quarta-feira, 18 de junho de 2014

Conto premiado no Prosa na Estrada

A pedidos, reproduzo abaixo o meu conto premiado no concurso Prosa na Estrada, promovido pelo Instituto Estadual do Livro com parceria da Associação Gaúcha de Escritores.

Abrir e fechar os olhos
Para meu pai

Insistem para que eu abra os olhos. Pegam na minha mão, acariciam meu rosto, tentam uma graça, um incentivo. Esperam, rezam, se revezam. Sai o Otávio, que fala baixo e suspira alto, sai de cabeça baixa, sem cumprimentar a irmã, entra a pequena, de sorrisos medidos, gestos ensaiados, olhar atento. Tem sido assim nos últimos quarenta e três dias, vivemos a mesma vida em mundos paralelos, eu preso à cama e eles acorrentados a mim.

Não sei precisar de onde veio o golpe, se do revólver de um vagabundo, da fúria de um vizinho, da violência de um motorista ou do capricho de um deus. Não sei compreender os motivos, as culpas, os remorsos, tampouco as ausências e os desejos que ficaram pra trás. Não sei aplacar a ânsia das pernas, acalmar a urgência dos pulmões, amenizar a dor da pele, iludir os sentidos. Mas enquanto permanecer nesse mundo poderei ver e ouvir os seres deste e do outro mundo, estar aqui e em todos os lugares, nesse e em todos os tempos.

A pequena traz uma cartolina enrolada, com alguma dificuldade vai revelando o papel e nele há fotografias, muitas, tantas quanto possível para uma vida pacata. Ela pede licença para colar o presente na parede, quer que seja minha primeira visão no dia em que eu abrir os olhos. Com cuidado prende as pontas, ajeita os recortes, observa o resultado. No fundo não acredita que eu esteja ouvindo, mas fala alto, fala para si, não sabe ainda que eu não apenas vejo cada imagem como também me transporto para o dia em que foi tirada, visito cada casa, abraço cada amigo. Reparo, depois de uma reveladora e cansativa volta no tempo, que em algumas sorrio, em muitas não, em algumas estou sentado, em outra de pé, em algumas estou sem camisa, em outros de terno e gravata, em algumas olho para a câmera, em outras para um ponto qualquer, mas em nenhuma, absolutamente em nenhuma delas estou sozinho, como em nenhum momento dessa viagem me senti sozinho, nem no dia da morte da filha bebê nem no dia da certeza que ela não voltaria aos meus braços nem na derradeira manhã do golpe. Nunca.

A cartolina fica na parede. Com o passar dos dias me acostumo com a presença dos pequenos e aprecio a persistência da pequena, que depois das fotos trouxe um radinho, um bibelô da casa, meu travesseiro. E cada vez que exibia o presente, insistia para que eu abrisse os olhos, uma insistência classificada por médicos e enfermeiros como comovedora, ingênua e triste. Mas ela se aproximava, beijava meu rosto como nunca dantes, baixava a cabeça para rezar e dizia: eu espero, pai, eu espero o tempo que tu precisar.

Para ela foram meses, para mim apenas um instante, pois o tempo não é igual em todos os mundos. Um dia ela chegou sem esconder uma alegria transcendente, alegria maior que os primeiros traços de preocupação já cravados na face, maior que o permitido pelo fio desesperado de esperança no meu retorno, e me pediu para abrir os olhos e ver o milagre da vida. Pegou na minha mão e a pousou com cuidado no seu ventre, com a mão já posta falou que o bebê teria o meu nome e não em memória, mas como homenagem a alguém que escolheria viver, e nesse dia, nesse dia lembrei do meu primeiro bebê, do anjo que partira cedo, e finalmente cedi ao desejo de todos.

Devo ter aberto um olho só e com grande dificuldade, pois demorei para ter uma visão clara do rosto delicado da pequena, do rosto de traços tão semelhantes ao da minha juventude, e quando consegui ela chorava sem soluçar, as lágrimas escorrendo e caindo na minha mão morta sobre o ventre vivo. Abri um olho, depois outro, ou parte dele, abri-os e meu olhar não deve ter transmitido dor, nem medo, nem revolta, nem tristeza. Em pouco tempo todos meus filhos estavam ali e a pequena segurava a cartolina que me trouxera de volta para o mundo dela. Um por um se aproximaram e beijaram minha face, como nunca antes.

Não voltei a fechar os olhos, observava tudo com a intensidade de quem já conhecera outro mundo. E não voltaria a fechar os olhos jamais não fosse a pergunta muito grave da pequena: a gente te quer por perto seja como for, pai, mas precisamos saber se tu também quer. Tu quer, pai? Responde pra nós, dá um sinal. Tu quer ficar com a gente? Eu jamais voltaria a fechar os olhos, mas precisei fechá-los e abri-los com calma para que entendessem meu sim. Sim.

Daquele dia em diante, abrir e fechar os olhos deixou de ser um gesto involuntário, singelo, automático. Foi com um abrir e fechar de olhos que concordei com o nome do bebê, com um abrir e fechar de olhos que agradeci à pequena, com um  abrir e fechar de olhos que aprovei a cartolina com fotos e, mais tarde, com um abrir e fechar de olhos que escolhi cama, quarto, médicos. Foi com um abrir e fechar de olhos que escolhi viver.

Marcelo Spalding
www.marcelospalding.com

domingo, 30 de junho de 2013

Por uma lógica no estudo da ortografia


Marcelo Spalding

Em tempos de protestos e manifestações, alguns cartazes chamam a atenção para a falta de educação no Brasil, e muitos deles brincam com erros de ortografia dos próprios cartazes para pedir mais investimento nessa área.

 

Se por um lado esses cartazes evidenciam que um povo educado é aquele que conhece bem sua própria língua, também evidencia um equívoco próprio do senso comum: que cometer erros de ortografia e o mesmo que não saber português. Digo senso comum porque hoje se sabe que é mais importante alguém saber usar bem a língua, construir boas frases e bons textos, do que simplesmente não errar ortografia. Entretanto, o erro de ortografia, em especial os considerados erros básicos, denotam falta de leitura e de familiaridade com a língua, tornando quem escreve alvo de críticas e preconceito.



No meu curso online Aspectos Gramaticais da Língua Portuguesa, procuro demonstrar que apesar de a Ortografia no Brasil ser regida por uma lei nacional, melhor que aprender regras e exceções é tentar entender a lógica que move essa lei, para depois, aí sim, memorizar as exceções. Regra se compreende, exceção se memoriza. Neste texto, sintetizo quais seriam essas lógicas, esses pilares para a compreensão da ortografia. Ficará faltando abordar os acentos gráficos, o que podemos fazer num futuro texto.

Formação de palavras

A formação de palavras é um dos fenômenos mais interessantes em qualquer língua. A partir de determinada palavra, do seu radical, formam-se dezenas de outras palavras com a combinação de prefixos e sufixos. A grande maioria dos que estudaram língua portuguesa sabem ou pelo menos viram isso. O que poucos se dão conta é da utilidade da formação de palavras para a ortografia, pois o usuário da língua não precisa memorizar a ortografia de milhões de palavras, e sim de milhares de prefixos, sufixos e radicais, pois eles tendem a manter sua grafia em outras situações.

Essa lógica vale para diversas palavras (para não dizer todas): se ASSESSOR é com SS, SS, "assessoria", "assessorar", "assessoramento" também é; se HESITAR é com "h" e depois "s", "hesitou", "hesitariam" também é; se ANÁLISE é com "s", "analisar" também é. Assim como se FAZER é com "z", "fazida", "fazedor", "fazendo" deve ser com "z", e se EXPERIMENTAR é com "x", o que faz com que "experimente" seja com "x".

Classes gramaticais e ortografia

Os sufixos, como se sabe, representam a classe gramatical. Mas por que uma palavra com o mesmo som tem ortografia diferente? Por exemplo, "viagem" e "viajem", "cem" e "sem"?

É difícil saber como uma palavra chegou na língua, só buscando sua etmologia. "Cem", por exemplo, vem da próclise do latim "centum", enquanto "sem" vem do latim "sine", que exprime a ideia de falta, privação, ausência. Na fala, pelo contexto, elas não se confundem, mas na escrita era importante que a língua criasse uma forma de diferenciar uma da outra. E uma das formas é grafar de forma distinta sons idênticos.
Assim, compreender a classe gramatical das palavras é fundamental também para entender as diferenças de ortografia de muitas delas. "Viagem", com "g", por exemplo, é sempre substantivo, assim como "lavaGem", "bobaGem", "engrenaGem". Já "viajem", com "j", é do verbo cujo radical é "viajar": "espero que vocês viajem bem".

Outro par de palavras que causa certa confusão é o MAL e o MAU, pois o som é idêntico, mas a grafia é outra. MAL, com L, é advérbio, antônimo de BEM, sendo invariável: "eles estão de mal com a vida". Já o MAU, com U, é adjetivo, antônimo de BOM, sendo variável: "eles são maus, elas são más".

A questão fonética

Em qualquer língua há mais de uma letra para representar o mesmo som, e ao ler o texto o leitor consegue perceber qual seria a palavra original, ainda que a imprecisão no registro escrito o atrapalhe.

Por outro lado, em uma língua muitas vezes uma única letra pode assumir mais de um som, algo inerente à representação da fala (tão complexa e de infinitas possibilidades) à escrita (bem mais resumida e esquemática). Observe uma brincadeira de professores de inglês antes de se queixar da ortografia da língua portuguesa:

Dessa forma, evite o raciocínio: "se massa se escreve com SS, a palavra maçante, que tem o mesmo som, se escreve com SS". NÃO! Procure observar qual o radical e a origem da palavra. "Maçante", por exemplo, vem do verbo "maçar", e se cristalizou com essa grafia em português exatamente para se diferenciar de "massa". Assim como "caçar" (o animal) é com Ç e "cassar" (o deputado) é com SS. Chamamos palavras assim de homófonas, que têm sons iguais, mas grafias diferentes.

Evidentemente essas três dicas não esgotam o estudo da ortografia, mas compreendê-las ajuda sobremaneira a pensar de forma sistemática sobre o porquê da ortografia de uma palavra, facilitando inclusive que se memorize as exceções. O verbo "paralisar", por exemplo, a princípio deveria ser grafado com "z", pois o sufixo "-zar" em "estabilizar", "realizar", "concretizar", etc é com "z". Entretanto, o verbo vem de "paralisia", termo que veio do francês com "s", fazendo o "s" parte de seu radical, o que explica a grafia "paraliSar".

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A poesia concreto-multimídia de Paulo Aquarone

Marcelo Spalding

Literatura de olhar, e não de ler, não é novidade. No Brasil, seu marco é a Exposição Nacional de Arte Concreta de 1956, em que os criadores Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos propõem que o poema transforme-se em objeto visual, valendo-se do espaço gráfico como agente estrutural, usando os espaços brancos, os recursos tipográficos, etc. O poema, em função disso, passaria a ser simultaneamente lido e visto.

Tal estética influenciou toda uma geração, que, sem abrir mão de poemas tradicionais, passou a se preocupar também com a forma do poema quando impresso ou produzir suas próprias versões de poesia concreta. Um exemplo dessa segunda geração da poesia concreta é o paulista Paulo Aquarone, nascido em 1956, mesmo ano da Exposição Nacional de Arte Concreta. Paulo em diversos livros lançados nos anos 90 explora os recursos gráficos, primeiro como temática (Poemas das Cores e Poema sobre Papel, ambos de 1996) e depois como linguagem (Poemas no livro são Letras e Símbolos, de 1998, Som das Letras, de 1999, Poemas e Ilustrações Gráficas, de 2000).

Ainda em 1999, Paulo reuniu parte dessa produção em seu site www.pauloaquarone.com, que hoje, olhando pelo retrovisor, pode ser considerado ao lado do Ciberpoesia, de Ana Gruzynski  e Sergio Capparelli, um dos precursores da literatura digital no Brasil.

O site inicia com o trecho de um comentário de Augusto de Campos sobre o autor: "O trabalho de Paulo Aquarone, por ele exercido com inegável talento, acentua, com exuberância, que as poéticas da visualidade mostram continuado interesse, oferecendo novas possibilidades de desenvolvimento e expansão". Dentro, ttraz, além das tradicionais seções de Biografia, Livros e Contato, duas seções chamadas “Poemas”. Uma delas, colocada como último item do menu, reproduz poemas visuais das décadas de 70 a 90. A outra, colocada como primeiro item do menu, é dedicada aos poemas chamados pelo autor de “Poemas multimídia”. Um recado no topo da página, entretanto, deixa claro que a origem são mesmo poemas visuais, sendo que em alguns deles foi dado um tratamento digital: “busque a interação em alguns poemas”.

“Caixa de interrogação”, por exemplo, apresenta uma caixa com um “?” e, quando clicada, revela dentro a letra “é”. O “Poemágico” apresenta cartas que formam a palavra TRÊS que, quando viradas, revelam os números de 1 a 4, brincando com o número de letras da palavra. “Fecha” traz duas gavetas que fecham a palavra “fecha”e a abrem a palavra “abre”. “Símbolos e matérias”, quando clicado, revela números dentro de cada letra. “Gaveta” mostra uma porta dentro de uma gaveta, utilizando-se agora não de palavras, mas de sons.

Claro que a tecnologia utilizada é um tanto rudimentar, e a própria navegação não ajuda o usuário a saber onde ele pode ou não intervir, qual o potencial de cada poema. Além disso, muitos poemas estáticos poderiam ser trabalhados à luz das novas tecnologias. É notável, entretanto, que ainda nos anos 90, com seus próprios conhecimentos técnicos, tenha se dado conta da potencialidade das ferramentas digitais para fazer poesia além da poesia, além da letra, além do livro.

Talvez a sua obra não se trate, ainda, de literatura digital, mas certamente é um documento importante da transição que estamos passando da poesia concreta para a poesia visual feita em computador para a poesia realmente multimídia, com animação, som, interação. É importante lembrar, nesse aspecto, que os poemas de Aquarone vão além do Concretismo porque não são apenas trabalhos gráficos com a palavra. Aqui a imagem, a distribuição dos elementos na tela e o jogo de cores faz parte da linguagem poética, como no belo Auto-Retrato, cuja ilustração de uma fotografia com a data de nascimento, mas sem a data de morte, representa poeticamente a finitude da vida.

Alguns, como “Feto”, “Dimensão Óptica” e “Medida do Tempo” sequer trazem a palavra, são construído exclusivamente por imagens.

Sua ligação com a arte visual é tão grande que desde 1996 o poeta já realizou mais de 30 exposições individuais ou participando como convidado, como sua participação em 2010 na Exposição coletiva FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) no prédio da FIESP, em São Paulo, e uma exposição individual na Galeria da Biblioteca Nacional de Lisboa, patrocinado pelo Ministério da Cultura Português, ocasião em que as 40 obras da exposição foram doadas à instituição.


Em entrevista ao portal Literatura Digital, onde busco reunir essa produção inicial do que chamo de literatura digital, Paulo revela um pouco de como surgiu essa produção e evidencia sua despreocupação com os rótulos: “como artista, não busco fazer um ou outro tipo de poesia, dentro da minha produção acabo utilizando diversas ferramentas para concluí-las e divulgá-las”.

Paulo, quando você iniciou o trabalho com Poemas Multimídias?

Comecei a fazer projetos para poesia multimídia no final dos anos de 1990, um pouco antes da abertura do site que foi em 1999, onde utilizei o computador e internet para produção e divulgação da obra.

De onde veio a inspiração? 

Faz parte do meu ser, desde sempre, a percepção aguçada nas formas, nos sons e nos sentidos de letras, sílabas, palavras e outros. Em grande parte das vezes intuitivas.

Para você, qual a diferença entre os Poemas Multimídia e a poesia visual? Alguns de seus poemas têm interação, mas outros não. Nesse caso, não se tratariam de poesia visual? 

Utilizo o termo Poemas Multimídia, pela característica da produção dos poemas em diversos materiais e algumas mídias. Não sou acadêmico, mas como artista, não busco fazer um ou outro tipo de poesia, dentro da minha produção acabo utilizando diversas ferramentas para concluí-las e divulgá-las. Penso que tanto a poesia multimídia como a visual estão interligadas.

Você segue produzindo literatura para web? Na sua opinião, qual a maior diferença entre produzir para papel e produzir para web? 

Sigo produzindo literatura para web, porque nela tenho programas, imagens e outros instrumentos que me auxiliam e aumentam minhas possibilidades na produção.

Você mesmo monta seus HTMLs ou conta com a ajuda de um programador? 

A produção do site e animações dos poemas é feita juntamente com meu filho Jossua.

Como leitor, o que e em que plataforma você gosta de ler? 

Utilizo de preferência a internet para me informar e buscar em sites, blogs, links, páginas, programas que abordem temas de arte em geral.

Qual será, para você, o futuro do livro impresso?

Como se pode ler também digitalmente, penso que o livro impresso tende a diminuir sua importância, por outro lado os próprios programas digitais barateiam e auxiliam na produção do livro.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 7/6/2013.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Os tempos verbais do modo indicativo

Marcelo Spalding

Em geral, as pessoas lembram que existem três tempos verbais na língua portuguesa: passado, presente e futuro. Mas nossa língua, ainda bem, é um pouco mais complexa do que isso. No modo indicativo, temos pelo menos seis tempos verbais com sentidos bem distintos um do outro, sendo impossível para o usuário do português prescindir de um ou outro deles.

1) O presente



O tempo presente indica, obviamente, algo que acontece neste momento. Por exemplo: Economia brasileira avança. Mas o tempo presente também indica, como na música de Chico Buarque acima reproduzida, algo recorrente, que ocorre sempre desde o passado até hoje. Por exemplo: Todo dia ela acorda e faz tudo sempre igual. Vemos, ainda, o presente utilizado para eventos próximos, como Grêmio enfrenta Palmeiras amanhã. E o chamado presente histórico, que é uma técnica dos historiadores e ficcionistas de narrar algo do passado com o presente, a fim de aproximar o leitor do fato: Em 1500, Cabral descobre o Brasil.

Vale lembrar, também, que em português não temos o presente contínuo, que é criado através de locução verbal. Por exemplo, O Brasil está crescendo muito nesse século. As locuções em questão são formadas com um verbo auxiliar no presente + um verbo principal no gerúndio.

2) O pretérito perfeito




O pretérito perfeito retoma, obviamente, algo que ocorreu no passado. Mas se fizermos uma linha do tempo, este acontecimento está num único ponto da linha. Se alguém diz, por exemplo, Fulano cheirou, quer dizer que o fulano uma vez na vida usou cocaína. Está incorreta, portanto, a construção Fulano cheirava uma vez, como veremos adiante. Observe que é possível, ainda, usar o pretérito perfeito para fatos repetitivos, mas delimitando o tempo, por exemplo: O Grêmio enfrentou o Palmeiras quatro vezes em 1995.

3) O pretérito imperfeito




O pretérito imperfeito, diferentemente do perfeito, é um traço na nossa linha do tempo. Ou seja, é algo que ocorreu mais de uma vez, durante um período de tempo, mas não ocorre mais. Por exemplo, Fulano cheirava, que é mais comprometedor do que Fulano cheirou. O pretérito imperfeito é usado, ainda, na ficção, como no exemplo de Chico Buarque (agora eu era o herói). Nas narrativas, o pretérito imperfeito cria a cena (Era uma vez uma bruxa que ria muito alto e fazia maldades), enquanto o pretérito perfeito inaugura a narrativa particular (Até que um dia chegou uma princesa).

4) O pretérito mais-que-perfeito


Embora pouco utilizado na sua forma conjugada simples, o pretérito mais-que-perfeito é muito útil à comunicação, pois ele menciona algo ocorrido antes de outro fato. Por exemplo: Quando chegou, o ladrão já fugira com tudo. Isso significa que ele chegou antes do momento da fala e que o ladrão fugira antes de ele ter chegado. Se a frase fosse "Quando chegou, o ladrão fugiu com tudo", entenderíamos que o ladrão fugiu no momento em que ele chegou (não antes). Hoje o pretérito mais-que-perfeito tem sido construído através de locuções verbais: o ladrão tinha fugido com tudo. Construções como tinha fugido ou havia feito têm o mesmo sentido do mais-que-perfeito, embora seus verbos auxiliares estejam no pretérito imperfeito + verbo principal no particípio.

5) O futuro do presente


Na língua portuguesa, temos duas formas de futuro, o futuro do presente e do pretérito. O futuro do presente indica uma ação a se realizar no futuro, como o próprio nome já diz. Por exemplo: Farei a lição de casa, Estudarei mais a partir do ano que vem, Terei mais cuidado com as coisas. Alguns verbos são tão pouco usados na sua forma de futuro do presente que até estranhamos: Eles quererão melhores condições de trabalho. Ocorre que também com o futuro do presente tem se usado muito a locução verbal: Eles vão querer melhores condições de trabalho. Nesse caso, formadas pelo verbo auxiliar no futuro do presente + verbo principal no infinitivo.

6) O futuro do pretérito


O futuro do pretérito indica uma ação que NÃO se realizou, embora ainda haja a possibilidade de que ela se realize (diferentemente do pretérito perfeito). Por muitos gramáticos, é chamado de um tempo do modo condicional, pois ele não indica certeza (como o modo indicativo em geral). Exemplos: Eu iria na festa se pudesse. O homem teria jogado a mulher da janela. Observe que essa última construção, com o verbo auxiliar no futuro do pretérito + verbo principal no particípio, é muito utilizada para eximir o autor da frase de responsabilidade no caso de não for verdadeira sua afirmação. É muito comum no jornalismo: O Grêmio estaria contratando Tevez para seu meio campo. Depois, obviamente, o Grêmio não traz o craque argentino e o repórter diz: "ah, mas eu não dei certeza".

O modo subjuntivo: usos e tempos verbais

Marcelo Spalding

Muitos estudantes de língua portuguesa temem o modo subjuntivo pelas suas peculiares formas e uso não tão cotidiano. Entretanto, poucos sabem que diversas línguas, do ínglês ao árabe, passando por todas as línguas latinas, utilizam o modo subjuntivo.

O modo subjuntivo normalmente é descrito como o modo que expressa dúvida, desejo ou possibilidade. Entretanto, sua característica mais importante talvez não seja semântica, já que o conceito de "dúvida, desejo ou possibilidade" costuma gerar discussões, e sim sintática.

Ocorre que o verbo no modo subjuntivo em geral não pode formar uma frase sozinho, ele é, por assim dizer, um auxiliar de um verbo no modo indicativo. Vejamos:
Gostaria que ele chegasse a tempo.
Espero que ele venha logo.
Adorarei quando ele voltar.
Em cada frase, o primeiro verbo em destaque é um verbo no modo INDICATIVO, enquanto o segundo é um verbo no modo SUBJUNTIVO. Essa mudança de modo é, também, uma forma de a língua manter clareza em sua estrutura. Imagine a confusão que seria se fossem todos verbos indicativos:
*Gostaria que ele chegou a tempo.
*Espero que ele vem logo.
*Adorarei quando ele volta.
Além disso, sempre há uma palavra, em geral uma conjunção, que manda o verbo para o modo SUBJUNTIVO. Observe:
Se eu chegasse mais cedo...
Embora eu chegasse mais cedo...
Espero que ele venha logo.
Se eu for rico...
Quando eu for rico...
Em relação ao TEMPO, o modo subjuntivo traz o PRETÉRITO, o PRESENTE e o FUTURO.
O pretérito do subjuntivo costuma apresentar verbos com o sufixo -sse e tem, naturalmente, uma ideia de passado (jogasse, vendesse, perdesse). Uma forma mais precisa de explicá-lo, porém, seria dizer que o verbo no indicativo que o acompanha sempre está no futuro do pretérito. Observe:
Se eu chegasse mais cedo, teria ligado para você.
Caso eu tivesse visto alguma coisa, você seria o primeiro a saber.
O presente do subjuntivo costuma tem uma ideia de presente, sendo comum para expressar desejo (seja, chegue, tenha). Uma forma mais precisa de explicá-lo, porém, seria dizer que o verbo no indicativo que o acompanha sempre está no presente. Observe:
Espero que eu chegue a tempo.
Imagino que você queira ser o primeiro a saber.
O futuro do subjuntivo costuma apresentar verbos com o mesmo radical do infinitivo e tem uma ideia de futuro (jogar, jogarmos, jogarem). Uma forma mais precisa de explicá-lo, porém, seria dizer que o verbo no indicativo que o acompanha sempre está no futuro do presente. Observe:
Quando eu chegar, ligarei para você.
Se eu ver alguma coisa, você será o primeiro a saber.
Vale lembrar que as conjugações no subjuntivo podem reservar surpresas a quem não está acostumado à forma culta da língua. Expressões como "Espero que nós cheguemos a tempo", embora corretas, costumam levantar suspeitas de muitos que se policiam para não dizer "Nós cheguemos mais cedo", numa clara - mas natural - confusão entre os modos indicativo e subjuntivo.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O escritor e as cenas: mostrar e não dizer


Marcelo Spalding

Seguindo a série de publicações exclusivas no Digestivo Cultural com dicas de criação literária da minha Oficina de Criação Literária Online, abordo hoje o grande segredo da criação literária: narrar. O leitor quer ler boas narrativas, boas histórias. Cuide, porém, a diferença entre narrar (to show) e contar (to tell). É a diferença entre a narrativa e o resumo.
Fazer literatura não é amontoar fatos, resumos de acontecimentos. É preciso narrar cada fato, individualizando-os e envolvendo o leitor. É importante, também, que o escritor mostre ao leitor o que está acontecendo em vez de dizer, contar.
David Lodge, em A arte da ficção, tem uma distinção primorosa entre cena e sumário:



"O Discurso ficcional alterna o tempo inteiro entre mostrar dizer o que aconteceu. A forma mais pura de semostrar são as falas dos personagens, em que a linguagem espelha com precisão o acontecimento (uma vez que o acontecimento é linguístico)." Isso seria a cena.
"A forma mais pura de se dizer é o resumo autoral [chamado aqui de sumário], em que a concisão e a abstração da linguagem do narrador apagam o caráter particular e individual dos personagens e suas ações.Um romance escrito do início ao fim na forma de sumário seria, portanto, quase ilegível.Mas o recurso tem seus usos: é capaz, por exemplo, de acelerar o ritmo de uma narrativa, fazendo-nos passar mais depressa por acontecimentos desinteressantes."

Imagina que você queira contar a história de um homem extremamente metódico que, por isso, perdeu sua mulher e seu filho. Você primeiro cria toda a história na sua cabeça ou num papel de rascunho, anota episódios e elementos de sua personalidade, de sua infância, faz uma lista das personagens com quem ele convive ou conviveu, pensa em seus atributos físicos, suas manias, etc. Você sem dúvidas tem elementos para um romance, mas irá escrever um conto de no máximo cinco páginas.
A solução de um escritor iniciante seria simplesmente ir listando os fatos principais, um em cada parágrafo, e rapidamente pulando no tempo e nos informando que ele teve uma infância difícil, pois perdera a mãe muito cedo e foi criado em escola de padres, depois custou a casar, em dúvida entre o casamento ou a vida religiosa, adiante teve uma filha, embora quisesse muito ter tido um filho, depois a filha acabou morrendo, o que o causou muito sofrimento, mas logo a mulher engravidou de um menino que, apesar de ser muito diferente dele, cativou-o desde o primeiro choro. Bem, por aí vai. A essa sucessão de acontecimentos chamamos de sumários.
Um escritor mais experiente, que sabe da importância de conquistar o leitor através de cenas, escolherá dois ou três episódios da vida desse homem para descrever com mais detalhes estes episódios, individualizando-os.
Por exemplo, o escritor pode escolher o dia em que o menino chega na escola de padres e retira uma foto da falecida mãe; o dia do nascimento da filha e de como ele olha para o crucifixo na parede, lembrando do quão difícil foi escolher entre isso ou a vida religiosa e de quantas dúvidas tem se fez ou não a escolha certa; um diálogo entre o homem e um conhecido numa pracinha em que os filhos de ambos brincam, diálogo em que o outro brinca com o fato de o menino ser tão diferente do homem, trazendo à tona todas as dúvidas de nosso protagonista e todo o medo que ele tem de perder a criança, a quem tem tanto amor.
Como criar cenas
Você pode pensar em cada cena como no cinema ou no teatro, já que o próprio conceito de cena vem do teatro. Enquanto a câmera está no mesmo ambiente, com os mesmos personagens e seguindo um tempo linear, temos uma cena.



Quando ela virou a página dois, foi Rudy quem notou. Atentou diretamente para o que Liesel estava lendo e deu um tapinha no irmão e nas irmãs, dizendo-lhe para fazerem o mesmo. Hans Hubermann aproximou-se e convocou a todos e, em pouco tempo, uma quietude começou a escoar pelo porão apinhado. Na página três, todos estavam calados, menos Liesel.

A menina não se atreveu a levantar os olhos, mas sentiu os olhares assustados prenderem-se a ela, enquanto ia puxando as palavras e exalando-as. Uma voz tocava as notas dentro dela. Este é o seu acordeão, dizia.

O som da página virada cortou-os ao meio.

Liesel continuou a ler. (...)

Todos esperavam o chão estremecer.

Essa ainda era uma realidade imutável, mas agora, ao menos, eles estavam distraídos com a menino e o livro. Um dos garotos menores pensou em chorar de novo, mas, nesse momento, Liesel parou e imitou seu papai, ou até Rudy, aliás. Deu-lhe uma piscadela e recomeçou.

Só quando as sirenes tornaram a se inflitrar no porão foi que alguém a interrompeu.

- Estamos salvos - disse o Sr. Jenson.

- Psiu! - fez Frau Holtzapfel.

Liesel ergueu os olhos.

- Só faltam dois parágrafos para o fim do capítulo - disse, e continuou a ler, sem fanfarra nem aumento da velocidade. Apenas as palavras.

(trecho de A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak)

O diálogo, claro, é um aliado importante para manter a cena, mas evite abusar do diálogo, o bom escritor saberá dosar narrativa com diálogo, lançando mão das falas apenas quando for essencial.



Os padres engasgavam-se de riso. Já duas canecas de vinho estavam vazias: e o padre Brito desabotoara a batina, deixando ver a sua grossa camisola de lã de Covilhã, onde a marca da fábrica, feita de linha azul, era uma cruz sobre o coração.

Um pobre então viera à porta rosnar lamentosamente Padre-Nossos; e enquanto Gertrudes lhe metia no alforje metade duma broa, os padres falaram dos bandos de mendigos que agora percorriam as freguesias.

- Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia o bom abade. Ó Dias, mais este bocadinho da asa!

- Muita pobreza, mas muita preguiça, considerou duramente o padre Natário. - Em muitas fazendas sabia ele que havia falta de jornaleiros, e viam-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar Padre-Nossos pelas portas. - Súcia de mariolas, resumiu.

(trecho de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós)

Vale lembrar que na literatura, diferentemente do vídeo, o escritor pode mesclar a narrativa com reflexões do personagens, descrições do cenário, comentários próprios. Até os pensamentos de um cão, como no genial Machado de Assis, podem ajudar na composição da cena:



Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vai então deitar-se a um canto, e fica ali muito tempo, calado; agita-se um pouco, até que acha posição definitiva, e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as idéias, combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe acaso ao longe, muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se à do amigo atual, e parecem ambas uma só pessoa, depois outras idéias.

(trecho de Quincas Borba, de Machado de Assis)
É possível que cada cena ocupe um parágrafo próprio (ou vários, dependendo de sua extensão e importância na trama). Evite várias cenas no mesmo parágrafo. Evite, também, mudar de ponto de vista narrativo em meio a uma cena. Se o fizer, deixe isso claro para o leitor, talvez trocando o parágrafo.


Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 1/4/2013.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Dicas para a criação de personagens na ficção


Marcelo Spalding

Depois do sucesso da coluna 3 dicas para escrita criativa, resolvi publicar com exclusividade no Digestivo Cultural algumas dicas de criação literária da minha Oficina de Criação Literária Online.

Para começar, escolhi um dos temas mais instigantes da ficção, a construção de personagens. Muitas vezes, a primeira ideia que nós temos é de uma personagem que queremos criar. Não é por acaso, nesse sentido, que tantos livros e filmes têm no título o nome do protagonista (Frankstein, Dom Casmurro, Dom Quixote, Batman, Peter Pan.).

Há diversas técnicas para construção da personagem e diversas tipologias das personagens. A mais simples e útil para começarmos a pensar tecnicamente em nossos personagens é a que distingue as personagens planas das personagens esféricas. A terminologia vem de Edward Morgan Forster, citado por Antonio Cândido em A Personagem de Ficção.

Personagens planas são aquelas que não mudam com as circunstâncias e são facilmente identificados na narrativa. Em geral, são coadjuvantes, mas há muitos protagonistas (especialmente em histórias maniqueístas) que comportam-se de forma plana: super-heróis, vilões, princesas, bruxas. A personagem plana é aquela que é sempre boa, é sempre má, é sempre apaixonada, é sempre sacana. Não há variação de caráter, ele não hesita. Nos casos mais radicais, essas personagens são meros estereótipos que funcionam na narrativa como parte do cenário (o mordomo, o ladrão, a vizinha gostosa). No humor e nas histórias infantis esse tipo de personagem costuma fazer muito sucesso. Talvez essa seja uma das explicações do sucesso permanente de Chaves.

Personagens esféricas: são as personagens modernas, capazes de surpreender de maneira convincente. É o herói que tem medo, raiva, rancor, é o vilão que mostra sua face humana, é a esposa romântica e apaixonada que olha para o vizinho ao lado. Segundo Cândido, a marcha do romance moderno foi no rumo de uma complicação crescente da psicologia do personagem; deste ponto de vista, poderíamos dizer que a revolução sofrida pelo romance no século XVIII consistiu numa passagem do enredo complicado com personagem simples para o enredo simples (coerente, uno) com personagem complicada. Basta compararmos o Ulisses na Odisseia de Homero com o Ulisses de Joyce. Ou o Super-Homem com o Batman.

É interessante notar, nesse sentido, que mesmo nas narrativas infanto-juvenis há uma maior complexidade na elaboração dos personagens. Em Shrek, por exemplo, as personagens clássicas, estereotipadas, são satirizadas, dando lugar a um ogro como herói e a outra como princesa. Em Os Incríveis, os heróis são proibidos de usar seus poderes e vivem como uma família de classe média. Em Monstros S/A, são exatamente eles, os monstros, os protagonistas da história. Isso sem falar nas sombrias versões juvenis deChapeuzinho Vermelho e Branca de Neve.

Por outro lado, o grande erro na construção de um personagem é o maniqueísmo. Originalmente, o termo remonta a uma filosofia religiosa sincrética e dualística que divide o mundo entre Bem, ou Deus, e Mal, ou o Diabo (Santo Agostinho, por exemplo, a princípio fora influenciado pelas ideias maniqueistas, mas terminará por combatê-las).

Em suma, hoje dizemos que uma obra maniqueísta é aquela que divide as personagens em bons e maus, sendo os bons sempre muito bonzinhos e os maus, sempre muito maus. As personagens, assim, são sempre planas, nunca complexas. Os exemplos mais tradicionais encontramos nos blockbusters hollywoodianos e nas novelas da Globo, que chegam a ter o núcleos dos bons e o dos maus.

Ocorre que, sem entrar em discussões sociológicas ou psicológicas, na vida real nós não somos apenas bons ou apenas maus, até porque sendo assim não sobreviveríamos nesse mundo por muito tempo. Em geral, as pessoas têm medos, receios, preconceitos, ansiedades, e transmitem isso em pequenos detalhes, lutando para fazer o bem, mas naturalmente comportando-se de forma duvidosa vez que outra. Não estou falando que as pessoas seriam capazes de matar, mas tampouco seriam humilhadas e mal tratadas sem sequer levantar a voz ou transformar o choro em raiva, como acontece em tantas cenas de novela.

Dessa forma, um texto feito de forma maniqueísta não é verossímil, pelo menos desde meados do século XVIII. Sendo assim, a não ser que de forma planejada e proposital, evite enredos maniqueístas e protagonistas planos. As exceções clássicas são a comédia e as obras para o público infantil, mas vale refletir sobre por que as crianças hoje se identificam tanto com o Shrek e tão pouco com o príncipe, os jovens apreciam tanto com o sombrio Batman e tão pouco o belo Super-Homem.

Um exemplo de construção verossímil da personagem, embora maniqueísta, é o já citado Peter Pan. O menino pode voar, mas só se tiver pensamentos felizes, além de ser fundamental a presença da fada Sininho. É a partir desses dois elementos que Peter Pan, soprando o pó de pirilimpimpim em Wendy, poderá voar com ela e seus irmãos. Peter Pan, assim, pode voar, mas enfrentará diversos perigos, pois não é imortal, não tem super-poderes, não é invisível. Se de uma hora para outra se tornasse, haveria uma quebra na relação de confiança com o espectador. E o mais interessante, nesse caso, é o final melancólico, quando Peter Pan acena para Wendy do lado de fora da janela de sua casa, alijado daquele mundo dos humanos que crescem: o contrato ficcional foi mantido, Peter Pan é o menino da Terra do Nunca, ainda que os demais meninos perdidos tenham ido morar com a família de Wendy.

Outro exemplo da literatura/cinema que consegue mesclar realidade e ficção com relativa destreza é Harry Potter, série capaz de arrebatar primeiro as crianças, depois essas crianças crescidas e agora elas já como leitores maduros e universitários. Já na primeira cena vemos o menino procurando a estação sete e meio do trem, se não me engano, para entrar no mundo dos bruxos. Suas magias dependem de sua varinha, e Potter só pode voar com a vassoura ou ficar transparente com a capa, elementos que vão guiando o leitor/espectador ao longo de toda a série.
A regra de ouro na construção de histórias fantásticas, portanto, é a verossimilhança. Dos conflitos, do cenário e especialmente das personagens.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural em 24/2/2013.