terça-feira, 20 de dezembro de 2005

10 sugestões de leitura para as férias


Marcelo Spalding

Odeio listas. Ainda mais as pretensiosas. Mas eis uma lista pretensiosa.

Apesar de ter virado clichê nas revistas semanais (100 Receitas imperdíveis para o Natal, 50 posições chocantes para a noite de núpcias, 75 negócios próprios para abrir com menos de mil reais, 2006 desejos para o Ano Novo) resolvi beber da popularidade que tais listas gozam e batizar esta coluna inaugural de “10 sugestões de leitura para as férias”.

Porque as férias são aqueles dias em que temos a ilusão de estar descansando, quando na verdade colocamos tudo em dia, bronzeado, visitas às tias, consertos no carro, leituras. As leituras especialmente para nós, que de alguma forma estamos ligados à literatura. Um momento único para resgatar clássicos guardados na prateleira há horas ou procurar aquele romance tão bem falado pelos amigos durante o ano.

Mas vamos à prepotente lista. São livros na maioria leves (não indicaria Os Sertões ou Angústia para quem quer descansar) mas de reconhecida qualidade literária, daqueles que você pode ler à beira da praia ou dentro de um ônibus. E espero que você comente acrescentando outros ou questionando o autor por algum absurdo.

Aí vai, em ordem alfabética:

Algum Chico Buarque

Está bem, nem todos são “leves”. Os romances de Chico não chegam a deprimir o leitor nem escancaram as mazelas sociais do mundo, são mais introspectivos, existenciais e exploram essa tênue fronteira entre lucidez e loucura, exigindo um leitor atento e experimentado. Especialmente Budapeste (2003), o mais recente e premiado, fará você esquecer do calor e se transportar para a fria Budapeste ou a orla carioca. Ao lado do Chico.

Algum Sherlock Holmes

Uma obra que é aplaudida pela crítica e lida pelo público deve ser examinada com atenção e espanto. E sem dúvida o mais famoso – mas não o primeiro – detetive da literatura mundial está entre eles. Sir Arthur Conan Doyle não apenas criou uma personagem como consolidou um gênero a partir de Um Estudo em Vermelho (1887). São histórias curtas e independentes entre si, portanto escolha qualquer Sherlock de bolso nas livrarias e boas férias.

As aventuras de Tom Sawer

Outro clássico, é sempre bom alternar clássicos e novidades. As aventuras de Tom Sawer, publicado em 1876 por Mark Twain, foi apontado por Hemingway como o precursor da moderna literatura norte-americana e até hoje é um modelo para os autores infanto-juvenis.

Deixe o quarto como está

Quando Amílcar Bettega venceu o Prêmio Portugal Telecom de 2005 com Os lados do círculo (2004) todos aqui no Sul ficaram pasmos. Não porque o nosso conterrâneo não merecesse, pelo contrário. Mas é que Deixe o quarto como está (2002), publicado antes mas escrito depois, é ainda melhor e merece ser recuperado pelos novos leitores de Amílcar.

Dom Quixote

Este ano você ouviu falar muito de Dom Quixote, publicado em 1605 – a primeira parte –, um dos precursores do romance moderno. Pois uma boa idéia é aproveitar as férias para ler um pouco desta obra tão importante para a literatura ocidental, deixar-se encantar por Sancho Pança e espantar por Dom Quixote de La Mancha.

Dores, amores e assemelhados

Cláudia Tajes, outra gaúcha que já está se espraiando, figurou na lista dos mais vendidos e na Ana Maria Braga por seu recente A vida sexual da mulher feia (2005). Mas em Dores, amores e assemelhados (2002), a surpreendentemente tímida autora já criara uma história muito bem humorada e contemporânea, digna de se ler nas férias, entre risadas e indagações do tipo: será que eu também sou assim?

Haicais de mãe e filha (Alice e Estrela Ruiz)

O haicai é a cara do verão, não é mesmo? Leitura leve, rápida e muitas vezes profunda, reflexiva. Pois os livros dessas duas moças, mãe e filha, a consagrada Alice Ruiz (Yuuka) e a estreante Estrela Ruiz Leminski (Cupido: Cuspido, Escarrado), são boa pedida para começar o ano. Publicados pela “Ame o Poema” em 2003, elas seguem uma linha menos ortodoxa do haicai e conseguem renovar um gênero aparentemente sem muitas alternativas. Só aparentemente.

Lolita

Nada mais verão que Lolita (1955). Aquelas viagens por estradas intermináveis de um lobo mau moderno transportando sua Chapeuzinho ninfeta. Não que Lolita ainda cause escândalo ou excite alguém (na Era da internet e dos canais à cabo isso seria difícil), mas acima de tudo Lolita é a reflexão inteligente sobre a própria vida, o amor, as expectativas, pois Nabokov, russo vivendo na América, deixa de lado o tom discursivo para narrar uma história repleta de ações e conflitos, uma história sem heróis ou vilões, uma crônica de costumes do american way of life de cinqüenta anos atrás.

Mario Quintana

Você ouvirá falar muito em Mario Quintana em 2006, pois será comemorado o centenário de nascimento do poeta do cotidiano, das coisas simples, ainda assim profundo e de técnica exuberante. Falecido em 1994, Mario ainda hoje é presença garantida nas agendas de fim de ano ou nos diários juvenis por belas frases, chamadas quintanares, que publicou ao longo da carreira. E por isso a sugestão de livro do Mario é o Caderno H (1973) que, conforme ele mesmo, se chamava assim, porque era feito na última hora, na hora “H”.

Sonho de uma noite de verão

Shakespeare tem que aparecer em qualquer lista sobre literatura. Então, se você conhece apenas suas tragédias profundas, como Hamlet, Rei Lear e Romeu e Julieta, vai se surpreender com este leve Sonho de uma noite de verão, uma história de amor com final feliz que se passa na Grécia antiga. Aliás, eis um bom presente para o namorado ou a namorada.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 20/12/2005.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2005

Dois mil e cinco: o primeiro ano pós-esperança


Marcelo Spalding

Em 2005 caiu o muro de Berlim brasileiro. Seus tijolos eram de sonhos, projetos, ideais, utopias. Muitos o viam vermelho com estrelas amarelas. Mais do que dividir povos, um muro que marcava a existência de um outro lado, uma alternativa. Mas o muro caiu. Ruiu. O de lá e o de cá. Não porque os lados tenham deixado de ser diferentes, muito menos porque um deles tenha descoberto a fórmula da igualdade. Simplesmente não há mais alternativa.

Se o socialismo utópico se transformou na temida face de Lênin, se a ilusão da igualdade virou a aparente pobreza dos cubanos, se o símbolo de prosperidade e sucesso é uma BMW na garagem e um cartão de crédito internacional, o muro tinha que cair. E até que no Brasil demorou muito.

Não que em dois mil e cinco tenha se inventado a corrupção. Mas se conseguiu dar a impressão de que ela é inerente ao governo, qualquer governo, e assim se tirou do povo, daquele sem internet e que só sabe votar e ver Jornal Nacional, trabalhar e receber alguns mínimos, quando muito, se tirou dessa gente a esperança. Não era a estrela, não era o partido, não eram as pessoas nem o metalúrgico. Era a possibilidade de ser diferente um dia.

Porque mais do que denúncias divulgadas e multiplicadas por televisões, rádios, jornais, revistas – sempre as mesmas, mas ainda muito eficientes na tarefa de divulgar e multiplicar –, vimos a esquerda de nosso país transformar-se numa Heloísa Helena caricata, gritona e de dedo em riste contra Lula, Dilma, Paim e todos os que um dia estiveram ao lado dela, um dia foram pobres, um dia foram o outro lado do muro.

Pelo menos o mesmo país que derrubou seu muro – anos depois do mundo “civilizado” o ter feito – foi brilhante na defesa de um direito fundamental para todos, dos pobres e pretos aos pobres e brancos, dos ricos e pretos aos ricos e brancos. Não, não é o direito à educação, saúde, alimentação, livros, futebol, pão e circo. É o direito a ter uma arma. O direito de defender-se à bala. O direito à justiça, ainda que com as próprias mãos.

Muito da culpa é nossa. Nós, a burguesia, nós que temos internet, acessamos sites de textos com cinco mil caracteres, sabemos ler, escrever e pensar. A burguesia que não apenas vota como discute política, a burguesia que faz a mídia, as mídias. Então menos do que lamentar o ano que termina, deveríamos pensar sobre nossa vã existência, ainda que assistindo Jardineiro Fiel no DVD de nossa casa, imunes ao calor da rua e dos povos pelo ar-condicionado.

Nesse momento talvez devêssemos pensar em como será o ano da pós-esperança. Como será um ano sem o Jefferson na Câmara para cassar o Dirceu, um ano em que até a CPI já chega cansada dos arroubos do Malvadeza Neto?

Dois mil e seis será um ano de Eleições, isso é certo. Um ano em que terá de se eleger os neocorruptos ou os mesmos corruptos de sempre, estes posando como defensores da moralidade e da ordem pública. Talvez surja uma vassoura como a de Jânio ou um caçador de marajás collorido. O que não vai haverá é o outro lado, a não ser aquele de dedo em riste e cabelo preso visitando a Hebe.

Será um ano de Copa, e por um mês seremos o melhor país do mundo, o país de craques milionários e consagrados como o Ronaldinho Gaúcho, o país de times centenários, populares e falidos como aquele que – ironia do destino – formou o Ronaldinho Gaúcho.

Será um ano de instabilidade econômica. De mortes no trânsito. De arroubos verbais do Bush. Arroubos verbais do Chávez. Lições de moral do Fernando Henrique. Progressos da China. Mortes da África.

Dois mil e seis será um ano como todos os outros. Uma certeza tão óbvia e tão dura com a qual nós, brasileiros, precisamos nos acostumar.

Literatura
Para não dizer que não falei de flores, ou de livros, num site em que escrevo para isso. Mas se não falei de literatura no topo do artigo, e o deixei para cá, quase no rodapé, é por uma humilde certeza de que literatura não dá manchete, não desperta multidões nem gera acessos. E se torna uma instituição cada vez mais respeitada e menos popular.

Não é culpa da mídia nem das pessoas nem das professoras mal pagas que não conhecem literatura e não têm como fazer seus alunos conhecerem. Em parte é a própria literatura que se acostumou a viver em academias como se fossem mosteiros, e de lá sair uma voz apenas para criticar o novo best-seller. Ou premiar a unanimidade. Mas o fato é que a literatura está muito distante da gente contemporânea, e aqui não falo mais de gente pobre ou rica ou preta ou branca. A literatura está se distanciando do executivo que senta em frente ao DVD, liga o ar condicionado para ficar imune ao calor da rua e dos povos e assiste O Jardineiro Fiel. Distante dos intelectuais que debatem num bar o futuro sombrio de uma esquerda caricata. Distante dos vestibulandos obrigados a decorar Eça de Queirós.

Mas é graças a Deus ou a Saramago (gente como ele, não apenas ele), que a produção literária continua intensa, em quantidade e qualidade, como se escrever fosse tão lucrativo quanto desfilar maquiada e pelada nas passarelas de Milão. Só em Porto Alegre mais de mil e quinhentos autores deram autógrafos na Feira do Livro. E as prateleiras das livrarias não param de abarrotar-se à exaustão.

Entretanto, diferente da política e porque literatura não dá manchete, demorará uns cinco anos para sabermos o que de melhor as letras de dois mil e cinco produziram para a posteridade. Nesse momento eu arriscaria em Saramago com As Intermitências da Morte pelo nome canônico mas também pela qualidade da obra, que põe o dedo em feridas variadas e antigas como a Igreja, as pessoas, a vida, a morte e a palavra, esta que usamos para dizer o que é bom ou ruim, para decretar o fim da esquerda e para sugerir que os povos devam se “endireitar”.

Prometo tentar, dois mil e seis. Prometo tentar desde que você não nos brinde com mais um Malvadeza.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 9/12/2005.

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Sopro de haicai em Flauta de Vento


Marcelo Spalding

Quando, no século XVII, Matsuo Bashô formalizou um gênero poético, lá no outro lado do mundo, não poderia imaginar a repercussão que este teria no Brasil pós-moderno, no Brasil da internet, no Brasil da natureza exuberante. O haicai, como é conhecido pelos ocidentais, desembarcou na terra de Macunaíma em 1936 com o poeta Guilherme de Almeida, e de lá para cá viveu momentos diversos, ganhou rima, perdeu rima, ganhou título, perdeu título, movimentou polêmicas acerca de sua forma, dividiu correntes, alçou escritores aos cânones líricos e, quem diria, chega no pós-2000 com uma vitalidade impressionante (no mundo de papel editoras como a Ame o Poema estão empenhadas na propagação do gênero, e no ciberespaço tais iniciativas se multiplicam – visite, por exemplo, este site.)

É natural, diante de movimento tão intenso, que em terra brasilis o haicai tenha se transformado e assumido formas diversas, tanto estéticas quanto semânticas, dificultando inclusive sua definição. E ainda é mais natural que haja um movimento contrário a este, firme na defesa do tradicional haicai japonês. Para esta tendência, seguida especialmente por imigrantes japoneses, haicai é um poema de três versos, escrito em linguagem simples, sem rima, com dezessete sílabas poéticas (sendo cinco no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro), e com uma referência a natureza expressa por uma palavra (o chamado kigô), que deve representar também a estação do ano.

Parece impossível criar um, sequer um bom poema com significação, aliterações e jogos de palavras dentro deste modelo? Pois Teruko Oda criou mais de cem, e o resultado é o delicado Flauta de Vento (Escrituras, 2005, 112 págs.), um livro para ser lido numa tarde de sol, deitado na grama de um parque, ou em voz alta para os filhos, antes de dormirem.

Os 128 haicais foram distribuídos a partir de temas, que normalmente são os próprios kigôs, e estes temas estão apresentados por ordem alfabética e divididos por letra. Fiel a tradição do gênero, os temas remetem a natureza e vão da água-viva à coruja-preta, do frango d’água à lesma, do rato do mato à passarada outonal.

Não é uma ode a natureza, tampouco um manifesto ecológico contra a humanidade, mas uma coleção de momentos, de cenas cotidianas e naturais, no mais objetivo sentido da palavra. O mesmo sujeito poético se refere ao atum como ótimo alimento para acompanhar o bolinho de arroz...

Bolinho de arroz
Coberto com atum fresco –
Um casal perfeito.

... contempla a lagartixa em sua luta pela sobrevivência ...

Requebra, requebra –
A lagartixa sem rabo
fugindo do gato.

... e ameaça o pernilongo que o acorda no meio da noite.

No meio da noite
o pernilongo me acorda
disposto a morrer.

Tudo de forma natural, com linguagem simples e métrica perfeita. Uma pista para entendermos este aparente paradoxo, qual seja a naturalidade com que é tratada a intervenção humana na natureza, é a epígrafe. Aliás, como não poderia deixar de ser, trata-se de um preceito budista: “A vida depende da vida. Todos comemos e somos comidos. Quando nos esquecemos disso, choramos; quando nos recordamos disso, podemos nutrir uns aos outros”.

O mais atento estudioso do haicai ou da poesia deve estar contando as sílabas e procurando o kigô dos poemas acima reproduzidos. Porque de fato impressiona que com tantas limitações formais se consiga criar tão diferentes e profundos poemas. Separamos um haicai e dividimos as sílabas poéticas deste:

Chá beneficente –
A borboleta de inverno
sem acompanhante.
Chá | be | ne | fi | cen | te – (5)
A | bor | bo | le | ta | de in | ver | no (7)
sem | a | com | pa | nhan | te. (5)

Note que a palavra inverno é o kigô na forma mais autêntica e clara, a referência direta a estação do ano. E também como a métrica se encaixa na estrutura 5-7-5.

À parte a contemplação dos resultados alcançados por Teruko Oda, vale questionar como e por que o haicai atravessou anos e oceanos, sobrevivendo, enquanto vitalidade, até ao soneto, gênero também formal, mas muito pouco produzido pelos poetas modernos (menos ainda pelos amadores). Na introdução da obra, a própria autora dá algumas pistas:

“Parece-me que a expressão ‘tempo é dinheiro’ nunca se fez tão verdadeira como nesta sociedade pós-moderna em que vivemos. (...) Somos levados a participar desse clima de competição, engrossando a fileira dos bem-sucedidos portadores de estresse. (...) Paradoxalmente, há uma valorização da qualidade de vida e preocupação com o meio ambiente. (...) Nesse contexto, o haicai se apresenta como solução. Sendo um poema popular, cuja característica principal é a referência a cenas do cotidiano, retratadas através de linguagem simples e objetiva, não é necessário que o praticante seja um profundo conhecedor de teorias da linguagem.”

A própria menção do papel do haicai no mundo moderno demonstra uma preocupação da autora em sua permanência enquanto gênero, mas a tentativa de associá-lo a luta ambiental e a sua conveniência num mundo cada vez mais apressado não valoriza em nada o gênero japonês. Muito pelo contrário. A leitura do haicai é veloz, mas a contemplação é lenta. E se de fato a linguagem é simples e objetiva, não é provável que um poeta, mesmo experimentado, encontre facilidade para se expressar em tão poucos versos e em tão rígida métrica. Na tentativa de minimizar sua própria genialidade, a autora atribui ao gênero uma facilidade que ele não oferece nem para o leitor – que precisa ser atento e lúdico – nem para o autor. E aí está a graça do haicai e de todo o formalismo que cerca especialmente a corrente de Teruko: a sua inutilidade, a inutilidade das joaninhas, das asas coloridas das borboletas, dos vaga-lumes presos num vidro de geléia.

Talvez a melhor utilidade para Flauta de Vento seja a possibilidade de usá-lo como ponto de partida para iniciantes em haicai, ou porto seguro para praticantes pós-modernos. Afinal Teruko Oda, se não a melhor haicaista do Brasil – que destes superlativos nem ela nem nós precisamos –, é a que mais nos aproxima do Japão, de Bashô, do budismo. Do espírito original do haicai, quando este ainda não era vento.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 25/11/2005.

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Bang bang: tiroteio de clichês


Marcelo Spalding

Clichê é um termo não tão conhecido entre o público em geral, mas um conceito absorvido por qualquer leitor, espectador ou ouvinte razoavelmente atento. O garoto que vai num filme de ação já sabe que o herói musculoso vai apanhar muito, mas não morrerá. A senhora entra na fila da comédia romântica da hora com a certeza de um final feliz. E assim a indústria cultural se realimenta com milhares e milhares de histórias que, na verdade, são a mesma história. Até que haja o esgotamento dos clichês. Ou o revezamento deles. Filmes de bangue-bangue com índios bandidos ficaram décadas atrás. Seriados de guerras estrelares só voltam às telas como déjà-vu. Músicas de dupla sertaneja pararam no fim dos anos 90. E assim vai.

Todo este nariz de cera para tentar compreender a Globo e suas centenas ou milhares de novelas. Imagine você ter de produzir tantas e tantas histórias iguais e diferentes ao mesmo tempo. Iguais porque se trata de um gênero específico, uma fórmula conhecida, testada e aprovada por milhões de brasileiros. Diferente porque precisa reatrair a atenção dos que ficaram pelo capítulo cem da novela anterior, precisa pôr na vitrine novos rostos e vender novas ideologias.

É exatamente no diferente que pode surgir algo interessante. Sim, há novelas (ou pelo menos aspectos de algumas novelas) interessantíssimas mesmo para quem já trocou a superficialidade da TV pelo cinema e/ou pelo livro. O Clone nos tirou o medo do islã, Vale Tudo traduziu o sentimento de uma época collorida, Laços de Família narrou com algum bom gosto o dia-a-dia da nova burguesia carioca, Malhação, na sua primeira fase, surpreendeu ao revelar novos valores da juventude multifacetada, Vamp deu uma cara brasileira aos mitos nórdicos, e isso sem falar naquelas novelas que conheço de ouvir falar, como Escrava Isaura, O Bravo, etc.

Aí surgem as vinhetas de Bang Bang, com a promessa de ser mais uma igual-diferente. Por que uma igual-diferente? Primeiro, pelos atores. Segundo, pela proposta narrativa.

(Pra não dizer que não falei dos atores, fiquei no mínimo curioso para ver o que Fernanda Lima e Sidnei Magal eram capazes de fazer na nova função e por que Paulo Miklos se exporia tanto.)

Mas o que interessa aqui é a proposta narrativa. Há tempos a Globo universaliza os temas e, mais recentemente, os cenários. Não são visitas eventuais do elenco a algum cartão postal. Não. É a simulação de que a história se passa no Marrocos (O Clone), nos Estados Unidos (a recente América) ou mesmo num país fictício (Kubanakan). Só que Bang Bang pegaria emprestado não apenas o cenário do oeste norte-americano como a cultura, os clichês e os valores do oeste norte-americano, provavelmente parodiando a clássica luta dos mocinhos e bandidos.

Montada a cena, atores curiosos, cenário inédito, vamos ao jogo. E aí os clichês se acotovelam.

Apesar de parodiar os clichês dos filmes de bangue-bangue, em vez de repeti-los, a novela não se preocupa em usar a exaustão os próprios clichês das novelas. Há o protagonista-mocinho com sede de vingança que encontra na filha do vilão um grande amor. Há homens se fazendo de mulheres. Há um amor mal resolvido entre a viúva do detetive e o malvado fundador da cidade. Há prostitutas lindas, alegres e coloridas. E assim por diante.

Para fazermos justiça com o criador da trama, Mario Prata (foi o autor da novela até pouco tempo atrás), é preciso pensar na sua tentativa de parodiar os próprios clichês dramatúrgicos. Nesse caso, a inclusão de tantos elementos óbvios na novela seria, também, uma forma de parodiar. Mas aí o espectador será o gato correndo atrás do rabo. Porque a novela se propõe um fim em si mesmo, uma comédia da própria história. Como alguns filmes hollywoodianos têm feito, e talvez Shrek seja o mais bem resolvido deles.

Acontece que, ao não se levar a sério, a novela perde o que John Gaarder, escritor e teórico da literatura, chama de sonho ficcional. Nem o menos exigente telespectador agüenta que Diana se apaixone por Ben apenas porque o rapaz foi macho o suficiente para exigir que lhe dessem carona na diligência. Nem que dois moribundos, à beira da morte, se levantem da cama para matar um ao outro com as próprias mãos, e acabem morrendo ali, juntos, abraçados.

De certo a novela vai adiante nesse ritmo frenético. Kubanacan e O Beijo do Vampiro já foram assim, não se levavam a sério. No caso de Bang Bang ficam, pelo menos, algumas tentativas curiosas, como a de mostrar a invenção do presente: a cena em que o médico local faz a primeira transfusão de sangue deve ter muito de impropério médico, mas é divertida. A “abdução” do personagem Zorro para dentro da novela também é algo novo e que pode funcionar, assim como a figura emblemática de Paulo Miklos se esforçando em fazer caretas.

Resta saber quando as novelas irão evoluir além da narratividade. Quando, além de dinâmicas e bem produzidas, serão minimamente profundas. Quando irão parar de vender as mesmas ideologias do tempo da vovó e da mamãe. Ou quando, de tão repetitivas e iguais a si mesmas, farão o milagre de mandar crianças, adolescentes e adultos para fora da sala, gritando: “ora, vão ler um livro e não me encham!”.

Resta saber qual de nós sacará primeiro a arma e vai disparar contra o televisor.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 18/10/2005.

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Um Amor Anarquista


Marcelo Spalding

Como a filha de Adele, Um Amor Anarquista (Record, 2005, 250 págs.) não conhece seu pai. Há nele sinais evidentes de A Desobediência Civil, de Thoreau, Un Episodio d' Amore nella Colonia Cecília, de Giovanni Rossi, Anarquistas Graças a Deus, de Zélia Gattai, O Anarquismo Experimental, de Cândido de Mello Neto, e até pitadas de Karl Marx e Marquês de Sade, entre tantos outros. Mas a esta criança carinhosa basta a mãe, no caso um homem, Miguel Sanches Neto, capaz de dar forma a um mosaico eclético e delicado.

Sanches Neto, considerado o melhor escritor da sua geração pela revista Veja após o lançamento de Um Amor Anarquista, nasceu pobre, perdeu o pai muito cedo, ficou em último lugar num concurso de redação no colégio, formou-se em Letras, mas não quis buscar o diploma, foi reprovado na seleção para o mestrado da UFRGS e hoje é doutor em literatura pela Unicamp, crítico literário, professor e escritor capaz de produzir respeitáveis haicais, contos, críticas, poesias e romances. Todo este biografismo para ressaltar a importância da pesquisa na obra, cuja relação entre realidade e ficção é tamanha que o leitor menos atento tomará cada linha por verdade histórica.

Do ponto de vista literário, Um Amor Anarquista é um filho simples e ordeiro, nem afetado nem genial. O discurso apresenta léxico comum, narrador onisciente na maior parte do tempo, índices entre capítulos sob forma de cartas, feedback inicial introduzindo uma ordem linear, herói hierarquicamente bem definido, elipse de anos no final, muitas lágrimas, muitas declarações de amor, muita fome e muitos sonhos. Pode-se dizer que é esta uma síntese do imigrante italiano: lágrimas, declarações, fome e sonhos. Mas faltam ousadias formais, como a aplicação de conceitos anárquicos mesclados aos românticos, quebra da hierarquia entre as personagens, rompimento da linearidade narrativa, liberdade lingüística.

Se por um lado estas ausências tornam algumas cenas previsíveis, por outro preservam o entendimento da história. E eis o grande mérito de Sanches Neto: contar uma boa história, densa, polêmica, clara, onde o narrador não é o centro das atenções, muito menos o autor.

A história se passa num tempo em que anarquismo ainda não era sinônimo de desordem. Giovanni Rossi, intelectual italiano, idealiza uma comunidade experimental na América do Sul, onde aplicaria os princípios socialistas não só à produção, mas também às relações pessoais e amorosas. Seria a primeira experiência do amor livre. O problema é que as poucas mulheres da colônia não estão dispostas a tal prática, e os solteiros têm urgência de amor. As casadas mantêm-se voluntariamente presas ao marido como se este fosse um patrão, os pais não aceitam que as filhas se percam numa vida insegura e errante, enquanto algumas meninas solteiras trocam favores sexuais por presentes, prática abominada por Rossi. A pobreza do lugar e o mau comportamento de alguns imigrantes são reflexos e conseqüência dessa falta de amor (na verdade, de sexo), enquanto o comportamento de pais e maridos em relação a suas mulheres se mostra uma incômoda evidência de que os princípios anarquistas ainda eram utopias distantes. E neste ambiente Rossi conhece Adele, uma italiana socialista, casada e disposta a quebrar preconceitos e adotar o amor livre, beneficiando justamente Rossi, por quem se apaixona.

A Colônia Cecília, pano de fundo para esta história de amor, existiu de fato entre os anos de 1890 e 1894 em Palmeira, cidade do Paraná, tornando-se célebre pela obra Anarquistas, Graças a Deus, de Zélia Gattai (filha de um dos fundadores da colônia). No entanto, diferentemente de Zélia, e também de Afonso Schmidt e Cândido de Mello Neto, o autor paranaense não volta à Colônia Cecília para resgatar valores anarquistas (como pode parecer pelo título e pela concepção da obra), mas sim para questionar a família sob a égide do amor livre. No passado, Escolina trocava marido e filho por noites de amor com Colli, sem deixar de amar Lorenzo e com consentimento deste. Hoje, enquanto num canto da cidade meninas bem arrumadas trocam de namorado a cada noite – ou casais lotam as casas de swing – noutro canto jovens bem sucedidos e com as lições capitalistas na ponta da língua fazem hora extra para enriquecer mais e pagar pelo conserto de seus carros importados com bancos de couro. Pelos pôneis da filha. Tudo em nome da família.

A pergunta “seria constrangedor não conhecer a paternidade de um filho que você viesse a ter?”, feita por Rossi a Adele, é, por isso, o ponto alto do livro, ou pelo menos a síntese de suas indagações. E ainda hoje não se tem uma resposta rápida e tranqüila. Mesmo cem anos depois do episódio na Colônia Cecília, depois da ascensão e queda do Comunismo na Rússia, de duas guerras mundiais, da renovação da Igreja, do Maio de 68 e de Woodstock, o debate sobre o papel da família chega renovado ao século XXI. O que não ocorre, infelizmente, com o debate sobre o socialismo, enterrado pelas cabeças pensantes – ou pelos bolsos mandantes – do novo tempo.

Aliás, do ponto de vista ideológico, o narrador não deixa muita margem para ilusões. Chega a afirmar: “era isso a vida, não deixava espaços para sonhos”. Para ele, a Colônia Cecília é uma alegoria semelhante à Nova Birobidjan, de Scliar, ou à Granja do Solar, de Orwell, onde os paradoxos e defeitos não só diminuem como eliminam as virtudes do ideal socialista.

Assim, mais longe do Manifesto Comunista do que de Dom Casmurro, Sanches Neto faz não a melhor das literaturas – como se tem escrito por aí – mas credencia sua história a figurar ao mesmo tempo nas prateleiras dos canônicos e na vitrine das livrarias.

Para ir além


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 30/9/2005.