quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O melhor da década na literatura brasileira: prosa

Marcelo Spalding

Todo final de ano são feitos aqueles balanços sobre o que houve de melhor e pior em cada área. Em literatura, este tipo de lista é sempre problemática, pois muito dificilmente alguém conseguiu ler parte significativa da produção daquele ano, e acaba se repetindo os vencedores de prêmios ou os preferidos da mídia.

Este ano, porém, tem uma particularidade: fecha também uma década, a década dos zeros (2000 a 2009). Virá algum purista me dizer que a década só fecha em 2010, mas não é verdade, porque apesar de não ter existido o ano 0, existiu o ano 2000, então de 2000 para 2009 são 10 anos, uma década.

Arrisco, então, uma lista com os dez livros mais interessantes, para mim, dessa década. Lista restrita à prosa e sujeita a todo tipo de acréscimos, e o leitor fique à vontade para postar nos comentários seu preferido da década.

Dois Irmãos, de Milton Hatoum, 2000

Quando um livro consegue se tornar leitura obrigatória de vestibulares do Norte ao Sul, literalmente, em menos de 10 anos, ele merece atenção. E é o caso de Dois Irmãos, belíssimo romance do manauara Milton Hatoum sobre a relação de dois irmãos tão diferentes entre si, Hakim e Omar, narrada a partir de Nael, filho da empregada da casa com um dos dois irmãos. Ainda na década, Hatoum lançaria o ótimo Cinzas do Norte (2005), também Prêmio Jabuti, mas eu sigo preferindo a força narrativa de Dois Irmãos.

Coração aos Pulos, de Carlos Herculano Lopes, 2001

A obra do mineiro Carlos Herculano Lopes reúne 39 contos que tratam de temas como suicídio, morte, relações familiares distorcidas e conflito de identidade, permitindo-se alguns finais felizes e boa dose de surrealismo. Mesclando contos longos e curtos (o conto que dá título ao livro tem seis páginas), predominam os mínis, de cem, cento e cinqüenta palavras, quando muito, o que marca uma forte tendência da contística da década.

O pintor de retratos, Luiz Antonio de Assis Brasil, 2001

Este é o primeiro livro da nova fase desse grande romancista gaúcho. Segundo conta o próprio Assis, na viragem do milênio ele escrevia seu décimo quinto romance quando, a certa altura, achou que estava se repetindo e apagou tudo o que tinha escrito. Conta o mestre que então abriu em sua biblioteca um livro de El Cid e deu-se conta de que dizer mais em menos espaço era a solução técnica que procurava. “Na Idade Média se fazia assim, a Bíblia é escrita assim”, ele diz. E desta forma escreveu Pintor de Retratos, lançado em 2001, A margem imóvel do rio, de 2003, premiado com o Jabuti e o Portugal Telecom, e Música perdida, de 2006.

Arquitetura do Arco-Íris, Cíntia Moscovich, 2004

Cíntia Moscovich, a ótima contista gaúcha, tem três livros de contos e uma dissertação sobre o conto: O Reino das Cebolas, sua estreia em 1996, antes de estudar o conto; Anotações durante o incêncio, publicado em 2000, durante seu mestrado sobre o conto; e Arquitetura do Arco-Íris, publicado em 2004, que de alguma forma sintetiza toda a leitura e o estudo da escritora sobre o gênero. Em contos de feitio clássico, reafirma toda a potencialidade do gênero e projeta a autora como das melhores da década no Brasil.

Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizado por Marcelino Freire, 2004

A obra traz cem histórias inéditas com até cinqüenta letras, sem contar o título e a pontuação. Feita como paródia a ótima antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, organizada por Ítalo Moriconi, leva a estética minimalista ao limite e marca definitivamente o surgimento e a afirmação do gênero miniconto no Brasil (muito popular na internet). Claro que há ótimas realizações como péssimas tentativas, mas a proposta em si é extremamente produtiva e já virou moda em oficinas de criação literária Brasil afora.

A milésima segunda noite, de Fausto Wolff, 2005

A mistura de gêneros é, sem dúvidas, uma das principais características da contemporaneidade, e nessa década poucos a levaram ao ponto de Fausto Wolff neste livro. Fausto intercala narrativas (com tempos, personagens, narradores e onisciências diversos) com pensamentos, trechos de livros seus, artigos opinativos, breves e geniais biografias, breves e geniais ensaios, resenhas, verbetes, poemas em prosa... Politicamente incorreto como poucos escritores contemporâneos têm coragem de ser, Fausto questiona a política de Israel, os movimentos feminista e homossexual, ironiza a grande mídia e seu jornalismo subserviente, não poupa palavras para definir Bush, FHC, os banqueiros e políticos em geral. Talvez este livro, se não tivesse Noll publicado um antes, devesse carregar o epíteto de “um painel minimalista da criação”. Estaria se definindo melhor do que todas as tentativas do próprio livro de o fazer.

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, 2006

Na década dos mini e microcontos, da mistura de gêneros, da rapidez e fragmentação, nada como uma saga anacrônica, com quase 1000 páginas, para contar a história da escravidão no Brasil. Pois essa foi a ambição da mineira Ana Maria Gonçalves em Um defeito de cor, romance que narra a história de Kehinde desde seu nascimento em Savalu, reino de Daomé, em 1810, até a morte em Salvador, Bahia, já liberta mas com as marcas da escravidão. Millôr Fernandes, em coluna na Folha de São Paulo em setembro de 2006, coloca Um defeito de cor entre um dos livros mais importantes, entre os 10 melhores que leu “em nossa bela língua eslava”.

Os Vendilhões do Templo, de Moacyr Scliar, 2006

Política, religião e mulher não se discute: ainda bem que Scliar nunca deve ter ouvido esta frase. Em Vendilhões do Templo, as personagens não apenas discutem como suas vidas são movidas pela política, pela religião ou pelas mulheres. Quando não o são é porque a personagem deixou-se levar pela ganância, pelas moedas sujas que Cristo já condenara no episódio do vendilhão do templo. Romance em três partes, leva o leitor de volta a Era Cristã, depois a uma fictícia redução indígena no Sul do Brasil, no ano de 1635, e finalmente ao ano de 1997 nessa mesma redução, hoje cidade (fictícia) de São Nicolau do Oeste. Em meio a isso tudo, três histórias de fôlego e questionamentos importantes sobre feridas ainda abertas como a mercantilização até mesmo das ideologias ou a falta de sentido e de respostas para a vida da classe média.

Adeus contos de fadas, de Leonardo Brasiliense, 2006

A literatura infanto-juvenil atravessa a década com uma vitalidade impressionante, e Adeus contos de fadas é apenas um exemplo de livros feitos para adolescentes que podem – e devem – ser lidos por toda a família. Reunião de setenta e duas histórias com mais ou menos cem palavras (às vezes bem menos do que isso), surpreende pela explosão possível a partir de verdadeiras pérolas, pequenas e valiosíssimas. Depois do premiado livro, Leonardo, que já escrevia e publicava desde o século passado, lançou nacionalmente um livro de contos e deve estrear em breve pela Companhia das Letras. Promete ser um nome forte já da próxima década.

Leite derramado, de Chico Buarque, 2009

Chico Buarque é artista que o tempo valorizará como poucos. Músico, compositor e dramaturgo, ao se lançar na literatura produziu belos romances como Budapeste (2003) e o mais recente Leite derramado. Aqui Chico faz uma volta pela história brasileira dos últimos cem anos a partir de um personagem à beira da morte, tal qual Brás Cubas, de Machado. Nestes cem anos estão a ascensão e queda de certa burguesia carioca, a ditadura militar e sua violência, o surgimento do tráfico de drogas e a desestruturação das famílias. Chico, porém, ao deslocar seu narrador faz com que os temas sejam vistos apenas de soslaio, e ao invés de um romance político-ideológico utiliza a ideia de romance-estrelar, muito própria desta década, aliás, com as histórias sendo contadas alternadamente, sem linearidade definida. Chico seria, hoje, meu candidato brasileiro a um Nobel.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Literatura para quê?

Marcelo Spalding

Eis uma questão recorrente em salas de aula, mesas de bar: afinal de contas, literatura para quê? Respostas prontas temos várias: ler é viajar, ler é conhecer a si mesmo, ler é trilegal, ler é tudo. Mas raros são os textos sérios sobre o tema, textos que abordem de frente a diminuição do tempo de leitura, do gosto pelos livros, especialmente os literários, do desinteresse social por uma instituição milenar como a literatura. Por isso indico a leitura do livro de Antoine Compagnon “Literatura para quê?” (Editora UFMG, 2009), resultado de uma conferência do autor no Collège de France.

Logo num primeiro momento percebemos que essa problemática não é própria do Brasil e sua educação deficiente: Compagnon fala do “berço da civilização” para um público de letrados franceses que um dia estudaram ou conheceram Barthes, Lévi-Strauss, etc. E diz:

“Hoje, mesmo se cada outono vê a publicação de centenas de primeiros romances, pode-se ter o sentimento de uma indiferença crescente pela literatura ou mesmo de um ódio à literatura, considerada como uma intimidação e um fator de ‘fratura social’. (...) Toda menção ao poder da literatura era julgada obscena, pois entendia-se que a literatura não servia para nada e que somente o domínio dela contava. Mas em nossa época de latência em que o progressismo como confiança no futuro não está mais na ordem do dia, o evolucionismo sobre o qual a literatura repousou durante todo um século pode ter chegado a seu termo.”

Preciso nos diagnósticos, o autor não consegue, porém, responder de forma convincente sua própria indagação, embora aponte alguns “para quês” fundamentais. Lembra uma frase de Sartre, por exemplo, que dizia: “mesmo que não haja livro que tenha impedido uma criança de morrer, seu poder nos faz escapar das forças de alienação ou de opressão”. “Contrapoder”, dirá Compagnon, “[a literatura] revela toda a extensão de seu poder quando é perseguida. Por conseguinte, o enfraquecimento da literatura no espaço público europeu no final do século XX poderia estar ligado ao triunfo da democracia: lia-se mais na Europa, e não somente no Leste, antes da queda do muro de Berlim”.

O deleite, é claro, também aparece como um motivo importante para a existência da literatura, mas Compagnon ressalta que “a recusa de qualquer outro poder da literatura além da recreação pode ter motivado o conceito degradado da leitura como simples prazer lúdico que se difundiu na escola do fim do século”. Adiante, o autor arrisca que “a literatura deve ser lida e estudada porque oferece um meio de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no tempo, ou que diferem de nós por suas condições de vida”.

A evolução tecnológica e o surgimento de outras mídias para a ficção, como o cinema, não passam desapercebidos pelo autor, que afirma, entretanto, que “a literatura inicia superiormente às finesses da língua e às delicadezas do diálogo”, para concluir sua fala, adiante, dizendo ser a literatura não a única, mas mais atenta que a imagem e mais eficaz que o documento, o que é suficiente para garantir seu valor perene. “Ela é A vida: modo de usar, segundo um título impecável de Georges Perec.”

Até aqui me ative ao precioso texto de Compagnon, que não poderia mesmo ser definitivo, mas expõe uma ferida aberta e nos permite, também, pensar sobre ela. Afinal, literatura para quê? Agora me proponho a arriscar algumas respostas.

Primeiro, não sou daqueles que acham que a literatura torna o homem ou a humanidade melhores. Meu pai deve ter lido meia dúzia de livros em toda sua vida e é uma pessoa boníssima, enquanto pessoas de ética duvidosa têm estantes abarrotadas de clássicos (lidos ou não), e por vezes se jactam em citá-los (Fausto e O Príncipe, não por acaso, entre eles).

Segundo, não acho que seja impossível vivermos sem literatura. Uma vez uma professora comentou, na faculdade, que era impossível vivermos sem poesia. Contestei, dizendo que muitas pessoas jamais abriram um livro de poemas, e ela me respondeu que na sociedade moderna muitas vezes as músicas, com suas letras, suprem esse papel. Bela resposta, me convenceu. Assim também nenhuma pessoa pode viver sem narrativas, mas pode viver sem ler romances, pois as narrativas estão no cinema, no teatro, nas telenovelas, nos quadrinhos.

Terceiro, não acredito que a literatura ajude alguém a “vencer na vida”. Não por culpa da literatura, mas porque “vencer na vida”, hoje, significa ter mais dinheiro ou mais poder ou mais respeito, e a literatura por si só não torna ninguém mais rico ou poderoso ou influente. Não por acaso policiais ganham muito mais que professores, e aspirantes a modelos são muito mais valorizada$ que escritores. Sem falar nos jogadores de futebol...

Ou seja, parte desse questionamento de literatura para quê tem a ver também com questionamentos mais amplos que devemos fazer sobre a vida. Viver para quê?, pergunto eu. Se for para acumular riquezas e porres e cargos, a literatura não serve para nada mesmo. Não se iluda. Agora se vivemos para conhecer, ampliar os horizontes, descobrir o outro e nós mesmos, explorar aquela enorme fatia do cérebro inexplorada pela maioria dos homens, a literatura é, sim, fundamental. Se valorizamos a liberdade e a diversidade, a literatura é, sim, fundamental. Se queremos indivíduos críticos e ativos socialmente, a literatura é, sim, fundamental.

Não só a literatura, claro. E está aí, aliás, uma grande confusão: a literatura perdeu muito espaço de 100 anos para cá, de 50 anos para cá, porque seu espaço era exagerado, superestimado. A literatura havia se institucionalizado de tal forma que se confundiu com a arte em si, mas a arte abriga o cinema, a música, o teatro, a ilustração, a pintura, a escultura e, inclusive, a literatura. Nem mais nem menos importante: a literatura é a arte da palavra.

Aliás, talvez responder para que literatura seja olhar com atenção essa definição: a literatura é a arte da palavra. Ou seja, enquanto existir arte ou enquanto existir palavra, fatalmente haverá alguém fazendo literatura e alguém buscando literatura.

Outra resposta mais afinada com nossa sociedade materialista seria a de que a literatura é uma “vantagem competitiva” porque um leitor de literatura sempre será um leitor melhor, mais preparado para as leituras técnicas, os concursos, os contratos... Mas deixo esse tipo de argumentação para os leitores de Maquiavel.

sábado, 3 de outubro de 2009

Pelo fim do complexo de Vira-Latas

Em 1958, há meio século, Nelson Rodrigues publicou aquela que se tornou sua mais célebre crônica: “Complexo de Vira-Latas”. O termo, cunhado por ele e até hoje utilizado, significa “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. O que pouca gente sabe é que a crônica se referia ao escrete canarinho que embarcava para a Copa do Mundo de 1958. Dizia Nelson:

“Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios na última batalha ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. (...) E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: - é ainda a frustração de 50 que funciona”.

O final dessa história todo mundo conhece: com Didi, Zagallo, Mazzolla, Garrincha e Pelé o Brasil se consagrou campeão vencendo a Suécia, os donos da casa, por 5 a 2, depois de sair perdendo. Um título inesquecível que abriu caminho para a seleção mais vitoriosa do mundo, hoje com cinco Copas, e projetou aquele que se tornaria o maior jogador de futebol de todos os tempos: Pelé.

Dois de outubro de 2009, meio século depois da célebre crônica de Nelson Rodrigues e do grande título brasileiro. Aconteceu de novo. E Pelé estava lá. E Pelé chorou como criança, como aos 17 anos chorara em Estocolmo, sob os olhos emocionados de autoridades do mundo todo: o Brasil vencia uma disputa mundial e o Rio de Janeiro era escolhido sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

No Rio, a euforia foi geral, pois o apoio da população era enorme. Mas aqui e ali começaram a se ouvir muxoxos, críticas, ironias: como um país com tantos problemas de saúde, educação, segurança pode se dar ao luxo de sediar um evento deste porte? Quanto ganharão os políticos e as empreiteiras? O que se poderia fazer com os bilhões que serão investidos até 2016?

Nenhuma dessas perguntas escapa a nenhum brasileiro, nem a Nuzmann, o heroi dessa conquista, nem a Pelé, o emblema do Brasil esportivo, nem a Lula, o fiador desse novo país que se abre ao mundo. E por isso mesmo me parece incrível que mais de 60 autoridades olímpicas dos mais variados continentes, na hora de apertar o botão e escolher entre Madrid e sua riqueza, Madrid e sua estabilidade, Madrid e sua tradição ou o Rio de Janeiro e seus problemas, o Rio e sua incerteza, o Rio e sua inexperiência tenham escolhido o Rio. Foi o mundo quem escolheu o Rio, foi o mundo quem apostou no Brasil de uma forma que poucos brasileiros teriam apostado. Porque nós ainda temos complexo de vira-latas.

“Eu vos digo: - o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia.”

Quantos brasileiros, podendo escolher entre Chicago, Tóquio, Madrid e Rio de Janeiro escolheriam o Rio de Janeiro? Digamos que ganhasse um concurso e pudesse escolher uma dessas cidades para passar uma semana, quantos escolheriam o Rio, mesmo não conhecendo a cidade maravilhosa? Quantos brasileiros não passam as férias nos mais distantes litorais do mundo, gastando fortunas, e não conhecem o Rio? Será apenas Por medo? Não, é pelo complexo de vira-latas.

Algumas gerações cresceram ouvindo falar que o Brasil era o país do futuro, enfrentaram a ditadura e sua violência, sua corrupção, depois acreditaram num novo país, na reconstrução, e deram de cara com um Collor, com a inflação galopante sem fim, o confisco. E dessa forma transmitiram, não sem razão, o complexo de vira-latas aos seus filhos. Voltemos a Nelson: “Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: - o pânico de uma nova e irremediável desilusão”. Voltemos aos dias de hoje: gostaríamos de acreditar no Brasil, mas o que nos trava é o pânico de uma nova e irremediável desilusão.

Só que assim como em 58 o Brasil levou o título, e de virada, e fora de casa, e contra os mandantes, é chegada a hora de nossa geração esquecer esse complexo de vira-latas e fazer esse país dar certo, aproveitar essa onda de oportunidades e transformar o Brasil numa nação que simbolize diversidade, vigor, desenvolvimento, esporte, cultura. Nada me irrita mais do que um jovem brasileiro formado e pós-graduado tentando emprego de garçom ou pedreiro na Europa ou nos Estados Unidos. Que complexo de vira-latas!

Sim, nós temos e teremos problemas na saúde, na educação, na segurança. Esses bilhões talvez ajudassem a minimizar esses problemas agora, construindo prisões ou hospitais. Mas há anos e anos, há séculos tem se construído escolas, prisões, hospitais, e já era hora de percebermos que isso não é o suficiente. É preciso mais, é preciso uma força maior que impulsione cada cidadão a crescer pessoal e profissionalmente, estudar, empreender, aprender, cuidar dos filhos, pregar a paz, acreditar. Como Pelé, que mudou nosso futebol e pode ter sido decisivo para mudar nosso esporte como um todo. É preciso, afinal, que abandonemos o complexo de vira-latas: problemas todas as nações têm e terão, o que não podemos é nos eximir da tarefa de ajudar a resolvê-los ao invés de torcermos o nariz para um recado tão contundente do mundo para nós, o recado de que eles acreditam no Brasil e em cada brasileiro.

Para terminar, volto a Nelson: “Só imagino uma coisa: - se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício”.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Patroazinha

Marcelo Spalding

Poucas alegrias eu guardo daquela casa na Bela Vista, às vezes é melhor nem lembrar. Gente desalmada, sem respeito, sem religião. Me chamavam de preto e me chamavam pra tudo, carregar compras, limpar piscina, cortar grama, atender telefone. O que eu menos fazia era dirigir, não sei por que me obrigavam a usar uniforme e quepe. O patrão não parava em casa, a patroa, desconfiada, tava sempre nervosa pelos cantos ou passando uma temporada na casa das primas e até a Rose nos últimos tempos vinha roubando coisas na despensa. Casa dos infernos. Só quem prestava mesmo era a patroazinha. Ah, a patroazinha... Eu vi aquela menina crescer, sabe? Quando cheguei na casa, era uma criança redonda e rosada, sempre em volta da mãe, quieta. Com o tempo foi perdendo peso e vergonha, alisou os cabelos, fez bronzeamento artificial, começou a ir todo dia pra malhação. Nunca sorriu pra mim, mas me olhava nos olhos pra agradecer quando eu a levava na escola, no clube, no shopping, nas amigas. Às vezes acho que fui mais pai dela do que da minha pequena, era eu quem a acordava de manhã, servia café e pão, levava na escola, buscava, trazia amigos, a chamava para o lanche da tarde, o jantar. Era eu quem ia e vinha na madrugada das festas, e talvez por isso fui o primeiro a perceber como a menina crescia, como as curvas cresciam, as pernas, os braços, os lábios. Mas nunca pensei que tanto, nunca pensei... até aquele dia.

Estava esperando a patroazinha descer há meia hora quando o patrão me ligou dizendo que o carro tinha quebrado e eu precisava ir o quanto antes buscá-lo no trabalho. Falei da festa da filha em Ipanema, mas ele mandou que eu fosse antes, fosse depois, mas fosse rápido. Gente sem respeito, desligou o telefone na minha cara. Olhei de novo o relógio e calculei que com o trânsito desse horário levaria pelo menos uma hora pra pegar o patrão no Iguatemi, voltar na Bela Vista e levar a patroazinha em Ipanema. Mas era o jeito. Peguei meu quepe e subi as escadas de dois em dois degraus para avisar a menina.

Há anos eu não entrava em seu quarto, só a chamava da porta e ela gritava já vou, dez minutos, espera, não enche. Mas dessa vez a porta estava aberta. Quase aberta. E não tinha barulho de música, de rádio nem de televisão. Fui mais pai dela do que o próprio pai, sempre ocupado, e talvez por isso eu tenha ficado tão apreensivo com aquele silêncio, e mais ainda quando da fresta da porta vi a patroazinha vendada, presa pelos dois pulsos na cabeceira da cama e nua, nua e quieta, nua e séria, nua e de mamilos firmes. Quase liguei pra polícia, mas logo percebi que ela não estava sozinha, chamava por alguém, sussurrava, implorava. Então ele apareceu, aquele que há dois meses eu buscava pra estudar com a menina, aquele que nunca me cumprimentou nem agradeceu. Moreno, forte e baixo, se aproximou da patroazinha com firmeza, beijou os lábios crescidos com desejo e deslizou as mãos nas curvas e nos prazeres dela. Deus me perdoe, devia ter ido embora, mas fiquei tão excitado e surpreso que não consegui mais desviar os olhos, fechar a porta, deixar a casa amaldiçoada pelo pecado. Vi o rapaz acariciar as partes da patroazinha com força, senti o cheiro de suor da menina, ouvi ele perguntar se ela tava pronta pra surpresa, se queria morrer de prazer naquela noite, na cama de lençol rosa, no quarto de ursinhos espalhados. Ela apertou as coxas com desejo, molhou a ponta dos lábios língua, talvez soubesse o que viria, decerto conhecia o outro, um rapaz mais alto, menos forte e de barba rala. Já se aproximou da minha menina abrindo a braguilha, tocou no seu rosto e pude perceber como ela ficou confusa e excitada com aquela terceira mão em seu corpo. Procurou os dedos estranhos com a boca, chupou-os, mordeu-os, e mais teria feito não fosse a pressa do rapaz, que reservava algo mais para a fome insaciável da patroazinha. Quatro mãos a exploravam e ela gemia sem remorso, dois estranhos a possuíam e ela rebolava sem medo, três gozos se misturavam e ela pedia mais, mais, insaciável. Desamarram as mãos e antes de a colocarem de quatro, tiraram a venda dos olhos.

Por um segundo achei que tivesse me visto, noutro foi como se a patroazinha voltasse a ser a menina redonda e rosada, de costas não tinha mudado tanto. Beijaram suas coxas, suas nádegas, e o diabo me tentando a participar daquela sem vergonhice, eu que não tinha coragem de acabar com aquilo, de fazer algum barulho, fechar a porta, eu que só experimentava nudez de mulher no escuro, a dois. Me imaginei como o mais alto e de barba rala, eu, o preto sempre pronto a ajudar, a esconder, a satisfazer os desejos de uma insaciável garota de pêlos escuros e gemido alto.

Naquele dia acabei não buscando o patrão no Iguatemi. Desci, tirei o quepe, sentei no sofá da sala e esperei outros trinta minutos até a patroazinha descer. Veio acompanhada apenas do mais baixo e forte, cabelo molhado, vestido de alcinha, quem sabe nua por baixo. Pegou o quepe, me entregou e sem me olhar nos olhos pediu para eu me apressar, estava muito atrasada. Foi meu último dia naquela casa da Bela Vista. Na manhã seguinte, o patrão me demitiu, furioso por eu não ter atendido o celular. E ainda estranhou quando eu insisti, pelo amor de Deus, para ficar pelo menos mais trinta dias. Ele jamais entenderia que eu não podia ter ido embora sem nunca ter visto minha menina sorrir. Não depois daquilo.

Como será a literatura na internet?

Marcelo Spalding

Há algum tempo ando às voltas com um novo tema, a literatura digital. Ou eletrônica. Ou on-line. Porque não podemos negar que a internet é o símbolo das novas tecnologias de comunicação, que já transformaram a música, o cinema, a televisão e, de certo, transformarão também a literatura.

Nessa linha, muitos já discutem o fim do livro como suporte, discussão que acho acessória (particularmente acho que os livros terão vida muito mais longa do que esses e-books baseados na versão em PDF dos livros, pois tais versões são como filmar uma peça de teatro e dizer que isso é cinema! Nada disso, o teatro sobreviveu ao cinema exatamente porque o cinema é outra coisa, com outras possibilidades e desafios). O que me intriga, então, é pensar de que forma a literatura será veiculada na internet, de que forma a literatura irá explorar as ferramentas das novas tecnologias para criar obras instigantes, originais, multimídias, interativas e, ainda assim, obras literárias, e não games ou clipes.

Vale lembrar que embora hoje literatura seja sinônimo de livro, nem sempre foi o livro o suporte da literatura. Ou alguém acha que as tragédias gregas não são literárias porque, em vez de impressas, eram encenadas? Ou que os contos de fadas não são literários porque, ao invés de escritos, eram transmitidos oralmente? Claro que não. O livro é apenas um meio de se transmitir literatura, assim como o LP, o K7, o CD ou o MP3 são meios/mídias diferentes para a mesma arte: música.

Ocorre que, na literatura, essas mudanças na forma costumam ser acompanhadas de profundas mudanças estéticas. O romance, por exemplo, é um gênero relativamente recente, associado à modernidade (Dom Quixote é de 1605), e seu apogeu em relação a outras formas, como a epopéia ou as tragédias, tem muito a ver com a invenção da imprensa e a facilidade de impressão de livros. Assim como Edgar Allan Poe, espécie de inventor do conto moderno, associa a short story à popularização das revistas e jornais.

Claro que isso demora anos, décadas, gerações. É preciso que as gerações nascidas sob a égide da nova tecnologia cresçam, produzam suas próprias ficções nesse suporte e com suas particularidades, depois cheguem nas academias, na mídia e passem a valorizar este tipo de produção. Mas é tarefa das cabeças pensantes do nosso tempo perceber a pertinência dessa reflexão, a potencialidade criativa que as novas tecnologias oferecem e incentivar essa criação. Foi com esse intuito, aliás, que promovi aqui no RS o I Prêmio Gaúcho de Arte Eletrônica. Foram três categorias, Artes Visuais, Cartum e Literatura, e acho que os trabalhos mais interessantes acabaram mesmo sendo na área de literatura.

CiberPoesia, da ilustradora Ana Gruszynski e do escritor Sérgio Capparelli, no concurso ficou com o Prêmio Especial por ser um projeto absolutamente a frente de seu tempo. Utilizando o Flash, o site traz diversos poemas visuais e ciberpoemas interativos que demonstram a riqueza de possibilidades da nova ferramenta: o leitor não apenas lê, ele também cria através da interação, vê os movimentos das ilustrações integrados ao poema e ao final observa o resultado da criação. Um projeto como esse só poderia surgir de um escritor acostumado com a literatura infantil, um gênero que há tempos não se restringe ao texto, e, por esse motivo, deixou de ser um trabalho único, autoral, para se tornar um trabalho de equipe (raros são os escritores que também são ilustradores, e poucos são os ilustradores que acumulam a função de designer gráfico dos livros).

Outro trabalho que chamou minha atenção foi a novela Desfocado, de Mauro Paz. Mauro contou que havia escrito essa novela e, na hora de publicar, decidiu aproveitar seu conhecimento em Flash para criar uma novela multimídia e interativa. Dessa forma, o leitor encontra um menu com hiperlinks para cada capítulo e, à medida que for avançando na leitura da história, irá se deparar com cartas manuscritas, chocolates que vão perdendo seus pedaços à medida que a leitura avança e assim por diante. Para quem tem uma conexão razoavelmente rápida, é divertimento na certa. Com boa literatura por trás.

Mauro concorria na categoria Literatura, onde os dois mais votados ― a votação foi feita por artistas cadastrados no portal que organizou o Prêmio ― foram o blog de Rubem Penz, Rufar dos Tambores, e o e-book de Ana Mello, Finais Felizes, que levou o troféu. Olhando de fora, poderia dizer que o trabalho de Ana Mello é uma espécie de exemplo da transição entre a cultura livresca e a cultura digital. Apesar de o texto ser publicado em formato de livro (PDF), a paginação é feita com o efeito flip, há todo um cuidado de acabamento (capa, diagramação) e o gênero escolhido é um gênero perfeito para a internet: o miniconto. Já o blog de Rubem representa todos os blogs literários inscritos para o prêmio, e foram diversos, o que também evidencia que há muito a literatura tem buscado seu espaço no mundo digital e os blogs, por se tratarem de ferramentas fáceis de usar e gratuitas, se tornaram a porta de entrada preferida.

Claro que a abrangência do concurso é pequena para o universo da internet, nosso Estado é apenas um entre os vinte e poucos do país e nosso país é um entre as centenas do mundo, mas com ele parece que consegui mostrar aos mais céticos que é possível, sim, fazer boa literatura para a internet. E, mais ainda, que é possível ser original e criativo no uso das ferramentas dessas novas tecnologias para a produção de literatura.

Evidentemente, voltarei ao tema em outras tantas colunas, provocando leitores e, acima de tudo, escritores a pensar diferente. Por enquanto, convido vocês a me enviarem links de outras obras literárias publicadas na internet para, aos poucos, criarmos uma biblioteca paralela somente com bons exemplos de literatura on-line. Somente assim, acabem as árvores, os papéis ou os livros, a literatura permanecerá mais viva do que nunca.

domingo, 26 de julho de 2009

O blog da Petrobrás

Se alguma empresa ainda tem dúvidas sobre a validade de ter um blog paralelo ao site oficial, não pode deixar de conhecer o blog Fatos e Dados (http://www.blogspetrobras.com.br/fatosedados/), da maior empresa do Brasil, a Petrobrás.

O blog surgiu como uma inteligente resposta da empresa à polêmica instalação da CPI da Petrobrás. O objetivo inicial era publicar as perguntas enviadas pelos jornalistas, com as respostas na íntegra, o que deixou muitos jornalistas de cabelos em pé. Com o tempo o blog passou a publicar informações de interesse público, como esclarecimentos a respeito de patrocínios culturais, além de matérias que saem sobre a empresa no Brasil e no exterior e informações institucionais como o "Quadro dos investimentos em publicidade".

Baseado em tecnologia do WordPress, o blog tem um layout limpo, de fácil navegação, um canal de transmissões ao vivo e espaço para comentários, o que torna a experiência ainda mais interessante. Há mais de 30 comentários para os últimos 3 posts do blog, e os acessos já superaram a marca de 1 milhão.

Sem dúvidas é um belo exemplo de como utilizar uma tecnologia gratuita sem abrir mão do site nem ser reduntante, agregando valor à marca (no caso o foco é na transparência), e apostando na interatividade da web para estreitar as relações com investidores e público em geral, tirando um pouco a importância dos formadores de opinião.

terça-feira, 30 de junho de 2009

A arte da ficção de David Lodge

Era uma vez a musa inspiradora, uma entidade abstrata capaz de produzir páginas e páginas de poemas, histórias, cartas. A musa é uma personificação da inspiração, um estado de espírito considerado fundamental para a criação artística no Romantismo que sobreviveu ao movimento e atravessou séculos.

Edgar Allan Poe, em “Filosofia da Composição”, talvez tenha sido o primeiro poeta a revelar sem pudor os bastidores da sua criação literária: “nunca tive a menor dificuldade de relembrar os passos progressivos de qualquer de minhas composições”, afirma. Criador do primeiro detetive lógico da literatura, Auguste Dupin, Poe representa o surgimento de uma Era racional e matemática que se opunha à estética romântica então em voga, o que nos faz compreender o belo ensaio e também suspeitar que muitas das suas afirmativas sobre a composição do poema “O Corvo” sejam, também, ficção.

Fato é que a partir de Poe a criação literária passou a ser tratada como construção capaz inclusive de ser ensinada e aprendida. No século XX, popularizaram-se oficinas de criação literária nos Estados Unidos, e, no Brasil, elas desembarcaram com força há pelo menos 25 anos, quando surgiu a primeira Oficina de Criação Literária da PUCRS, ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil. Não surpreende, portanto, que aos poucos se tenha acesso a tão profícua bibliografia sobre o tema, especialmente em língua inglesa, e é motivo de comemoração quando uma dessas obras é traduzida.

Este é o caso de A arte da ficção (L&PM, 2009, 246 p.), de David Lodge, romancista e crítico inglês. Originalmente publicado como colunas semanais no jornal The Independent on Sunday, o livro traz cinqüenta artigos sobre o romance, sempre partindo do trecho de uma ou mais obras e comentando sua construção. Lodge, segundo suas próprias palavras no Prefácio, tinha a pretensão de fazer um livro para “pessoas que preferem ter contato com a crítica literária em doses homeopáticas, um livro que não tem a pretensão de ter a última palavra em nenhum dos tópicos que abrange, mas que vai, espero, aguçar o entendimento e o proveito que os leitores tiram da prosa de ficção e sugerir novas possibilidades de leitura – quem sabe até de escrita – dessa que é a mais variada e a mais proveitosa de todas as formas literárias”. A preocupação de Lodge não é, portanto, ensinar a arte da ficção, e sim apresentá-la a leitores de romance.

Dessa forma, embora a divisão da obra dê a sensação de que teremos dicas de criação literária, pois abordam aspectos como “O autor intrometido”, “Nomes”, “Ambientação”, “Clima”, “Manipulação temporal”, em muitos capítulos temos mesmo teoria em doses homeopáticas, como em “Intertextualidade”, “Realismo mágico”, “Polifonia”, e em outros pequenas aulas sobre o romance, como em “Romance experimental”, “Romance cômico”, “Ideias”.

Essa mescla de teoria com leitura e técnicas literárias, aliás, é que deve colocar o livro na lista básica de muitos cursos de Letras e na estante de muitos amantes de literatura, pois Lodge consegue ser claro nas suas definições e trazer temas complexos para o leigo sem abusar do academicismo nem se tornar superficial. Evidentemente aquele aspirante a escritor que espera encontrar receitas de bolo para seu novo romance talvez terminará a leitura desapontado, porque Lodge evita fórmulas, ele pretende mais apresentar a arte da ficção do que transmiti-la. Embora seja exatamente nessa exposição que podemos captar técnicas fundamentais para a criação literária:

“Uma das marcas mais comuns de um ficcionista inexperiente ou desleixado”, dirá Lodge no capítulo sobre o “Ponto de Vista”, “é o tratamento inconsciente dispensado ao ponto de vista. Uma história – digamos, a história de John, que está saindo de casa para ir morar na universidade, contada sob a perspectiva de John: John faz as malas, dá uma última olhada no quarto, despede-se dos pais – e, de repente, por duas ou três frases, podemos ler o que sua mãe estava achando daquilo tudo, só porque o autor julgou que seria interessante acrescentar a informação naquele ponto da história; e a partir daí a narrativa retoma o ponto de vista de John. Claro, não há regras nem leis determinando que um romance não possa mudar de ponto de vista quando o autor bem entender; mas se essa decisão não for tomada de acordo com algum plano ou princípio estético, o envolvimento do leitor, o processo em que o sentido do texto se produz, será perturbado”.

Como já foi dito, cada capítulo, ou artigo, começa com o trecho de um ou mais romances, todos de língua inglesa, naturalmente, uma opção justificável num professor e crítico inglês. Não há, entretanto, como nós brasileiros não sentirmos falta de Machado de Assis ou Guimarães Rosa em capítulos como “O narrador não-confiável” ou “Ponto de Vista”, pelo menos que fossem citados seus nomes como o são García Márquez em “Realismo Mágico”, Baudelaire em “Simbolismo” ou Ítalo Calvino em “Surrealismo”. Sem contar uma grande omissão que permeia o romance, Dom Quixote, por muitos considerados o primeiro romance da literatura mundial (o esquecimento chega a ponto de no capítulo sobre “Metaficção” o autor dizer que “o avô de todos os romances metaficcionais é Tristam Shandy, cujos diálogos entre o narrador e os leitores imaginários são apenas um dos inúmeros recursos que Sterne usou para realçar a lacuna existente entre a vida e a arte, que o realismo tradicional tenta ocultar”).

Nesse sentido, fiquei com vontade de ler uma versão brasileira de “A arte da ficção” escrita por alguém como Milton Hatoum, alguém que citasse obras brasileiras e explorasse mais alguns aspectos estéticos próprios da literatura brasileira como a oralidade, o regionalismo e a violência urbana. Porque o romance, embora seja um gênero notoriamente europeu, ganhou o mundo e se transformou em cada continente por onde passou, da América de Garcia Márquez à África de Mia Couto, e esta talvez seja a principal explicação para seu sucesso.

Confesso, porém, que também não acredito que um livro desses, no Brasil, pudesse se restringir ao romance. Ocorre que essa procura crescente por oficinas de criação literária tem se dado muito em função da prosa curta, ou seja, conto e crônica. E nesse sentido também sentimos falta, no livro, de capítulos sobre “concisão”, “intensidade” e “subtexto”, por exemplo, três conceitos chaves do conto moderno.

Tais limitações da obra de Lodge, antes de diminuir o mérito de seu esforço de compilação e tentativa de popularização do fazer literário, apenas reforçam o quão complexa e universal é a literatura, uma arte milenar que não se permite apreender ou revelar por completo. E sem dúvidas sua principal missão é cumprida: depois de ler um livro como A arte da ficção você nunca mais será o mesmo leitor.

Marcelo Spalding