era isso a vida, não deixava espaços para sonhos”. Para ele, a Colônia Cecília é uma alegoria semelhante à Nova Birobidjan, de Scliar, ou à Granja do Solar, de Orwell, onde os paradoxos e defeitos não só diminuem como eliminam as virtudes do ideal socialista.

Assim, mais longe do Manifesto Comunista do que de Dom Casmurro, Sanches Neto faz não a melhor das literaturas – como se tem escrito por aí – mas credencia sua história a figurar ao mesmo tempo nas prateleiras dos canônicos e na vitrine das livrarias.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 30/9/2005.