quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A reprovação como processo de aprendizado

Marcelo Spalding

A pior parte do trabalho do professor é ter de reprovar seus alunos. Claro que sempre há na turma aqueles poucos que passaram o semestre (ou ano) conversando, não deram bola para suas atividades, faltaram ao máximo possível de aulas, nunca tocaram num livro ou acessaram um site para estudar. Mas há, sempre há, tantos outros que se esforçaram e, por um motivo ou outro, acabaram reprovando.

Particularmente acredito que a reprovação é importante para o processo de aprendizagem. Não que a reprovação por si só garanta aprendizagem, mas a cultura do "passar de qualquer jeito" é nefasta, pois não prepara o jovem para as reais necessidades da vida e do mercado de trabalho, enganando-o sobre suas reais condições e necessidades.

Por isso, para mim, o grande problema são aqueles professores que fingem ensinar e vão empurrando seus alunos, ou melhor, os problemas de seus alunos com a barriga, para não se incomodarem. Talvez por isso tantos estudantes cheguem com tamanhas deficiências na Universidade, pois nos anos escolares alguns vão passando, ano a ano, com notas medianas e desempenhos medíocres.

Claro que a questão da reprovação na vida escolar é bem diferente da reprovação na universidade, pois na vida escolar há aquele crime de fazer a criança repetir TUDO, ainda que tenha faltado meio ponto em química, por exemplo. Já na universidade a repetição de determinada disciplina pode ser uma oportunidade de realmente aprender determinado conteúdo que pode ser fundamental para o desempenho acadêmico e profissional.

Um agravante na questão da repetência são algumas bolsas que, de forma radical, impedem que o aluno repita uma disciplina sequer. Entendo que o objetivo da bolsa é fazer o aluno estudar e se dedicar, mas acredito que seja normal a repetência em uma ou outra disciplina, deveria haver uma margem de segurança para o aluno dedicado. Talvez essa margem não se aplicasse a estudantes com excesso de faltas ou com excesso de trancamentos, pois acho muito mais honesto o aluno que vai até o fim do curso tentando a aprovação do que aquele que tranca sua matrícula no meio do semestre, perdendo a oportunidade de tentar e ir adiante em sua vida estudantil.

Obviamente não estou defendendo, com isso, aqueles professores sem critérios que repetem sem a devida justificativa e explicação para o aluno ou retêm mais da metade da turma. Minha preocupação é que a cultura da permissividade que tem marcado nossas escolas nos últimos anos tenha incorporado no aluno uma falsa ideia de que ele não precisa estudar, esforçar-se, ler, perguntar, participar. Que basta estar presente e fazer cruzinhas na hora da prova. Até porque, não custa lembrar, escola ou universidade não é um fim em si mesmo, passamos anos em suas dependências porque temos sonhos, objetivos, metas. E não os alcançaremos de qualquer jeito.

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Comentários recebidos

Baita texto Marcelo, contrasta realmente com a realidade que vivi no ensino médio principalmente. Professores relapsos que não nos deram a devida preparação para a universidade.

Apesar de decepcionado comigo mesmo por ter ficado por tão pouco em apenas uma matéria, sei que apesar de parecer um destes alunos que faz bagunça e não estuda tenho meus métodos de estudar. Prefiro estar na aula e ouvir, ou as vezes nem ouvir, apenas ver a matéria e estudar em casa. Aprendi a ser assim quando no ensino média não havia maneira de conseguir literalmente decorar o que os professores queriam passar no quadro, pois para eles era mais fácil o aluno decorar e tirar a nota mínima do que aprender e ser alguém na vida.

O meu maior medo é como tu falou, perder a bolsa do Unipoa por rodar em uma cadeira, também acho muito injusto, seria muito mais simples para mim, ter trancado a cadeira no final do semestre quando me apertei do que chegar agora até o final com a faca no pescoço indo pro tudo ou nada hehehe

Mas bola pra frente, hoje vou sentar antes da prova e dar mais uma estudada para tentar ir bem nesta prova.

Abraço,

Diego Ribeiro

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Marcelo, boa tarde!

Concordo plenamente com a tua manifestação, sou bolsista e por determinação contratual da fonte geradora de minha bolsa, a reprovação em qualquer cadeira significa a perda total da bolsa e com o ônus de não poder concorrer à bolsa novamente pelos próximos 2 anos.

No meu caso, não há margem para o erro ou para problemas pessoais, não há margem para nada, é radical ao extremo. Tenho plena consciência de que concordei com as condicionantes desse contrato, porém, se não concordasse, não teria a oportunidade de tentar. Então aceitei a proposta de passar e não perder a bolsa, estou no 2º semestre aprovado em todas as cadeiras e informo que neste semestre gostaria de ter rodado em pelo menos uma cadeira, passei no "susto", por "sorte", carrego algum conteúdo, mas não aquele que realmente gostaria.

O intuito dessa bolsa é formar a "Excelência", formar os melhores, se eu chegar ao fim do curso utilizando essa bolsa creio que estarei numa "EXCELÊNCIA" de pessoas que fizeram de tudo para "PASSAR" mesmo que no "SUSTO".

Não ganhei notas, não pedi notas a nenhum professor e informo que todas as minhas notas foram obtidas através do meu estudo, dedicação e ajuda de alguns colegas que se prontificaram em me ajudar nos finais de semana e antes ou depois do horário de aula.

Concluindo: com dedicação, esforço, força de vontade e passando por cima de problemas pessoais é possível passar, mas algumas vezes por SUSTO, SORTE e NÃO por QUALIDADE, isso só prova que a EXCELÊNCIA prezada pela fonte geradora de minha bolsa não existe!

P.S. Peço desculpas pelas vírgulas, pontos e algumas concordâncias verbais, colocadas indevidamente, não queria perder a oportunidade de relatar meu caso e acabei escrevendo apressadamente.

Abraços

André S. Aguiar

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Boa noite professor!

Agradecemos muito pelo seu carinho e, principalmente, pela sua demonstração de amizade. Hoje em dia, atitudes assim são raríssimas, e por isso mesmo, muito especiais. Agradeço muito o carinho e o respeito com que o Senhor sempre tratou meu marido. Sabíamos que não seria fácil, pois fazia muitos anos que ele não tinha contato com os estudos. Afinal, um rapaz que estudou na escola rural de Lajeado e que terminou o segundo grau fazendo supletivo, não teria a mesma facilidade de aprendizado. Vou fazer o possível para ajudar o Valdir nessa nova etapa, no curso de Direito, estudaremos juntos e tenho certeza de que o Senhor vai se orgulhar, e muito, do seu ex-aluno. Adoraria tê-lo conhecido, mas creio que não faltará oportunidade! Um feliz natal e um 2012 cheio de realizações! Muito, muito, obrigada mesmo, do fundo do coração!

Abraços, Gesilane e Valdir Karsek

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Muito interessante!
Apoio esta ideia! Os estudantes têm esta visão de não existir necessidade alguma de ler, se empenhar, dedicar tempo, sacrificar-se em algumas fases para lá em diante obter sucesso. O índice de reprovação na OAB, em destaque na mídia, é muito alto, e este fator define-se pelo fato de os alunos colarem, levarem as aulas, as matérias e até mesmos as provas na brincadeira. Reprovar, talvez, esta palavra seja inexistente para muitos, mais eis aí uma realidade.

Att.
Tatiara Muniz

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Obrigado pelo envio do texto. Lembrei-me dele ontem, quando minha mulher, professora de Português, teve que aprovar, no conselho de classe, seis alunos dos 11 que estavam reprovados, porque "onde já se viu um aluno rodar só por causa de uma disciplina, mesmo que seja Português". Enquanto isso, outros alunos saem do colégio indo atrás, justamente, de educação mais efetiva, cansados de terem que dividir a sala com quem já deveria ter ficado para trás.

Luiz Eduardo

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os critérios do Google

Marcelo Spalding

Uma das perguntas mais frequentes entre os profissionais web é: quais são os critérios do Google para classificar um site em seus mecanismos? Como faço para me inscrever?

Bem, primeiro, o Google tem um robô, ou milhares, que fazem periodicamente uma varredura nos sites da web, então essa identificação e classificação são automáticas. E como é periódica, a posição do seu site varia de acordo com a classificação que ele recebe.

Há quem diga que o Google utilize mais de 200 critérios para analisar um site e, a partir desses, atribuir uma pontuação a cada um dos sites selecionados. Com isso, o Google apresenta nas primeiras posições aqueles sites que têm maior pontuação e, quanto menor a pontuação do site, pior a classificação dele.

Para não fugir da resposta, vejamos aqui alguns dos critérios mais importantes.

1. O domínio: é muito importante o domínio do site, então uma busca por Confidentia, por exemplo, deve retornar primeiro o www.confidentia.com.br (no Brasil). Isso evidencia a importância de se ter um domínio relevante para a empresa, e até de se adquirir mais de um domínio (.com.br, .com), evitando que um concorrente adquira um domínio semelhante.

2. O título e as meta-tags: o título do site é extremamente importante na busca, por isso sempre é bom colocar o nome da empresa, o local da empresa e algumas palavras-chave. Não adianta colocar centenas delas, há um limite e quanto menos, mais o Google irá considerar relevante. Vale o mesmo para as meta-tags (informações que ficam escondidas no site), como descrição, idioma, palavras-chave. Também é importante que o título da página altere de acordo com o conteúdo dela, reproduzindo, por exemplo, o título da notícia.

3. Conteúdo relevante e atualizado: um site com mais conteúdo e conteúdos mais relevantes e atualizados será melhor indexado, isso é um fato conhecido. E o Google cada vez mais incentiva essa classificação qualitativa (há pouco inaugurou a possibilidade do próprio usuário ranquear os sites).

4. Troca de links: um dos segredos do ranqueamento do Google é que quanto mais páginas linkarem para o seu site, melhor classificado ele estará. Então a troca de links é uma prática extremamente saudável para qualquer site, assim como conteúdos relevantes que sejam linkados em outros sites e blogs.

5. Programação otimizada: há diversas questões de programação que interferem nos robôs do Google. A mais importante delas é que o Google (ainda) não varre arquivos Flash (SWF), então um site feito totalmente em Flash terá mais dificuldades de ser encontrado do que um site em HTML. Outras, como a criação de um SiteMap, devem ser solicitadas ao seu programador.

Do mais, a lição parece ser que quanto melhor um site, melhor indexado ele estará, então não acredite em soluções mágicas e não trabalhe apenas olhando para o Google: invista num site de qualidade, com conteúdo interessante e atualizado, e o resultado virá paulatinamente.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sobre os estrangeirismos: Why so Serious?

Alexandre Sturm *

É patética a tentativa do governo em desviar o foco da atual decadência educacional do país criando “culpados”. Os clichês e jargões yankees são apenas sintomas inofensivos e que, por vezes mesmo que esporádicas, se encaixam perfeitamente na nossa linguagem contemporânea.

Os “monarcas” partem da premissa que a inserção de palavras não traduzidas para o português fere a qualidade da nossa língua mãe. É importante salientar que os portugueses (de Portugal) sempre tiveram apreço e orgulho pela língua, optando sempre pela tradução das palavras, contudo o povo brasileiro não demonstra a mesma afeição e dá sinais claríssimos de descaso e, pior, desconhecimento da mesma.

A penetração e aceitação de novos vocábulos é resultado de um mal maior: a pouca valorização e disseminação do nosso idioma. Tal inoperância governamental em alimentar o ensino no país acarreta em “cânceres” bem aceitos como “me vê 5 pila aí” ou “me vê pra mim essa coca” e utilizam como bode expiatório palavras que seriam invariavelmente agregadas ao sistema como download e happy hour, sendo que estas possuem uma boa aplicabilidade muito diferente dos erros rotineiros e atrozes que são cometidos frequentemente.

Destarte, não defendo todos os estrangeirismos, muitos deles totalmente dispensáveis (vide feedback e meeting), contudo se os governantes querem realmente se livrar de toda e qualquer influência norte americana em nossa linguagem, não seria mais sensato parar de investir tempo em leis esdrúxulas e com pouca (ou nenhuma) eficácia e tentar investir na educação, para variar?

* Alexandre é meu aluno de LP na Administração da Uniritter

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A cabeça de Steve Jobs

Marcelo Spalding

Repita-se um clichê: Steve não morreu. Ou melhor, não poderia morrer. O homem que revolucionou o mundo dos computadores pessoais, depois o cinema de animação e finalmente reinventou a forma de toda uma geração de ouvir música, lidar com seu aparelho celular, ler livros, sites, revistas e jornais e navegar na internet não poderia morrer. Ainda que fosse este homem audacioso, ríspido, meticuloso, egoísta, individualista, este homem não poderia morrer. Mas dia 05 de outubro deste ano, com apenas 56 anos, Steve Jobs morreu.

O legado de Jobs é imensurável e só será sentido ao longo das próximas décadas. Alguns um tanto exagerados já o compararam a Leonardo da Vinci. Outros nem tão exagerados, a Thomas Edison. O pessoal do design diz que Jobs está para o design assim como Henry Ford esteve para a produção. O fato é que há poucas empresas na história capazes de mobilizar uma multidão tão grande de fiéis – e outra ainda maior de clientes – e muito dessa paixão tinha a ver com o carisma do grande líder falecido neste outubro.

Bem, mas esta coluna não é uma homenagem a Jobs nem a retomada de sua biografia, tantas outras assim são escritas quando morre um ídolo (sim, Jobs conseguiu tornar-se ídolo num tempo de Ronaldinhos e Lady Gagas, um ídolo raro para a geração digital). Este texto vai tratar do melhor livro publicado sobre Jobs no Brasil até agora, “A cabeça de Steve Jobs” (Agir, 284p.).

A obra é uma biografia não-autorizada (particularmente sempre desconfio de biografias autorizadas) escrita por um jornalista muito bem informado a respeito da Apple, Leander Kahney, que consegue evitar a louvação a Jobs, retomando algumas críticas e episódios que não estariam numa biografia autorizada, mas também respeitando o tamanho do biografado e sua genialidade sem par no mundo do design e da tecnologia: “Jobs dirige a Apple com uma mistura peculiar de arte intransigente e soberbo talento para negócios. Ele é mais um artista do que um homem de negócios, mas tem a brilhante capacidade de capitalizar sobre suas criações. (…) Jobs pegou seus interesses e os traços de sua personalidade – obsessão, narcicismo, perfeccionismo – e transformou-os nas marcas registradas de sua carreira.”

O que incomoda no livro é um viés de negócios que poderia ser suprimido pelo bem do texto (não sei se das vendas). Já na capa o subtítulo é “as lições do líder da empresa mais revolucionária do mundo”. E no final de cada capítulo temos um pueril “Lições de Steve”, reduzindo complexos pensamentos em meia dúzia de palavras para serem xerocadas por executivos mal preparados e distribuídas entre os seus funcionários.

Outro ponto fraco do livro, mas aí inerente a uma obra escrita como essa, é que quando Kahney publicou a edição atual o iPhone era apenas uma grande promessa recém lançada e o iPad não existia nem na imaginação do autor (talvez na de Jobs), sendo o fenômeno iPod sua principal referência para louvar o ídolo nesse retorno estrondoso ao mundo da tecnologia.

Jobs, enfim, merece uma biografia mais consistente, que traga mais traços de sua personalidade criativa e menos de seus arroubos gerenciais (assim como merece um bom filme, pelo menos do naipe de “A Rede Social”, pois nem se compara a biografia de Steve com a de Mark). E sem dúvidas muitas serão escritas a partir de agora. Enquanto isso, porém, o trabalho de Leander Kahney permite que os milhões de órfãos aproximem-se de seu ídolo através das páginas do livro, conhecendo-o um pouco melhor. E lamentem, a cada página, que Steve tenha morrido. Há homens que não poderiam morrer.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A revista Veredas e os mil minicontos

Marcelo Spalding

Os leitores que me acompanham há tantos anos aqui no Digestivo sabem que não gosto de falar de mim, de meus livros, etc, mas me permitam nesta coluna contar a história da Revista Veredas, um site hoje dedicado ao miniconto que surgiu no longínquo ano de 1998 e dura até hoje, sendo uma referência no gênero.

O surgimento remonta ao tempo em que eu ainda estava na escola, Ensino Médio, e ao lado de um amigo, Rodrigo Link, resolvemos editar uma revista de literatura para publicar os textos de nossos colegas de escola. O primeiro texto inédito, feito a quatro mãos, se chamava “100 coisas para fazer antes que o mundo acabe”, ironizando aquela histeria do fim do mundo na virada 99/2000. Bem, aquelas primeiras edições eram feitas em HTML no Bloco de Notas, depois em Front Page com seus inconfundíveis frames, hoje tão grosseiros.

Daí em diante, terminamos a escola, eu fui fazer Jornalismo, ele seguiu para a Física, mantive a newsletter primeiro semanal, depois mensal (um pouco inspirado no sucesso do Cardoso Online), e quando entrei no mestrado e comecei a estudar o miniconto resolvi mudar a cara da revista, convidando a querida Ana Mello para ser editora.

Certo, e por que lembrar disso agora? Acontece que nesse mês de agosto aconteceram dois fatos marcantes para a Veredas e para nós: primeiro, chegamos a 1000 minicontos publicados, textos dos mais variados autores, das mais variadas cidades, do Brasil e de Portugal. Todos os textos são enviados pelos próprios autores e, na grande maioria, são inéditos. Segundo: a revista Veredas foi parar nas páginas de um livro didático como referência de minicontos. Sim, foi no “Viva Português”, de Elizabeth Campos, Paula Marques Cardoso e Sílvia Letícia de Andrade, da Editora Ática.

Episódios como esse são interessante porque evidenciam como, aos poucos, aquela geração que conheceu fascinada a internet discada e montou os primeiros sites de cada assunto vai se tornando parte da história (são pessoas que navegavam no Netscape e faziam buscas no Altavista, participavam de chats no ZAZ e trocavam mensagem com amigos no ICQ). E como aqueles sites, antes marginalizados num sistema de comunicação de massa, têm se institucionalizado.

Voltemos ao Veredas de hoje e seus mil minicontos. O miniconto, como se sabe, é um gênero que encontrou grande aceitação na internet, onde tudo é muito rápido e as pessoas não têm tempo (ou paciência) para ler textos longos. Muitos perguntam qual o limite de tamanho do miniconto, mas prefiro não falar em limites, e sim pensar na necessidade do texto: se um texto pode ser completo e ainda causar um efeito no leitor com dez linhas, duas linhas, duas palavras, ótimo! Senão, sem problemas, vá adiante e faça um conto, o importante é não forçar, cortar, espremer uma história em determinado número de linhas apenas por questões formais.

Entre os mínis do Veredas há alguns bem curtos, como um dos destacados pelo livro:

NÃO FICAREI SOZINHA, de Eduardo Oliveira Freire

A boneca escondeu-se na mala onde estava guardado o enxoval de casamento da amiga.

CLIMA, de Tamara Rosa

Ela chuva, ele sol.

Este último, aliás, foi produzido por uma aluna da escola Ruben Darío, de Sapucaia do Sul, o que nos deixa muito satisfeito, pois além de editar a Revista, a Ana Mello e eu (além da Laís Chaffe) participamos de diversas oficinas de minicontos, inclusive uma inesquecível no SESC Copacabana (Rio de Janeiro) de onde saiu essa pérola:

DEPOIS, de Fábia Schnoor

Gostava que mexessem em seus cabelos.

Lembrava que estava vivo e de como a infância e o câncer tinham ficado para trás.

Gosto muito desses mínis curtos, certeiros. Cortázar dizia que enquanto o romance vence por pontos, o conto vence por nocaute. Pois o miniconto deve vencer por nocaute no primeiro soco do primeiro round.

CONSOLO, de Valesca de Assis

Às vezes a mãe fica nervosa e me põe de castigo e me chama de menino malvado. Então, antes de chorar, tiro do bolso um papelzinho onde ela limpou o batom e beijo o beijo dela.

ALÍVIO, de Marli Fiorentin

Ana acordou num sobressalto de madrugada. Ainda meio adormecida, custou a entender, em meio a vozes alteradas e choros: "Pedro morreu". Escorregou devagar para baixo das cobertas. Imóvel, respiração presa, temia ouvir que tinha sido engano. Era bom demais para ser verdade.

Esse primeiro soco pode demorar um pouco mais, exigir alguma atenção para fisgar o leitor, até porque fazer rir é mais fácil do que emocionar. Vejamos esse exemplo de Leonardo Brasiliense, um premiado minicontista e frequente colaborar da Veredas:

SOLIDARIEDADE, de Leonardo Brasiliense

Numa esquina da avenida mais movimentada, às sete da noite, o sinal fica verde, entretanto a carroça do papeleiro não se mexe. Os motoristas começam a buzinar. O papeleiro agita as rédeas, faz um som esquisito com a boca, e nada adianta. O cavalo empacou. Os motoristas, já numa fila de incontáveis faróis e buzinas, com o que lhes resta de forças depois de mais um dia cansativo e estressante em seus escritórios e repartições, gritam, xingam, amaldiçoam. O papeleiro, por sua vez, com o que lhe resta de fôlego depois de mais um dia de sol pelas ruas da cidade, os braços fracos de abrir lixeiras desde as seis da manhã, desce da carroça empunhando um cabo de vassoura e grita, bate, espanca. E o cavalo, com o que lhe resta de si depois de mais um dia que ele nem sabe que passou, com a fome de hoje somada à de ontem e anteontem que o deixam lerdo e confuso, ajoelha-se, de olhos fechados, como quem reza para morrer.

Ou este, de Wilson Gorj, outro contumaz escritor de minicontos, colaborador do Veredas e autor de diversos livros:

INFLÁVEL, de Wilson Gorj

Só transava com prostitutas. Na milésima transa, algo espantoso aconteceu. De repente, sentiu o corpo esfriar, mas de tal maneira que sua parceira acreditou tê-lo matado de prazer. O homem não se mexia mais: boca e olhos abertos para o nada.

Acabara de sofrer uma transmutação. Sua pele mudara de textura. Parecia borracha.

No lugar de músculos, apenas ar.

A relação com a poesia também está sempre presente, seja pela forma, seja pela subjetividade. Mas o miniconto, diferente do poema curto, requer uma narrativa, uma sucessividade e, acima de tudo, deve causar um efeito no leitor.

OLHAR ANIMAL, de Luiz Eduardo Amaro

Observou-a com olhos de lobo.
Aproximou-se com olhos de lince.
Atacou-a com olhos de águia.
Suplicou-lhe com olhos de poodle.
Retirou-se com olhos de burro.
Ela nunca assistia ao Animal Planet.

Evidentemente nem todos os mil e tantos minicontos da Veredas figurariam numa edição em livro, digamos assim, da própria revista. Mas talvez esse seja outro mérito da internet, a diversidade: há estilos, formas e conteúdos dos mais variados. O editor de uma revista web não é como o editor de um livro: o editor de um livro seleciona poucos entre muitos, enquanto o editor web filtra muitos entre muitos, ampliando e incentivando a participação do leitor, mas garantindo credibilidade para a revista que edita.

Enfim, escrevo este texto e repito aqui o endereço da Veredas não para pedir mais leitores, mas para pedir que você envie seu texto para nós e ajude a formar esse mosaico minimalista e plural: www.veredas.art.br.

domingo, 28 de agosto de 2011

Trabalho de Alunos

Olhem que legal o trabalho da professora Ana Rute Paz com os meus livros. Irei visitar a escola em que ela trabalha pelo Programa Autor Presente, do Instituto Estadual do Livro.

http://linguagensriachuelo.blogspot.com/2011/08/projeto-autor-presente-2011.html

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A História de Alice no País das Maravilhas

Marcelo Spalding

Esses dias estava perambulando pela Livraria Saraiva, aqui em Porto Alegre, quando encontrei o belo livro Contos que a Vovó Lê Pra Mim, da Disney. O livro, de 2009, tem 320 páginas e custa R$ 59,00. A edição tem as bordas douradas e traz na capa inconfundíveis personagens ilustrados no traço da Disney, como Dumbo, Pequena Sereia, Nemo e Bambi. Abri o exemplar e, primeiro, me surpreendi com a mistura de histórias, pois temos desde clássicos como Branca de Neve até histórias contemporâneas como Rei Leão e Toy Story. Até aí, tudo bem, sinal dos tempos. O que me surpreendeu e provocou esta resenha foi chegar na página de Alice no País das Maravilhas e perceber que não havia nenhuma referência ao nome de Carroll, o autor do livro! Procurei nas páginas iniciais, nas finais, no rodapé, mas nada, Alice no País das Maravilhas estava ali incorporado como um conto clássico, sem autoria, apenas a menção do nome de quem o adaptou.

Curioso, fui até a seção de livros infantis e reparei que há outros casos em que o livro Alice no País das Maravilhas não traz referência ao autor, como na Coleção “Livros Sonoros de Contos Clássicos”, da Editora Ciranda Cultural. Aqui a história de Carroll é reduzida a seis páginas, com ilustrações de tela inteira e o texto, em caixa alta, resumido em um parágrafo. O grande diferencial é que o “leitor”, clicando em botões na lateral do livro, poderá ouvir a narração da história.

Sei que Barthes já escreveu sobre a morte do autor em meados do século passado, que muito se tem discutido sobre Creative Commons nessa era digital, mas a mim pareceu que omitir a autoria de um romance como Alice é criminoso, algo como adaptar Hamlet sem citar Shakespeare (ainda que haja dúvidas sobre a existência real de Shakespeare) ou adaptar Dom Quixote sem mencionar Cervantes. Não são edições amadoras, são edições de grandes grupos editoriais vendidas em uma mega-livraria com ação em Bolsa de Valores, e ainda que a omissão da autoria original esteja protegida pela lei, já que o texto caiu em domínio público, atribuo esse descaso ao fato de tratar-se de literatura infanto-juvenil, pois desafio alguém a encontrar edição de Hamlet sem menção a Shakespeare e de Quixote sem o nome de Cervantes.

Alice no País das Maravilhas (em inglês, Alice's Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para Alice in Wonderland) foi publicado em 4 de julho de 1865 por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, com ilustrações de John Tenniel. Carroll, segundo o polêmico e exigente crítico norte-americano Harold Bloom, foi o grande mestre da literatura fantástica (ou de fantasia).

A estória (como diria Guimarães Rosa) surgiu em 1962, num passeio de barco pelo rio Tâmisa, quando Charles Dodgson a conta de improviso para entreter as irmãs Lorina, Edith e Alice Liddell. Dois anos mais tarde, Dodgson presenteia Alice com o manuscrito Alice Debaixo da Terra (em inglês, Alice Adventures Under Ground), manuscrito que continha 37 ilustrações feitas pelo próprio autor.

Anos mais tarde, em 1886, este manuscrito seria publicado e hoje está disponível na internet em http://www.gutenberg.org/files/19002/19002-h/19002-h.htm. A edição é primorosa, pois revela todo o trabalho manual de redação e ilustração das páginas. Ao final, há uma fotografia da menina Alice Liddell e um posfacio de Charles Dodgson em que diz jamais ter pensado na publicação do livro quando o escreveu, mas que o incentivo dos amigos para publicá-lo foi de grande valia, em especial pela alegria que o livro leva às crianças, mesmo que doentes. Ele reproduz, inclusive, uma carta que inicia assim: “Gostaria que você enviasse uma felicitação de Páscoa para uma criança muito querida que está morrendo em nossa casa. Ela está enfraquecendo, e Alice iluminou algumas das desgastantes horas de sua doença. Sei que sua carta seria um deleite para ela, especialmente se você escrever ‘Minnie’ no cabeçalho”.

Para a publicação do livro, em 1865, Dodgson ampliou a história de seu manuscrito, mudou o título para o que hoje conhecemos e trocou seus desenhos pelas 42 ilustrações enviadas por John Tenniel. O trabalho completo pode ser acessado em http://ebooks.adelaide.edu.au/c/carroll/lewis/alice/ num e-book produzido pela Universidade de Adelaide. Anos mais tarde, em 1871, Dodgson publica, novamente sob o pseudônimo de Carroll, Alice Através do Espelho e o que encontrou por lá (em inglês, Through the Looking-Glass and What Alice Found There).

Consta que Alice no País das Maravilhas tornou-se mais popular apenas depois do lançamento de sua continuação, que teria vendido mais que o primeiro, mas chama atenção a rapidez com que o livro foi traduzido pela Europa: em 1869 foram lançadas traduções em alemão e francês; em 1870, em sueco; em 1872, em italiano. No Brasil, a primeira tradução é de Monteiro Lobato, publicada em 1938. O prefácio de Lobato para a edição, aliás, é muito curioso: “(…) Ficou famoso o livro entre os povos de língua inglesa. Foi traduzido por toda a parte. Seu autor imortalizou-se. Hoje aparecem em português. Traduzir é sempre difícil. Traduzir uma obra como a de Lewis Carrol, mais que difícil, é dificílimo. Trata-se do sonho duma menina travessa – sonho em inglês, de coisas inglesas, com palavras, referências, citações, alusões, versos, humorismo, trocadilhos, tudo inglês, – isto é, especial, feito exclusivamente para a mentalidade dos inglesinhos”.

Dodgson ainda publicaria, em 1890, The Nursery "Alice", uma adaptação feita por ele próprio com vinte das ilustrações originais de Tenniel, coloridas e ampliadas, e uma nova capa ilustrada por E. Gertrude Thomson. No prefácio dirigido a “qualquer mãe”, Dodgson afirma ter razões para acreditar que “Alice no País das Maravilhas tem sido lido por centenas de crianças inglesas, entre cinco e quinze, também por crianças entre quinze e vinte e cinco, e ainda por crianças entre vinte e cinco e trinta e cinto (…) Minha ambição agora é ser lido por crianças de zero a cinco”. A edição está disponível na web em http://www.aliang.net/literature/the_nursery_alice/.

Em 1898, aos 65 anos, Charles Lutwidge Dodgson, ou simplesmente Lewis Carroll, morre na casa de sua irmã, em Londres. Provavelmente sem imaginar que cinco anos depois seria produzido o primeiro filme baseado em Alice, que cinquenta anos depois seria lançada a primeira animação de Alice, que dois anos depois uma empresa que sequer existia quando do seu falecimento, a Disney, levaria a história para todos os lares, que mais de cem anos após sua morte um grande diretor de Hollywood faria uma versão em 3D de sua história e que centenas de adaptações e versões seriam escritas e publicadas, algumas sequer mencionando seu nome.

Marcelo Spalding